 ESPINHOS DO TEMPO
ZBIA GASPARETTO
DITADO PELO ESPRITO LUCIUS

NDICE

INTRITO

CAPTULO 1
CAPTULO 2
CAPTULO 3
CAPTULO 4
CAPTULO 5
CAPTULO 6
CAPTULO 7
CAPTULO 8
CAPTULO 9
CAPTULO 10
CAPTULO 11
CAPTULO 12
CAPTULO 13
CAPTULO 14
CAPTULO 15
CAPTULO 16
CAPTULO 17
CAPTULO 18
CAPTULO 19
CAPTULO 20
CAPTULO 21
CAPTULO 22
CAPTULO 23
CAPTULO 24
CAPTULO 25

INTRITO

       Viver  uma aventura. Estar na Terra, uma oportunidade de progresso e aprendizagem.  esquecer tudo. Apagar a lembrana do passado e permitir-se usufruir 
de novas experincias.
       A reencarnao nos permite reencontrar e, s vezes, conviver com pessoas com as quais privamos em vidas passadas. Em outros corpos, em situaes diferentes, 
que nos possibilitam v-las sob outros enfoques.
       Inimigos ou amigos, odiados ou amados, a vida nos une no palco do mundo para uma reavaliao de atitudes, uma nova viso dos fatos, uma reciclagem dos sentimentos, 
pretendendo acordar e amadurecer nossas almas, forando-nos a enxergar uma cota maior da realidade.
       A conquista da felicidade est em nossas mos. Deus nos criou para sermos felizes e a vida procura nos mostrar esta verdade.
       Iludidos pelo esquecimento temporrio, nos desviamos, escolhendo mal as oportunidades e recolhemos infelicidade e dor. O cenrio do mundo retrata esse desacerto 
na inverso dos valores, que a muitos aparecem como sendo verdade absoluta.
        hora de acordar.  hora de perceber. Na ciranda das reencarnaes, nos demoramos durante largo tempo.  imperioso mudar. A Nova Era j se aproxima e no 
h tempo a perder. O mundo est maduro. Novos tempos, novas conquistas, maiores conhecimentos.
       Ns somos os donos do mundo! Ao toque dos nossos pensamentos renovados, tudo se transformar! Encarando nossa herana divina de felicidade, prosperidade e 
amor, abriremos as portas  espiritualidade maior, baniremos o sofrimento da Terra.
       O mundo  da forma como ns o construmos! Quando mudarmos nossa maneira de pensar, ele mudar.
       Sinto-me feliz por poder contribuir com mais uma histria verdica. Ela revela alguns aspectos que nos sero teis conhecer e nos faro compreender melhor, 
aceitar e respeitar a sabedoria da vida, que tudo faz para nos ensinar a alegria de viver.

                                        Lcius

CAPTULO 1

       O campo estava florido e alegre, banhado pelo sol, acariciado pela brisa suave que balanava com graa os ramos verdes das rvores.
       Os pssaros voejavam de galho em galho, ora procurando alimento, saltitantes pelas campinas em trinados festivos, ora empoleirados no cimo dos galhos, altivos, 
vitoriosos, a olhar a paisagem embaixo com curiosos e geis olhinhos.
       Na calma e buclica paisagem tudo era harmonia, alegria e paz. Na fazenda, apesar da hora vespertina, as atividades prosseguiam rotineiras. As mucamas, com 
suas grossas pulseiras de lato, o ruge-ruge das saias engomadas, alvos panos ao redor da cabea, iam e vinham dirigindo a limpeza, passando o dedo pelos mveis 
para verificar a poeira, correndo os olhos pelo assoalho lavado, buscando encontrar alguma mancha remanescente.
       O esforo era recompensado, porque na fazenda Santa Marina dava gosto ver o apuro e a limpeza refletindo a fidalguia de seus donos.
       Demerval Graciano Coutinho, o proprietrio daquelas terras, moo fino, possuidor de grande fortuna, terminara seus estudos em Paris e de volta a So Paulo 
casara-se com Maria Jos, sua amiga de infncia, filha de ricos comerciantes importadores, com a qual tivera trs filhos, Ana, Rosa e Adalberto.
       Residiam em Itu, mas costumavam passar temporadas na fazenda, de tempos em tempos, sempre por ocasio da Pscoa, do ms de junho e pelo Natal. Por vezes iam 
tambm durante o ms de setembro para ver o desabrochar da primavera.
       Neste ano, ela despontara linda, generosa, colocando belo colorido nas rvores. Os ips enfeitavam cada recanto com sua profuso de flores. Por toda parte 
havia beleza, verde, luz, cor, fartura, paz.
       Quebrando o harmonioso murmrio do campo com suas vozes naturais, um vulto de mulher apareceu. Alta, esguia, cabelos castanhos presos na nuca em grossa trana, 
pele clara, suave. Nas mos nervosas um lencinho amassado e molhado.
     Era Maria Jos, rosto contrado, olhos vermelhos, lbios apertados. Sem ver a beleza da paisagem nem o chilrear alegre dos pssaros, nem as flores coloridas, 
sentou-se sob uma rvore e deu largas ao pranto. Soluou dolorosamente. Seu corpo tremia enquanto apertava o minsculo e rendado lencinho por entre as mos nervosas.
     Ficou assim durante longo tempo. Depois, aos poucos, foi se acalmando e os soluos cessaram.
     - Preciso disfarar - pensou, um tanto aflita. Levantou-se, correu at o riacho que deslizava mais alm e, abaixando-se, banhou as faces cuidadosamente.
     Ningum podia perceber seu desgosto, sua desventura. Precisava controlar-se. Estendeu-se na relva macia procurando distender a fisionomia. Seu rosto jovem e 
bonito aos poucos foi se modificando. Maria Jos estava com 25 anos e tinha 10 de casamento.
     Demerval, apesar do temperamento discreto, sempre preso s convenes, no era mau. Cumpria zelosamente suas funes de chefe de famlia, de pai e de marido. 
Conservador ao extremo, era partidrio de organizao e mtodo. Por isso, em sua casa tudo era planejado e, a rotina, sagrada. Havia dia e hora para tudo. Ele detestava 
qualquer acontecimento que viesse a alterar seus hbitos e afazeres.
     Conhecendo-lhe a maneira de ser, qualquer um, depois de certo tempo de convivncia, poderia saber exatamente em cada dia, hora e minuto o que se passava na 
casa de Demerval, o que ele estaria fazendo, etc.
     Os filhos, desde a mais tenra idade, foram habituados a essa rotina. Vigiados e conduzidos pelas mucamas e pajens, jamais podiam fazer o que quisessem e at 
na hora destinada aos folguedos e jogos tinham que obedecer ao programa previamente estabelecido.
     Maria Jos levantou-se. No podia atrasar-se para o lanche. Demerval j teria terminado a sesta e ela no podia estar ausente ao caf com rosquinhas fritas 
ou bolo de fub que ele no dispensava.
     Apressou o passo. Seu rosto corado era uma mscara. Estava calmo e tranqilo. Vendo-a, ningum imaginaria a cena de momentos antes.
     Demerval odiava queixas e mau humor. Queria que todos se mostrassem alegres e contentes ao seu redor. Tudo tinha que ser maravilhoso, principalmente na fazenda 
durante as frias da famlia.
       Por isso, tanto os servos como sua esposa e at seus filhos, sempre compunham a fisionomia ao se aproximar dele, porque temiam seu desagrado, comumente convertido 
em castigo severo e drstico.
       A passos rpidos, Maria Jos galgou os degraus da varanda onde a mucama a esperava ansiosa.
       - Sinh, ele j levantou e o lanche est pronto. Depressa!
       Maria Jos apressou-se mais. Em poucos segundos deu entrada ao salo onde a mesa j estava posta e preparada.
       -  desagradvel no a encontrar aqui na hora habitual -observou ele, em tom levemente contrariado.
       - Desculpe-me. A tarde estava to linda que fui ao meu passeio costumeiro e calculei mal o tempo a gastar na volta. No tornar a acontecer.
       - Por certo, querida. Aceito suas desculpas.
       Sentaram-se ao redor da mesa. As crianas em silncio. S podiam responder se fossem inquiridas. Beberam seu leite, comeram suas rosquinhas calmamente. Ana 
com 9 anos, Rosa com 8 e Adalberto com 7. O pai, embevecido, olhos emocionados, fixava a cena famliar com carinho.
       Sua famlia era a mais fina e educada de toda a corte. Orgulhava-se dela. Ele a organizara com seu esforo, seus pontos de vista, seu modo de ser.
       - Est uma linda tarde. Realmente este lugar  maravilhoso. No existe por estas bandas to lindas paisagens quanto as nossas.
       - As terras do Coronel Jos Bento so tambm muito lindas.
       Ele franziu o cenho com certo ar de desagrado.
       - No nego que possui uma boa nascente e pequena cascata. Mas, essas terras, eu acho que eram nossas. O seu tatarav, usando de um esbulho, tirou-as do meu 
bisav e at hoje eu no esqueci aquela demanda; se eu cismar, ainda vou mandar reabrir. Aquelas terras so nossas. Fomos esbulhados.
       - O Coronel Jos Bento no tem culpa. No tinha nem nascido naquele tempo.
       -  da famlia. Depois, voc sabe que eu no sou de briga. J me propus a comprar essas terras, ele no vende. Comprar o que era nosso... No acha que sou 
bom demais?
       - Claro. Voc  generoso. Sempre foi.
       - Ento - concordou ele, satisfeito - se as terras dele so boas  porque eram nossas, que esta fazenda  a melhor do mundo!
     Maria Jos baixou os olhos enquanto dizia:
     -        Tem razo, como sempre.
     Com um gesto, ele tornou:
     -        Est na hora, levem as crianas. J comeram bastante. Podem ir.
     Enquanto se afastavam, ele observou:
     -        Que linda famlia ns temos! Como so gentis! Mas agora estou vendo, voc no comeu nada. Est doente?
     -        No.  que tenho medo de comer demais. A esta hora no me sabem bem os doces.
     Ele olhou-a fixamente:
     -        Cuide da sade. Se no est bem, dou-lhe algumas colheradas de leo de rcino. J sabe como faz bem.
     Ela sorriu, alegre:
     -        Estou muito bem. Vou at comer um pouco para que no me julgue doente.
     Maria Jos tomou uma xcara de caf e comeu duas rosquinhas.
     -        Assim est melhor - volveu ele. - Sabe que me preocupo com a sua sade. Agora, vamos  leitura.
     -        Vamos  leitura - tornou ela, com fingida alegria.
     Demerval acomodou-se numa gostosa poltrona e Maria Jos, apanhando um volume encadernado na estante, sentou-se em outra ao seu lado, entregando-lhe. Ele tomou-o, 
satisfeito.
     -        Como eu sempre digo: no  pelo fato de estarmos na roa que vamos nos privar da cultura.
     -        Concordo. Mas hoje ns podamos ler algo em portugus...
     -        E privar-me destes versos magnficos? Depois, temos que manter nosso francs.
S hoje! Gostaria de algo em nosso idioma.
     -        Programamos este livro e assim ser. At parece que no sei escolher nossas leituras!
     -        Est bem - suspirou ela, conformada.
     Enquanto ele lia os montonos versos em francs, Maria Jos, pensamento distante, dava asas  imaginao. Estava farta daquela rotina, de ser obrigada a fazer 
isto ou aquilo, de ter que obedecer sempre como um boneco tudo quanto o gentil tirano de sua casa determinasse.
     Sentia-se como uma ave presa na gaiola a debater-se em suas estreitas paredes, numa constante tentativa de fuga, machucando as asas inutilmente de encontro 
aos obstculos inflexveis. Se ao menos o futuro lhe abrisse uma perspectiva! Se ao menos pudesse Sair daquilo tudo e respirar um pouco de liberdade! Como seria 
bom, poder fazer o que lhe desse na cabea, sem prestar contas a ningum. Dormir quando sentisse vontade, comer quando sentisse fome. Sair sem destino nem rotinas. 
conhecer pessoas alegres e interessantes, enfim, mudar.
     Como seria bom se acontecesse alguma coisa diferente. Irritava-a saber que precisamente as 17:30 Demerval techaria o livro dizendo:
     Por hoje basta, Foi uma tima escolha. Estes versos so magistrais no acha?
     Ela diria que sim. Depois ele iria at a varanda passear os olhos pela paisagem e esperar pelo jantar que seria servido impreterivelmente s 18:30. Mais tarde, 
na sala de estar, as crianas seriam colocadas na sua frente e ele perguntaria como tinham passado o dia. Era-lhes permitido contar, educadamente e sem arroubos, 
os jogos, as aulas, o que tinham aprendido. Isso at s 20:00 quando se recolhiam para dormir.
     s teras, quintas e sbados iam para o piano. Demerval escolhia as partituras e Maria Jos as executava; ele acompanhava ao violino.
     Maria Jos detestava particularmente esses saraus. Apreciava msica, porm Demerval tinha um gosto diferente ao seu e escolhia sempre peas em que seu violino 
pudesse sobressair. A jovem senhora no sabia se as detestava por no gostar de violino ou porque o marido no era um bom instrumentista.
     Durante uma hora sentia-se entediada e at rancorosa. Sua angstia continuava mesmo depois de Demerval ter dado o concerto por encerrado.
     Recolhiam-se s 21:00 para dormir. s segundas, quartas e sextas, conversavam na sala e Demerval relatava em todos os detalhes a vida em Paris, suas viagens, 
alegando no ser egosta e desejar que a esposa compartilhasse dos seus conhecimentos, mesmo sem jamais ter ido  Europa.
     Maria Jos conhecia todos os casos, as mincias e at podia descrever Paris como se tivesse estado l. No agentava mais ouvir sempre a mesma coisa. At quando 
suportaria esse estado de coisas? Sentia-se mal, porm no tinha coragem para reagir.
     - Estou errada - pensava aflita - tenho tudo o que uma mulher precisa. Dinheiro, proteo, filhos maravilhosos, tudo. No sei o que est acontecendo, porque 
estou deste jeito. Deveria agradecer a Deus por ter um marido como ele. Um homem bom, que ama a famlia, que vive para ns e me trata com bondade. Eu que estou 
errada. Preciso aprender a apreciar o que ele gosta. Ser educada e fina como ele.
     Era intil. As emoes brotavam dentro do seu corao e, sem querer, surpreendeu-se vrias vezes odiando o marido. Naquele momento, enquanto ele lia deliciado, 
embalado ao som do seu francs, procurando colocar entonaes adequadas, Maria Jos sentia mpetos de atirar-se sobre ele, arrancar-lhe o livro das mos e faz-lo 
em pedacinhos. Procurou controlar-se.
     - Estou ficando louca - pensou assustada. Fechou os olhos tentando fugir  cena.
     Demerval olhou-a e, interrompendo a leitura, inquiriu:
     - O que est acontecendo? Por acaso no est apreciando minha leitura?
     A jovem senhora ainda tentou dominar-se, mas no conseguiu. Gritou desesperada:
     - No, no gosto. Odeio! Odeio! Odeio!
     Ele empalideceu. Maria Jos  sua frente, plida, rosto contrado, olhos chamejantes, no parecia sua doce mulher. Ofendido, Demerval levantou-se; dirigindo-se 
a ela, tornou, irritado:
     - O que est dizendo? Por acaso enlouqueceu?
     Vendo a fisionomia apopltica do marido, assustada com o que tinha feito, tudo se confundiu em sua cabea e ela desmaiou.
     Demerval apavorou-se. Levantou a esposa nos braos e carregou-a para a cama. Tirou-lhe os sapatos, afrouxou-lhe as vestes e tentou despert-la, dando palmadinhas 
na face.
     Vendo que no conseguia acord-la, chamou sua mucama e pediu os sais.
     - Pobre sinh - choramingou ela, aflita. Tinha j presenciado muitos momentos de depresso de sua ama.
     - O que ser? - tomou ele, preocupado, aproximando os sais do nariz da esposa.
     Tudo intil. Maria Jos continuava desmaiada, o rosto abatido, plido. No fora as batidas do seu corao, poder-se-ia julg-la morta.
     -        Meu Deus! - gemeu ele. Que desgraa! Por que ela teria adoecido?
     A mucama olhava triste, sem nada dizer. Tinha aprendido a ver e calar, durante toda sua vida. Esfregava as mos de sua sinh com fora, tentando aquec-las. 
Quase no se atrevia a sugerir providncias, pois sabia que seu amo no as acataria. Mesmo assim, arriscou:
     -        As mos da sinh esto frias. Um saco de gua quente pode ajudar.
     -        Acho que sim. J vi mdicos fazerem isso. V buscar. Depressa.
     A negra saiu correndo. Seu amo deveria estar muito assustado para ter aceitado sua opinio. Colocaram um saco de gua quente nas mos e outro prximo aos ps. 
Aos poucos, as cores comearam a voltar s faces de Maria Jos.
     A custo abriu os olhos. Vendo o rosto do marido inclinado sobre ela, ansioso, recordou-se do ocorrido. Uma onda de remorso a invadiu. Ele era homem bom. Por 
que ela o agredira? Por que no conseguia aceitar seu modo de ser? Ela era culpada!
     Fechou os olhos que lhe pareciam pesados como chumbo.
     -        E agora? - pensou. Como explicar-lhe sua atitude? Como?
     -        Maria Jos, acorde. No v dormir de novo. Acorde.
     Com voz fraca a jovem senhora perguntou:
     -        O que aconteceu?
     -        Eu  que pergunto - tornou ele, srio. - O que aconteceu?
     -        No sei... No me recordo... Voc estava lendo um lindo verso,  o que me lembro. Depois, no sei mais nada... Acordei aqui.
     Ele no se deu por satisfeito.
     -        No se recorda do que fez? Voc gritou comigo. Disse que odiava, este foi o termo, odiava minha leitura. Quero saber por qu.
     -        Eu disse isso? - murmurou ela, com voz fatigada. - No me lembro. No acredito.
     Ele empertigou-se.
     -        Chama-me de mentiroso?
     -        No - gemeu ela, aflita. - S digo que no me lembro de nada. Por que teria dito tais palavras?
     Ele a olhou entre a desconfiana e o desgosto. Mas a fisionomia de Maria Jos, muito abatida, preocupava-o. Resolveu no insistir. Procuraria um mdico para 
tratar dela.
     H algum tempo vinha notando que a esposa no era a mesma. Apesar dela no se queixar, andava sem apetite, distrada e at um tanto nervosa. Por certo um bom 
mdico resolveria tudo.
-        Est bem, deixemos esse assunto. Voc precisa repousar.
     Ela suspirou aliviada. Ainda bem que ele no insistira. Maria Jos, apesar da docilidade do marido, no se acalmou. Temia o futuro. Sentia-se fraca e incapaz 
de acompanh-lo. Funda depresso a abateu ainda mais.
     De que adiantava querer explicar-lhe se ele no a entenderia? Seria muito pior dizer-lhe a verdade. Demerval jamais aceitaria que ela discordasse de seus pontos 
de vista. Sentir-se-ia ofendido, irritado. Confundiria seus sentimentos.
     Para ele, amor era obedincia, era no ter outra vontade seno a dele, era fazer o que ele achasse certo. Mas, ai dela, por mais que tentasse no conseguia 
gostar das coisas de que ele gostava. Amava o marido, apesar de ter se casado em obedincia aos pais. A figura elegante de Demerval, que conhecia desde a infncia, 
sua gentileza, suas atenes e sua posio social, tinham-na impressionado favoravelmente. Tinha aprendido a am-lo. No entanto, detestava os versos em francs, 
a rotina obrigatria, a intransigncia dele e ultimamente, at sua calma, sua delicadeza a irritavam. Foi tomada de profundo sentimento de culpa. Julgou-se leviana, 
ingrata, perversa.
     Que outra mulher no se sentiria feliz possuindo uma famlia como a sua? Que outra mulher no agradeceria a Deus um marido como o seu?
     Intil tentar convencer-se. O tdio, a tristeza, o vazio, a irritabilidade, tiravam-lhe a calma e a alegria de viver. Fechou os olhos fingindo dormir. Em seu 
corao a depresso, o medo, a angstia vestiam-lhe o futuro de infelicidade e de tristeza. Deixou-se envolver por profundo abatimento.
     Permaneceu no leito o resto da tarde, olhos cerrados, plida, sem foras para levantar-se.
     Mesmo preocupado com a esposa, Demerval no modificou os hbitos da famlia. Cumpriu a rotina religiosamente. Vendo que a esposa no conseguia levantar-se, 
jantou com as crianas, conversou com elas e cumpriu sua hora de msica massacrando o violino como sempre.
     Maria Jos no tocou nos alimentos que lhe trouxeram. A custo bebeu o caldo que a mucama lhe ofereceu com insistncia.
     Apesar de sua depresso, no fundo, no fundo, uma parte de Maria Jos sentia-se contente por ter, de alguma forma, escapado da rotina costumeira. Tinha conseguido 
ficar  parte do desagradvel sarau da noite e da opressiva presena do marido.
     Maria Jos no compreendia por que sentia essa irritao e a presena dele a incomodava.
     No horrio habitual, Demerval preparou-se para dormir.
     -        Est melhor? - indagou, com certa preocupao. Sua mulher no era dada a desmaios e dengos. Estaria realmente doente? Por outro lado, no acreditava 
em problemas nervosos. As doenas sempre eram fsicas. Por isso, se sua mulher estava doente, deveria haver uma deficincia fsica. Se tal no houvesse, ento tudo 
no passava de manha ou fingimento. Daria um tempo para verificar. Caso ela no estivesse melhor no dia seguinte, mandaria buscar o dr. Amarante, mdico antigo de 
sua famlia, para examin-la.
     Maria Jos abriu os olhos e procurou sorrir.
     -        Estou - respondeu.
     -        Pois no parece. No se levantou e nem comeu no jantar.
     -        No tenho fome. Sinto muita fraqueza. Tentei levantar-me mas fico tonta.
     Demerval colocou a mo direita sobre sua testa.
     -        No tem febre. Por acaso comeu alguma coisa fora das refeies?
     -        No - tornou ela.
     -        Pode ser problema digestivo. Se no tem fome, s pode ser isso.
     Maria Jos tentou conversar.
     -        No sei o que . Sinto uma tristeza como se fosse morrer.
     Ele cortou com voz firme:
     -        Deixe de bobagem. No venha com fantasia. Amanh chamarei o dr. Amarante. Por certo lhe dar um remdio e a por boa. Os intestinos tm funcionado?
     -        Tm, at demais - tornou ela, apavorada. Sabia onde ele queria chegar.
-  mas uma boa colher de leo de rcino  santo remdio.
     -        Por favor - gemeu ela - no  o meu caso. Hoje j fui vrias vezes.
     Demerval olhou-a indeciso.
     -        Sabe que quero cuidar da sua sade.
     -        Sei e agradeo - respondeu ela. - Estou com nuseas.
     -        Mais uma razo para tomar o purgante. Por certo vai aliviar.
     De nada valeram os rogos, os protestos da esposa. Demerval apanhou o detestvel remdio e, colocando-o na colher, aproximou-a dos lbios de Maria Jos.
     -        Beba - ordenou com voz firme.
     Ela respirou fundo e procurou obedecer, porm, ante o cheiro odioso, a nusea sacudiu o corpo frgil da jovem senhora e, de repente, ela sentiu uma onda de 
revolta que no conseguiu dominar. Trincou os dentes e deu violento empurro na mo do marido que, surpreendido, ficou sem ao.
     No quero, entendeu? No tomo. Saia daqui, deixe-me em paz.
     O        rosto de Maria Jos transformara-se. No parecia a mesma pessoa. Seus olhos expeliam chispas e brilhavam rancorosos.
     -        Maria Jos, eu ordeno - gritou ele, tentando vencer a surpresa.
     Ao ouvi-lo, ela saltou do leito, parecendo ter perdido a razo. Seu corpo todo tremia enquanto ela gritava enlouquecida:
     -        Odeio voc! Eu o odeio! Saia daqui seno eu o mato. Eu juro que mato.
     Assustado, ele tentou segur-la. Ela empurrou-o com tanta violncia que Demerval caiu de encontro a parede. Sua fora estava multiplicada.
     Vendo-o no cho, tentando levantar-se, plido e assustado, Maria Jos comeou a rir, enquanto dizia:
     -        Eu sou livre, livre! Vou libertar-me do seu domnio, desta escravido. Chega! Chega! Se voc reagir, mato-o com minhas prprias mos!
     Como ele j fizesse meno de aproximar-se ela comeou a apanhar os objetos ao seu alcance e a atir-los contra o marido.
     -        Maria Jos enlouqueceu - pensou ele, apavorado. No encontrou outro recurso, saiu depressa fechando a porta por fora.
     Encostou-se nela, plido, trmulo, sem saber o que fazer, ouvindo l dentro a mulher atirando tudo o que podia contra a porta.
     As servas correram assustadas e as crianas acordaram. A casa transformou-se em pandemnio, onde ningum sabia o que fazer.
     Demerval, desesperado, tornou para as servas aflitas:
     -        A sinh enlouqueceu! Que tragdia, meu Deus!
     Todos choravam em meio  confuso.
     -        Fechei-a dentro do quarto - continuou ele - vamos esperar para ver se se acalma.
     Ainda estavam ouvindo a voz dela gritando e rindo:
     -        Eu estou livre! Eu estou livre!
     Quando o mdico chegou e conseguiu entrar, ela estava em meio aos destroos do quarto, vestida com roupas coloridas, cheia de jias, uma flor nos cabelos soltos 
e ria feliz.
     O        dr. Amarante quis entrar s. Aqueles casos de loucura eram perigosos. Demerval, plido, triste, assustado, ficou esperando do lado de fora.
     -        Dona Maria Jos - indagou o mdico, vendo-a calma. - Vim ajud-la. Confie em mim.
     Ela olhou-o com indiferena.
     -        Sou seu amigo. Vou cur-la.
     -        Estou feliz - tornou a jovem senhora - sou livre. Vou fazer o que quero.
     -        Por certo - concordou ele, conciliador. - No quer sentar-se?
     -        No - disse ela. S fao o que quero. Voc no manda em mim.
     -        Claro que no.  que sentados podemos conversar melhor.
     -        O que quer conversar?
     -        A senhora est doente. Quero ajud-la.
     -        Estou muito bem.
     -        Vou dar-lhe um remdio.
     Ela enfureceu-se.
     -        Se se aproximar eu o mato. No tomo nada, j disse.
     -        Est bem - fez ele. - Nesse caso, no vou insistir. No quer deitar-se?
     -        No. Estou bem. Agora saia daqui. No vou com a sua cara. Deixe-me em paz.
     O        mdico saiu. Em seu rosto refletia-se a apreenso.
     -        E ento, doutor? - tornou Demerval, ansioso.
     O        mdico balanou a cabea.
     -         grave. Precisamos tir-la da crise.
        Crise'!
     -        Sua mulher teve uma crise de loucura. No posso dizer at que ponto este estado a conduzir. No quero engan-lo. Tanto pode ser leve - e nesse caso, 
com tratamento e certos cuidados ela passar - como pode piorar e ela no mais voltar ao normal. Nunca se sabe. Temos que lutar e esperar.
     Demerval sentiu-se arrasado.
     -        Nesse caso, doutor, o que fazer?
     -        Sua mulher nunca teve crises nervosas?
     -        Nunca Ela sempre foi mega, cordata. Estamos casados h dez anos. Nunca a vi dizer uma palavra spera.
     - Notou alguma mudana em seu comportamento nos ltimos tempos?
     -        Notei. Estava sem apetite e um pouco fraca. Ainda ontem comportou-se de forma estranha.
     -        Conte-me como tudo comeou.
     Demerval relatou o que sabia.
     -.        Pode ser uma crise nervosa passageira.
     -        No creio - tornou Demerval - ela sempre foi pessoa calma, cordata e equilibrada. No  mulher dengosa nem de xiliques.
     -        Conheo dona Maria Jos h tempos. importa-se em responder-me algumas perguntas?
     -        Estou s ordens - concordou ele, meio a contragosto. Detestava que lhe invadissem a intimidade.
     -        Vamos a um local sossegado - disse o mdico. - A Zefa pode entrar no quarto sem medo. Ela est calma.
     -        Vamos ver - tornou Demerval preocupado. - Zefa. entre l e veja se ela est bem.
     A negra, olhos marejados, obedeceu prontamente. Pobre sinh. Ela entendia o que se passava. Tinha presenciado as crises de sua sinh. Vendo o quarto depredado, 
a figura de Maria Jos frente ao espelho, cabelos soltos que o marido odiava, flor nos cabelos, a pintar o rosto com carmim, a mucama sentiu um aperto no corao.
     -        Sinh - chamou, carinhosa.
     Ela pareceu nem ouvir. A negra, pouco mais nova do que sua sinh, a adorava. Aproximou-se da jovem e repetiu.
     -        Sinh, estou aqui. Num precisa ter medo. Sei o que se passa com vosmec. Num v cont pra ningum. Acho que tem razo. Quero ajud. Vem comigo. vamo 
descans.
     Ela a olhou e sorriu. 
     -        Eu estou livre - tornou, obcecada. - Estou feliz.
     -        Eu sei. Fique comigo. Se vosmec quebr mais coisas o mdico a leva embora. Calma que eu vou ajud. D sua mo.
     Olhava-a nos olhos com muito amor. Maria Jos estendeu a mo. Zef a segurou-a e continuando a olh-la nos olhos, comeou a rezar. Maria Jos fez meno de tirar 
a mo mas a negra segurou-a firme.
     -        Vai embora - disse com voz firme. - Nosso Senh vai castig oc se num deix ela em paz. Vai em nome de Deus.
     A negra rezava em voz alta. Um tremor violento sacudiu o corpo frgil de Maria Jos e ela teria cado se a Zefa no a tivesse amparado. Colocou-a no leito, 
sempre rezando. A moa chorava convulsivamente.
     -        Calma, sinh. Agora tudo vai fic bem. Fica calma. Num vai acontec nada. Confia em Deus.
     Aos poucos o rosto dela foi serenando e seu pranto passando. Por fim, calou-se. A negra continuava rezando, confiante.
     Maria Jos Abriu os olhos como quem procura recordar-se de alguma coisa.
     -        Est tudo bem agora, sinh. Eu t aqui.
     Ela olhou-a ainda sem parecer entender o que se passava. Por fim murmurou com voz fraca:
     -        Zefa!
     -        Sou eu, sinh. T tudo bem.
     -        O que aconteceu?
        Vosmec num tava bem, agora j t melhor.
     -        Estou fraca e parece que estou vazia por dentro.
     -        Isso passa. Vosmec num comeu nada desde ontem. Gastou muito as fora.
     -        Estou com fome.
     -        Isso  bom. Vou mandar traz caf com leite e umas broa quentinha que a sinh tanto gosta.
      -         . Preciso levantar-me. Que horas so?
     -        Passam das dez.
     -        Santo Deus! E Demerval? No me lembro de ter tomado o caf com ele.
     Foi a que tentou levantar-se. Vendo a confuso do quarto, perguntou assustada:
     -        Deus meu! O que foi isso? O que aconteceu?
A negra ficou apreensiva.
     -        Quero a verdade j - exigiu Maria Jos segurando as mos da negra com fora.
     -        Foi a sinh. Teve uma crise nervosa.
     -        Eu?
     -        Sim. No se alembra?
     -        No. No me lembro.
- Pois foi. Quebrou tudo. Atirou tudo em cima do sinhozinho.
- ?
- .
     -        E ele?
     -        Ficou assustado. Mandou busc o dr. Amarante e agora to l no gabinete conversando.
     -        Estou com medo - tornou ela assustada. - Estarei enlouquecendo?
A negra deu de ombros.
     -        A sinh num t louca, no. T nervosa, num agenta mais obedec o marido e ficou possuda de esprito. Foi isso.
     -        Espritos? No acredito nessas histrias, nessas suas manias.
     -         verdade, sinh. Vosmec s melhor depois que eu rezei e pedi ajuda do meu santo. S assim ele foi embora.
A moa ficou assustada.
     -        Acha que eles podero voltar?
     -        Tem que rez muito. Deus  grande.
Maria Jos estava apavorada.
     -        E agora Zefa, o que fazer? Como enfrentar Demerval? Ele no vai acreditar.
A negra abanou a cabea preocupada.
     -        , sinhozinho num vai acredit. Ns vamo faz nossas rezas. Se vosmec no melhor, o dot leva vosmec pro hospcio.
Maria Jos agarrou as mos da negra com fora.
     -        Tenho medo!
     -        Calma. Vendo que vosmec est boa, ele vai embora. Tem de tom cuidado com as crises. Vamo v se no acontece de novo.
     -        Como evitar? No percebi bem como aconteceu. Meu Deus, como vou viver daqui por diante?
     -        Bem. Muito bem. Tenha f. Meu santo vai ajud. Sinh tem que aprend a rez: quando se sentir nervosa, chama por Nag. Ele  poderoso, tira o perigo 
do seu caminho.
     -        Quem  ele?
     -         meu santo guia.  muito bom e tem me ajudado muito. Foi ele quem fez a sinh fic boa de novo.
     -        Ah! Deus meu, como vou fazer agora?
     -         fcil, sinh. Vosmec no se alembra mesmo de nada.  s dizer isso. Acho que o sinhozinho vai fic contente em saber que j est boa. Ele estava 
muito assustado. Num diga nada alm disso. Tem seu dout, ele que arranje explicao. Os mdico sempre encontram uma e a sinh num sabe de nada.
     -        . No lembro mesmo. No sei o que aconteceu. Por isso, no tenho que explicar nada. Olha este quarto, que horror!
     -        Vou buscar o que comer, depois ajeito tudo.
     -        No saia que sinto medo. Eles podero voltar!
     -        Vou cham a Joana. Calma. Eu num saio daqui.
     A negra tocou a sineta e logo a escrava entrou. Estava um pouco assustada.
     -        Vai busc leite bem quentinho e algumas broas pr sinh. Bem depressa. Ela j t melhor.
     Joana saiu rpida. Enquanto esperavam a mucama, Zefa foi colocando o quarto em ordem.
     Demerval e o dr. Amarante conversavam no gabinete. Demerval, apreensivo, estava deprimido, preocupado. O mdico dizia:
     -        O senhor diz que ela leva vida calma, sossegada. Porm, se ela comeou a perder o apetite, ficar abatida, deve ter algum problema.
     -        No tem, doutor. Ns vivemos muito bem. Ela tem sido obediente, dcil, boa me, boa esposa. Eu tenho zelado por nossa casa, feito tudo para que nossa 
vida seja sempre feliz.
     O        mdico sacudiu a cabea pensativo.
     -        Eu sei. Contudo, ela deve ter tido algum aborrecimento. Algum problema ntimo que talvez o senhor no saiba.
     Demerval levantou-se irritado.
     -        No creio. Maria Jos no tem segredos para mim. Conheo-lhes os mais ntimos pensamentos.
     O mdico calou-se pensativo enquanto lentamente fazia seu cigarrinho de palha. O dr. Amarante no era bem um fumante, mas, quando preocupado, costumava preparar 
seu cigarro, picando o fumo com ateno e enrolando-o lenta e caprichosamente; geralmente o acendia em silncio e depois esquecia no cinzeiro, apagado e intil.
     Apesar de inquieto e de detestar o fumo como qualquer outro vcio, Demerval no teve outro remdio seno esperar o mdico terminar seu cigarro, acend-lo e 
coloc-lo sobre uma salva que havia na mesa. Feito isto, disse srio:
     -        Ningum pode saber o que vai pelo corao de uma mulher.
     Demerval no se deu por achado:
     -        Eu sei. Conheo minha mulher. Posso saber at seus pensamentos.
     -        Ento, deve saber o porqu dessa crise.
     -        No tenho dvida. Ela est doente. Seu crebro est com alguma disfuno. E quem deve saber isso  o senhor que  o mdico. No posso entender de medicina. 
Se o chamei foi para descobrir a doena, dar o remdio e curar.
     O        mdico olhou-o firme:
     -        Esses casos de loucura no so fceis. No temos meios de conhecer bem as doenas mentais, O que sabemos  que elas comeam sempre por causa de problemas 
emocionais que acabam afetando os nervos e  quando acontece a crise.
     Demerval respondeu seguro:
     -        No  o caso dela. Maria Jos sempre foi muito feliz. No tem problemas e, se teve essa crise, deve ter alguma doena afetando seu crebro.
     -        Um tumor? Um cogulo, uma obstruo?
     -        Claro. Por que no?
     -        Simplesmente porque essas doenas no ocasionam crises como as teve dona Maria Jos. Tm outros sintomas tais como febre, inconscincia, paralisia, 
afetam os membros na parte motora, cegueira, etc. Ela no tem nenhum desses sintomas.
     -        Est inconsciente.
     -        Saiu do presente, mas fala e responde como se fosse outra pessoa.
     Demerval sentou-se, passando a mo nervosa pelos cabelos.
     -        Ento no sei. Estou perdido!
     O        mdico olhou-o calmo.
     -        Pode ser que ela melhore. Vamos ver. Tem certeza mesmo que ela no tem nenhum problema ntimo?
     -        Tenho - respondeu Demerval, teimoso.
     -        Muito bem. Agora vou ver como ela est.
     Levantaram-se e dirigiram-se at o quarto do casal.
     -        Quero entrar sozinho - tornou o mdico.
     Demerval concordou e o dr. abriu a porta, entrou, fechando-a atrs de si.
     A cena tinha se modificado. Com o quarto j em ordem, a jovem senhora, recostada nas almofadas, terminava sua refeio com bom apetite. Vendo-o, fixou-o um 
pouco assustada.
     O        mdico aproximou-se e, colocando uma cadeira ao lado da cama, acomodou-se:
     -        Vejo que est melhor - disse ele com delicadeza.
     -        Sim - respondeu ela - agora estou bem.
     -        Estimo. Seu marido, seus filhos esto muito preocupados com a senhora.
     Ela fez um gesto vago.
     -        Eu sei, doutor. No tive culpa do que aconteceu.
     -        No a estou culpando de nada. S quero dizer que eles vo gostar de saber que j est melhor.
     Ela sorriu um pouco triste.
     -        Sinto ter causado transtorno.
     -        Isso  o de menos. Estamos alegres com sua recuperao. Sente-se bem para conversarmos um pouco?
     -        Estou um tanto atordoada e muito cansada. Sinto muita fraqueza.
     -         natural. Vou receitar-lhe um bom fortificante. Porm, o melhor tnico  a alegria.
     Fundo suspiro escapou do peito de Maria Jos, mas nada disse.
     -        No tem sentido alegria ultimamente?
     A jovem senhora tentou sorrir.
     -        Preciso ser alegre. No tenho nenhum motivo para ser triste. Tenho o melhor marido do mundo e uma famlia invejvel. Por que deveria estar triste?
     -        Ainda assim a senhora no sente alegria, no  mesmo?
     -        ... - fez ela, titubeante. - Eu no sei o que acontece comigo. Ando nervosa, angustiada, sinto medo no sei de qu e muita irritao. Doutor, ser 
que estou ficando louca?
     O        mdico tomou-lhe a mo, segurando-a com fora.
     -        Calma. No  isso. A senhora est um pouco nervosa. Teve uma crise de nervos. Foi s isso. No est louca coisa nenhuma.
     -        Acha mesmo?
     -        Acho. Acho ainda que a senhora tem algum desgosto ntimo que est provocando tudo isso.
Maria Jos angustiou-se.
     -        No  verdade. No tenho nada. Estou bem.
     -        Est bem. Se no pretende contar-me, no insistirei. Lembre-se que pretendo ajud-la. No confia em mim?
     -        Confio - disse ela - mas acredite, nada tenho a contar.
     -        Est bem. Virei v-la amide. Quando quiser desabafar, estarei  sua disposio. Seu marido no vai saber. Tem certeza de que no quer contar?
     -        No h nada a dizer, doutor.
     -        Est bem. Vou receitar-lhe e deve repousar. Amanh voltarei para visit-la.
     -        Obrigada, doutor.
     -        At logo, dona Maria Jos. Alegria e repouso.
     -        Est bem, doutor.
     O        mdico saiu. Demerval aguardava-o aflito.
     -        Doutor, disseram-me que ela j voltou a si e at comeu.
     -         verdade. Ela agora est bem. Vou prescrever-lhe alguns medicamentos.
     -        Por certo, doutor. Quer ir ao gabinete?
     -        Na sala ao lado est bem.
Depois de escrever a frmula do remdio, o mdico recomendou:
     -        Todo cuidado  pouco. Ela est muito sensvel e fraca. No pode ser contrariada em nada.
     -        Acha que ficar boa?
     -        Vamos ver. No momento parece bem.
Demerval suspirou aliviado.
     -        No sabe como me sinto! Parece que estou tendo um pesadelo!
     -        Acredito. Contudo, ela inspira cuidados. No a contrarie. por favor.
Demerval respondeu magoado:
     -        Da forma como fala o doutor parece que eu sou o responsvel pela sua doena!
     -        No disse isso. Espero que se recorde do motivo que provocou a crise.
     -        Como assim?
     -        O sr. queria obrig-la a tomar o leo de rcino.
O        rosto de Demerval ficou rubro.
     -        Julguei que lhe fizesse bem!
     -        Mas ela no queria.
     -        Nunca pensei que fosse ter aquela crise. Queria ajud-la.
     -        Eu sei. Mas como o sr. no  mdico, no percebeu que no s ela no precisava do purgante, como a contrariedade iria fazer-lhe mal.
     Demerval estava furioso. Aquele mdico atrevido!
     -        Eu sempre soube o que  melhor para minha famlia. O doutor fala como se eu fosse o culpado do que aconteceu. Espero que retire o que disse.
     O        mdico abanou a cabea, conciliador.
     -        No o estou culpando nem criticando. Porm, como o sr. acha que dona Maria Jos no foi contrariada, procurei mostrar-lhe a verdade. Gostaria que percebesse 
o que aconteceu. Sua esposa est nervosa e debilitada e no gosta de leo de rcino. O senhor procurou obrig-la. A a crise veio, entende?
     Apesar de contrariado, Demerval sentiu que ele falava a verdade. No quis dar a perceber.
     -        Quando ela recusou-se a tomar o remdio, j estava em crise. Caso contrrio, teria obedecido, como sempre fez. No foi por isso que ela ficou mal. 
Ela j estava.
     -        Est bem. No vamos discutir por isso. S quero que ela fique boa. Para isso, no pode contrari-la.
     -        Terei que fazer-lhe todas as vontades, ainda que disparatadas?
     -        Ela pareceu-me bem. No acredito que ter vontades disparatadas. Mas, se isso acontecer, deve obedecer. Pelo menos por enquanto. Amanh,  tardinha, 
passarei para ver como esto as coisas.
     Demerval deu um suspiro resignado.
     -        Est bem, doutor. Farei esse sacrifcio. Farei tudo para ver Maria Jos curada.
     -        Sei que far. Ela precisa de alegria e paz. Passar bem, sr. Demerval.
     -        Passar bem, doutor.
     O        mdico saiu e Demerval mandou um escravo  vila para preparar o remdio e depois, procurando dar  fisionomia um ar tranqilo, entrou no quarto onde 
estava a esposa.
     Maria Jos, recostada nas almofadas, cochilava tranqilamente enquanto a mucama, sentada ao lado, velava. Demerval aproximou-se e a negra levantou-se.
     -        Como est ela? - indagou ele, em voz baixa.
     - Vai bem, sinh - respondeu a escrava, indo postar-se aos ps da cama, em silncio.
     Demerval, com delicadeza, acercou-se. Maria Jos abriu os olhos e, vendo-o, sobressaltou-se:
-         voc?
     Ele alisou os longos cabelos com carinho.
     - Sim. No se assuste. Sou eu. Estou aqui para proteg-la. No vai acontecer nada. Voc precisa descansar.
     Maria Jos sorriu aliviada. Afinal o marido estava calmo. Dentro em pouco esqueceria o acontecido. Tudo agora estava bem. Cerrou os olhos e adormeceu um sono 
tranqilo e reparador.
 

CAPTULO 2

      Nos dias que se seguiram. Maria Jos foi melhorando. A princpio, Demerval no insistia com ela para fazer nada e pela primeira Vez Maria Jos pde ficar no 
quarto sem ter que participar da rotina da famlia. Pde reler velhos livros aos quais tanto gostava, inventar bordados diferentes, conversar horas e horas com a 
Zefa e comer o que lhe apetecia. Foi se recuperando.
     Demerval, apesar de solcito, voltara a sua rotina, convidando a esposa a participar. Ela porm, com delicadeza. recusava-se, pretextando fraqueza e mal-estar.
     Depois de uma semana, o mdico prescreveu-lhe sair todas as manhs para caminhar pela fazenda, e Zefa a acompanhava nesses passeios, aos quais Maria Jos voltava 
corada e rejuvenescida. Parecia uma criana em frias, com seus olhos alegres e felizes. os teimosos cabelos, que por vezes escapavam aa trana costumeira, emoldurando-lhe 
o rosto bonito.
     Sentia-se livre e essa sensao tornava-a feliz.  tarde surpreendera os filhos, participando dos seus folguedos e jogos e eles, vendo-a corada, alegre. entusiasmavam-se, 
expandindo-se em risadas e rudos que antes nunca tinham feito.
     Demerval sentia-se preocupado. Maria Jos parecia-lhe bem, porem, aquilo no era vida.
     Sua rotina prejudicada, ele sentia-se isolado. preterido, abandonado. Estava mal-humorado. Seus filhos nunca tinham feito tanta algazarra e, o que era pior, 
a esposa estava com eles. Estava tudo errado. Como disciplin-los se a prpria me brincava com eles como criana? Onde o princpio de autoridade?
     Sua casa no era mais a mesma. Logo deveriam regressar cidade. At l, queria resolver esse problema.
     Vrias vezes tentou falar com a esposa convidando-a a retomar os antigos hbitos. Porm, ela dizia-se fraca, sem coragem, temerosa. Ele, recordando as recomendaes 
do mdico, no queria obrig-la.
     Quando 15 dias depois o mdico voltou, recebeu-o com alvio. Levou-o ao seu gabinete e desabafou:
     -        Doutor, no agento mais. Isto no  vida.. Vivo s e triste. Tudo est mudado. Minha famlia no  a mesma. Por isso, pedi-lhe para conversarmos no 
meu gabinete.
     -        Dona Maria Jos no est bem?
     -        Acho que no. Parece outra pessoa. Est mais forte, corada, parece bem. Mas no pode estar! Faz coisas incompatveis com sua posio!
     Dr. Amarante olhou-o tranqilo. Ele prosseguiu.
        - Antes era boa me, boa esposa. Estava sempre interessada no meu bem-estar. Agora afasta-se de mim sem razo. Por mais que a convide para nossos hbitos 
e costumes dos quais tanto gostvamos, ela recusa-se. Alega cansao, fraqueza, esquiva-se. Fecha-se no quarto com a Zefa, a fazer enfadonhos bordados, a ler livros 
desinteressantes.
        E o mais grave, est prejudicando a disciplina dos filhos.
     -        Como assim?
     -        Mistura-se a eles nos folguedos no jardim, joga com eles, rola com eles no gramado e outro dia at pulou corda! Uma vergonha! Doutor, estou seriamente 
preocupado. Temos que tomar alguma providncia. Maria Jos no est boa da cabea.
     O        mdico ficou pensativo. Depois perguntou:
     -        Ela est se alimentando?
     -        Muito bem. Isso tambm  estranho. No  de comer muito.
como eu disse. Parece outra pessoa. No a reconheo.
     O        mdico olhou-o por cima dos culos, num gesto todo seu. Depois disse:
     -        No me parece que esteja mal. Quando algum est em crise, geralmente perde o apetite. Desejo v-la. Depois conversaremos.
     -        Est bem. Ela est em seus aposentos. Venha comigo.
     O        mdico bateu na porta e Zef a f-lo entrar na ante-cmara de Maria Jos, acomodando-o em uma poltrona.
     -        Um momento, dot. A sinh j vem.
     Em poucos minutos Maria Jos entrou. Cumprimentou o mdico com gentileza.
     -        Vejo que est melhor - tornou ele. - Vim para examin-la.
     -        Est bem, doutor.
     O        mdico tomou-lhe o pulso, ouviu seu corao, espiou seus olhos, sua lngua e depois concluiu:
     -        Realmente a senhora est muito melhor.
     -        Sinto-me bem. H muito que no me sentia assim.
     -        Vamos conversar um pouco. Vejo-a corada, bem disposta, parece at que ganhou um pouco de peso.
     -         verdade. O senhor mandou-me cultivar a alegria e  o que tenho feito. Gosto de correr pelos campos sentindo o vento bater-me no rosto. De jogar com 
meus filhos, de beij-los, de ver seus rostinhos alegres e corados. Gosto daqui, dos jardins, das flores, do riacho. Sinto-me reviver.
     -        Isso me alegra. Contudo, h um problema que no consigo entender. O sr. Demerval sente-se abandonado, sozinho, porque a senhora se recusa a compartilhar 
de sua vida como sempre fez.
     O        rosto de Maria Jos sombreou-se de preocupao. No sabia o que responder. O mdico continuou:
     -        Ele est preocupado. Acha que a senhora est doente, diferente, no sabe o que fazer.
     Pediu-me um remdio que resolva esse problema e faa tudo ficar como antes.
Maria Jos ficou sria, calada.
     -        O que me diz? - inquiriu ele, calmo.
     -        No sei o que dizer. No tenho ainda nimo para comear tudo de novo.
Ele a olhou srio.
     -        -lhe difcil viver com seu marido?
Ela sobressaltou-se.
     -        No leve a mal, doutor. Demerval  um timo marido e timo pai. Mas, no sei o que se passa comigo, de uns tempos para c tenho andado insatisfeita, 
preocupada, infeliz. No sei por qu. Meu marido  um homem bom, educado. No posso compreender. Eu devia agradecer a Deus tanta felicidade. No entanto, no consigo 
suportar a nossa vida, as coisas que lhe do prazer. Tudo quanto ele faz ou diz, irrita-me. Sem motivo, sinto vontade de gritar e at de agredi-lo. Se no retomei 
 nossa vida de sempre, foi porque tenho medo.
Ela parou, indecisa. Ele pediu:
     -        Continue. De que tem medo?
     -        De ter outra crise. De no suportar a situao e acontecer o que aconteceu naquela noite.
     -        A senhora sabe que a medicina no tem remdio para isso...
Ela torceu as mos, aflita.
     -        E eu? O que devo fazer?
Ele olhou-a firme.
     -        A senhora deve contar-lhe o que sente. Dizer que no gosta de obedecer ao que ele determina.
     -        No posso. Ele no compreenderia. Por certo iria pensar que eu o estava ofendendo. No posso falar-lhe sobre isso.
     -        Quem sabe se a senhora falasse com ele procurando entrar em acordo, cada um cedendo um pouco. Se a senhora tivesse liberdade de escolher como gastar 
seu tempo, talvez tudo se acomodasse.
     -        O doutor no conhece Demerval. Ele deseja o melhor para todos ns e no iria aceitar minha opinio. Nunca aceitou. Tenho receio que se ofenda.
     -        Precisa correr o risco. No tem outro remdio. Seus nervos esto no limite da resistncia. Ningum pode viver toda a vida s fazendo tudo quanto os 
outros querem. Todos temos necessidade de desenvolver nossa prpria capacidade de viver. Seu temperamento no  submisso, e por isso a senhora est cansada de fazer 
s o que ele quer.
     -        O senhor entende o meu drama.
     -         natural. No se recrimine por isso. No. No somos bonecos para ser comandados, ainda que por aqueles que amamos.
     -        Quer dizer que no estou errada?
     -        Claro que no. A senhora sente-se oprimida por fazer sempre apenas o que seu marido decide.
     -        No agento mais. Tenho mpetos at de agredi-lo.
     -        Compreendo sua situao, mas devo dizer que no h outro recurso. Se voltar  antiga rotina, por certo novas crises viro quando no puder sufocar 
a revolta.
     -        Meu Deus - gemeu ela. - O que fazer?
     -        Converse com ele. Precisa enfrentar a situao. A verdade, nesses casos,  sempre melhor do que a mentira que no conseguir sustentar por muito tempo. 
Procure com jeito e carinho, faz-lo compreender que a senhora gosta mais do seu bordado do que dos saraus de msica, ou que aprecia ler seus prprios livros em 
vez de ouvi-lo sempre em suas leituras usuais.
     -        O senhor est bem informado - tornou ela, olhando para a Zefa intencionalmente.
     -        Ela no me disse nada - esclareceu ele. - Foi o prprio Demerval quem relatou-me a vossa rotina. Eu tambm achei-a enfadonha.
Maria Jos aventou:
     -        No  tanto assim. Demerval fica to feliz!
       - O fato da senhora fazer o que gosta, no a impede de participar, de vez em quando, dos gostos de seu marido. Mas essa deve ser uma escolha livre e sua. 
No pode ser uma obrigao sem opo.
       -  isso que me aborrece-ajuntou ela. -Mas no posso explicar-lhe. Ele no vai aceitar. Vai pensar que no o amo mais e talvez at me odeie.
       -  um risco que deve correr, O que no pode  ficar como est. A verdade cedo ou tarde aparece. Melhor agora. Talvez ele acabe cedendo um pouco, entendendo, 
deixando-a escolher como gastar seu tempo.
       - No vou contar. ELe no vai aceitar. Vou pensar mais.
       - A senhora  quem decide. J disse o que pensava. Vou receitar alguns remdios para fortalec-la e acalmar-lhe os nervos. Porm, lembre-se do que eu disse. 
A alegria  o mais importante.
       - Est bem, doutor. Vou pensar.
       O mdico despediu-se e saiu. DemervaL esperava-o impaciente. O dr. Amarante, novamente com ele no gabinete, depois de ter receitado, recomendou:
       - Continue com o mesmo tratamento. Ela ainda precisa.
       Ele fez um gesto de desalento.
       - Ainda? At quando ela vai continuar a agir assim? At quando deverei suportar essa confuso que reina por aqui?
       O mdico olhou-o srio.
       - Afinal a situao no  to grave assim. Examinei dona Maria Jos e encontrei-a muito melhor. No esquea que o estado dela era grave. A crise pode voltar 
e no se pode contrari-la.
       Ele levantou-se nervoso.
       - Isso no  vida, doutor! S eu tenho estado com a cabea no lugar. As crianas esto ruidosas e indisciplinadas. A causa  o estado de Maria Jos. Precisamos 
resolver isso o quanto antes!
       O mdico continuou a fix-lo com seriedade.
       - J que gosta de ler, vou trazer-lhe um livro sobre o assunto. Poder julgar por si mesmo.
       - No gosto de ler sobre assuntos de medicina. Essa parte compete ao senhor. O que lhe peo  para curar minha mulher e pronto.
       - Sr. Demerval, o que me pede  impossvel. Essa cura no depende de mim nem dos recursos da medicina. Depende mais do seu comportamento, do dela e daquilo 
que escolherem fazer com as suas vidas.
     -        O que quer dizer?
     -        Que os nervos de dona Maria Jos esto assim porque ela no agenta mais fazer s o que o senhor resolve e deseja ter o direito de gastar um pouco 
do seu tempo com o que gosta!
     Demerval ficou rubro.
     -        No acredito! No acredito! Se ela lhe disse isso, est louca mesmo! Fala como se eu fosse um carrasco para minha prpria mulher.
     -        Sr. Demerval, tente compreender! Dona Maria Jos o ama muito, mas gosta de fazer outras coisas, pelo menos de vez em quando, e no seguir s a rotina 
rgida que lhe instituiu.
     Demerval estava furioso. Era muita impertinncia daquele doutorzinho falar-lhe naquele tom. Era absurdo! O homem queria subverter-lhe a famlia!
     -        Olhe, doutor, se no sabe curar minha mulher, se no tem recursos e conhecimentos para isso, no mais o quero ver nesta casa. Pago-lhe os servios 
e passe muito bem. No admito que venha intrometer-se em nossos assuntos. Voltaremos para a cidade e l, por certo, outro mdico nos ir ajudar. Se aqui no Brasil 
no der jeito, levo-a para a Europa. Tenho meios. No quero mais v-lo em minha casa.
     O        mdico levantou-se um pouco plido. Olhou-o firme e disse-lhe, com voz calma:
     -        O senhor  orgulhoso e prepotente. Faa o que achar melhor, mas garanto que ningum a vai curar se o senhor continuar to intransigente. Cuidado, porqanto 
as crises podero repetir-se e no sei at onde isso poder atir-la  loucura. Vou-me embora. Passar bem.
     O        doutor saiu sem esperar que Demerval lhe pagasse pelo atendimento. Irritado, ele procurou acalmar-se. Aquele doutorzinho de provncia! Que ousadia! 
Era um homem de boa educao, seno o teria posto porta fora. Agora resolveria tudo a seu modo. A situao no podia mais continuar. Dali h dois dias voltariam 
para a cidade. As frias tinham-se acabado.
     Quem sabe, pensava ele, voltando para a cidade, tudo retornaria ao normal. Bebeu um pouco de gua, procurou acalmar-se reafirmando para si mesmo: ele sempre 
tinha encontrado a melhor maneira para viver. Ningum iria influenci-lo a mudar. Havia muitos mdicos na cidade e melhores do que aquele velho intrometido, doutorzinho 
de vilarejo.
     Olhou as horas e apressou-se. Ainda tinha que descansar na varanda sua meia hora antes do jantar. No devia atrasar-se.
     Maria Jos, depois que o mdico saiu, ficou pensativa. Ele teria razo? Seria melhor falar ao marido, tentando acertar as coisas? Afinal, Demerval ultimamente 
mostrava-se mais tolerante.
     Seria to bom se ele a compreendesse! Ela gostaria de ser diferente, de gostar das mesmas coisas do que ele, de ter prazer em compartilhar de sua rotina, achava 
mesmo que uma boa esposa precisava fazer isso.
     Muitas vezes tinha ouvido a me repetir na sua adolescncia:
"A mulher deve obedecer ao marido. Fazer-lhe as vontades, torn-lo feliz". Ou ento "A boa esposa sabe agradar, sorrir sempre, ser carinhosa ainda mesmo quando o 
esposo no est bem-humorado". Ou ainda, "A obedincia  a grande qualidade dos filhos para com os pais, da esposa para com o marido".
     Sempre aprendera que devia preparar-se para casar, ter muitos filhos e no ter outra vontade seno a do marido. Sua me tinha sido assim. As mulheres que conhecia 
eram todas submissas. Por que ela no conseguia? Por que ela tinha que ser diferente?
     Tinha sido obediente, casando com Demerval. Tinha se esforado para am-lo, obedec-lo, mas agora no conseguia dominar-se. Como proceder? Se ele pudesse compreender 
e ajud-la, certamente acabaria saindo do problema.
     O dr. Amarante teria razo? Seria melhor contar o que lhe ia no ntimo? Ficou pensando, pensando.
     Naquela noite, quando Demerval se recolheu pontualmente s 21 horas, vendo-a entretida com o bordado, disse-lhe taciturno:
     - Largue isso. Precisamos conversar.
     Ela obedeceu. Ele continuou:
     - Hoje despedi o dr. Amarante.  um incapaz. Veio com idias disparatadas tentando justificar sua falta de capacidade para curar a sua doena. Isto aqui est 
muito conturbado. Nossa famlia no  mais a mesma. Assim, pensando em colocar as coisas nos devidos lugares, voltaremos  cidade depois de amanh. L, tudo voltar 
a ser como antes. Temos mdicos melhores e mais capazes. Voc ficar boa.
     Maria Jos empalideceu. Detestava voltar  cidade. Adorava a vida na fazenda.
     - Eu estou melhor. Sinto-me mais calma, mais animada. Estou bem melhor! Os ares daqui fazem-me bem. Gostaria de ficar o resto das frias.
     Demerval abanou a cabea.
     -        De modo algum. Voc pensa que est boa mas ainda no est.
     -        As crianas esto alegres, coradas. Esto aproveitando muito a temporada.
     -        Esto indiciplinados, barulhentos. Adalberto chegou at a atirar uma pedra no vidro da cozinha. Chama a isso aproveitar?
     -        Foi sem querer. Eu vi. Ele estava atirando no alvo para ver quem tinha mais pontaria.
     Acho que ele calculou mal.
     -         inacreditvel! Voc o defende! E o pior  que tambm estava l como um moleque malcriado.  incrvel!
     Maria Jos suspirou fundo. No podia conversar com ele. No a ouviria. No tinha remdio. Sentiu um aperto no corao. Nada diria, O futuro, s Deus poderia 
prever. Fechou os olhos, acomodando-se no leito.
     -        Estou to cansada! - murmurou para esquivar-se da discusso.
     -        Durma, se quiser. Amanh vamos arrumar tudo. Regressaremos depois de amanh, de qualquer forma.
     Profundo desnimo a acometeu. Demerval no cederia. Ela teria que submeter-se novamente  rotina odiosa e enfadonha.
     Fechou os olhos, tentou dormir, mas o sono custou a vir. E ouvindo o ressonar do marido sentia mpetos de gritar sua irritao, sua impotncia. Naquela hora 
chegou a odi-lo.
     No dia seguinte, Demerval levantou-se e acordou a esposa.
     -        Levante-se, vamos preparar tudo. No  bom que voc fique na cama demais. A fraqueza pode faz-la sentir-se mal durante a viagem.
     Maria Jos abriu os olhos. Seu rosto estava um pouco plido e as olheiras haviam reaparecido.
     -        No me sinto bem - tornou ela com voz cansada. - No dormi muito esta noite.
     Ele olhou-a um pouco preocupado.
     -        Mais uma razo para voltarmos  cidade. Voc necessita ser atendida por um mdico competente.
     -        Quero dormir mais um pouco. Sinto-me fraca.
     Demerval, vendo-lhe a fisionomia abatida, no insistiu:
     -        Descanse mais uma hora. Depois, levante-se. Precisamos preparar o regresso. Amanh bem cedo voltaremos  cidade.
    Ele estava preocupado. Desejava procurar outros mdicos. Lutar contra a doena da esposa, defender sua casa, para que tudo pudesse voltar a ser como antes.
    Depois que Demerval saiu, Maria Jos sentiu-se triste, desanimada. Zefa, vendo-lhe a fisionomia angustiada, aproximou-se.
    Sentia verdadeira adorao pela sua sinh. Ainda criana, havia sido dada  me de Maria Jos, senhora bondosa que sempre a tratara com justia. Desde aquele 
tempo, fora encarregada de cuidar da sua sinh e a negra amou-a desde o primeiro dia. Venerava seu rostinho branco e lindo, seus cabelos, seu sorriso, sua simpatia 
cativante.
    Maria Jos retribua-lhe o afeto, fazendo-a sua confidente, sua irm, sua amiga. Zef a havia chorado muito o casamento da sua sinh. No gostava da empfia de 
Demerval, orgulhoso e intransigente. Receiava que fizesse sua ama sofrer. Agora, com o corao partido, via a tristeza, a dor de Maria Jos.
    -        Sinh, tem calma. Deus vai ajud.
    Ela abanou a cabea, desalentada.
    -        No creio. No quero voltar a cidade. Sinto-me bem aqui. Adoro a natureza! L, tudo voltar a ser odioso.
    -        Vosmec num qu ? - indagou a negra, sria.
    -        No quero. Se eu pudesse, ficava.
    -        Ento, deixa comigo. V d um jeito. A sinh num volta pra cidade to cedo.
    -         difcil. Quando Demerval toma uma deciso, jamais volta atrs. Nada vai demov-lo.
    -        Eu v tent.
    -        O que vai fazer?
    -        A sinh vai v. Vou fal com o Bentinho. Ele faz umas rezas e pronto.
    -        Veja l o que vai fazer...
    -        Bentinho entende dessas coisas. Garanto que vosmec num volta pra cidade to cedo.  s o santo ajud.
    -        Tenho medo dessas bruxarias!
    -        Qual nada! Num tem perigo. Vamos s ped pra ele ajud fic aqui mais algum tempo. Eles pode faz o sinh mud de idia.
    -        Acha possvel?
    -        Acho. nimo, sinh. V mand a Maria traz seu caf. Vai fic alegre, se levanta e  melhor no deix o sinhozinho aborrecido. Enquanto isso, vou procur 
o Bentinho. Vou lev pr ele uma camisa do sinh pr ele prepar.
     - Cuidado, Zefa. Se Demerval descobre, no sei o que poder acontecer. No quero que ele nos separe.
     Os olhos da negra brilharam emotivos.
     - Ele nunca vai sab. Afinal, num vamo faz nenhum mal.  para a felicidade da famlia. Se ele num qu escut nem faz os gosto de vosmec, isso num t certo. 
Ele num pode s feliz e faz a vossa infelicidade. Ele vai entend e tudo vai d certo.
     - Espero que seja assim.
     A negra saiu e Maria Jos, embora se esforasse, no conseguiu ser otimista, mesmo quando a Zefa voltou uma hora mais tarde dizendo que estava tudo acertado. 
O Bentinho j tinha comeado a trabalhar. Disse a elas que tivessem f.
     Demerval estava ativo. Tinha percorrido as plantaes e dado as ordens necessrias. Os escravos preparavam j a bagagem, os doces, os queijos, as frutas, acondicionando 
tudo para o regresso.
     As crianas estavam tristes e chorosas, Maria Jos, nervosa e sem apetite. Demerval inquieto e aborrecido.
     Finalmente, no dia seguinte de madrugada, deixariam a fazenda de retorno ao lar.
     Embora plida e sem entusiasmo, Maria Jos concordou em jantar na sala, esforou-se em comer, mesmo sem vontade.
     Demerval procurou ser amvel com ela que, resignada, submeteu-se  rotina habitual. As crianas se recolheram e depois da leitura que Maria Jos sequer ouviu, 
tal o seu alheamento, o casal recolheu-se.
     Demerval estava triste. Observando o rosto da esposa, temia pela sua sade.
     Maria Jos deitou-se e quando Demerval preparava-se para acomodar-se, sentiu-se mal. Cambaleou, levando a mo ao peito. Maria Jos assustou-se:
     - O que foi? Demerval, o que aconteceu?
     - No sei - balbuciou ele, com voz fraca. - Sinto-me mal, de repente tudo comeou a rodar. Parece que as foras me fogem...
     Maria Jos levantou-se aflita e amparou o marido indagando:
     - Ser uma congesto? Voc abusou ao jantar?
     - No - gemeu ele. - No creio. Sinto-me mal, di-me o peito. Acho que vou cair...
     Maria Jos conduziu-o at o leito onde ele deixou-se cair. Estava plido, seu rosto cobrira-se de suor.
     - Zefa! - chamou a senhora aflita. - Zef a! Corra, mande buscar o doutor Amarante: Mande o Tico:
     Demerval queria dizer que no suportava o mdico, mas no conseguiu. Sua cabea rodava e ele fechou os olhos, exausto. A negra correu e voltou Logo depois para 
ajudar sua sinh.
     -        Pronto. Ele j foi. Vamos abr a camisa do sinhozinho pra ele respir melhor. Assim.
     Agora vamo abr as janela. Um pouco de ar fresco vai faz bem.
     Maria Jos estava nervosa.
     -        Demerval nunca esteve doente. Santo Deus, o que ser?
     -        Calma, sinh. Vai pass logo, deve s coisa passagera.
     Maria Jos colocou a mo na testa suada do esposo. Estava gelada. O que fazer?
     -        Demerval, como est? J mandei chamar o mdico. Dentro em pouco ele estar aqui. Sente-se melhor?
     Com voz sumida e com dificuldade ele respondeu:
     -        Estou mal!
     -        Calma. No h de ser nada, voc vai ver. Vai passar. E este mdico que no chega?
     -        Calma, sinh. Ele logo dever estar aqui.
     As duas ficaram ao lado de Demerval que no melhorava. S quase uma hora depois foi que o dr. Amarante chegou.
     No mencionou a grosseira atitude de Demerval, expulsando-o da fazenda. Era homem de boa ndole, e penalizado com o estado do paciente, procedeu a exame detalhado 
e atento.
     Preparou ele mesmo um medicamento com alguns frascos que trazia na maleta e deu-o a Demerval que, aos poucos, foi se sentindo melhor. Contudo, sentia-se fraco 
como se estivesse estado no leito durante vrios dias.
     -        O que tenho? - perguntou ao mdico com voz fraca.
     -        O senhor teve um problema de corao. Precisa guardar o Leito pelo menos durante uma semana.
     -        Eu queria voltar para a cidade ainda hoje.
     O        mdico abanou a cabea.
     -        Esquea isso, por enquanto. Se fizer algum esforo, pode ter outra crise e a eu no responderei pela sua vida.
     -         to grave assim? - indagou ele, arrasado.
     -        Nem tanto. Mas esse tipo de problema s se cura com o repouso. Fazendo tudo direitinho, acredito que ficar bom.
     -        Quando poderei regressar?
     -        Por agora no sei. Depois de mais alguns dias talvez eu possa dizer. Temos que aguardar.
     Maria Jos, preocupada, tomou nota das recomendaes, esclarecendo:
     -        Pode deixar, doutor. Vamos fazer tudo. Demerval vai melhorar. Deus  grande.
     O        mdico respondeu, srio:
     -        Naturalmente. Por agora d-lhe uma colher de sopa desta poo a cada duas horas. Alimentos leves e no deve levantar-se. Amanh cedo voltarei para 
ver como passa. Passar bem, senhor Demerval.
     -        Acompanho-o, doutor.
     O        mdico, sobraando a valise, retirou-se. J na porta, longe das vistas do marido, ao despedir-se, Maria Jos perguntou:
     -         grave, doutor?
     -        Ainda no sei bem. O sr. Demerval no tinha a aparncia de ser um cardaco.
     -        Nunca foi. Sempre gozou de muito boa sade.
     -        A doena pode chegar de repente. Em todo caso, agora ele est melhor. Amanh cedo voltarei para um exame detalhado. Neste momento o repouso  o melhor 
remdio. Dei-lhe um sonfero e por certo vai dormir por toda a noite. Teria ele tido algum desgosto?
     Maria Jos abanou a cabea.
     -        No, doutor. Ao contrrio. Nada lhe disse sobre meus problemas e fiz tudo quanto ele pediu. Pretendia voltar  cidade amanh cedo.
     -        Agora no poder faz-lo, pelo menos por enquanto.
     -        Demerval pode morrer? - indagou ela, preocupada.
     -        No momento, ele no est correndo esse risco. A crise passou, seu pulso est quase normal. Porm, nada posso dizer antes de exames mais detalhados. 
Por hoje pode dormir sossegada. Precisa descansar.
     -        Sinto-me angustiada, nervosa.
     -         natural, assustou-se. Mas ele est melhor, posso afirmar. Descanse e amanh cedo voltarei e ento veremos.
     O        mdico despediu-se e Maria Jos voltou ao quarto. Aproximou-se de Demerval que, exausto, olhos fechados, parecia dormir. Comovida, alisou a mo do 
marido, que abriu os olhos fitando-a assustado:
     -        Est melhor? - perguntou ela, ansiosa.
     -        Sinto-me fraco - respondeu ele, com voz cansada.
     -        Est tudo bem agora. J passou. Foi uma indisposio passageira. Amanh voc j estar bom.
     -        Sinto-me cansado.
    -         natural. O mdico disse que agora tudo est bem, que seu pulso est normal. Evite falar. Amanh cedo ele voltar e poder dizer-lhe ao certo o que 
aconteceu. Durma e eu lhe darei o remdio na hora certa.
    -        Se a sinh permiti eu posso faz isso - tornou a Zef a, com ar humilde. - A sinh precisa descans.
    -        Vamos ver - respondeu ela. - Por agora, eu mesma quero cuidar dele.
    Demerval lanou-lhe um olhar agradecido. Estava sentindo-se pesado, com sono. Fechou os olhos e dentro em pouco comeou a dormir.
    Maria Jos, preocupada, custou a conciliar o sono, embora Zefa lhe garantisse que a avisaria na hora de dar o remdio, que ela mesma insistia em ministrar.
    Estava to preocupada que nem percebeu nos olhos da escrava um brilho singular.
    No dia seguinte, o dr. Amarante encontrou Demerval melhor, porm, inexplicavelmente, um cansao muito forte o acometeu. Examinando-o detidamente, o mdico nada 
encontrou que pudesse indicar uma doena mais sria. Seu pulso normal, sua respirao boa, sua temperatura tambm normal. Apesar disso, Demerval sentia-se to fraco 
e cansado como se tivesse ficado longo perodo acamado.
    Dr. Amarante, preocupado, perguntou:
    -        O senhor est muito nervoso com o que aconteceu?
    -        Estou, claro. Preciso ir-me embora, voltar  cidade, cuidar de Maria Jos, e agora sinto-me amarrado aqui, sem foras para sair desta cama... Afinal, 
o que  que eu tenho?
    -        Nada grave, senhor Demerval. Seu estado geral  bom e no me parece que haja nenhuma doena sria. A princpio pensei em ataque do corao, mas agora 
no me parece que haja nada com ele. Tudo est bem.
    -        Ento como explicar este cansao? Por que no posso levantar-me?
    -        Provavelmente o senhor teve uma indisposio passageira. Assustou-se. Afinal nunca havia adoecido. Abateu-se. Com o repouso tudo passar e voltar a 
ser como antes.
    -        Quer dizer que  abalo nervoso?
    -        O senhor teve um mal sbito, sem gravidade, porm o susto o abateu. Faa alguns dias de repouso e tudo passar.
    Demerval suspirou:
     -        Sinto-me muito fraco.
     -        Vou receitar-lhe uma poo.  medida que for se sentindo melhor, levante-se, fique sentado, ver que aos poucos tudo passar.
     -        Assim espero. Quero voltar para a cidade o quanto antes.
     -        Voltar, sr. Demerval.
     Quando o mdico se foi, Maria Jos mandou preparar o remdio e depois sentou-se ao lado do marido, preocupada.
     -  uma desgraa - reclamou ele, com voz fraca. - Voc doente, precisando voltar  cidade e agora eu, deste jeito. No mesmo uma desgraa?
     -        No fale assim. Felizmente o mal no  grave. Logo mais voc estar curado e tudo estar bem. Estou melhor e voc no deve preocupar-se comigo.
     Mas os dias foram passando e Demerval, embora melhor, sentia-se cansado e sem foras.
     No tinha fome nem disposio. Passava o tempo deitado. ou recostado em confortvel poltrona. Maria Jos viu-se obrigada a assumir a direo das atividades 
da famlia.
     Sentia-se bem, apesar da preocupao com o marido, e- com excelente disposio.
     Cuidava da rotina da fazenda orientando o capataz, das atividades dos filhos e do tratamento do marido.
     Este parecia outro homem. Estava arrasado. No demonstrava interesse pelos negcios nem disposio para determinar nenhuma providncia.
     O        mdico no conseguia entender o que estava acontecendo. Aquele homem estava fisicamente sadio. Por que no se recuperava?
     Ao fim de uma semana confidenciou a Maria Jos:
     -        No sei o que acontece com ele. Fsicamente no encontro nenhum mal. Guardar algum aborrecimento srio?
     -        No creio, doutor. Demerval no tem segredos. Depois, tudo aconteceu de repente e nada houve que pudesse t-lo contrariado.
     O        mdico abanou a cabea pensativo. Dirigindo-se ao quarto, aproximou-se de Demerval. Aps cumpriment-lo, tornou com seriedade:
     -        Sr. Demerval, o senhor precisa reagir. No pode entregar-se assim ao desnimo, ao cansao.
     -        Estou muito mal, doutor.
     O        mdico olhou-o penalizado. No parecia o homem resoluto que o enfrentara com tanta arrogncia.
     -        O sr. no tem mais nada. Sua sade est boa. Precisa reagir, levantar-se, tentar sair dessa cama.
    -        No posso. Sinto-me sem foras. Di-me o corpo todo. O senhor precisa dar-me um remdio que me levante. Os que tenho tomado, de nada valeram.
    O        mdico olhou-o sem saber o que dizer. Receitara-lhe reconstituinte de eficcia comprovada. Doena no havia. Como cur-lo?
    O        dr. Amarante suspirou pensativo. Depois disse:
    -        Sr. Demerval, seu caso no se cura com remdios. Tem fundo nervoso. O sr. precisa reagir, lutar, sair dessa depresso que o acomete.
    Um lampejo de irritao passou pelos olhos mortios do doente.
    -        Recuso-me a crer. Estou doente e o senhor no consegue curar-me. Preciso voltar  cidade. L, por certo, h mdicos mais eficientes.
    O        dr. Amarante endureceu a fisionomia.
    -        Como queira. Se estou aqui  porque fui chamado.
    Demerval suspirou.
    -        Porque no h outro. Estamos neste fim de mundo. Mas sua medicina no consegue curar-me. Quer que o elogie por isso?
    -        Ningum conseguir tir-lo dessa cama se se recusa a aceitar a verdade. Sua depresso, seu desnimo alimentavam seu desvalimento.
    Demerval, abatido, tornou:
    -        No concordo. Ningum mais do que eu deseja sair desta cama. Tenho famlia, esposa que precisa de mim. Como ficar inativo?  isso que me revolta. Sua 
medicina no me cura e ainda o doutor d a entender que eu estou deprimido porque quero. O senhor no percebe o quanto esta fraqueza me arrasa?
    O        mdico olhou-o penalizado. Reconhecia o caso inusitado. Conhecia Demerval o bastante para entend-lo enrgico e at autoritrio. Como pudera transformar-se 
em uma pessoa fraca e sem vontade prpria? De onde lhe vinha a dolorosa fraqueza se no apresentava nenhum sintoma ou sinal indicativo de doena?
    O        dr. Amarante no sabia o que fazer. Se se tratasse de dona Maria Jos, por certo poderia entender, mas dele..
    No querendo demonstrar sua perplexidade diante do paciente aflito, tornou com voz grave:
    -        Posso garantir-lhe, sr. Demerval, que o sr. no tem uma doena grave. Pense nisso e por certo o ajudar.
    Demerval impacientou-se:
    -        No acredito. Se no estou com nada grave, por que estou assim?
     -        J lhe disse. O senhor teve um mal-estar e assustou-se. Nunca tinha ficado doente antes. Agora receia que a crise volte.  isso. Deve acreditar que 
seu mal-estar no foi provocado por nenhuma doena sria. Foi coisa sem conseqncias. Por isso, pode levantar-se e reagir. A cama tambm agrava a fraqueza. Faa 
esforo, levante-se aos poucos e ver.
     -        Faa uma tentativa... - tomou Maria Jos, segurando carinhosa o brao do marido.
     -        Muito bem. Verei o que posso fazer. Mas, levantar-me parece impossvel, tal o estado de fraqueza que sinto.
     -        Isso  assim mesmo - esclareceu o mdico. - A princpio vai ser desagradvel, inicie aos poucos e logo ver que tudo passou.
     Demerval suspirou, resignado. De qualquer forma aquele mdico da roa no podia mesmo entender. O importante era sair da cama para poder regressar  cidade 
o quanto antes. L, com certeza, seria devidamente tratado. Os mdicos da corte eram bons e eficientes. Haveriam de curar tanto Maria Jos quanto ele prprio.
     Maria Jos acompanhou o mdico, que ao despedir-se desabafou:
     -        A doena dele  um mistrio. No encontro nada. Intriga-me essa fraqueza sem causa.
     -        A mim tambm. Demerval j no  o mesmo. Perdeu o gosto pela vida. No se alimenta, quando sempre foi um amante da boa mesa. Parece outra pessoa. Mudou 
completamente.
     -         por isso que acredito em problema nervoso.
     -        Como assim?
     -        A senhora pode perceber que ele no reage. Est deprimido, triste, desanimado. Essa tristeza  que lhe tira o gosto pela vida. Tem mesmo certeza de 
que o sr. Demerval no teve algum desgosto srio?
     -        Tenho, doutor - respondeu ela, sem hesitar. - Na noite em que ele adoeceu, estava bem disposto e alegre, preparando nosso regresso.
     O        mdico sacudiu a cabea preocupado:
     -        Tem certeza de que ele no recebeu nenhuma notcia desagradvel?
     -        Tenho. Ele estava como de hbito e muito animado com a viagem do dia seguinte.
     -        Bem, de qualquer forma, o que ele precisa agora  de nimo para sair daquela cama.
     Procure ajud-lo encorajando-o a levantar-se, nem que seja alguns minutos por dia, aumentando sempre o tempo  medida que ele for melhorando.
     -        O sr. acha que ele ficar bom?
     -        Claro. Depende dele. No encontro doena nenhuma. Reagindo, conseguir melhorar. Continue com o reconstituinte e procure fazer os pratos que ele aprecia 
para despertar-lhe o apetite. Voltarei daqui a dois dias para v-lo. Caso necessite da minha presena, mande-me avisar. A senhora melhorou, ganhou cores e parece-me 
bem.
     -         verdade, doutor. Graas a Deus. O que seria da famlia se eu tambm estivesse mal?
     Quando o mdico saiu, Maria Jos voltou ao Lado do esposo. Estava penalizada. Desejava ardentemente que ele melhorasse mas, apesar disso, sentia prazer por 
estar isenta das obrigaes cotidianas e da rotina.
     Sentia-se livre, alegre e bem disposta. Surpreendia-se at com vontade de cantar. Continha-se. Pobre Demerval, o que pensaria vendo-a to alegre?
     As crianas estavam contentes por terem que ficar na fazenda por mais algum tempo. S Demerval impacientava-se, sem conseguir sair daquela triste situao.
     Na manh seguinte, Maria Jos, depois de quase obrigar o marido a engolir um pouco de leite quente e uma cdea de po, decidiu firme:
     -        Vamos levantar um pouco, Demerval.
     -        Levantar?
     -        Sim, O mdico disse que  preciso. Vou ajud-lo. Vai sentar-se e depois levantar nem que seja um minuto.
     -        No posso - gemeu ele.
     -        Pode sim - disse, segurando-o pelas mos. - Vamos, levante-se,  para o seu bem.
     Demerval segurou-se nas mos dela e tentou erguer-se. Seu corpo pesava como chumbo. Sentou-se no leito a custo. Suava por todos os poros.
     -        Venha - pediu ela - levante-se.
     -        No agento. A cabea est  roda.
     -        Isso  assim mesmo. No comeo  assim. Venha, levante-se.
     Demerval fez um esforo. Porm sentia-se tonto e desconfortvel. Sua cabea girava, sentia-se mal.
     -        Mais um pouco. Vamos - pedia ela.
     Ele ergueu-se no leito, sentando-se com dificuldade. Maria Jos pediu  Zefa que lhe pusesse almofades s costas. Demerval deixou-se cair nos almofades.
     -        Muito bem. Viu como voc pde?
     Ele esboou um sorriso para ela, tentando anim-la. Afinal, ela queria ajud-lo. Contudo, sentia-se mal e sonolento. Parecia-lhe ter tomado um sonfero.
     - Quero dormir - murmurou com voz baixa. - No agento.
     Maria Jos concordou.
     - Est bem por hoje. Amanh faremos de novo.
     Acomodou-o novamente no leito e, vendo que ele dormia, apanhou um livro e comeou a ler.
     Nos dias que se seguiram, Maria Jos obrigava o marido a levantar-se um pouco e, devagar, ele comeou a melhorar. J tinha conseguido levantar-se durante alguns 
minutos, embora cansado e fraco. Maria Jos sentia-se mais animada. Ele mesmo foi ficando mais contente com as melhoras obtidas.
     Porm, Demerval estava um tanto mudado. Revelava-se extremamente sensvel.
     Qualquer assunto o comovia, exagerava os cuidados com Maria Jos e com os filhos. Agradecia-lhes constantemente a dedicao e comovia-se at as lgrimas, vendo 
a esposa cuidar do seu bem-estar com tanto desvelo.
     Maria Jos repreendia-o, carinhosa:
     - Nada de tristezas. Por que se emociona? Voc cuidou de ns por tantos anos. Por que no deveria eu fazer o mesmo?
     Demerval chorava desalentado:
     - Estou dando trabalho. Voc  que est doente e precisa de tratamento!
     - Estou muito bem. No preciso de nada. Tenho tudo. Nossos filhos esto muito bem. Voc est melhor. Por que essa emoo? Pode fazer-lhe mal!
     Mas era intil. Demerval conservava os olhos midos e o ar triste. Maria Jos mal reconhecia nele o homem que sempre fora. Como podia ter mudado tanto e to 
de repente? Ele que era to forte, decidido, auto-suficiente, tinha se transformado em um homem dependente, fraco e at cansativo.
     Um dia Maria Jos confidenciou com a Zef a:
     - No posso entender. Demerval agora  outra pessoa. Como pode ter mudado tanto?
     A escrava ergueu os olhos vivos e encarou sua sinh com adorao.
     - A sinh t melhor?
     - Eu? Estou. Sinto-me bem. Deus  bom. Permitiu que eu melhorasse. O que seria de ns se eu tambm adoecesse?
     -         verdade. Mas o sinh num tem mais deixado vosmic apoquentada.
     -        No fale assim, Zef a. Parece que voc est contente com a doena dele.
     A negra baixou os olhos.
     -        Num  isso, sinh.  que quando ele t bom, apoquenta a cabea de vosmic. E as crianas tambm. D gosto v como eles brincam. To alegres, corados.
     -        Eu no quero que fale assim. At parece que Demerval era mau chefe de famlia.
     -        Cruz credo, sinh. Eu num disse isso. S disse que ele comandava tudo e a sinh num gostava, num era feliz.
     -        Pode ser. Mas gosto muito dele e no estou feliz com ele doente. Quero que ele sare.
     A negra olhou-a com certo ar de desafio:
     -        Mesmo voltando a vida a ser como era?
     Maria Jos no se deu por achada:
     -        Demerval  um bom homem. Pensa sempre em nosso bem-estar.
     -        Pois ento, quando ele fic bom, a menina no me venha com tremeliques.
     -        Sua negra desarvorada! - ralhou Maria Jos. - Voc anda muito confiada. Vou dar um jeito nisso.
     A Zefa saiu calada. Sabia que sua sinh no ficava sem ela. Doa-Lhe, no entanto, sua repreenso. Afinal, se ela no tinha voltado pra cidade, era porque o 
Bentinho tinha dado jeito. E, apesar da ingratido da sinh, a Zefa estava disposta a trabalhar para que o sinhozinho continuasse na cama.
     Afinal, a casa estava mais alegre, as crianas felizes e a sinh corada, bem disposta, fazendo recordar os tempos de menina, ralhando com ela como fazia naqueles 
tempos.
     Ia procurar o Bentinho para que ele continuasse fazendo o trabalho para que o sinh continuasse na cama. No fazia falta nenhuma t-Lo andando pela casa, controlando 
tudo com aquela cara de mando.
     Nunca tinha gostado dele, que tratava sua sinh como se fosse dono, sem deixar a coitada fazer nada do que gostava. Por isso, ela no ia se arrepender. Estava 
fazendo o bem para todos. A alegria voltara a reinar. Os escravos gostavam muito mais da sinh do que do patro. Qualquer deles faria qualquer coisa para agrad-la 
enquanto que temiam Demerval que os castigava com acentuado rigor, embora procurasse ser justo.
      noite, a negra procurou o Bentinho.
     -  de casa, Bentinho. Que Deus nosso Sinh seja louvado!
     O        crioulo magro, menos de 40 anos, rosto ossudo, olhos fundos, com um grosso cigarro de palha entre os dedos, abriu a porta da choupana singela.
     -        Amm - tornou ele, serio. - O que sunc qu?
     -        Cunvers co c.
     Ele tirou umas baforadas e convidou:
     -        Entra e senta. Como vo as coisa l na casa-grande?
     -        Muito bem - esclareceu a Zefa sentando-se em um tronco de rvore que servia de banco. Vendo que ele esperava, continuou. - O sinh t l. Deitado, 
fraco que faz d! Num pode quase levant.
     -        E a sinh?
     -        Vai bem. S que anda amolecida de d. Por ela, ele ficava bom logo.
     -        Ela qu que ele fique bom?
     -        Qu. Mas eu acho bestera. Se ele fic bom, vai come tudo de novo. A primeira coisa que vai faz  volt pra cidade. Isso eu num quero.
     -        Por qu?
     -        Por que a sinh gosta daqui. D gosto v. Ela t corada, forte, contente.
     -        Acha que t melhor agora?
     -        Acho. Afinal ele  to mando e num  mal que receba uma lio.  bom pra ele aprend. Acab com a prepotncia dele. Agora obedece ela como um cachorrinho. 
 assim que tem de s.
     -        E eu, o que ganho nisso? Afinal, t trabalhando, fazendo o que sunc qu. Sabe que fao tudo por sua causa.
     A negra riu divertida.
     -        Num bota feitio em mim, num pega.
     -        Marvada. Hoje num deixo sunc sa daqui. Quero a paga de tudo, sino num trabalho mais.
     -        T bem. Acha que vale a pena?
     Os olhos dele brilharam de cobia. Agarrou a Zef a, abraando-a com fora.
     -        A paga  j. Se qu que eu continue, tem de s agora.
    A Zefa olhou-o maliciosa, entregando-se ao abrao sem reagir. Quando saiu dali, algumas horas depois, estava alegre e bem disposta. Era-lhe fcil manejar o Bentinho, 
que sempre se tinha atrado por ela. E assim, ela contava ajudar sua sinh a ficar ali mais tempo e se recuperar.

CAPTULO 3

     Nos dias que se seguiram, tudo continuou na mesma. Maria Jos, solcita, procurava animar o marido, tentando tir-lo do leito.
     Ele, porm, no melhorava o bastante para levantar-se definitivamente. Maria Jos estava desanimada. A cada dia mais sua indiferena se acentuava.
     Tentando ajud-lo, ela procurava fazer o que ele gostava. Lia os odiados versos franceses. As complicadas e maantes obras literrias das quais ele fazia tanto 
empenho em repetir. Mas era intil, Demerval no prestava sequer ateno. Plido, emagrecido, recostado nas almofadas do leito, dormitava acabrunhado.
     Maria Jos no sabia mais o que fazer. Comeou a temer que o marido no mais se recuperasse. Fazia mais de um ms que as frias tinham acabado e nem sinal deles 
poderem retornar.
     Um dia, decidiu-se. Apanhou papel, escreveu longa carta explicando o que estava acontecendo. Arranjou um portador e enviou-a. Precisava de auxlio. Seu cunhado, 
por certo, haveria de socorr-los.
     Menelau, tanto quanto o irmo, bacharelara-se em leis na Frana. Era mais jovem oito anos do que Demerval. Casara-se havia dois anos e ainda no possua filhos. 
Era o oposto do irmo. Informal, alegre e bem-humorado, costumava escandalizar a famlia com suas idias avanadas.
     Demerval tratava-o com certa condescendncia autoritria, que ele ignorava ostensivamente. Apesar disso, relacionavam-se relativamente bem. Tinham tido pouca 
convivncia, porqanto Demerval afastara-se para estudar quando Menelau ainda era criana e, ao retornar, j tendo concludo seus estudos, Menelau, por sua vez, 
tambm seguiu para a Europa, a fim de consolidar sua educao.
     O pai, homem austero e rico, disciplinado e sbrio, achava que  formao s se realizava com a esmerada educao europia. Fazia questo, por isso, que os 
dois filhos vares para l fossem, enquanto que as trs meninas eram educadas no recesso do prprio lar, preparando-se para suas tarefas de esposa e me convenientemente.
Maria Jos preferiu escrever para o cunhado porque o sogro, vivo, velho e muito doente no podia sofrer emoes fortes. Sua cunhada Helena havia desposado rico 
comerciante e residia no Rio de Janeiro; Beatriz, apaixonada por um jovem traficante de escravos portugus que viera  Provncia a negcios, fora punida pelo pai 
que no aprovava o casamento e trancada no convento das Carmelitas. Restava Manuela, 15 anos apenas, que cuidava do velho pai com carinhoso desvelo. A quem recorrer, 
seno ao cunhado? Mal o conhecia, mas era a nica pessoa. Seus pais tinham falecido e seus dois irmos encontravam-se muito distantes para poder procur-los.
     Menelau residia na capital do Imprio. Maria Jos entregou a missiva ao portador, recomendando que entregasse pessoalmente. Escolheu o negro Baru porque ele 
conhecia o caminho. Deu-lhe provises, bom cavalo, recomendando-lhe resposta urgente.
     Depois de v-lo afastar-se, sentiu-se mais calma. Estava preocupada com os negcios da fazenda. Havia assuntos a decidir e ela nunca cuidara desses detalhes. 
Desconhecia completamente o mundo dos negcios. No sabia como proceder.
     Demerval, instado a opinar nas providncias a serem tomadas, mostrara-se pouco interessado e nem sequer se dera ao trabalho de responder.
     O que fazer? Havia mercadoria para ser embarcada, no s para a capital da Provncia como at para outros pases. O capataz precisava despachar, os negcios 
estavam parados, a colheita no celeiro com risco de criar mofo. Demerval sem interessar-se, Maria Jos indecisa, sem saber o que fazer.
     Ficou mais calma quando Baru partiu. Confiava que tudo se arranjaria. Contudo, duas semanas decorreram sem que nada se modificasse. O outono j tinha comeado 
quando, numa tarde, chegou  fazenda uma carruagem acompanhada por trs pessoas.
     Baru era um deles. Maria Jos,  porta principal, recebeu o cunhado e a jovem esposa, que desceram empoeirados.
     - Estas estradas so intolerveis - foi logo dizendo a jovem senhora, sacudindo as saias rodadas.
     Maria Jos, que a tinha visto apenas uma vez, por ocasio do casamento, no gostou de sua expresso. Ela era loura e franzina, muito bem empoada e penteada, 
com um chapu muito enfeitado e um broche de ouro no colarinho alto do vestido.
     Na angustiosa situao em que se encontrava, Maria Jos teve mpetos de ser descorts. Conteve-se porm e, estendendo a mo  cunhada, deu-lhe as boas-vindas.
     Maria Antnia mal encostou os dedos na mo que lhe era oferecida. Menelau, contudo, aproximou-se com ar amvel e beijou a mo de Maria Jos com delicadeza.
     - Estou feliz por rev-la, Maria Jos, apesar da triste circunstncia.
     - Vamos entrar, por favor.
     Maria Antnia olhava tudo com ar irnico e Maria Jos sentiu desejo de bater-lhe. Decididamente no gostava da cunhada. Sua presena irritava-a. Menelau, entretanto, 
era o oposto. Fino, elegante, delicado, alto e magro, possua belos cabelos castanhos, muito parecidos com os de Demerval, que ele deixava  vontade, ao contrrio 
do marido que os alisava com um creme especial que mandava trazer de Paris.
     Seus olhos alegres e francos agradaram Maria Jos, que admirava-se de como um homem to simptico escolhera para esposa pessoa to desagradvel.
     Menelau queria saber tudo sobre o irmo, porm Maria Antnia preferia acomodar-se e tomar um banho. Por isso, s depois de tomar providncias e acomod-la foi 
que puderam conversar.
     Maria Jos conduziu Menelau ao gabinete de Demerval, e, sentados um diante do outro, exps a situao.
     Ele ouviu-a com ateno. Mal conhecia sua cunhada. Imaginara-a mais velha e mais feia. Surpreendia-se com sua beleza saudvel, natural, o rosado de suas faces, 
a graa do seu porte, a beleza dos seus olhos castanhos e expressivos, que a emoo fazia brilhar.
     - Desculpe t-los incomodado. Dona Maria Antnia pareceu-me contrariada. Porm, diante do que lhe contei, no sei a quem recorrer. Demerval  outra pessoa. 
Preciso de ajuda.
     No sei o que fazer.
     Ele olhou-a com meiguice.
     - Fez muito bem. Maria Antnia insistiu em acompanhar-me. Logo, nada pode reclamar da viagem. Ao ler sua carta, achei melhor vir pessoalmente. No se pode tomar 
providncias de to longe. Tenho tempo. Podemos ficar aqui o quanto for preciso.
     - Agradeo-lhe de corao.
     - Agora quero ver meu irmo. Disse-lhe que estou aqui?
     - Ainda no. Vou preveni-lo. Vamos.
     Ele acompanhou-a e ficou aguardando do lado de fora. Instantes depois Maria Jos abriu a porta com um sorriso, convidando-o a entrar.
    Menelau aproximou-se do leito onde Demerval, cansado, abatido e triste o aguardava. O moo abraou-o com fora procurando encoraj-lo, condodo de sua aparncia 
fsica.
     -        Demerval, quanto tempo! Como est?
     -        Mal, muito mal - murmurou ele, com voz sumida.
     -        Estou aqui para cuidar de voc. Mandarei buscar um mdico na corte e logo voc estar curado.
     Ele abanou a cabea:
     -        Quem dera! Est difcil.
     -        Que nada! Vamos cuidar de tudo e logo voc deixar esta cama. Vai ver!
    Demerval tentou sorrir. Fundo suspiro escapou-se-lhe do peito.
-        Quem dera, Menelau, quem dera!
     -        Quanto aos negcios, no se preocupe. Cuido de tudo. Em pouco tempo tudo estar em ordem.
     Demerval nada disse. Estava desinteressado, indiferente. Menelau alarmou-se. Conhecia o irmo, apesar do pouco convvio. Sabia-o preocupado com os bens, que 
para ele requeriam ateno em primeiro lugar.
     Conversou com ele procurando anim-lo, recordando fatos da casa paterna, tentando incentiv-lo  alegria. Mas Demerval, apesar do ar mais alegre, no vibrou 
com as lembranas nem com os feitos da sua juventude.
     Ao sair do quarto, Menelau estava realmente preocupado. Assim que viu-se a ss com a cunhada, comentou:
     -        Voc tem razo. No parece a mesma pessoa. No se interessa por nada. Fiz o possvel para anim-lo. Quero saber em detalhes de tudo quanto aconteceu 
aqui, desde sua chegada.
     Os dois foram at o gabinete de Demerval e l Maria Jos contou novamente com detalhes o que tinha acontecido desde a noite em que se preparavam para o regresso.
     -        E o mdico, o que diz?
     -        Que no consegue encontrar a doena. Que Demerval precisa reagir. Chega a sugerir que ele no deseja curar-se.
     -        No acho provvel. Se ele no se levanta  porque no pode. O mano nunca foi homem dengoso.
     -        Tem razo. Demerval era homem enrgico e bem disposto, de vontade frrea.
     Quando decidia uma coisa, ningum o demovia.
     -        Eu sei. Esse mdico por certo no entende nada.
Maria Jos sacudiu a cabea.
     -        No sei. O doutor Amarante  muito respeitado at em Itu, de onde vm busc-lo muitos senhores. Mora na roa porque gosta. Se quisesse podia viver 
na cidade.  homem simples e bondoso. A mim ajudou muito. Agora estou muito bem, graas a ele.
     -        Voc tambm esteve doente?
     -        Estive. Mas j estou bem.
     -        Conte como foi.
     -        Tive crise nervosa. Coisa boba.
     -        Conte.
-        No carece... Por favor!
Indecisa, Maria Jos balbuciou:
     -        Bobagem. Demerval sempre foi preocupado com a famlia e, por isso, tinha hbitos visando o nosso bem... voc sabe... horrio para tudo; e a vida, mesmo 
aqui na fazenda, tinha que obedecer ao programa que ele fez. Acontece que eu comecei a ficar nervosa, sem razo, claro, at que um dia tive uma crise. Fiquei fora 
de mim, recusei-me a ler os versos em francs que Demerval tanto gostava. E no ficou a. Fiquei de cama e no outro dia tive outra crise, quebrei tudo quanto tinha 
no quarto. Acudiu-me a Zefa, o dr. Amarante veio, disse que no tinha sido acesso de loucura e procurou ajudar-me. Demerval deixou-me repousar no leito durante alguns 
dias, mas queria voltar para casa, pretendia levar-me a um mdico da cidade. Porm, no conseguiu.
Menelau estava srio. Olhou-a fixamente e indagou:
-        Voc nunca tinha tido essa crise antes?
-        Nunca.
-        Agora passou. Nunca mais deu?
-        Nunca mais. Tenho estado bem.
     -        Hum! - resmungou ele, pensativo. - Receio que se trate de mandinga.
     -        Cruz credo, Nosso Senhor nos ajude! - murmurou Maria Jos, assustada.
     -        No sei ainda. Quando estive em Londres conheci algumas pessoas que estudavam esses casos. Fiquei admirado com o que vi. Gente sria e de confiana. 
Sem embuste.
     Disseram-se que no Brasil  caso comum. Voc sabe, os negros, eles conhecem essas coisas.
     Maria Jos empalideceu. Embora a Zef a tivesse lhe falado sobre isso, recusava-se a crer que o Bentinho tivesse a ver com a doena de Demerval. Um negro ignorante, 
do mato, poder mais do que Deus, as oraes, no podia aceitar.
     Seu marido era homem piedoso que rezava todas as noites. Absteve-se de falar ao cunhado sobre o assunto. Tinha certeza de que, se ele soubesse, castigaria o 
Bentinho, talvez at a Zefa, vendendo-a ou colocando-a a ferros.
     A negra tinha sido sua companheira de infncia. Amava-a muito e sabia que ela daria a vida por sua causa.
     -        No creio nessas coisas - disse ela com voz firme.
     -        Pois faz mal. Esses assuntos me fascinam. Tenho visto coisas de espantar. DemervaL na cama, sem doena nenhuma, naquele desnimo. O que pode ser? Conheo 
meu irmo.  orgulhoso e intolerante. Pode ser que algum negro tenha querido vingar-se dele.
     -        Demerval  bom e honesto. Ningum pode ter raiva dele. No acredito.
     Os olhos de Maria Jos estavam cheios de lgrimas e seu rosto ruborizado de emoo. Menelau levantou-se, aproximou-se dela segurando-a pelos ombros, olhando-a 
bem nos olhos:
     -        Maria Jos, voc sabe que no  assim. DemervaL  pretencioso e prepotente, embora no seja mau. Vim para ajudar. Voc ama seu marido, mas isso no 
deve impedi-la de perceber seus defeitos.
     Maria Jos o olhava com os olhos brilhantes tentando reter o pranto. Recusava-se a criticar o marido, vendo-o em to triste condio. No fundo, sabia que o 
cunhado dizia a verdade. Porm, sentia remorsos por ter-se recusado a obedec-lo. Sentia-se culpada, de certa forma, pela doena dele.
     -        Voc sabe tanto quanto eu que, com o temperamento de Demerval,  bem possvel que algum o tivesse querido atingir. No sei at que ponto isto pode 
ser verdade. Vou investigar.
     -        Tenho medo dessas coisas! Tm parte com o diabo.
     -         por isso que eles sempre tm conseguido vantagens. No h o que temer se voc tem mesmo f em Deus.
     -        O que pensa fazer?
     -        Ainda no sei. Pode confiar em mim.
     -        Acha que Demerval vai ficar bom?
     Menelau franziu o cenho, preocupado:
     -        Ainda no sei. Vamos confiar em Deus e fazer nossas oraes. Todos precisamos muito delas.
     -        E se ele no melhorar, o que vai ser de ns? - indagou ela, aflita.
     -        Ainda no sabemos se ele vai continuar doente. Tudo pode mudar. Assim como comeou, pode acabar. Porm, se ele demorar a sarar, acho que no tem remdio, 
voc assume a direo dos negcios.
     -        Eu? Sou mulher! Nunca aprenderei.
     Ele olhou-a um pouco divertido.
     -        Por que se subestima? Enquanto Demerval estiver incapaz, o chefe da casa deve ser voc. Precisa ser o pai e a me dos seus filhos. Vigiar o capataz, 
controlar os escravos, a plantao, as vendas e entregas das mercadorias.
     Maria Jos levantou-se aflita:
     -        Mas eu no sei! Nunca fiz nada disso!
     -        Estou aqui para ensinar. Tenho negcios, no posso ficar aqui para sempre. Posso ajudar, orientar, mas quando eu voltar capital, voc  quem vai decidir 
e comandar sozinha.
     Se Demerval ainda estiver doente.
     -        Tenho medo - balbuciou ela, assustada.
     Menelau tomou entre as suas as mos frias de Maria Jos.
     -        Eu sei. Tambm tenho medo. Voc no foi educada para esses trabalhos. Contudo, apesar de ser mulher, pode fazer isso. Na Inglaterra, conheci mulheres 
que eram superiores aos homens em matria de negcios. Voc vai conseguir.
     Maria Jos, fitando os olhos do cunhado, sentiu brando calor invadir seu corao.
     -        Tenho medo, mas se voc diz isso, tentarei. Demerval vai orgulhar-se de mim.
     Cuidarei dos negcios, da famlia, enquanto ele estiver doente. Quando sarar, terei a alegria de entregar-lhe tudo em perfeita ordem.
     -        Assim  que se fala. Sinto que posso confiar em voc.
     Vendo o cunhado afastar-se, Maria Jos voltou para o lado do marido que, no leito, continuava entregue a completa fraqueza. A Zefa velava, solcita. Maria Jos 
chamou-a de lado e comentou em voz baixa: 
     -        Acho bom deixar o Bentinho fora desta histria. Conversei com Menelau que entende dessas coisas. Se ele descobrir que andam fazendo mandinga pro sinh, 
manda os dois a ferros. Leva voc embora daqui.
     -        A sinh falou pra ele dos nosso acerto?
     -        Claro que no. No quero que nada acontea a voc. No acredito que isso tenha que ver com a doena de Demerval. Porm, meu cunhado no pensa assim. 
Se ele desconfiar, com certeza o Bentinho vai pagar caro. Por isso, voc v l e fale com ele, que se tiver feito alguma coisa, parar e desfazer tudo.
     -        Vosmec no acredita..
     -        No acredito, sua negra desaforada, mas ele acredita e no quero ver os dois metidos em encrenca. V l e fale com ele. Que acabe com essas bobagens 
aqui na fazenda. Seno, vendo ele ao primeiro que passar.
     A Zefa fez beio comprido.
     -        A sinh  ingrata! Tudo o que ns fazemos  pra seu bem.
     -        Pois eu probo. No quero voc metida nessas coisas do demnio. Deus Nosso Senhor pode at castigar.
     -        T fazendo o bem.
     -        V l e fale com ele. Estou mandando.
     -        T bem sinh. V esta noite.
     -        Muito bem. Estas coisas so proibidas aqui. Se eu souber de qualquer mandinga, castigo na certa.
     A Zefa olhou a sinh e percebeu que ela estava muito zangada.
     -        Os branco so ingratos - pensou, sentida. Afinal, tinha feito tudo por ela. Agora ela estava esquecida, mas quando Demerval recomeasse a mandar em 
tudo, queria ver se ela no ia se arrepender!
     Na calada da noite, procurou o Bentinho. Estava triste e desiludida.
     -        O que foi? perguntou ele, srio.
     -        A sinh disse que num acredita no seu poder mas mandou sunc par os trabaio. Num qu aqui na fazenda ningum fazendo mandinga. Disse que vai castig 
nis.
     Ele riu.
     -        Ela disse isso? Num t feliz e bem disposta?
     -        T. A ingrata. Tem pena do sinh. Qu que ele fique
     Ele tirou algumas baforadas do grosso cigarro de palha que tinha entre os dedos. Ela prosseguiu:
     -        Cheg o sinh Menelau e a sinh disse que ele ficou descunfiado. Acredita nas mandiga e acha que o sinh t mandingado. Sinh t cum medo. Disse que, 
se ele descobre o que oc t fazendo, vai d castigo. Ela mandou diz pr desfaz tudo e par com essas coisa.
     Ele ficou srio.
     -        Sei o que fao. Num carece ter medo.
     Num gesto gil agarrou a Zefa, abraando-a.
     -        E oc, o que  que qu?
     -        Preciso obedec a sinh.
     -        Mas num  isso o que oc qu.
     -        No. Num . Por mim tudo t muito bem do jeito que t.
O        sinh num faz falta nenhuma. Mas, como a sinh mandou, oc
faz o que ela qu. Quero s v quando ele tiv de novo mandando
em tudo, se ela vai me d razo. Deixa ela.
     -        Oc tem medo de branco?
     -        Eu? Tenho. Eles pode me separ da sinh, me mand pr longe daqui, castig oc.
     -        Qual! Tenho as costa quente. Tenho meu santo. Ningum chega se ele num deix. Posso dobr esse Menelau como eu quiz. Qu v?
     A Zefa sacudiu a cabea.
     -        Melhor no. A sinh pediu e eu fao o que minha sinh qu. Gosto dela e obedeo.
     Ele riu, divertido.
     -        E o que eu quero, oc num faz?
     -        Num sei...
     -        Pois eu gosto de oc. Fao tudo que oc qu. Fica aqui comigo hoje e eu fao tudo o que me pedi.
     -        T bem. Oc anda me mandingando tambm, seu negro xerido.
     - Oc que me mandingou. T louco pr oc. Zefa riu satisfeita. O Bentinho agradava-a muito. Seus poderes especiais a facinavam. Davam-lhe a sensao de ser 
importante, de valer alguma coisa, de se saber mais do que os brancos. O que ele tinha feito com o orgulhoso Demerval, fizera-a vibrar de satisfao.
    Durante anos suportara impotente a arrogncia do sinh e o sofrimento da sinh. Agora, graas aos poderes do Bentinho, tudo tinha mudado. L estava ele, dependente, 
inseguro, indiferente. Tinha se transformado em um pobre branco, sem nenhuma influncia no destino de todos.
    Entregou-se ao Bentinho feliz, sentindo-se valorizada. Perto dele, no temia nada, porqanto ele tinha amplos poderes e conseguia at comandar o sinhozinho branco.

CAPTULO 4

     Os dias que se seguiram foram de atividade intensa para Menelau e Maria Jos. A princpio, Menelau tentara convencer o irmo a orar e compreender que podia 
estar sendo subjugado por foras de magia. Porm Demerval recusava-se a ouvir o assunto. No acreditava nessas coisas.
     Apesar disso, Menelau e Maria Jos oravam em voz alta todas as tardes no quarto do enfermo. Mas as melhoras no vinham.
     Havia os negcios para ser regularizados e Menelau saa logo cedo com o capataz a tratar da plantao e decidir o que fazer. Quase sempre levava Maria Jos, 
a quem procurava explicar tudo, o que irritava o capataz porqanto achava que mulher no deveria misturar-se aos negcios. Calava em sua contrariedade. Menelau estava 
decidido a preparar a cunhada para assumir os negcios na ausncia do marido.
     Maria Jos, a princpio tmida, aos poucos foi fazendo observaes que irritavam o capataz, encantavam Menelau, pela perspiccia e pelo lado prtico que apresentavam.
     Expressando ironicamente seu desagrado, o capataz comentou de forma desairosa a presena da sinh em meio aos rudes labores dos homens, no que foi energicamente 
censurado por Menelau:
     -        A sinh dona Maria Jos  a dona de tudo isto. Senhora da casa, da fazenda, dos escravos, de tudo. Manda como quiser. O sinh Demerval est doente 
e ela agora  quem d s ordens. Se no quer obedecer com respeito, a porta da rua  serventia da casa. Pode ir-se embora.
     Ele empalideceu e disse com humildade:
     -        No, isso no. Sempre obedeci a sinh.  que eu achava que esses negcios so coisa de homem. Mulher s sabe mandar nos escravos da casa.
     -        Engana-se, Manoel. Enquanto o sinh no puder voltar ao trabalho, ela  quem decide tudo. Se quer continuar, deve obedec-la.
     -        Est bem. Se o sinhozinho Menelau acha, eu fao.
     -        Muito bem. A sinh d as ordens e voc faz.
    Assim Maria Jos, aos poucos, foi se interessando pelos negcios, e apoiada pelo cunhado, foi conseguindo inteirar-se de tudo.
    Por causa disso, estavam sempre juntos e Maria Antnia, enfadada, aborrecida, demonstrava seu desagrado. Odiava a fazenda, a vida simples e at a rotina da casa. 
O rudo das crianas deixava-a nervosa. No queria filhos. Tinha horror  gravidez e ao parto. Vrias vezes discutira com o marido por causa disso. Ele esperava 
ansiosamente um herdeiro. Ela, sem que ele soubesse, submetia-se a vrios tratamentos em cumplicidade com sua ama, a fim de no ter filhos. Havia uma erva que ela 
tomava que impedia a gravidez.
     Estava irritada. Desejava voltar  corte. Afinal, esse irmo nunca se tinha importado com eles. Por que agora deveriam sacrificar-se para ajud-lo? Insistia 
com o marido para que voltassem para casa. Era intil, Menelau estava irredutvel. Um dia, cansada de tentar convenc-lo, muito irritada, observou:
     - Estou aqui, neste mato, entediada, enquanto voc mistura-se aos negros o dia inteiro. No acha que j fizemos o bastante por esse irmo que nunca sequer nos 
visitou?
     Menelau franziu o cenho com desagrado. Olhando a fisionomia carregada da esposa, perguntou-se pela milsima vez, por que tinha concordado em despos-la. Apesar 
das vantagens daquela aliana que unira duas tradicionais e abastadas famlias, cujos pais tinham contratado o enlace desde a infncia, Menelau casara-se com Maria 
Antnia porque a tinha julgado meiga e carinhosa. Supusera-a com os mesmos ideais que guardava no corao e partira para o casamento, com a disposio de constituir 
uma famlia honesta e feliz. Durante seus furtivos encontros no noivado, mal pudera sentir-lhe as idias. Contudo, jamais tinha lhe passado pela cabea que uma mulher 
jovem e bonita pudesse pensar de forma diferente. Sua me era extremamente bondosa e dedicada aos seis filhos que criara em um casamento feliz.
     Entretanto, durante os dois anos de vida em comum, Menelau assistira ao ruir de todas as suas esperanas. Maria Antnia, assim que se tinha visto livre da tutela 
paterna, demonstrara desusado interesse pela vida da corte, mergulhando fascinada nas futilidades dos sales, prevalecendo-se da liberalidade do marido que, cansado 
dessas atividades, muitas vezes no a acompanhava, deixando-a apenas com a dama de companhia.
     A princpio, atribura esse fascnio ao deslumbramento da menina que sempre vivera reclusa na severidade dos pais, mas com o correr do tempo, conhecendo-a melhor, 
percebeu sua averso por filhos, a futilidade das atitudes e a aridez do seu carter.
     Diante da frieza da esposa que jamais tivera para com ele um gesto de afeto, Menelau fora aos poucos reduzindo suas demonstraes afetivas, e apesar de corts 
e delicado, educado e afvel, tornara-se frio para com ela. Vendo-lhe a rigidez da fisionomia, sentiu que a presena de sua mulher comeava a irrit-lo. Fez o possvel 
para conter-se. Foi com voz educada que respondeu:
     -        O que Demerval fez ou faria, no me importa saber. Sempre agi de acordo com minha conscincia. Ele  meu irmo e precisa de mim agora. E no  s ele. 
Tem uma famlia a zelar. Seus filhos esto ao abandono e Maria Jos no sabe o que fazer. Vou ficar aqui at que a situao esteja melhor e possamos levar Demerval 
 corte para tratamento. Voc quis acompanhar-me. No a obriguei.
     Ela deu de ombros e respondeu com voz que a raiva fazia trmula:
     -        Pois voc est se excedendo, fez mais do que podia. Chego at a pensar que sua presena aqui deve-se mais a Maria Jos do que a Demerval. Os dois no 
se largam. J est dando o que falar e eu no estou aqui para ser ultrajada.
     Menelau ficou rubro. Tal situao jamais lhe passara pela cabea. Era homem correto e a calnia teve o dom de irrit-lo ainda mais. Aproximou-se da mulher com 
os olhos chispando de surpresa e de revolta.
     -        Uma infmia destas s pode ser gerada em uma cabea demente como a sua.
     -        Pois no h outra explicao para nossa permanncia neste ermo. Estou decidida a partir o quanto antes. No suporto mais esta situao. Amanh volto 
para a capital da provncia e voc deve decidir: ela ou eu!
     Menelau mal acreditava no que ouvia. Era injusto e torpe. E ele no ia submeter-se aos caprichos de sua mulher, abandonando o irmo e sua famlia naquela situao. 
S regressaria quando pudesse deixar os negcios em ordem na fazenda e levar Demerval para a cidade.
     Estavam em plena colheita de caf e deixar a fazenda entregue a incapacidade dos negros poderia pr tudo a perder.
     -        Faa o que quiser. Voc j decidiu.
     -        No vem comigo?
     -        No. S voltarei quando tudo aqui estiver resolvido.
     -         sua ltima palavra?
     -        Quer dizer que me troca por esta mulher e sua gentalha? Menelau procurou controlar seus mpetos de bater-lhe. Estava no limite de sua tolerncia.
     -        No admito que fale assim dos meus parentes.
     -        No esquea que voc escolheu. Parto amanh. Regresso  nossa casa magoada e ferida. Meus pais vo saber disso e o seu tambm.
     Deu-lhe as costas e retirou-se de cabea erguida. Menelau permaneceu pensativo procurando acalmar-se. Sentou-se colocando a cabea entre as mos. Sua conscincia 
no o acusava de nada. Suas intenes eram puras e fraternas. Embora devesse respeito  sua mulher, no podia ceder aos seus caprichos e imposies.
     Ficou ali, largo tempo, cabea entre as mos, olhos perdidos no tempo. De repente, sentiu uma mozinha quente segurando as suas tentando descobrir-lhe o rosto.
     -        Tio Lau, o senhor est chorando?
     Menelau olhou o rostinho delicado de Ana, em cujo olhar leu preocupao e afeto. Segurou-lhe as mos com carinho.
-        No, minha filha. No estou chorando.
-        Mas est triste.
     -        Um pouco.
     -        Por qu?
     -        Por nada. Porque no tenho uma filha bonita como voc.
     Ela chegou-se mais com os olhos brilhantes:
     -        Mas eu gosto muito do senhor. No posso ficar no lugar dela at a hora dela chegar?
     Ele riu, divertido. A candura das crianas o encantava.
     -        Sou um tio muito severo. No tem medo?
     Ela balanou a cabecinha aureolada por belos cabelos castanhos.
     -        No. Tio Lau, conta aquela histria do saci-perer?
-        Conto. Ele faz muitas diabruras.
     E Menelau, colocando a menina ao colo, contou-lhe histrias que a fizeram vibrar de admirao e alegria. Quando terminou, sua irritao tinha passado. Sua mulher 
havia escolhido livremente. Por certo, refletiria melhor sobre suas absurdas palavras. E se resolvesse partir, pacincia. Ele s iria quando tudo estivesse em ordem.
     No entanto, Maria Antnia no se arrependeu. No dia seguinte, ao romper da alva, ladeada pelos dois cavalheiros, pela aia, pelo cocheiro e seu valete, partiu 
de volta para casa. No se despediu de ningum.
     Maria Jos, preocupada, tentou saber a causa do desagrado da cunhada, que tolerava com educao, apesar dela ser malcriada, molestar os escravos, em especial 
a Zef a com quem implicava visivelmente. Mesmo estando irritada, Maria Jos procurava trat-la bem, em ateno ao cunhado a quem devia tantas obrigaes. Vendo-a 
partir sozinha e visivelmente zangada, procurou-o aflita.
     -        Dona Maria Antnia partiu hoje sem despedir-se. Por acaso algum aqui a ofendeu?
     Ele fez um gesto vago.
     -        Peo desculpas. Ela estava com saudades da famlia, resolveu regressar.
     -        Menelau, pareceu-me que ela no estava contente em nossa casa. Posso saber o que a desagradou?
     -        Para dizer a verdade, tudo quanto a afasta da corte e dos sales a desagrada - desabafou ele, magoado.
     -        No est sendo muito severo com ela?  natural que em sua juventude ela aprecie a beleza e os jogos dos sales.
     Ele concordou.
     -         natural, mas ela coloca isso acima de tudo o mais. At dos filhos e do lar.
     -        Estou sendo indiscreta. Peo desculpas.
     Ele estava muito amargurado. Todo sentimento represado, toda sua desiluso veio  tona.
     -        Voc  me e esposa dedicada. Pode compreender como me sinto. Minha mulher recusa-se a ser me e prefere as futilidades da corte  vida no lar.
     Maria Jos estava chocada. As confidncias do cunhado tocavam-lhe fundo os sentimentos. Um homem to afetuoso, to amigo das crianas, to delicado, casado 
com aquela megera. Porm, no queria ofend-lo expressando sua antipatia por Maria Antnia.
     -        Ontem nos desentendemos. Ela queria voltar  corte e eu pretendo ficar aqui durante mais algum tempo. Nossos negcios l no Rio vo bem. Meu procurador 
cuida de tudo como se fosse eu mesmo.
     - No seria melhor regressar? No gostaria de causar-lhe um problema famliar.
     -        Agora, em meio  colheita? Mais alguns dias no vo me prejudicar. Alm do que, pretendo levar Demerval para tratamento.
     -        J lhe causamos muitos trabalhos e aborrecimentos. Fez muito por ns. Se quiser regressar com sua esposa, saberemos compreender. No se acanhe por 
isso. Demerval entender.
     A voz dela tremia.
     -        E voc? - indagou ele, fixando-a nos olhos. - Quer que eu parta?
     Maria Jos desejaria dizer-lhe que no. Que sua presena inspirava-lhe confiana e bem-estar. Que tinha horror de ficar sozinha de novo, com tantos problemas 
a resolver. No teve coragem. Baixou os olhos e respondeu:
     -        O que eu quero no importa. Voc tem se sacrificado por ns e no  justo ret-lo, ainda mais contra a vontade de sua mulher.
     -        Olhe para mim. Diga-me com sinceridade. Estou sendo de alguma valia aqui para voc? Estou conseguindo ajudar?
     Nos olhos dela surgiu o brilho de uma lgrima.
     -        Ainda pergunta? Nem que vivamos cem anos poderemos pagar-lhe tanta dedicao e carinho.
     -        Muito bem. Se sou til,  o suficiente. Esqueamos a descortesia de dona Maria Antnia. Pensemos em cuidar das melhoras de Demerval que  o mais importante.
     Maria Jos comoveu-se. Tanta nobreza de alma, tanto desprendimento, tocavam-lhe fundo o corao. Jamais conhecera homem to generoso. As crianas adoravam-no 
e ela sentia-se bem vendo-o com elas  volta, a pequena Ana ao colo, contando histrias que todos ouviam enternecidos, beijando-os, abraando-os com carinho.
     Essa atitude a maravilhava. Demerval era pai extremoso, mas jamais permitira a seus filhos essas liberalidades. Nunca vira algum agir assim e chegara at a 
temer que as crianas viessem a abusar de tanto agrado. Todavia, com surpresa, percebeu que era com prazer que atendiam a qualquer desejo do tio, obedecendo-o docilmente. 
Menelau conseguira deles muito mais ateno e obedincia do que Demerval e ela com seus rigores e disciplinas.
     Menelau era bom e afetuoso, mas tambm homem severo e de brio. Inteligente e culto, no alardeava cultura como Demerval, porm surpreendia com seus conhecimentos 
sempre atuais e oportunos.
     Naqueles dois meses de convivncia constante, Maria Jos aprendera a respeitar o cunhado e a acatar sua orientao.
     -        Est bem - concordou ela. - Mas, assim que a colheita acabar e tudo estiver em ordem, voltaremos para Itu e l procuraremos mdico para Demerval. Confio 
em Deus que ele ficar bom.
     Menelau baixou a cabea, pensativo.
     -        Se ao menos ele concordasse em orar conosco! Se ele compreendesse e aceitasse a possibilidade de estar sendo vtima de magia!
     Maria Jos sentiu um arrepio percorrer-lhe o corpo.
     -        Voc acredita mesmo nessas coisas? Custa-me aceitar!
     Ele olhou-a, srio.
     -        H coisas que ns no sabemos explicar, mas que nem por isso deixam de acontecer. Que outra razo haveria para a situao de Demerval? Doena no . 
O mdico  da roa, mas bom. Depois, Demerval sempre foi homem de vontade e de brio. Para ficar reduzido ao que est, s mesmo por ao de alguma fora que no podemos 
controlar.
     -        Demerval no  homem religioso, contudo sempre foi de cumprir seus deveres com Deus, como manda a igreja e rezava todas as noites.  homem bom e honesto. 
Deve ter proteo de Deus.  isso que no consigo compreender. Essa fora do mal pode mais do que Deus? Se ns temos rezado, todos os dias, e ele no melhora  de 
crer que eles, os espritos do mal sejam mais fortes. Neste caso, estamos  sua merc?
     Menelau suspirou fundo.
     -        Como eu disse, h muitas coisas que no podemos explicar, ou entender, mas que acontecem. O caso do mano  um deles. No sabemos que fora  essa que 
o subjuga dessa forma, transformando-o de homem dinmico e ativo, atuante e lcido, nessa figura dependente e deprimida que estamos vendo. Porm, o fato de no sabermos 
a causa de uma coisa, no significa que ela seja invencvel. Deus sempre pode mais. No existe nada que seja igual ou maior do que ele. Se isso acontecesse, ento, 
ele deixaria de ser Deus.
       O que quer dizer?
     -        Quero dizer que se esta fora derrubou Demerval, foi porque Deus permitiu, houve alguma razo.
     -        Isso me confunde. Se Deus permitiu, ento ele apoiou o mal?
       - De forma alguma. Mas o sofrimento, na vida, ajuda o homem a enxergar melhor a verdade, a aprender a respeitar o direito dos outros. sensibiliza. O que eu 
quero dizer  que Demerval pode estar sendo vtima de foras do mal que o colocaram na situao atual; contudo, embora Deus no tenha determinado isso, deixa-o experimentar 
essa situao, para que ele desenvolva mais a compreenso, a pacincia e tenha por algum tempo a conscincia de que no  onipotente, como alardeava nos tempos de 
boa sade.
     Maria Jos ficou pensativa durante alguns segundos, depois perguntou:
     -        Quer dizer que ele vai ficar bom?
     -        Espero que sim. Mas quando? Isso s Deus sabe. Provavelmente quando tiver aprendido a lio que a vida quer ensinar-lhe.
     -        E se ele teimar? - tornou ela angustiada, recordando o temperamento difcil do marido.
     -        Ser pior. Por isso tento faz-lo compreender.
     -        Quer dizer ento que as foras do mal esto fazendo um benefcio. Nesse caso eles no so culpados?
     -        Eu no disse isso. Quem faz o mal  sempre culpado. Se existe algum, como eu suspeito, que est fazendo mandinga para o mano, um dia por certo ser 
castigado. Quem semeia ventos, colhe tempestade;  um ditado portugus muito verdadeiro. Quem estiver fazendo isso est unido aos espritos atrasados e por isso 
algum dia ainda vo dar-se conta do erro e sofrer. Por outro lado, Demerval talvez estivesse muito insensvel, distante da realidade. Ento, estava sem defesa e 
foi atingido.
     -        Isso  muito complicado. Quem garante que seja assim?
     -        A vida. Se voc observar, vai perceber.
     Maria Jos calou-se. Na verdade ele podia ter razo. Intimamente reconhecia que o marido era duro e obstinado. Todos deviam obedec-lo cegamente e quando dispunha 
as coisas, no ouvia nenhum argumento ou ponderao. Apesar de penalizada, Maria Jos reconheceu no cunhado certa razo.
     Absteve-se de comentar. Tinha vergonha. Demerval l, doente e fraco e ela recordando seus erros. Era covardia.
     -        Quando pensa que poderemos voltar  cidade? - indagou, ansiosa.
     -        Dentro de uma semana. Deixaremos tudo em ordem, o caf ensacado, o celeiro cheio.
     Poderemos voltar.
     Maria Jos suspirou.
     -        Quem sabe saindo daqui, ele melhore.
     -        Pode ser. Ainda penso que deveriam ir para a provncia. Na corte tudo ser mais fcil. Itu no tem recursos como L em So Paulo, onde h mdicos de 
grande capacidade.
     -        E se o caso no for de mdico?
     -        Tenho um amigo no Rio de Janeiro que entende dessas coisas. Posso mandar um correio chamando-o. Mas aqui, neste fim de mundo, tudo fica mais difcil.
     -        O melhor ser sairmos daqui o quanto antes.
     -        Sairemos. Vamos trabalhar bastante e dentro de uma semana estaremos na cidade.
     L, decidiremos o que fazer, conforme estiverem as coisas. Tenho pensado muito.
     Talvez seja melhor irmos todos para o Rio de Janeiro.
Maria Jos sacudiu a cabea negativamente.
     -        Espero que no. No gostaria de incomodar dona Maria Antnia. Alm disso, seria um transtorno ter que fechar a casa de novo, ir para to longe...
     -        Se for preciso, o faremos. No podemos deixar o mano sem socorro. A vila  to pequena! No creio que l haja pessoa capacitada. para atender o caso 
de Demerval. Em minha casa, na capital, teremos mais recursos.
     -        E dona Maria Antnia? No ir gostar, com certeza.
     Menelau fez gesto de enfado.
     -        Dona Maria Antnia por certo andar muito ocupada, s voltas com os sales e as modas, para incomodar-se. Depois, sempre fao o que acho direito, e 
nesse caso no dou ateno a ningum.
     Maria Jos calou-se, mas no ntimo pediu a Deus para no ir. Ser hspede de to desagradvel criatura, por certo seria doloroso. Ela no suportava crianas 
e no tinha nenhuma considerao com Demerval, sua doena nem com a cunhada.
     Ficou preocupada. A Zefa percebeu e perguntou solcita:
     -        A sinh anda sria. Parece que viu assombrao.
     -        Estou preocupada.
     -        Com o qu?
     -        Com tudo. Demerval no melhora. Agora, Menelau quer levar-nos todos para sua casa na capital da provncia. Acha que l tem mais recursos para Demerval.
     -        Cruz credo, sinh. Na casa daquela xerida.
     -        No fale assim de dona Maria Antnia.  esposa do dr. Menelau e minha cunhada. Exijo respeito.
     -        Mas sinh, ela  to marvada! Eu num quero  pr casa dela!
     - Como se negro tivesse vontade!
     - Pois eu tenho, sinh. Para l nis num vamo. Vosmic vai v.
     - No inventa mandinga nenhuma que Deus castiga. Est proibida de fazer qualquer coisa.
     Ela deu de ombros.
     - Vosmic num acredita nessas coisa!
     - Mas no quero voc metida nessas tarantas. Se o dr. Menelau sabe, vende voc. No perdoa mesmo. E a, no poderei fazer nada.
     A negra deu de ombros.
     - Vosmic num fica sem sua negra. Ele num vai faz oc sofr.
     Maria Jos levantou a mo, ameaadora.
     - Some daqui, Zefa. Se me aborrece, vendo voc eu mesma.
     Ela saiu derrubando o beio com certa arrogncia. Maria Jos fez fora para no rir. A pretinha intrometida tinha razo. Sabia que era estimada. Maria Jos 
nada fazia sem ela. No suportava ver Maria Antnia maltratar sua Zef a. Essa era uma das razes pelas quais no queria ir. Precisava rezar, pedir a Deus que a ajudasse. 
Se Demerval melhorasse, tudo voltaria ao normal.
     Sentiu um friozinho no estmago. Tudo seria como antes. Demerval decidindo, Demerval mandando, ela tendo que obedecer. No poderia ser diferente? Quem sabe 
agora, depois de tanto sofrimento, ele estivesse mudado. Por que ele no era como Menelau? Amoroso com as crianas, apesar de enrgico, atencioso com ela, sem ser 
afetado, competente nos negcios, sem ser implicante e teimoso.
     Menelau tinha todas as qualidades. Alm do mais era um homem bonito. Muito parecido com o irmo, nos cabelos, no riso e at de corpo. Mas como podiam ser to 
diferentes? O riso franco, os olhos expressivos e at os cabelos revoltos, davam-lhe ares de menino. Era mais jovem, mas Demerval aparentava ser seu pai.
     Maria Jos sacudiu os ombros. No queria pensar nessas coisas. Tinha pena do marido, to indefeso e triste, reduzido quela situao. Porm, era-lhe penoso 
pensar que chegaria o dia da partida de Menelau. Ele preenchia as horas com mil atividades. Pensava em tudo, mas fazia com que ela participasse. Exigia-lhe opinies, 
acatava-as, valorizando as que julgava boas. Ensinava-lhe sempre o que fazer, no impunha nada, pelo contrrio, explicava-lhe as causas e deixavalhe sempre a possibilidade 
de escolher.
     Na fazenda, a jovem senhora j sabia como agir e aprendera a lidar com os negcios muito bem. Porm,  noite, aps o jantar, no salo, as reunies tinham alegria 
especial. As crianas participavam. Dava gosto v-los, com o tio a mostrar-lhes gravuras, ensinando-lhes histria, arte, cincias, com carinho e amor.
     Era sempre a custo que eles concordavam em ir para cama no horrio estabelecido. Geralmente, Maria Jos, ao levar as crianas para o quarto, no mais voltava 
no salo. Ia fazer companhia a Demerval, embora este pouco se importasse com sua presena. Ficava sempre dormindo, e quando instado a falar, s fazia lamentar-se 
indefinidamente.
     Menelau tentava arranc-lo da situao inutilmente. Recusava-se a tudo que no fosse dormir e lamentar-se.
     Maria Jos considerava seu dever ficar o lado do marido mesmo assim, e l permanecia lendo,  luz do lampio, ou segurando-lhe a mo como a transmitir-lhe 
um pouco de coragem, de nimo, de apoio.
     Naquela noite, Maria Jos quase no pde dormir. Pensamentos contraditrios invadiam-lhe a cabea preocupada. Era muito tarde quando conseguiu conciliar o sono.
     Acordou no dia seguinte, com o sol alto e levantou-se de um salto. Tinha que ter sado com o cunhado e perdera a hora. A Zef a, que velava acocorada a um canto 
do quarto, levantou-se.
     -        Est tarde. Preciso sair. Por que no me acordou?
     -        Calma, sinh. Vosmic teve sono agitado. Dormiu mal. Expliquei ao sinh Menelau.
     Ele achou melhor vosmic fic descansando, por hoje.
     -        Mas eu no gosto. Tenho o que fazer. Devia ter me chamado. Venha, quero vestir-me.
     Minutos depois Maria Jos, j vestida, circulava pela casa, inteirando-se de tudo, dando as ordens do dia. Estava na cozinha, quando a Zefa chamou-a esbaforida.
     -        Sinh... acode l na sala... o dr. Menelau...
     -        O que foi Zefa?
     -        Num sei no. Mas o Z e o Biro to trazendo ele carregado.
     -        Valha-me Deus! gritou ela, empalidecendo.
     Trmula, correu para a sala enquanto que Menelau, plido e suando muito, era colocado no sof.
     -        O que foi? O que aconteceu? - indagou Maria Jos, aflita.
     -        Sinhozinho caiu do cavalo.
     -        Vo buscar j o dr. Amarante. Corra, pelo amor de Deus.
     Enquanto o negro saiu rpido, Maria Jos aproximou-se do cunhado penalizada.
     -        Como se sente?
Ele abriu os olhos e tentou sorrir, sem muito sucesso.
     -        Dem-me muito as costas e a perna esquerda. Acho que est quebrada.
     -        O dr. Amarante dar um jeito. Tenha calma. Zefa, v buscar
     A negra saiu correndo e logo mais voltou com o remdio.
     -        Beba.  remdio da roa, mas far bem.
     Menelau obedeceu. Maria Jos estava trmula e aflita, O dr. Amarante chegou meia hora depois e examinou Menelau detidamente. Depois concluiu:
     -        Vou enfaixar o peito. Deve ter partido a costela. A perna tambm tem que ser encanada. Est doendo muito? - indagou, penalizado.
     -        Est - gemeu Menelau.
     -        Vai melhorar. Beba isto - ordenou o mdico, depois de preparar rapidamente uma poo.
     Menelau obedeceu. O mdico esperou alguns minutos e depois comeou a trabalhar.
     -        No ser melhor transport-lo para cama? - sugeriu Maria Jos.
     -        S depois de devidamente tratado. No convm remov-lo por causa das costas.
     Maria Jos estava plida e trmula. Apesar disso, ajudou no que pde enquanto a Zef a providenciava o material caseiro de que o mdico precisava. S depois 
de muito bem enfaixado no trax e com a perna devidamente canalizada foi que Menelau pde ser cuidadosamente transportado para o leito.
     O        mdico sentou-se ao seu lado dizendo-lhe que tudo estava bem agora. Que precisava repousar e permanecer tranqilo. Menelau, apesar da poo calmante 
e do sonfero que o mdico lhe dera, demorou a adormecer. Cochilava para, de repente, assustar-se e acordar. O dr. Amarante, com pacincia e calma, permaneceu ali, 
velando, at que o visse finalmente render-se ao sono.
Na sala, Maria Jos indagou aflita:
     -        Ento, doutor, ele ficar bom?
     -        Creio que sim. J sabe, dever tomar os dois medicamentos. Por certo ter febre, no se preocupe com isso.  natural.  s no deixar subir muito. 
Faa compressas frias na testa e saco de areia quente nos ps. A senhora sabe como . Se sentir dores, d-lhe o sedativo.
     Amanh ainda ser penoso. mas depois, tudo vai melhorar. Pela tardinha, volto por aqui para ver como tudo est passando.
     -        Estou aflita. Demerval continua na mesma. Agora Menelau. Parece mandinga!
     O        mdico olhou-a srio.
     -        Por que diz isso?
     -         toa. Ns amos embora na semana que vem.
     Maria Jos calou-se, acanhada. No queria mostrar falta de confiana no dr. Amarante. Apesar de tudo, considerava-o um excelente mdico.
     -        Mesmo com o sr. Demerval assim?
     -        ... Ele no melhora mesmo. Ns no podemos pensar em ficar aqui para sempre. Meu cunhado tem negcios na capital e eu preciso ver como vo nossas 
coisas na vila. Temos esperana que, mudando de ares, voltando para casa, ele melhore.
     O        mdico ficou pensativo, depois considerou, srio:
     -        Pode dizer. Com certeza querem buscar recursos na cidade. Afinal, o sr. Demerval continua doente.  justo que procurem pelos recursos, por outros mdicos. 
Tenho pensado muito no caso de seu marido. Parece-me muito estranho. Por que falou em mandinga?
     -        Por nada. Bobagem. Meu cunhado acredita nessas coisas. Disse que Demerval parece vtima de um sortilgio. No creio nisso. Sou catlica. Porm, depois 
do que aconteceu hoje, surgiu-me a idia de que algo no quer que deixemos a fazenda. Parece mentira, mas Demerval ficou doente na vspera de irmos embora. E agora 
Menelau, quando resolvemos sair daqui, pronto, aconteceu. Sei que pode ser uma coincidncia, mas  muito estranho. s vezes, sinto como uma barreira entre ns e 
nossa casa na vila. Parece-me que nunca mais sairemos daqui.
     O        mdico passou a mo pelos cabelos, pensativo. Depois ajuntou:
     -        ... o caso  estranho.
     -        O senhor acredita nessas coisas?
     -        Hum... Tenho visto coisas neste mundo de admirar. No posso deixar de dizer que o caso do sr. Demerval  muito especial. Fisicamente no encontro nada. 
Desgosto, ele no teve. Como explicar seu estado de depresso e fraqueza? Um homem dinmico, cheio de disposio. Vontade de ferro, opinio firme. Eu diria que ele 
parece hipnotizado.
     -        Hipnotizado?
     -        . S a hipnose poderia explicar essa situao.
     -        Como  isso?
     -        Um agente, ou melhor, uma pessoa de vontade forte, domina a outra que fica dependente, fazendo tudo o que o agente ordena.
     -        Mas aqui no existe ningum dominando Demerval.
     -        Pode ser algum que no sabemos, que no est fsicamente aqui.
     -        Isso  impossvel!
     -        No , dona Maria Jos. A cincia prova que a fora do pensamento pode atuar mesmo  distncia. Se a senhora pensar muito em alguma pessoa, pode faz-la 
recordar sua presena, mesmo que esteja do outro lado do mundo.
     -        Essa teoria  estranha. Alm do mais, Demerval no  pessoa impressionvel. Quem poderia estar fazendo isso?
     -        Os negros dizem que as almas dos mortos esto  vossa volta...
     -        Cruz credo, doutor! O senhor, to instrudo, falando essas coisas!
     -        Tenho visto coisas nesta vida, dona Maria Jos. Acredito que as almas dos mortos podem estar ao nosso lado. Acha que depois da morte no existe vida?
     -        No gosto de pensar nisso. Estas histrias de assombrao so fantasias criadas pelos negros para vingarem-se dos brancos.
     O        mdico riu divertido.
     -        Mas a senhora tem medo.
     -        No se deve brincar com essas coisas, que merecem respeito.
     -        No estou brincando. O sr. Demerval era homem teimoso e de opinio. Dirigia os negcios com mo de ferro. Pode muito bem ter dado motivo a uma magia 
qualquer.
     -        Doutor Amarante! O senhor tambm? Menelau acha isso.
     -        Ah! Ele entende dessas coisas?
     -        Um pouco. Tem um amigo na capital que sabe como tratar desses assuntos. Pretendia procur-lo para Demerval.
     -        Ento foi isso! - exclamou o mdico. - Olhe, dona Maria Jos, embora no acredite, no custa tentar. Arranje a um bom mandingueiro e vamos ver o que 
acontece.
     -        No posso. Demerval no aprovaria. No queria sequer ouvir falar dessas coisas.
     -        Ele agora no est em condies de decidir. Alm do mais, a situao  sria, O dr. Menelau est l, todo quebrado. Esses casos podem complicar-se.
     -        Santo Deus! O que devo fazer? Chamar o padre?
     O        mdico sacudiu a cabea.
     -        No acredito que eles entendam dessas coisas. O melhor seria mesmo algum que conhecesse o assunto. Esse amigo do dr. Menelau, no viria?
     -        No sei...
     -        Falarei com o dr. Menelau sobre o assunto. Veremos o que se pode fazer.
     -        Custa-me acreditar.
     -         apenas uma hiptese. Tenho dado tratos  bola tentando explicar o caso do sr. Demerval. Tudo quanto tentei foi intil. Ele no melhora. Por que no 
buscarmos esses recursos? A magia  praticada desde que o mundo  mundo. E, embora no tenhamos condies de entender, ela tem atingido as pessoas. Os negros, por 
sua religio, seus costumes, suas crenas, conhecem certas foras da natureza. Por que no as usariam contra os brancos que os dominam?
     -        Os negros devem amar seus senhores que lhes do tudo.
     -        Mas lhes tiraram a liberdade, o direito de escolha.
     -        O senhor  contra a escravido!
     -        Estou apenas imaginando como eles devem sentir-se.
     -        Bobagem. Negro  como cachorro. Tem que ser fiel ao dono. Afinal, o que seria deles sem o branco? Andariam por a, sem eira nem beira, bebendo e vagabundeando. 
 o branco que os ajuda a viver. Ensina-lhes o que sabem, d-lhes de comer, de beber.
Os olhos do mdico brilharam emotivos.
     -        Bem se v que a senhora no tem reparado o que vai por a. Os negros com fome, magros, sofridos, dormindo como porcos, trabalhando de sol a sol, revoltados 
e infelizes.
Maria Jos deu de ombros.
     -        Pode ser. Porm, no aqui. Em nossa fazenda, eles tm comida farta e casa boa. Demerval odeia misria. Pode ser enrgico, mas no judia de ningum. 
S pune os faltosos para exemplo.
     -        Ainda bem. Nunca lhe ocorreu que eles so seres humanos como ns?
     -        Eles no so como ns. Foram criados para serem escravos. Muitos nem isso sabem ser. No aprendem o servio mais simples e so peso morto. Nem para 
venda eles prestam.
     O        mdico olhou-a, triste.
     -        O ser humano  muito influenciado pelo meio. Eles no tm muita chance nem condies. Mas a senhora no pode ignorar que a histria mostra-nos alguns 
negros surpreendentemente inteligentes.
     -        O senhor fala dos mulatos. Misturaram-se aos brancos.
     -        Mesmo assim. Muitos deles superaram, em inteligncia, muitos brancos.
     -        Estou admirada, doutor. Essas idias nunca tinham me passado pela cabea.
     -        Na verdade, dona Maria Jos, pouca gente pensa nelas, mas os negros sofrem e, sem poder defender-se, usam os recursos da magia, das mandingas, que 
conhecem muito bem.
     Tenho visto casos muito estranhos, que ningum consegue explicar pelos meios normais.
     -        Isto no quer dizer que foi magia.
     -        No obrigatoriamente. Mas, em s conscincia, o que mais poderia ser? Famlias abastadas, gente importante, fortunas slidas, que de um dia para o 
outro so atingidas por uma srie de desgraas que vo dizimando tudo, deixando, ao cabo de certo tempo, desolao, misria, destruio.
     -        Isto  terrvel. Se for verdade, eles no pensam que destruindo seus senhores esto destruindo a si mesmos? No so os senhores que os sustentam e 
conduzem?
     -        A eles isso no importa. Querem mostrar que tambm tm fora. Que, apesar de tudo, ainda podem fazer o que querem, que so mais fortes.
     -        Que barbaridade! Cuspiram no prato em que comeram!
     -         s uma hiptese, lembre-se disso. Ainda assim, precisamos investigar.
     -        Custa-me crer!
     -        Apesar disso, precisamos estar alertas. Agora vou indo. Pela tardinha voltarei para ver o dr. Menelau. Passar bem.
     Depois que o mdico se foi, Maria Jos ficou pensativa. Para ela, os negros voltarem-se contra os senhores era tremenda injustia. Eles eram tratados com considerao 
em suas terras. O que mais podiam querer? Absurdo pensar em dar-lhes liberdade. Eram vagabundos e envolviam-se com facilidade em arruaas, bebidas. Sem o sinh, 
o que seria deles? Por certo morreriam de fome.
     Procurou esquecer o assunto e dividiu o tempo entre o marido e o cunhado, que apesar dos remdios sentiu dores e febre, requisitando ateno maior. A Zefa desdobrou-se 
em carinhosa ateno. Apreciava muito o dr. Menelau, que apesar de no dispensar-lhe nenhuma ateno especial, era bondoso com as crianas e com sua sinh.
     Menelau sentiu-se sensibilizado com a dedicao da escrava que excedia a tudo quanto ele conhecia. Era por isso que a cunhada a apreciava. Zef a valia bem esse 
afeto.
     Apesar das atenes e dos cuidados do mdico, s dois dias depois foi que Menelau comeou a melhorar. As dores passaram e a febre cedeu.
     O        mdico, satisfeito, considerou:
     -        Felizmente o perigo passou. Agora  questo de tempo. O senhor vai ficar bom. Deus  grande!
     Maria Jos sorriu alegre:
     -        Graas ao doutor, que tem se dedicado.
     -        Todos tm sido muito bons comigo. Deste jeito, vou acostumar-me ao bom trato.
     -        Dr. Menelau, gostaria de conversar um pouco sobre um assunto muito srio que me ocorreu.
     -        Pode falar, doutor.
     -        Estivemos conversando, eu e dona Maria Jos e pareceu-me estranho o que vem acontecendo aqui.
     Vendo Menelau atento, continuou:
     -        O caso do dr. Demerval intriga-me muito. Agora, o seu... Pode parecer coincidncia, mas no acha que h alguma fora misteriosa querendo mant-los 
aqui?
     -        A cada dia que passa, tenho mais suspeitas. Na verdade, foi s marcar a nossa volta para sofrer este acidente.
     -        Como aconteceu? Pode falar nisso sem molestar-se?
     -        Posso. Naquele dia, acordei meio indisposto. Sentia a cabea um tanto atordoada, certo mal-estar no estmago. Mal tomei meu caf. Mas,  medida que 
dispus-me a trabalhar, fui melhorando. At que montei o Conde para ir  casa do Manoel verificar alguns arranjos e no caminho, o Conde assustou-se. Empinou. Apanhado 
de surpresa, no consegui sustentar-me na sela. Ca. Senti dor horrvel nas costas e na perna, tonteei. S acordei L na sala.
     -        O Conde  um cavalo manso. Nunca derrubou ningum. At as crianas montam nele - esclareceu Maria Jos.
     -        O cavalo relinchou. Parece ter visto alguma coisa que o assustou - concluiu Menelau.
    O        mdico permaneceu pensativo por alguns minutos. Depois perguntou:
    -        No lhes parece suspeito isso?
    -        Tenho pensado muito em Demerval. Pode estar sendo vtima de feitiaria. Esses negros fazem coisas, o senhor sabe...
    -        No posso crer - disse Maria Jos, sem poder conter-se. No  possvel! Esto fantasiando. Esses pobres negros, ignorantes, incapazes! Como teriam nas 
mos tal poder? Seria descrer da existncia de Deus.
    -        H muitas coisas que ainda no sabemos - tornou Menelau, srio. - Deus no tem nada com isso. Eles so ignorantes, mas tm l seus conhecimentos de 
magia. No devemos esquecer que vieram da frica. Assim como os ndios sabem curar certas doenas e conhecem muitos segredos da mata, os negros conhecem a magia, 
os espritos, etc.
    -        Por que Deus permite?
    -        Sou homem que acredita em Deus. Tenho percebido a Divina Providncia atuando, aliviando o sofrimento humano. Contudo, no consigo ainda compreender 
certas coisas. A senhora desculpe, dona Maria Jos, mas eu acho que os padres complicam muito e no explicam nada. Por isso, no creio neles nem aceito o que dizem. 
Nesta vida, para mim, s tm valor os fatos reais, as coisas que esto acontecendo. Deus  bom,  Pai, como eu disse, d para sentir sua bondade ajudando as pessoas. 
Porm, h os maus, os ambiciosos, os traidores, os mentirosos que abusam de tudo e de todos. Eles esto espalhados por toda parte. Padres, negros, polticos, senhores, 
enfim, esto  nossa volta. Praticam atos perversos a toda hora. Como Deus permite, no sei, mas tem sido assim desde que o mundo  mundo. Ele deve ter suas razes, 
h homens que merecem - concluiu o mdico.
    -        E quando ferem pessoas inocentes? - perguntou Maria Jos.
    -        Inocentes? Quem pode saber? A justia de Deus no age pelas nossas cabeas. Deve saber o que est fazendo. Se Deus est no leme de tudo, se ele  perfeito, 
logo sua justia tambm o .
    -        No posso aceitar essa loucura. Jamais vou entender como um negro ignorante pode, com sua mandinga, atingir pessoas inocentes e bondosas, como Demerval 
e Menelau.
Maria Jos sacudiu a cabea, irritada. Menelau interveio:
        -          primeira vista, parece-nos assim. A religio nos tem ensinado isso. Porm, concordo com o doutor quando diz que os fatos no podem ser ignorados. 
Demerval  um homem bom e eu procuro no prejudicar ningum, entretanto, estamos longe da santidade. Por que no poderamos ser odiados por pessoas que se julgam 
injustiadas?
     -        Isso eu at concordo - atalhou Maria Jos. - O que no aceito  que eles tenham poderes para deixar Demerval no estado em que est. O seu caso, foi 
um acidente, nada mais. Os cavalos assustam-se com facilidade, no carece dar maior importncia a esse ponto.
     -        Dona Maria Jos, estamos s aventando hipteses. Claro que no afirmamos nada.
     Mas, como eu disse, tenho visto casos que deixaram clara a influncia de magia atingindo e destruindo famlias inteiras.
     -        O doutor  supersticioso!
     -        Ao contrrio. Tenho horror  superstio. Falo de certos fatos que presenciei e no pude explicar pelos meios comuns, que deixaram bem viva a participao 
de coisas sobrenaturais.
     -        Se isso fosse verdade, estaramos  merc deles. Que crueldade! Deus no permitiria!
     -        Consideraes filosficas, senhora dona Maria Jos. Isso no resolve nada. O fato  que a medicina no pode explicar a doena do seu marido e no tem 
podido cur-lo, o que  pior. Por isso, estamos procurando outras causas. Ainda no temos certeza de nada.
     Maria Jos suspirou nervosa. Menelau concordou:
     -        Penso como o senhor. No tenho certeza de nada. No entanto, a cada dia, mais desconfio e penso nessa possibilidade.
     Conversaram mais sobre o assunto e Menelau concordou em mandar um correio ao Rio de Janeiro, pedindo a seu amigo que viesse socorr-lo com a urgncia possvel.
     O        dr. Amarante informou-o que somente um ms depois, se tudo corresse bem, ele poderia agentar sem prejuzo a viagem de volta.
     Teriam portanto que permanecer na fazenda, pelo menos durante mais um ms.

CAPTULO 5

     Os dias que se seguiram foram tranqilos. Menelau recuperava-se a olhos vistos e o dr. Amarante, em sua visita diria, ia constatando a melhora.
     -        Se continuar assim, logo estar bom - disse um dia, muito satisfeito. - A propsito, aquele nosso caso...
     -        J escrevi para meu amigo no Rio de Janeiro. Espero-o com a brevidade possvel.
     Tenho a certeza de que nos ajudar muitssimo.  um estudioso dessas coisas. Ademais, tem experincia. Esteve na Inglaterra, Frana, com estudiosos, pesquisa 
h vrios anos.
     -        Estou ansioso para que ele chegue. Tenho presenciado fatos estranhos que a razo no consegue explicar. Gostaria de saber o que h por trs deles. 
Que fora  essa que atua e quais os recursos para venc-la.
     -        Acredito no poder da orao.
     - Eu tambm. Mas deve convir que isso no esclarece nada. recurso til, nem sempre satisfatrio. Suspeito que esses fatos
obedeam a determinadas leis da vida, que os condiciona a certas circunstncias, onde podem desenvolver-se.
  -         interessante, tem lgica.
     -        Pelo estudo, pelo conhecimento, talvez possamos levar em conta esses fatores e a sim, atuar com acerto. No posso entender a bondade de Deus permitindo 
esses fatos. H de haver uma razo justa e certa.
     -        E quando a descobrirmos...
     -        Estaremos aptos a intervir com acerto.
     Sempre que se encontravam, os dois conversavam interessados, querendo entender o que estaria ocorrendo ali, com eles.
     Dez dias depois do acidente, Menelau recebeu um portador com a missiva esperada. Seu amigo Eduardo recebera sua carta e pedia-lhe para aguardar mais alguns 
dias, enquanto desencumbia-se de atividade palaciana; assim que terminasse o trabalho, disporia de algumas semanas. Iria v-los na fazenda. Menelau entusiasmou-se, 
dizendo a Maria Jos:
     -        Eduardo  a pessoa adequada. Voc ver como  bom e inteligente. Somos amigos h longo tempo. Conheci-o em Paris, quando ramos estudantes. Ele  bacharel, 
como eu. Seu pai, legislador, homem de confiana do Imperador, era conselheiro da corte. Mandou o filho estudar e preparar-se nas melhores escolas, dizia que para 
servir o Brasil. O velho confiava na glria do nosso pas.
     -        Ele  jovem? - indagou Maria Jos.
     -        Dois anos menos do que eu. Conhecemo-nos e logo nos afeioamos. No s por estarmos no estrangeiro, mas por um lao de afinidade que imediatamente 
estabeleceu-se entre ns. Admiro-o muito. Sem querer escandalizar voc, sinto-O mais meu irmo do que Demerval. Com ele, sou mais chegado, conto-lhe minhas dvidas 
e meus problemas ntimos. Compreendemo-nos.
     -        Um homem fino, de alta educao. Teremos condies de hosped-Lo? A fazenda no tem muito conforto.
     Menelau sorriu.
     -        Nem pense nisso. Eduardo  simples de maneiras. Dar mais ateno ao trato que lhe dispensaremos do que ao conforto material.
     -        Pensa mesmo que ele poder ajudar-nos?
     -        Tenho certeza. Falava-me com entusiasmo desses assuntos. Como j disse, pesquisa h longos anos.  amigo de cientistas e estudiosos. Relatou-me casos 
de influncia do sobrenatural que ouvi mas no quis aprofundar-me. Tenho um pouco de receio dessas coisas.
     No queria envolver-me.
     -        E agora, por que quer mexer com esse assunto? - perguntou Maria Jos, temerosa.
     -        No temos outro remdio. Estamos dentro de uma situao que no sabemos resolver.
     Ela deu de ombros.
     -        Quer saber? Esto exagerando. Voc e o doutor Amarante esto vendo coisas onde no tem.
     -        Gostaria que fosse verdade. No entanto, sinceramente, no acredito. Sinto que em tudo isso existe algo estranho.  como se uma barreira tivesse se 
levantado entre ns e o mundo l fora. Sinto isso e no encontro explicao.
     Maria Jos arrepiou-se. No ousou confessar ao cunhado que sentia a mesma coisa.
     Parecia-lhe que nunca conseguiria sair da fazenda. Mudou de assunto:
     -        Vou preparar-lhe os aposentos. Espero que compreenda nossa vida simples.
     -        No se preocupe. Ele  homem educado e muito bom.
     Nos dias subseqentes, Eduardo era assunto obrigatrio das conversas deles, e tardava a chegar. Cada rudo vindo de fora, deixava-os atentos. Havia mais de 
quinze dias que a carta chegara e nada de Eduardo.
     -        Com certeza desistiu de vir - aventou Maria Jos, um pouco decepcionada.
     -        No, isso no - reagiu Menelau. - Por certo no pde vir antes. Aguardemos com calma.
     Por fim, Eduardo chegou. Vinha coberto de poeira, barba por fazer, muito cansado. Maria Jos recebeu-o com alegria, embora um tanto preocupada com seu estado 
fsico. Menelau, vendo-o, assustou-se:
     -        Eduardo! Venha esse abrao! Valha-me Deus, voc parece que veio da guerra!
     Eduardo sorriu contente:
     -        E venho mesmo. Foi muito difcil achegar aqui. Parece impossvel que, finalmente, consegui.
     -        Naturalmente, voc deseja tomar um banho, refazer-se, alimentar-se. V, depois conversaremos. Estou aflito para isso.
     -        Est bem. Aceito, porque estou realmente precisando. Logo mais falaremos.
     Meia hora mais tarde foi que Eduardo voltou ao salo. Barbeado, limpo, muito elegante. Maria Jos simpatizou com ele. Alto, rosto moreno, tinha os cabelos de 
um castanho dourado, contrastando com seus olhos escuros e brilhantes, O sorriso, franco e alegre, era muito diferente do que Maria Jos imaginara. Tinha ares de 
menino quando sorria.
     No salo, saboreando o caf com bolinhos que a Zefa preparara com carinho, Menelau tornou:
     -        Esperamos por voc todos estes dias. Maria Jos chegou a pensar que no viesse.
     -        Tudo estava muito bem, at que decidi vir para c. A comearam as dificuldades.
     -        Como assim?
     -        Assuntos que j estavam resolvidos na corte, complicaram-se e tive de demorar-me mais alguns dias. At a no dei muita ateno ao caso, porm, quando 
iniciei minha viagem para c, foi que as coisas comearam a acontecer. Sa do Rio de Janeiro h uma semana!
     -        Uma semana?
     -        Sim. Uma semana. Aconteceu de tudo. Assalto na estrada. Cavalos dispararam quebrando a roda da carruagem. Ferreiro que no queria consert-la. Lacaios 
que brigaram, chegando quase a matar-se. Tudo era para que eu desistisse. Mena, se eu no fosse to teimoso, no estaria aqui.
     -        Estou pasmo! Por que tudo isso?
     -  o que desejo saber. No tenho dvida de que algo existe. Algum queria impedir-me de chegar.
     -        Talvez os mesmos que querem impedir-nos de sair daqui.
     Maria Jos irritou-se:
     -        Esto fantasiando os fatos. Tudo no passa de coincidncia. Pura coincidncia. Qualquer um que viaje pelas nossas estradas pode ser vtima desses acontecimentos.
     Eduardo olhou-a srio. Ela pde ver que ele no tinha nada de menino naquele momento.
     -        Se deixar o medo domin-la, ou se entrar no jogo deles, nunca sair daqui.
     Maria Jos arrepiou-se.
     -        Por que diz isso?
     -        Porque a fora deles est justamente em nossa fraqueza e incredulidade. Acobertam-se fortalecendo nossas dvidas e engrossando nossas fraquezas. Sem 
isso, eles por certo fracassariam.
     -        Como lutar com seres sobrenaturais? Como enfrent-los sem medo? - Maria Jos tremia.
     -        Engana-se redondamente. Eles no so seres sobrenaturais. So homens. Homens como ns.
     Maria Jos abriu a boca, sem saber o que dizer.
     -        So homens que viveram na Terra e hoje se encontram em outro mundo, para o qual todos iremos um dia.
     -        Neste caso, por que nos atacam? O que lhes fizemos? -inquiriu Maria Jos admirada.
     -  o que pretendemos descobrir, se Deus permitir. Sabemos que, pelo fato de deixarem este mundo, eles no se modificam. So os mesmos, guardando seus afetos 
e suas mgoas, seus dios e seus amores. Muitos, inconformados com a injustias que lhes foram feitas no mundo, revoltam-se e pretendem vingar-se com as prprias 
mos.
     -        Que horror! Deus permite isso?
     -        Deus no aprova a vingana nem a prtica do mal. Jesus sempre ensinou o perdo das ofensas. S Deus pode conhecer a verdade e agir com acerto. Contudo, 
muitos no querem ouvir. Deus deu-lhes o direito de escolher.
     -        Ento estamos  merc dos maus? - atalhou ela, nervosa.
     -        No. Estamos a merc dos nossos prprios atos. Podemos escolher ser bons ou maus, justos ou injustos com os outros, mas depois de termos escolhido, 
teremos que suportar a reao, as conseqncias da nossa escolha. Est claro que ningum deseja vingar-se de algum por ter recebido um bem. Todos os que escolhem 
a vingana, revelam falta de confiana em Deus e sua justia, e por isso sofrero. A senhora h de convir que eles tm seus motivos. Ningum odeia sem provocao 
ou causa.
     -        Mas, veja nosso caso. Demerval  homem de princpios duros, porm, nunca fez injustia.
     -        Acredito. Contudo, nem sempre nosso critrio do que seja justia  o mesmo do nosso adversrio, ou o mesmo de Deus, o que  mais srio.
     -        Maria Jos, creia, Eduardo entende desses casos, no tenha medo - explicou Menelau com voz carinhosa. - Ele vai nos ajudar, estou certo. Por que teve 
tantas dificuldades em chegar? Por que eles se deram ao trabalho de tentar impedi-lo de vir aqui?
     Porque esto com medo. Compreende? Eles esto com medo de algum que os possa descobrir e inutilizar-lhe as aes.
     Maria Jos olhou-os com admirao. Os olhos de Eduardo tinham um brilho especial, determinado e ela calou-se. A situao era difcil e ela sabia que no tinha 
condies de resolv-la. Por isso, decidiu acatar o que eles diziam. Era a nica porta de sada que tinha. Estava cansada, nervosa, irritada. Queria sair daquela 
situao, ver Demerval com sade.
     Menelau contou ao amigo, com detalhes, o problema que os angustiava e Eduardo ouviu atencioso. Ao final, considerou:
     -        Tem razo. H em tudo uma influncia estranha conduzindo os acontecimentos. No tenho dvidas quanto a isso. Quero visitar Demerval, observar melhor.
     -        Muito bem. Maria Jos poder conduzi-lo ao seu quarto. Definha a olhos vistos. Vive acovardado e sonolento, abandonou tudo. No tem nenhum interesse 
pela vida.
     Eduardo considerou:
     -         bem caracterstico.
     -        Maria Jos o levar a ver Demerval agora.
     De repente, aconteceu. Maria Jos sentiu uma onda de revolta dentro de si. Tinha mpetos de expulsar Eduardo dali, de atirar-se sobre ele para empurr-lo para 
fora. Tentou dominar-se, no conseguiu. Disse com raiva:
     -        No levo ningum a lugar nenhum. Fora daqui! - gritou descontrolada. - Por que vem pertubar nossa vida? O que quer aqui?
     Menelau empalideceu e sentiu grande terror. Eduardo, porm, estava calmo como se nada houvesse acontecido. Fez um gesto para Menelau, que preparava-se para 
intervir, e respondeu seguro:
     -        Sou amigo da casa. Estou aqui porque fui convidado. E voc, o que quer?
     -        No  da sua conta! - respondeu Maria Jos com voz um tanto rouca.
     Estava em p, olhos fixos, rosto diferenciado. Grande palidez transformava-lhe a fisionomia.
     -        Escute - tornou Eduardo conciliador - no estou contra voc. Deve saber que eles so meus amigos, mas isso no impede de conhecer suas razes e ajud-lo, 
se puder.
     -        Conversa fiada. Quem  amigo dos meus inimigos, meu inimigo . J estou perdendo muito tempo. O que desejo  preveni-lo. Afaste-se enquanto  tempo. 
Voc no tem nada com isso. No se meta onde no foi chamado. Estamos dispostos a tudo. Arrume suas coisas e d o fora. Quanto antes, melhor. Ver que a viagem de 
volta ser maravilhosa.
     -        E se eu no quiser ir? Afinal, acabo de chegar. Preciso descansar.
     -        Se no quiser, no diga que no foi avisado. Quem no est do nosso lado,  contra ns. V-se embora enquanto pode.
     Eduardo, srio e seguro de si, respondeu:
      -        No irei. Deus  meu Senhor. A Ele obedeo. No estou prejudicando voc. O que tem contra esta famlia? O que desejam obter?
      Maria Jos riu nervosamente, respondendo com sarcasmo:
      -        No  da sua conta. Saia do caminho, j disse.
      O        corpo de Maria Jos estremeceu e teria cado se Eduardo no a tivesse amparado, deitando-a no sof. Menelau estava plido, o medo estampado em sua 
face. A cunhada parecia dormir. Eduardo, olhando-o, disse:
        - No tenha medo. Agora  hora da orao. Use toda sua fora mental e todo seu sentimento. Pea por esses espritos.
      Enquanto Menelau se esforava para dominar as emoes e orar, Eduardo aproximou-se de Maria Jos colocando a mo em sua testa, cerrando os olhos por alguns 
minutos. Depois, disse com voz firme:
      - Dona Maria Jos, acorde. Dona Maria Jos, a senhora j est bem. Tudo passou.
      Ela estremeceu e foi acometida por soluos. Chorou durante alguns segundos. Eduardo silencioso, esperou. Quando ela serenou, disse:
      -        Est tudo bem agora. No tenha medo. J passou.
      Ela fixou-o assustada e ansiosa:
      -        Sr. Eduardo, o que aconteceu?
      -        Acalme-se. Tudo est bem agora.
      Maria Jos insistiu. Estava envergonhada. Lembrava-se de tudo quanto se tinha passado, ouvira as palavras que dissera, compulsivamente, sem conseguir cont-las. 
Alis, na hora em que as proferira, fora dominada por grande revolta e muito dio. Ficou arrasada. Estaria enlouquecendo?
      Quando se acalmou um pouco tentou explicar:
      -        Peo-lhe perdo. Juro que esperava ansiosamente pela sua visita. Depois de Deus, o senhor  para ns a ltima esperana. No posso compreender. O 
dio que senti de repente, tive vontade de esmurr-lo.
      -        Acredito - ajuntou Eduardo, calmo.
      -        Como pode ser isso? - indagou ela, aflita.
      -        Ela ficou possuda pelo esprito, no ? - indagou Menelau, assustado.
      -  verdade. Afirmo at que no foi a primeira vez, nem ser a ltima. A senhora  uma sensitiva.  mdium. Pelo que pude observar, j deve ter tido outras 
manifestaes como esta.
     Maria Jos baixou a cabea envergonhada.
     -        Quem lhe contou?
     -        Teve, no teve?
     -        Envergonho-me delas. Pensei que estivesse curada. Melhorei depois que Demerval adoeceu.
     -        Conte-nos como comeou. Quando aconteceu pela primeira vez?
     Maria Jos ficou constrangida em revelar coisas de sua intimidade, mas estava muito assustada. Vendo-a interdita, Menelau interveio:
     -        Vamos, Maria Jos, conte-nos tudo por mais estranho que possa lhe parecer. Todo detalhe  importante num caso desses. No omita nada.
     A jovem senhora sentia-se arrasada.
     -        Fale-me como se estivesse em um confessionrio. Seja o que for, juro que nada diremos ou contaremos sobre o assunto. S queremos encontrar soluo 
- induziu Eduardo.
     Maria Jos engoliu em seco, tomou coragem e, com certa dificuldade, foi contando tudo quanto havia acontecido. Foi sincera. Descreveu a rotina, o tdio, a raiva 
de ser obrigada a fazer algo contra sua vontade. Suas crises, a ajuda do Dr. Amarante. E que a Zef a a tinha socorrido, com as rezas do Bentinho.
     -        No me contou nada disso - reclamou Menelau, sentido.
     -        Como poderia? No queria que pensasse mal de mim. Demerval  meu marido. Um bom marido por sinal. Tem seus defeitos, mas eu tambm tenho os meus. Pensei 
que isso no fosse importante.
     -        Mas  - esclareceu Eduardo. - Num caso destes, tudo  importante. A Zefa entende dessas rezas?
     -        No muito. Ela  cria da casa e est comigo desde pequena. Nunca a vi metida nessas feitiarias.
     -        Sei. Mas ela ajudou a senhora numa crise.
     -        , ajudou. Disse que eu precisava de reza. Que tinha esprito. Eu acho que estou perdendo a razo. Tenho medo. Estarei enlouquecendo?
     Maria Jos estava angustiada. Eduardo sorriu com doura.
     -        No receie. A senhora est no gozo pleno da sua razo. Como eu disse,  uma sensitiva.  mdium.
     -        O que  isso? - indagou ela, admirada.
     -        A senhora tem outros sentidos. Pode perceber a presena de seres do outro mundo. Entrar em comunicao com eles.
     -        Mas eu no quero! Tenho medo. Por favor, livre-me dessas coisas.
     -        Do que tem medo?
     -        De tudo. Se eu vir um fantasma, acho que morro.
     -        No precisa ter medo - confortou Menelau. - No vai acontecer nada de mal.
     -        Certamente. Acalme-se. No ver fantasma algum. Se seu marido viajasse para outro pas, muito distante, e depois de algum tempo quisesse escrever-lhe 
ou mandar notcias mas no houvesse mensageiro nem correio e ele ficasse to preocupado que pensasse com muita fora na senhora? E se pudesse tal empenho que, apesar 
de haver uma barreira entre os dois, de repente ele conseguisse mandar seu pensamento e a senhora o sentisse? Teria medo?
     -        Claro que no. Ser Demerval e estar vivo.
     -        Pois os espritos tambm. So homens que j viveram no mundo. Morreram seus corpos, mas eles continuam vivendo, com um corpo diferente, em outro mundo: 
Querem comunicar-se com os que ficaram. Como h uma barreira e no tm outro meio, eles procuram expressar-se pela fora do pensamento.
     -         difcil crer.
     -        Mas  verdade. H pessoas que so capazes de sentir esse pensamento, suas idias, seus desejos, de sentir-se como se fosse eles.
     -        So os sensitivos? - indagou Menelau, interessado.
     -        So. Eles possuem condies de perceber esses espritos e chegam a expressar-se obedecendo ao desejo deles que assim podem manifestar-se no nosso mundo.
     -        Por que esse desejo do mal? Por que esse dio? No sero eles espritos das trevas? - indagou Maria Jos, atemorizada.
     -        So homens, no se esquea disso. Tambm entre ns h homens bons e maus, benfeitores e infelizes, revoltados e ignorantes. Quando morrem, deixam o 
corpo de carne, mas continuam sendo o que sempre foram. A morte no lhes muda o carter. S muda seu mundo, sua vida. Os afetos e os rancores permanecem. Alguns, 
que se julgam injustiados, s vezes desejam vingar-se.
     -        E Deus, por que permite tal coisa? No pune sempre o mal? - perguntou Maria Jos.
     -        Deus  Pai justo e amoroso. Respeita a escolha de cada um e espera que ele compreenda a verdade.
     -        E se ele insistir no mal?
     -        Nesse caso, dia vir em que pelas leis de Deus ele ser compelido a perceber seus erros e arrepender-se.
     -        Acredita mesmo nisso?
     -        Acredito - tornou Eduardo com segurana. - Ainda tem medo?
     -        Um pouco - considerou ela. - Tudo me parece to estranho!
     -        Com o tempo perceber que estou dizendo a verdade.
     -        Ainda assim, gostaria de livrar-me dessas coisas. No  possvel dar um jeito nisso?
     Ele olhou-a srio e respondeu com voz firme:
     -        A senhora escolheu isso em vidas passadas. Ser sensitivo no  um mal, mas um bem.  perceber onde os outros esto indiferentes,  enxergar em meio 
aos cegos,  ouvir em meio aos surdos,  ter mais do que a maioria. No acha que, ao invs de reclamar, deveria agradecer a Deus essa ddiva e coloc-la a servio 
do bem?
     A Maria Jos essas palavras pareciam estranhas e no conseguiu entend-las bem. Entretanto, alguma coisa, l dentro do seu ser, acordou. Uma fora nova, algo 
assim como uma sensao de confiana e ela sentiu uma onda de paz descer sobre o seu corao. Suspirou fundo.
     -        Est bem? - indagou Menelau.
     -        Muito bem - respondeu ela. - Parece que eu estava preocupada demais. Voltaremos a conversar sobre isso.
     -        Por certo - tornou Eduardo, com satisfao. - Agora, vamos ver Demerval.
     -        Ajude-me a levantar - pediu Menelau - tambm quero ir.
     Quando entraram no quarto, Demerval remexia-se no leito e a Zefa tentava acalm-lo.
     -        A sinh chegou.
     -        O que foi, Zefa? - inquiriu Maria Jos.
     -        O sinhozinho ficou agitado, chamava vosmec. Eu tava dizendo que vosmec j a vinha.
     A negra deslizou pelo aposento olhando curiosa para o recmvindo. O Bentinho tinha garantido que ela estava bem cercada. No havia o que temer. Ningum ia descobrir. 
Tinha pedido pro Bentinho ajudar a sinh e o doutor Menelau. O Bentinho dizia que tudo estava certo. Tudo era para o bem da sua sinh. Ele sabia o que estava fazendo. 
Tudo quanto ele falava, dava certo. Por isso, estava tranqila. Afinal o que queria mesmo era a felicidade da sua sinh. Reconhecia que ela estava preocupada, porm 
muito mais livre e feliz.
     Apreciava sinhozinho Menelau. Bem que ele podia ser seu patro. To educado, to bom com as crianas, to atencioso com a sinh.
     Eduardo olhou para Maria Jos e disse:
     - Ela pode sair por agora, enquanto estamos aqui.
     A Zefa no gostou, mas Maria Jos ordenou:
     - Saia, Zefa. Se precisar eu chamo.
     A negra saiu, lbios esticados num muxoxo ofendido. Quando ela fechou a porta Maria Jos comentou:
     - Essa negra  impossvel! Viram a cara dela?
     - Nosso assunto  melhor ser tratado sem a presena de ningum.  preciso ser discreto.
     - Compreendo - respondeu ela - embora a Zefa seja insignificante. Sempre sabe de tudo o que se passa em meu redor.
     Eduardo objetou:
     - Neste caso, peo-lhe para no comentar nada com ela.
     - No vejo por qu. A Zefa -me muito fiel.  capaz de dar sua vida por mim. Disso tenho certeza. J provou sua dedicao muitas vezes.
     - No estou duvidando dela - esclareceu Eduardo, conciliador. - S que, por favor,  muito importante que alm de ns trs, ningum mais saiba o que se passa, 
ou o que pensamos fazer.
     Demerval remexeu-se no leito.
     - Maria Jos - gemeu ele, com voz baixa. - Onde estava? Senti-me mal ainda a pouco. Pensei morrer. Por que me abandonou? Est cansada de mim?
     A jovem senhora inclinou-se sobre o leito tomando entre as suas as mos do marido.
     - No diga isso. Voc no me cansar nunca. Vamos, acalme-se. Estou aqui e no vou sair mais. Estava recebendo o sr. Eduardo. Veja, Demerval, ele veio para 
nos ajudar.  amigo de Menelau. Com a ajuda de Deus, voc vai sarar.
     Ele abriu os olhos e fixou os dois homens com indiferena.
     -        No me deixe, Maria Jos. No saia daqui. Tenho medo.
     Antes que ela respondesse, Eduardo considerou:
     -        De que tem medo, sr. Demerval?
     Ele pareceu nem ouvir. Eduardo chegou mais perto e repetiu com voz enrgica:
     -        De que tem medo?
     Demerval olhou-o um pouco mais, fazendo esforo para entender o que ele dizia. Eduardo repetiu:
     -        De que tem medo?
     -        No sei bem. Estou mal, acho que vou morrer. Tenho pouco tempo de vida. No quero ficar sozinho.
     -        O senhor no est doente, no vai morrer to cedo.
     Demerval parecia muito cansado, respondeu com voz fraca.
     -        O mdico no consegue curar-me. Estou cada vez pior. Minha doena  grave. Talvez ele at j saiba disso e no queira dizer. Minhas foras esto indo 
embora. Estou cada vez pior.
     -        Vim para ajud-lo. Sei o que se passa com o senhor. Se me ajudar, dentro de pouco tempo, estar curado.
     -        Ah! Quem dera! - respondeu Demerval, com voz fraca.
        - Se eu pudesse acreditar...
     -        Pois acredite. Vamos comear j.
     Eduardo pediu a Menelau que se sentasse em uma cadeira ao lado da cama e a Maria Jos que continuasse segurando as mos do marido. Postou-se na cabeceira do 
enfermo e, com a mo direita espalmada sobre sua testa, pediu:
     -        Pense em Deus, senhor Demerval. Ele  nosso maior mdico. Por certo ir nos ajudar nessa hora. Vamos, procure tirar da su cabea os pensamentos tristes. 
Lembra-se de quando estava com sade e bem disposto.  assim que deve pensar, sempre, que est bem, que tem sade. Ajude-me, sr. Demerval. O senhor pode.
     Eduardo, cuja voz parecia modificada, orou sentidamente, pedindo a ajuda para o enfermo que, de repente, comeou a soluar.
     Maria Jos, preocupada, quis intervir; porm, a um gesto de Eduardo, calou-se.
     -        Continue segurando suas mos, dona Maria Jos. Ore, por favor.
    A jovem senhora obedeceu. Demerval soluava sentidamente. Eduardo orava, passando as mos sobre a cabea dele com muito carinho.
    Aos poucos, ele foi serenando e adormeceu. Continuaram em prece por mais alguns segundos e depois Eduardo, com um gesto, chamou os dois para a saleta ao lado. 
Demerval continuava adormecido.
    Maria Jos comentou:
    - Desde que adoeceu, ele nunca dormiu sem soporfero. Passa as noites insone, gemendo na cama.
    - Agora est dormindo e garanto que este sono lhe far muito bem.
        - E ento? - perguntou Menelau, interessado. - O que acha?
     -        Estamos ainda no incio.  claro que existe uma influncia negativa, talvez de espritos inimigos. Porm, conto despertar em Demerval o desejo de reagir 
e a confiana em sua recuperao. Isso  muito importante para a soluo do caso. Conto com a ajuda de vocs. Quero otimismo, orao e f. Ningum pode mais do que 
Deus.
     -        Ele vai ficar bom? - inquiriu Maria Jos.
     -        Estamos tentando. No depende s de ns. Depende dele tambm e da profundidade de suas ligaes com esses espritos.
     -        Ele est ligado com eles? Ele no sabe nada dessas coisas. No acredita nelas!
     -        O que no impede coisa alguma. Sua ligao com esses espritos deve ter origem em outras vidas, se  que no foi nesta mesmo.
     -        Outras vidas? Como?
     -        Antes dessa. No acredita em. reencarnao? No sabe que antes desta tivemos outras vidas na Terra?
     -        Acho to difcil! Ser possvel?
     -        Claro. A desigualdade social, moral e at intelectual, revela essa verdade. Se todos fomos criados iguais, onde nos tornamos to diferentes uns dos 
outros?
     -        Vivendo outras vidas - concordou Menelau, interessado.
     -        Isso mesmo.
     -        Para qu? - indagou Maria Jos.
     -        Para aprender mais, at nos tornarmos experientes, sbios, felizes para podermos viver no reino de Deus.
     -        Tudo me parece to incrvel!
     -        Pense e ver que no pode ser diferente. H muita aparente injustia no mundo, dando impresso de que alguns so mais favorecidos do que outros. Contudo, 
Deus  justo, todos devem ter as mesmas oportunidades, sem preferncias.
     -        Pensando bem, o mundo  bem ingrato - fez Maria Jos, pensativa.
     -        Se pensar que ns vivemos apenas uma vez na Terra, fica impossvel entender a justia de Deus. Entretanto, se pensar que todos fomos criados iguais 
e que estagiamos na Terra, como numa escola, aprendendo a viver no bem, tantas vezes quantas forem necessrias ao nosso desenvolvimento espiritual, ficar mais fcil. 
Os que sabem menos, os mais atrasados, ainda sofrem porque so inexperientes. Os mais adiantados so melhores, viveram mais tempo.  questo de idade e de escolha. 
Nosso esprito  eterno e Deus nos d tempo para aprender. Todos erramos por no saber ainda viver melhor; porm, a vida reage aos nossos atos, e assim vamos aprendendo 
a respeitar as leis de Deus. Elas cuidam do nosso bem.
     -        Nunca ouvi falar nisso! - tornou Maria Jos, admirada.
     -        Pois  verdade. Procure observar as pessoas, os fatos e perceber que existem coisas que s a reencarnao pode explicar.
     -        O caso de Demerval pode ser um deles? - tornou Menelau, srio.
     -        Por certo - respondeu Eduardo.
     -        Nesse caso no se trata de bruxaria? continuou Me-nelau.
     -        Mesmo nos casos de mandinga, h sempre as ligaes de vidas passadas. Elas podem evidenciar algo que estava ainda por vir a ser. Podem acordar os inimigos 
da pessoa visada e utiliz-los na conquista do seu objetivo.
     Maria Jos suspirou nervosa.
     -        Custa-me crer. Parece-me fantstico. No ser tudo fruto de imaginao? Ter vivido outras vidas, ter inimigos que querem vingar-se. No  injusto isso? 
Se tivssemos vivido outras vidas, por certo nos lembraramos delas.
     -        Engana-se, dona Maria Jos. Deus nos abenoa com o esquecimento para que o perdo nos seja mais fcil. s vezes, Ele coloca um inimigo de outras vidas 
dentro do mesmo lar, como filho, para que os dois aprendam a se gostar e o dio desaparea. Nunca ouviu dizer de filhos que odeiam o pai ou at a me?
     -        Ento  isso? - Menelau estava entusiasmado.
     -        Justamente. Esse dio no se explica. A no ser pela existncia de outras vidas, onde ele teria se originado?
     Maria Jos ficou muda. Seria verdade?
     -        Ento o caso de Demerval... - disse ela.
     -        Deve haver inimigos de vidas passadas.
     -        O que faremos? No lhe parece injustia que agora quando ele no consegue lembrar-se daqueles tempos e no pode defender-se, eles venham subjug-lo?
     -         primeira vista, pode parecer. Mas garanto que se Demerval quiser, poder lutar e resolver essa pendncia. Deus permite que inimigos se reencontrem 
sempre para que o desentendimento possa ser resolvido. E ele s se resolver se as partes interessadas quiserem.
     -        Demerval no entende nada disso. Como poder ajudar?
     -        No subestime a capacidade de seu marido. Ele  um esprito, antes de tudo, possui os recursos naturais de defesa. Quem lhe garante que, no ntimo, 
ele saiba da presena dos seus inimigos e que o medo seja justamente a conscincia de sua culpa? Nesses casos, todavia, cumpre-nos ajudar sem julgar. No temos meios 
para avaliar as origens do problema ou sua profundidade. Compete-nos ajud-los como pudermos e se ele merecer, Deus faz o resto.
     -        Quer dizer que no tem certeza se ele vai sarar?
     -        Confio em Deus. Por certo nos uniu a todos nessa hora para uma tentativa de ajuda.
     Contudo, h o livre arbtrio dos envolvidos. Vamos tentar convenc-los ao bem, mas a escolha  deles. Digamos que Demerval tem muita chance de ficar curado, 
se quiser, se lutar, se perseverar.
     Maria Jos suspirou.
     -        Deus o oua!
     -        Ajude-nos com suas oraes.
     Maria Jos concordou e enquanto ela ia sentar-se ao lado de Demerval, na viglia cuidadosa, os dois amigos retiraram-se para conversar.

CAPTULO 6

    Demerval dormiu durante horas. Ao acordar, estava melhor. Bebeu leite, comeu rosquinhas com mais disposio. Maria Jos, no cabia em si de contente e a Zefa 
olhava, dissimulando sua preocupao.
    -        Vejo que est melhor - comentou, olhando o marido.
    Demerval olhou-a; sentia-se mais calmo.
    -        Consegui dormir. Estava precisando. Porm, ainda estou muito fraco.
    -         natural - atalhou ela, com satisfao. - Voc est de cama h muito tempo. A melhora deve vir devagar.
    -        No tomei remdio algum. Como posso melhorar?
    -        Deus  grande. Tanto que est ajudando.
    Demerval permaneceu indiferente.
    -        O sr. Eduardo, amigo de Menelau veio para cur-lo. Voc vai ficar bom.
    -        No creio. Estou muito mal - gemeu ele.
    -        Estava. Agora j comeou a melhorar. Vamos, no se entregue tanto. At parece que voc no quer sarar!
    Demerval gemeu:
    -        Quem dera!
    -        Ento ajude no tratamento. Confiana em Deus, orao, otimismo. Lembra-se de quando estava com sade? No existia homem mais forte do que voc.
    -        Bons tempos, aqueles!
    -        Tudo voltar a ser como antes - disse ela, com voz firme.
    No fundo do seu corao no gostava de recordar-se daqueles tempos. No se acostumaria de novo  rotina de Demerval. Entretanto, tinha que faz-lo pensar na 
sade. Eduardo a tinha orientado.
    A Zefa olhava, acocorada em um canto do quarto. Pensava:
        - Se depender de mim, o sinhozinho no volta mais a ser como era. Eduardo ficou satisfeito com a melhora de Demerval. Estabeleceu como tratamento, duas vezes 
ao dia, pela manh e  noite, uma reunio deles para orar por Demerval, como da primeira vez.
     A Zefa, sempre colocada para fora nessas horas, no se conformava em ser excluda dessas reunies, sem saber o que se passava l dentro.
     O Bentinho tinha lhe dito que eles rezavam pelo doente, mas que nem toda reza do mundo poderia livrar Demerval. Ela confiava nele. No gostava do sr. Eduardo. 
Por causa dele sua sinh a tinha colocado de lado. Ele precisava ir embora o quanto antes.
     Com essas preces, onde Maria Jos segurava as mos do marido e os outros dois oravam, Eduardo com as mos estendidas sobre Demerval, este estava melhorando.
     Para Maria Jos essas reunies eram penosas porqanto muitas vezes era acometida de sensaes desagradveis. Medo, pavor, vontade de sair correndo, mal-estar, 
dio. Nem sempre conseguia dominar-se, e a uma ordem de Eduardo cedia aos impulsos, falando coisas, como se fosse outra pessoa, sofrendo, chorando. Eduardo conversava, 
esclarecia, apaziguava e, aos poucos, ela voltava ao natural.
     - O que  esquisito - comentava ela, depois -  que quando samos daqui, sinto-me leve, muito bem disposta. Como se nada tivesse acontecido! Como pode ser? 
H alguns instantes, eu estava a ponto de morrer!
     -  assim mesmo. A senhora est bem, nunca esteve mal. Nesses momentos, reflete apenas o que esses espritos sofrem. Assim que eles se vo, tudo passa. No 
h nada de mais.
     Ela sacudia a cabea, admirada. Tinha que admitir que realmente havia uma influncia estranha  sua vontade.
     Contudo, era-lhe difcil aceitar a presena de espritos que, segundo Eduardo, no eram malignos. Simplesmente eram pessoas que, como eles, tinham vivido no 
mundo e agora, apesar de mortos, continuavam a sofrer e influenciar os vivos. E Deus, onde ficava nisso? Por que consentia?
     Eduardo, com pacincia, esclarecia-lhe as dvidas.
     - O fato deles terem partido do mundo no os torna muito diferentes do que eram. Se a senhora morresse amanh, de repente, como se sentiria?
     Maria Jos arrepiou-se:
     - Cruz credo! Nem quero pensar.
     - Por certo continuaria a preocupar-se com a sade do sr. Demerval, com a felicidade de seus filhos e teria saudades. Teria dificuldade de ir-se embora para 
uma vida nova, deixando aqui tantos interesses.
     -         verdade - concordou ela - no tinha pensado nisso!
     -        Continuaria sendo a mesma pessoa. Com seus afetos e suas antipatias. Tal qual eles. Levando-se em conta que muitos escravos morrem odiando o cativeiro, 
o senhor,  de se esperar que alguns desejem desforra.
     -        Que horror! No  justo! Ficamos  merc desses ignorantes!
     -        So seres humanos - esclareceu Eduardo, com voz tranqila - espritos iguais a ns. Com os mesmos direitos diante de Deus.
     -        Isso no, rebateu ela. Deus os colocou em nosso caminho para servir. H os que nascem para mandar e os que vieram para obedecer. Deus fez o mundo assim.
     -        No foi Deus quem fez isso, mas o homem - interveio Menelau, com seriedade.
     -         verdade. O homem  que sempre abusa do poder e escravizou esse povo - arrematou Eduardo.
     -        No fomos ns quem fizemos isso. Desde que nascemos j era assim. Que culpa temos?
     -        No se trata de culpa, mas de responsabilidade: se assumimos o papel de donos e condutores desses homens, temos o dever de transform-los em homens 
de bem.
     Maria Jos deu de ombros.
     -        Isso  que no entendo. Esses ignorantes, sem inteligncia nem nada, ingratos e rebeldes, que nos tm causado desgostos e preocupaes, como fazer 
deles homens de bem?
     Eles no tm capacidade.
     -        Da maneira como esto sendo tratados, como animais, sem sentimentos ou inteligncia, por certo se tornam limitados e incapazes, mas isso  ainda conseqncia 
do que os homens fizeram com eles. Onde so tratados com respeito, eles demonstram habilidade, inteligncia, carter, como qualquer de ns.
     Maria Jos baixou a cabea, pensativa; depois disse:
     -        Demerval sempre foi severo, nunca mau. S dava castigo justo e merecido.
     Eduardo respondeu:
       - Para a senhora. Mas, o que pensaria o que recebeu o castigo? Aceitaria? No guardaria raiva, rancor? No pense que por ser escravos, eles no tenham orgulho. 
Esse sentimento  muito forte em cada um de ns, independentemente da posio que possamos ocupar. O orgulho ferido  sempre um estopim perigoso.
     -        O que quer dizer?
     -        Que o esprito de um escravo que morreu revoltado com seu dono pode pensar em vingana. Tenho visto alguns casos muito dolorosos e com os quais nada 
pude fazer. Orar, orar muito e esperar que Deus decida, uma vez que sua justia atua sempre e ningum sofre sem necessidade. Ou  porque precisa aprender ou  porque, 
alm disso, precisa expiar.
     Maria Jos ficou pensativa. Reconhecia que Demerval era irascvel, teimoso, embora ela procurasse justificativas para seu comportamento. Tratava seus escravos 
com rudeza e altivez, e se o que Eduardo estava dizendo fosse verdade, haveria muitos deles querendo vingar-se. Aflita, perguntou:
     -        E se o caso de DemervaL for um desses? E se ele no puder curar-se?
     Eduardo sorriu calmo:
     -        No nego que h influncia de espritos vingativos, porm, no caso dele, deve haver algo mais. Depois, sua melhora foi evidente. Acho at que poderia 
ficar completamente bom.
     -        O que pode haver mais?
     Eduardo demorou um pouco para responder:
     -        Por enquanto, estou observando. Mas, h uma fora que me parece ser de pessoas vivas.
     -        Como assim? - indagou Menelau, interessado.
     -        Sim. Pessoas interessadas em mant-lo na fazenda e na cama.
     -        Como pode ser isso? Quem lucraria com uma situao dessas?
     Maria Jos corou. Estaria prejudicando o marido? Sentia que no gostaria de voltar a antiga vida, embora desejasse a cura de Demerval.
     -         isso que tento descobrir. Sinto uma fora contrria muito forte quando mentalizo a cura de Demerval. Como se outras pessoas, assim como ns oramos 
pedindo a cura, orassem pedindo a morte.
    -        Como sabe que no so espritos? - fez Menelau.
    -        A energia  diferente. Algum de pensamento forte e firme, est dirigindo tudo e esse algum est ainda na carne. Por isso que peo segredo dos nossos 
trabalhos.
    Maria Jos levantou os olhos cheios de lgrimas:
    -        Poderia ser eu? - indagou, assustada.
    Eduardo fixou-a firme e Menelau, surpreendido, abraou-a como querendo proteg-la.
    -        Por que diz isso? - perguntou Eduardo.
    -        Porque eu quero que ele se cure, mas odeio a vida que ele me fazia levar. Sua rotina, seu modo de ser, sempre rgido e formal. Quero que ele se cure, 
mas quero ser livre para escolher como gastar meu tempo.
    Maria Jos chorava desconsolada. Menelau abraava-a preocupado, sem saber o que dizer.
    Eduardo esclareceu:
    -        Louvo sua honestidade, mas a senhora no deseja v-lo doente. Seu carter reto no aceitaria uma situao dessas. Se dependesse da senhora, ele j estaria 
bom.
    -         verdade - gemeu ela. - Di-me pensar que, mesmo sem querer, eu possa prejudic-lo, pensando na sua rotina e no seu modo de ser.
    Eduardo abanou a cabea.
    -        No se torture com esses pensamentos. Seus sentimentos so bons e no tem culpa de nada. Tenho pensado nessa sua mucama.
    -        A Zefa?
    -        Sim. Ela parece-me voluntariosa o bastante para tramar alguma coisa.
    -        No acredito. Ela fala muito, mas  bem dedicada. Tem sido incansvel para cuidar de Demerval. Ela  muito fiel.
    -        Mas anda metida em rezas com aquele negro feiticeiro...
-        concluiu Menelau.
    -         isso que pretendo averiguar. Ela pode estar sendo agente, na melhor inteno.
    -        No creio - defendeu Maria Jos. - Coitada da Zefa! Em todo caso, vou proibi-la de ver aquele negro. Deixem comigo.
    - De modo algum. Peo-lhe para no lhe dizer nada, por favor! - pediu Eduardo, preocupado. - Se ela for inocente, como supe, no deve sofrer essa injria. Se 
for culpada, acabarei descobrindo. No vamos criar outro problema. Esquea o que eu disse, dona Maria Jos: pode ficar certa de que se eu descobrir alguma coisa, 
informarei primeiro  senhora.
     -        Ver que tenho razo. A Zefa  cria da casa, s faz o que eu quero ou falo.
     -        Melhor assim. Por favor, no lhe diga nada, por enquanto.  importante para o sucesso do meu trabalho.
     -        Est bem - concordou ela. - Quero ajudar. Farei o que me pede.
     -         melhor assim.
     A Zefa, porm, no estava tranqila. No gostava de se ver alijada da intimidade da sua sinh. Percebia que, a cada dia, o sinhozinho estava melhor. Precisava 
tomar uma providncia mais sria, afastar o sr. Eduardo da fazenda. S se sentiria bem quando ele tivesse ido embora.
      noite, esperou que todos dormissem e dirigiu-se  casa do Bentinho. O negro a recebeu com agrado.
     -        Tava pensando em oc. Sentindo sua falta.
     Ela nem ligou, foi logo ao assunto do seu interesse:
     -        Vim aqui porque oc tem de faz aquele seu Eduardo ir imbora o quanto antes. Ele t disconfiado. Eu sinto. Fica l no quarto com a sinhazinha e o sinh 
Menelau e num deixa eu fic. Fico no canto, pra v se eles esquecem de mim, mas qual, ele sempre alembra de mand eu sa. Depois, sua reza num t boa, o sinhozinho 
t bem melhor. J come, j dorme e, se vai assim, logo vai fic curado.
     Bentinho apertou os olhos onde luziu uma chama orgulhosa.
     -        Oc t sendo ingrata. Por enquanto, tudo vai indo bem. No tem do que ficar com medo. Mas, se oc qu, v d um arroxo neles. Oc vai v como o Bentinho 
pode e  mais forte do que eles. Oc tem medo de reza de branco? Alguma vez isso deu resultado?
     Havia muito desprezo em sua voz. A Zef a fez um muxoxo dengoso:
     -        Isso eu num sei. S sei que se oc tem fora,  hora de mostr.
     Ele se aproximou e abraou-a com fora:
     -        Oc vai v. Por oc eu fao tudo. Fica hoje cumigo aqui e amanh oc vai v.
     -        S se me garanti que sinh Eduardo vai embora.
     -        Fica cumigo e deixa o resto por minha conta.
     Os olhos dele brilhavam de cobia. A Zefa sentiu-se envaidecida. Um negro com tanto poder, fazia tudo por ela. Riu satisfeita e ficou. S saiu de l quando 
o dia ia amanhecer.
     -        Quero s v se oc  forte mesmo - desafiou ela.
     -        S quero um ou dois dias pra mostr...
     A negra riu, satisfeita. Sua sinh nunca mais teria que obedecer ao marido. Estava salva!
     O        dia seguinte decorreu sem novidades e Demerval melhorava lenta mas seguramente. Maria Jos estava esperanosa e o prprio Menelau j estava bem melhor 
da perna, O clima da casa estava mais alegre. A Zefa aguardava, procurando disfarar a impacincia.
     Trs dias passaram sem que nada acontecesse. A negra estava preocupada. Foi na tarde do terceiro dia que um portador empoeirado, cansado, chegou  fazenda.
        -        Vim procurar sinh Menelau. Da parte de dona Maria Antnia. Foi imediatamente conduzido  presena de Menelau, a quem entregou uma carta. Ele a 
abriu e  medida que lia, seu rosto ia empalidecendo. Preocupada, Maria Jos perguntou:
-        Ms notcias?
     -        Sim. Maria Antnia est doente e muito mal. Pede meu regresso imediato. Quer ver-me pela ltima vez!
     -        Valha-me Deus! - balbuciou Maria Jos, assustada.
     Menelau voltou-se para o mensageiro, que era servo de sua casa:
     -        O que aconteceu?
     -        Dona Maria Antnia andava muito triste ultimamente. Foi acometida de uma febre e est mal.
     -        E o mdico, o que disse?
     -        Que ela tem pouco tempo de vida. Portanto, senhor, se quer v-la com vida, deve apressar-se!
     Menelau estava plido. Tinha deveres a cumprir ao lado da esposa, precisava partir. Por outro lado, como deixar Demerval que apenas comeava a melhorar? Eduardo 
olhava-o, pensativo.
     -        Preciso ir - murmurou Menelau, triste. - Minha perna ainda est na tala. Como fazer?
     -        Daremos um jeito - tornou Maria Jos. - Vai em nossa carruagem.
     -        Voc pode precisar dela!
     -        No importa. V e mande-a de volta com notcias.
     Menelau estava inquieto, queria partir imediatamente.. Porm o mensageiro estava cansado e com fome.
     -        No convm ir durante a noite - aconselhou Eduardo. -Nada vai acontecer a dona Maria Antnia. Sinto isso.
     -        No quero chegar tarde demais - gemeu ele, preocupado.
     Eduardo olhou-o srio:
     -        Tem tempo de dormir esta noite. Amanh, ao raiar do dia, poder partir. Garanto que vai chegar a tempo.
     -        Confio em voc - tomou ele. - Fao o que me aconselha, apesar da minha ansiedade.
     Maria Jos arrumou os pertences do cunhado com o corao partido. Sentia por ele grande afeto. Sem seu apoio, o que teria sido de sua vida naqueles dias tristes? 
As crianas choravam no querendo que o tio partisse.
      noite, no quarto de Demerval, a prece foi triste e chorosa. Maria Jos sentia-se angustiada, temerosa, no queria que ele fosse, mas reconhecia que no tinha 
o direito de abusar mais da sua bondade. Maria Antnia estava mal, chamava-o, ele precisava ir. Se ela morresse sem v-lo, sentiria remorsos. Fora para socorrer 
Demerval e ela prpria que ele se afastara da esposa. Contudo, sentia o corao apertado pensando na separao.
     Mais tarde, no leito, Maria Jos no conseguiu conciliar o sono. Embora Menelau houvesse prometido voltar assim que pudesse, temia que no fosse possvel. Enquanto 
sua esposa estivesse doente, ele deveria ficar com ela. E se ela demorasse muito a sarar? Talvez ele nem voltasse mais. Olhou para Demerval, que dormia ressonando 
placidamente. Agitada, levantou-se. Sentia o corao pesado e os seus pensamentos estavam tumultuados.
     Menelau havia sido to bom, to amigo, to dedicado! Agora ia embora. Como ficariam as coisas dali por diante? Teve vontade de chorar. Sentia-se infeliz e desamparada.
     Com medo que Demerval acordasse, saiu do quarto, aflita, inquieta, desesperada.
     A noite estava abafada, quente. Foi at a varanda, respirando fundo, encostou-se no parapeito e chorou sentidamente.
     -        Maria Jos!
     Menelau estava ali, apoiado nas muletas que haviam conseguido para ajud-lo na viagem. Ela olhou-o por entre as lgrimas e, sem poder conter-se, correu para 
ele abraando-o com fora.
     Ele estremeceu e apertou-a de encontro ao peito, beijando-lhe as faces, desesperado.
     -        No v embora - pediu ela.
     -        Deus sabe como eu queria ficar - respondeu trmulo, segurando a muleta com uma das mos e com a outra apertando-a de encontro ao peito.
     -        No posso ficar aqui sem v-lo! No suportaria esta vida sem voc.
     Menelau foi dominado por forte emoo. Sentiu que amava Maria Jos como nunca tinha amado ningum. Ele tambm no havia conseguido dormir, angustiado com a 
partida. Intimamente, tentara encobrir seus sentimentos at aquele instante, porm, vendo-a chorar suplicando que ele ficasse, teve certeza de que a amava. Certeza 
e dor ao mesmo tempo. Esse amor proibido era mais um motivo para partir.
     Maria Jos soluava e estremecia em seus braos numa crise que no podia dominar.
     -        Menelau, fique comigo. No posso ficar sem voc!
     Fitando seus olhos midos, ele no resistiu. Beijou-lhe os lbios ardentemente.
     Entregaram-se a esse beijo esquecidos do mundo. Maria Jos sentiu-se morrer. Jamais sentira tanta emoo. No queria que aquele momento acabasse.
     Foi ele quem reagiu primeiro. Com dificuldade afastou-a e, pegando a outra muleta, saiu o mais rpido que pde, recolhendo-se em seus aposentos.
     Maria Jos esforou-se para recobrar a calma. Sentia a cabea escaldante. Que emoo era essa que tomava conta dela desse jeito? Estaria apaixonada pelo cunhado 
a esse ponto?
     Ele ia embora e talvez nem voltasse mais. Depois do que acontecera entre eles, por certo se afastaria para sempre. Tudo estaria mesmo acontecendo ou ela estava 
sonhando?
     Sentia-se confusa, infeliz. Desejou esclarecer tudo. Decidida, foi procurar Menelau. Bateu  porta. Quando ele abriu, vendo-a na soleira, no soube o que dizer.
     -        Posso entrar? Preciso conversar com voc.
     -        Claro - respondeu ele, com voz insegura.
     -        O que est nos acontecendo? Estaremos enlouquecendo?
     Sem olh-la nos olhos, ele respondeu:
     -        Nos queremos bem. A convivncia, a afinidade, tudo despertou em ns esse afeto.
     -        Menelau, juro que no tinha percebido antes. Mas, agora que vai partir, talvez para sempre, fiquei desesperada.  
     -        Est confundindo seus sentimentos. Sabe que sou seu amigo que a estimo, confunde gratido com amor. Depois que eu for embora, vai compreender melhor.
     Maria Jos sacudiu a cabea em negativa e aproximou-se mais dele obrigando-o a olh-la de frente.
     -        Diga-me que o que aconteceu h pouco foi ocasional. Que no me tem amor. Que qualquer mulher em meu lugar lhe despertaria a mesma emoo. Diga com 
franqueza.
     Fixando o rosto apaixonado to prximo ao seu, vendo-a palpitnte de emoo, Menelau no resistiu e abraou-a com fora dizendo desesperado ao seu ouvido:
     -        Eu a amo, Maria Jos. Voc  a mulher com a qual eu sonhei minha vida inteira. Sei agora que esse sentimento  mais forte do que eu, do que tudo.
     Beijou-a com ardor e desespero. Esquecidos do mundo e de todos entregaram-se a aqueles instantes de amor e emoo. Foi a custo que Maria Jos separou-se dele 
uma hora depois.
     -        Isto no devia ter acontecido - recriminou-se ele.
     -        Agora voc no vai mais voltar e eu vou morrer aqui de saudade.
     Ele abraou-a comovido.
     -        Deus sabe como me sinto. Jamais esquecerei esta noite. Para mim, ela ser eterna.
     -        No vou suportar sua ausncia.
     - Agora no suportaria minha presena.
     -        No diga isso - fez ela, estremecendo.
     -        O amor no foi nossa culpa, aconteceu; porm, o dever, ns dois sabemos.
     Ela suspirou fundo.
     -        Tem razo. Eu sei. Apesar disso, nunca o esquecerei, acontea o que acontecer. Depois do que houve, voc no pensa em voltar aqui.
     -        Quero ter notcias de Demerval e das crianas: desejo-lhe toda a felicidade do mundo - murmurou ele, com dificuldade.
     Maria Jos abraou-o em desespero.
     -        No suporto a idia de v-lo partir - soluou. - O que ser de mim agora? Como viver ao lado de Demerval sem amor, carregando este doloroso segredo 
no corao?
     Menelau apertou-a contra o peito. Por alguns minutos ficaram assim, corao batendo forte, num misto de adorao e de dor. Delicadamente Menelau afastou-a de 
si, dizendo:
    -        No se desespere. Precisamos ser fortes. Deus sabe como eu gostaria que as coisas no fossem como so. Contudo, no nos resta outro recurso seno a 
separao. Demerval precisa de ns e neste mundo, por vezes, a vida tem situaes inesperadas. Estamos aqui, nos amamos, mas sabemos que esse amor  impossvel. 
Aconteceu... precisamos esquecer. Se eu ficar perto de voc, no terei foras para dominar-me, tal como nesta noite. Parto levando comigo estes momentos inesquecveis 
que me alimentaro enquanto eu viver. Jamais a esquecerei. Jamais! Amo meu irmo; vendo-o doente e debilitado, confiante e fraco, sinto-me culpado de no ter-me 
controlado, evitado o que aconteceu. Daqui para frente, viverei entre o seu amor que no busquei mas que despontou forte dentro de mim e meu dever de irmo, de homem, 
de amigo. Pode compreender-me?
    -        Posso - respondeu ela, sacudindo a cabea tristemente.
       - Jamais tra Demerval, nem em pensamento. Sinto a mesma coisa que voc. Sei que precisamos nos separar. Porm, ah, como di esta separao!
     Menelau suspirou fundo.
    -        Di, di muito!
    -        Adeus - disse ela, num soluo.
    -        Adeus!
     Maria Jos foi at a porta para sair, olhou para ele e num impulso abraou-o com fora, enquanto dizia:
    -        Eu o amo! D-me um ltimo beijo.  o adeus!
     Menelau apertou-a nos braos beijando-lhe os lbios ardentes com alma e carinho. Quando se separaram, ela disse:
    -        Guarde este beijo como lembrana e, apesar de tudo, guarde-me em seu corao. No o esquecerei nunca!
    -        Eu tambm. Ser nosso segredo para sempre.
    -        Adeus - suspirou ela, afastando-se pesarosa.
    -        Adeus! - disse ele, com suavidade.
     Temendo fraquejar ela saiu quase correndo. A casa estava silenciosa. Foi at a varanda, respirou profundamente o ar fresco da madrugada. Depois, foi para o 
quarto. Apesar da tristeza que sentia, a sensao de solido havia passado.
     Demerval dormia tranqilo. Maria Jos deitou-se e, cansada, adormeceu.
     Menelau fechou a porta do quarto e sentou-se no leito, trmulo de emoo. Que mulher! Sensvel, linda, ardente e apaixonada! No se pde furtar ao confronto 
com a esposa, sempre fria, distante, ftil. Por que ela era mulher do seu irmo? No fora esse detalhe e ele fugiria com ela, assumiria esse amor para o resto da 
vida, criaria os sobrinhos que adorava. Porm, sua cunhada deveria ser sagrada. No queria trair o prprio irmo.
     Guardaria a lembrana daquela noite como a mais bela de sua vida. Dali para frente, procuraria encontrar foras para afastar-se dela, no v-la nunca mais. 
Se ficasse a seu lado, sabia que no conseguiria resistir.
     Deitou-se mas no conseguiu conciliar o sono. Sentia na boca o gosto daqueles beijos, no corao o calor daqueles momentos inesquecveis. Com o tempo conseguiria 
esquecer?
     Remexeu-se no leito agitado e pouco dormiu at o amanhecer. Levantou-se, chamou o criado e tudo j estava preparado para a viagem. Eduardo apareceu.
     - No precisava levantar to cedo! - considerou Menelau.
     - Queria abra-lo ainda uma vez. Deus o acompanhe. Ficarei aqui mais algum tempo. Quero ver se consigo lev-los de volta  vila.
     Menelau apertou a mo do amigo com vigor.
     - Confio em voc. Sei que no poderei voltar por agora e deixo-os em suas mos. Deus sabe como eu gostaria de ficar!
     Eduardo olhou-o srio.
     - Voc no pode. Pacincia. Deus faz tudo certo.
     - Tem razo - concordou Menelau. Fundo suspiro escapou-se-lhe do peito. - Parto confortado porque voc est aqui. Demerval vai ficar bom!
     - Se Deus quiser. Farei o que puder - disse, com um sorriso.
     - Agradeo-lhe de corao. Se um dia precisar de mim, terei gosto em servi-lo.
     Abraaram-se com sinceridade. Menelau tinha lgrimas nos olhos quando, instalado na carruagem, acenou para o amigo, dando ordens ao cocheiro para seguir.
     Eduardo ficou parado, olhando pensativo, escutando o rudo dos cascos dos animais e das rodas na estrada, at a carruagem desaparecer. Depois, olhou o cu do 
novo dia que se avizinhava e, pensando no amigo, naquela famlia, sentiu vontade de orar.
     Sentou-se na varanda e, levantando os olhos para o cu que comeava a clarear, levou seu pensamento a Deus e comeou a rezar.

CAPTULO 7
 
       Nos dias que se seguiram Eduardo continuou a assistir Demerval, junto com Maria Jos. Sem o concurso de Menelau, a luta requeria maior esforo. Todavia, confiava 
em Deus.
       Demerval sentia-se melhor. Dormia mais calmo, conversava mais e os perodos de prostrao eram menos constantes e mais rpidos. Apesar disso, Eduardo percebia 
que a situao arrastava-se. Se fosse na Provncia, tudo seria mais fcil. L dispunha de amigos mdiuns que o ajudariam. Ali, s podia dispor de Maria Jos que, 
apesar de sensvel, desconhecia esses fenmenos. Sempre que se oferecia ocasio, orientava-a. Entretanto, sentia que precisava de mais. O que fazer? No tinha outro 
recurso seno pedir. Orou e pediu a Deus que o conduzisse, inspirando-o e mostrando-lhe o que fazer para ajudar Demerval.
       Uma tarde, quando oravam no quarto de Demerval, enquanto ele recaa no sono costumeiro, Maria Jos estremeceu. Seu rosto transformou-se em expresso serena, 
os lbios abriram-se em doce sorriso. Olhos cerrados e com voz um pouco modificada, ela comeou:
       - Deus vos guarde. Continuemos em orao. Nosso doente est sob a assistncia de Jesus e seus mensageiros. Guardemos o corao em paz. Voc tem indagado qual 
o melhor meio de ampliar os recursos de auxilio. Se quer aliados, deve conquist-los com amor. Aprenda que s os laos da compreenso e da amizade, da simpatia, 
aconchegam novas foras, ampliando nossos recursos. Medite e encontrar a resposta que procura. Esteja atento e Deus mostrar o caminho. Jesus esteja com todos.
       O silncio se fez enquanto o ambiente permanecia agradvel e calmo. Maria Jos perguntou:
       - Por que hoje foi diferente?
       - Sente-se bem?
       - Muito bem. Parece que ainda estou flutuando. No queria que esta sensao terminasse. Nunca me senti to bem! O que mudou?
     -        Ao invs de se aproximarem de voc espritos infelizes, hoje veio um esprito iluminado.
     Ela estremeceu.
     -        Iluminado?
     -        Sim, um esprito bom. Um anjo da guarda.
     -        Ser? No tenho santidade para isso...
     Seu rosto coloriu-se de rubor, lembrando-se de Menelau.
     -        Nenhum de ns ainda tem. Acredita que, por isso, Deus nos deixaria rfos? Sua misericrdia  to grande que permite o auxlio deles sempre.
     Ela estava impressionada.
     -        Agradeamos a Deus por essa ajuda - aconselhou ele, comovido.
     Maria Jos curvou a cabea e comeou a orar.
     Quando deixaram o quarto, a Zefa estava no corredor. A negra no o via com bons olhos. Naquele instante, Eduardo percebeu que ali poderia estar a causa da mensagem. 
Como no pensara nisso antes? Ela o odiava por exclui-la do convvio habitual com a sinh, tinha isso como descaso. Para ele, era como se ela no existisse. Maria 
Jos exaltava-lhe as qualidades, por que no torn-la uma aliada?
     No dia imediato, na hora da prece no quarto, quando a negra j ia saindo, ele comentou:
     -        Hoje voc fica. Como sinhozinho Menelau no est, precisamos de mais algum. A Zefa fica. Vai nos ajudar a rezar pelo seu sinh.
     A Zefa ficou de pernas bambas. No esperava. Se por um lado se sentia valorizada e aceita, o que lhe alimentava a vaidade, por outro, teve medo. E se descobrissem 
tudo? O primeiro impulso foi de fugir.
     -        No sou de valia... - murmurou humilde.
     -        Mas quer bem a sua sinh - tornou Eduardo, com voz firme.
     -        Isso sim. A sinh bem sabe.
     -        Ento deve querer que seu sinh fique bom, para que tudo volte a ficar em paz.
     A negra no pestanejou:
     -        Claro, sinh Eduardo. Quero v a sinh feliz.
     -        Ela no pode ser feliz enquanto ele no estiver bem.
     A negra fez um muxoxo. Porm, disse cordata:
      - Sim, sinh.
      - Venha sentar-se aqui nesta cadeira ao lado da cama.
    Apesar do medo, a negra estava agradavelmente surpreendida. Na cadeira, feito branco!
    Temerosa, acocorou-se aos ps da cama dizendo;
    - Sinh Eduardo, me perdoe, mas eu num tenho jeito. Aqui mesmo t bem.
    Eduardo olhou para Maria Jos, que estava admirada, e ela compreendeu:
    - Venha, Zefa. Sinh Eduardo disse, obedea.
    Ele tomou-lhe a mo e, com delicadeza, sentou-a na cadeira. A negra, tensa porm radiante, sentou-se na pontinha, olhos brilliantes, emocionada. Depois dos trs 
acomodados, Eduardo fez uma prece e pediu pela sade de Demerval.
    - Vamos Zefa - ordenou ele. - Pense em Deus e ore por ele.
    A Zefa fechou os olhos e mexia os lbios rezando. Maria Jos sentiu vontade de rir, porm dominou-se. A negra pensava: - Vou fingir que estou rezando. No quero 
que o sinh fique bom de novo. Vai judi da minha sinh.
    Eduardo estava um pouco plido. Sentiu certo mal-estar. Demerval agitou-se no leito, abriu os olhos admirado com a cena que presenciava. Apesar de sentir-se 
indisposto, Eduardo orou sentidamente, pedindo a ajuda de Deus para o enfermo e tambm para todos eles. Em seguida, comeou a falar em perdo, da justia de Deus 
que responde a todos os nossos atos e conhece todos os nossos pensamentos.
    A Zefa estava sria, e seu rosto, impenetrvel. Eduardo continuou:
    - Quantas vezes erramos pensando em fazer o bem e em ajudar algum? Perdoa-nos, Senhor, pelos nossos enganos e ajuda-nos a encontrar o caminho certo.
    A partir daquele dia a Zefa era sempre convidada a participar da orao. Eduardo, aos poucos, foi mudando seu comportamento para com ela. Afinal, por que exigir 
dela uma compreenso maior? Era ignorante, porm muito dedicada a sua sinh. Passou a trat-la com mais ateno, elogiava-lhe a roupa sempre impecvel, a maneira 
como cuidava das coisas da sua sinh e, com o tempo, a negra foi perdendo a inibio.
     Quando se reuniam para orar, Eduardo falava longamente sobre o perdo, a responsabilidade sobre nossos atos, a justia de Deus.
     Certa tarde, estavam no quarto como de costume. Demerval, calmo, humilde, sentia-se esperanoso. Apesar de ser homem pouco afeito a qualquer crena, alm do 
cerimonial litrgico a que comparecia socialmente quando na Provncia, tinha percebido o quanto aquelas oraes o beneficiavam, acalmando-o, dando-lhe foras e ajudando-o.
     Todos oravam silenciosos. A Zef a, ao invs de orar pelo sinh, a quem no apreciava, o fazia pela sua sinh, pedindo a Deus pela sua felicidade. Essa orao 
a negra fazia com muita sinceridade. Foi ento que, de repente, Maria Jos foi como que jogada ao cho com a rapidez de um raio. A Zefa estremeceu, ia gritar, enqantto 
Demerval, assustado, tentava levantar-se para socorrer a esposa.
     -        Ningum se mexe - tornou Eduardo, com voz autoritria.
       - No tenham medo. Orem muito a Deus. Dou minha palavra de que nada de mal vai acontecer com dona Maria Jos.
     Os dois, trmulos de medo, comearam a orar, chamando todos os santos da sua devoo. Eduardo aproximou-se da jovem senhora, que grunhia estirada no tapete.
     -        Preciso de pensamento firme em Deus agora - pediu Eduardo, enquanto espalmava a mo sobre a testa de Maria Jos.
     Esta remexeu-se soltando alguns grunhidos. Eduardo, um pouco plido pelo esforo que fazia, ordenou com voz segura:
     -        O que voc quer?  causador de tudo quanto tem acontecido aqui. Por que est agindo assim?
     Nenhuma resposta. Eduardo prosseguiu:
     -        No teme a hora da justia divina? No sabe que Deus est vendo tudo quanto voc faz e por certo no ir livr-lo quando toda essa carga negativa voltar 
para voc?
     Maria Jos, plida, parecia estar passando mal, murmurou com raiva:
     -        Eu sou mais forte. Ningum vai poder mais do que eu.
     -        Deus pode - respondeu Eduardo, enrgico. - Ele est nos socorrendo nesta hora.
     -        Ocs me prenderam - reclamou Maria Jos, com dificuldade.
     - No fomos ns, mas os espritos do Senhor. Chega de causar mal. Se no atender nossos avisos, por certo seus sofrimentos sero piores. Voc est mexendo com 
as foras da vida, brincando com elas conforme seus caprichos. Agora, acabou. Ou ajuda sua vtima para que ele melhore de vez, ou ser levado definitivamente.
    -        No quero morrer! Pelo amor de Deus. Quero voltar ao meu corpo. Chega! No me atormentem mais!
    -        No o queremos mal. Mas o aviso de que se continuar agindo como at aqui, sua vida no valer mais nada.
    -        Nunca ningum me venceu.
    -        O bem e a justia sempre vencem. Deus comanda. A vitria do mal  momentnea.
    Maria Jos chorava estirada no solo. Sua voz estava modificada. A Zef a estava apavorada. Nunca pensara em prejudicar a sinh. Agora ela estava l, no cho, 
estrebuchando.
    -        Vamos - pediu Eduardo. - Ajude nosso doente. Tire todas as energias doentias que voc colocou nele. Acorde-o definitivamente. Pare de hipnotiz-lo.
    -        No posso perder esta luta - gemeu Maria Jos, agoniada.
    -        No vai perder, mas ganhar. A bondade de Deus permite, nesta hora, que voc recomponha o que destruiu, antes que tudo volte pela reao natural e o 
faa sofrer muito. Vamos, ajude Demerval, agora.
    -        Vosmec qu me destru! Se ele fic bom, vai embora, leva minha negra com eles. Eu quero ela. Se me deixarem ela, fao tudo.
    -        No temos acordo a fazer. O melhor  voc cuidar da sua prpria vida. Se ama essa mulher e a quer, por que no procura consegui-la de forma mais decente?
    -        Ela nem me queria. Se eu no mostr minha fora, ela vai me deix. Depois, a sinh vai simbora e ela no deixa a sinh nem morta.
    A Zefa, assustada, comeou a tremer. Aquela era uma mandinga braba. Como? Olhava para sua sinh e sem entender via a cara do Bentinho. No se conteve. Deu para 
soluar e gritar, aflita:
    -        Perdo, minha sinh, perdo! Deus do cu, no me castigue! Cura minha sinh e eu juro que nunca mais quero v essas feitiaria.
    -        Fique calada, Zefa. Se quer ajudar sua sinh, ore por ela. Vamos. J disse que ela ficar boa.
    A negra, beio trmulo e contendo os soluos, voltou a rezar. Eduardo pediu:
       - Limpe este lar e prometa que vai nos deixar em paz.
Maria Jos, com voz rouca respondeu:
       - Eu fao. Pelo amor de Deus! No quero morr, quero volt pro meu corpo. No quero morr. T cheio de gente querendo me peg.
     -        Oua meu conselho. No seja mandingueiro. Use suas rezas s para curar e ajudar os que sofrem e Deus o abenoar.
     -        Pronto. J chamei meus homens e tudo t desfeito. Deixe eu ir, pelo amor de Deus.
     -        Prometa que no voltar a prejudicar ningum.
     -        Prometo. Prometo. Num quero morr!
     -        Deus o ajude - disse Eduardo. - Vamos rezar por ele, sem mgoa ou rancor - pediu aos presentes.
     Maria Jos estremeceu violentamente e depois serenou, parecendo adormecida. Eduardo agradeceu a Deus a ajuda daquela hora - depois, aproximando-se da jovem 
senhora, chamou:
     -        Dona Maria Jos, acorde! Tudo passou.
     Fundo suspiro saiu-lhe dos lbios.
     -        Est tudo bem agora, acorde.
     Ela abriu os olhos e comeou a soluar. Eduardo ajudou-a a levantar-se e colocou-a numa cadeira. A Zefa arrastou-se a seus ps, chorando em desespero.
     -        Perdo, sinh, perdo! Juro que no mexo mais com essas coisa. Se a sinh morr, quero morr tambm.
     -        Calma - pediu Eduardo. - Ningum vai morrer. Tudo est bem agora. Tudo vai dar certo. Senhor Demerval vai ficar bom, com a graa de Deus.
     Demerval olhava-os assustado.
     -        O que aconteceu aqui? indagou com voz enrgica.
     -        Por agora deve bastar-lhe sua melhora, senhor Demerval - respondeu Eduardo, com energia. Acalme-se, dona Maria Jos. Tudo j passou.
     -        O que foi? Vi o que aconteceu, mas no podia evitar. vi caras de negros, cenas de bruxaria, tudo. Pensei que fosse morrer, sentia medo de no voltar 
ao corpo.
     -        Esquea isso agora. Agradeamos a ajuda de Deus.
     -        Por que me pede perdo? - inquiriu ela, fixando a negra que ainda soluava. - O que foi que voc fez?
    -        Deixe isso por ora - pediu Eduardo. No chore, Zef a. Acredito em voc. Penso que ganhou lio. Agradea tambm a Deus e, daqui para frente, procure 
cumprir o que disse.
    Demerval estava inquieto. Queria levantar-se. Por que continuar deitado ali, com tanto servio a fazer?
    Eduardo considerou:
    -        O senhor estava doente. Agora melhorou, mas no convm abusar. Levante-se por meia hora, fique sentado em uma poltrona.  s o que aconselho a fazer 
por hoje.
    - O senhor  mdico? - indagou ele, srio.
    - No. Mas da sua doena, eu entendo. Maria Jos mais calma, esclareceu.
    - O senhor Eduardo  amigo do Menelau e veio da Provncia para tratar de voc. No se lembra?
    - Certo, por certo. Agradeo-lhe - respondeu ele, com cortesia. - Pode explicar-me o que presenciei aqui?
    - Certamente, senhor Demerval. Mas no agora. Todos precisamos de refazimento. Voltaremos ao assunto.
    A Zefa soluava sentidamente. Eduardo, condodo, alisou-lhe a carapinha com carinho.
    - Acalme-se. Vamos sair daqui. Precisamos conversar. Por entre lgrimas, a Zef a olhou para sua sinh, que consentiu.
      - V, Zefa. Acompanhe o sr. Eduardo. Quando saam, ainda ouviram Demerval:
        Por que chora esta negra? Voc pode explicar-me? Maria Jos fixou o marido. Sem dvida, ele estava melhor.
      O mesmo olhar de outros tempos, a mesma maneira de falar. Parecia-lhe nunca haver adoecido. Contudo, ela havia mudado. No era mais submissa. Desejava v-lo 
curado, mas no que tudo voltasse a ser como antes. Enrgica, respondeu:
    -        O senhor Eduardo nos explicar, depois. Voc deve levantar-se para ficar sentado na cadeira durante meia hora. No foi o que ele disse?
Ele olhou-a como se a estivesse vendo pela primeira vez.
- Por que me trata como a uma criana?
    -        Voc esteve doente durante muito tempo. Aprendi a resolver os problemas da famlia. Devemos seguir as instrues do sr. Eduardo, que tanto tem feito 
em nosso favor.  s isso.
     Fundo suspiro escapou do peito de Demerval. Sentia-se ainda fraco, no queria discutir. Sequer percebeu que, dali para frente, sua vida em famlia iria se modificar.
     Eduardo foi para seu quarto seguido pela Zef a, chorosa. Uma vez l, olhou-a srio e convidou:
     - Agora pode contar tudo.
     A negra recomeou a soluar.
     - T arrependida. Sempre quis o bem da minha sinh!
     - O que voc fez?
     - Sinhozinho Demerval era muito ruim pra ela. Sinhazinha sofria, vivia chorando escondido. A, fui fal com o Bentinho. Ele me disse que tinha muito poder. 
E tinha mesmo. Levei uma camisa do sinh e ele mandingou ela.
     A negra parou, trmula de medo.
     - T contando tudinho porque num quero v a sinh sofr daquele jeito. Juro que eu no sabia que isso ia acontecer.
     - Continue, e depois?
     A negra contou tudo quanto sabia e, ao trmino, atirou-se aos ps de Eduardo, chorando.
     - Sinh Eduardo, t arrependida. Num quero v mais aquele negro feiticeiro. Vossa magia  mais forte do que a dele. Cruz credo! Me ajuda. Se sinhozinho sabe, 
me mata! Pode at mand mat o Bentinho - ela soluava. - Tem piedade. Minha sinh num vai mais quer sab de mim. Sem ela, eu morro. Se num pud segui com minha 
sinh, me mato. Me ajude sinhozinho. Juro que num fao mais! Eu esconjuro. Nunca mais quero me met nessas coisas.
     Eduardo olhou-a com energia.
     - Pare de chorar e escute. Pare, vamos!
     Ela esforou-se e parou de chorar, os beios tremendo.
     - Levante-se da, olhe para mim.
     A negra obedeceu. Levantou para ele os olhos midos e assustados. Eduardo disse, com voz firme:
     - Voc sabe que agiu mal e que nunca devemos prejudicar ningum?
     A negra tremia, apavorada. Baixou os olhos. Eduardo exigiu:
     - Olhe para mim. Voc sabe o que fez?
     - Sei - gemeu ela. - Mas eu num sabia o que a mandinga podia faz. Pensei at que nem pegasse.
     -        Mas pegou. Quero que saiba que podia ter matado seu sinh! Se isso houvesse acontecido, voc seria uma assassina diante de Deus. Sua sinh no ia querer 
ficar com voc depois disso.
     -        Eu num queria mat ningum - gemeu ela.
     -        Muitos dizem isso, mas no hesitam em mexer com certas foras e certos espritos ainda primitivos para conseguir impor sua vontade aos outros. Depois, 
diante das conseqncias dolorosas, declaram-se ignorantes. Aprenda, Zef a, que no se deve mexer com coisas que no se conhece, nem querer conduzir a vida dos outros, 
utilizando-as.
     A negra voltou a soluar.
     -        Sinh, t arrependida. Juro. Se minha sinh no me quis mais, eu me mato! Me ajude pelo amor de Deus!
Eduardo olhou-a fixamente:
     -        Est dizendo a verdade? Arrependeu-se mesmo do que fez? Sabe o perigo que todos correram com essas mandingas?
     -        Sei. Cruz credo! No mexo com isso nunca mais. Num quero que a sinh, me mande embora.
Eduardo adoou um pouco a voz.
     -        Vou ver o que posso fazer. Voc traiu a confiana de sua sinh. Agora ela pode no querer mais voc.
A negra torcia as mos, em desespero.
     -        Sinhozinho, pelo amor de Deus, me ajuda! Juro que nunca mais desobedeo a sinh. Nunca mais quero v o Bentinho.
Eduardo considerou:
       - Acalme-se. Vou tentar ajudar. Volte aos seus afazeres.
     -        Num consigo faz nada antes da sinh me perdo - gemeu ela.
     -        Voc  quem sabe. Vou conversar com dona Maria Jos. S  noite foi que Maria Jos deixou o quarto do marido.
       - Como est ele? - perguntou Eduardo, assim que a viu.
     -  Melhor do que eu esperava. Apesar de um pouco fraco, est voltando ao seu natural.
     -        Isso a irrita?
       - S um pouco... - ela corou.
       - Compreendo - fez ele, com suavidade.
     -        Estou contente com a melhora dele mas, ao mesmo tempo, no posso aceitar que ele volte a ser como antigamente. Eu mudei muito, senhor Eduardo.
     -        Diga-lhe isso, dona Maria Jos, sem medo.  um direito seu.
     -         o que pretendo fazer - afirmou ela, decidida.
     Eduardo relatou-lhe toda a histria e a jovem senhora estava boquiaberta. A Zef a! Como a enganara! Eduardo concluiu:
         A senhora pense o que quer fazer com ela. Essa pobre criatura a quer acima de tudo no mundo.
     -        No posso entender. Se me  dedicada, por que fez tudo isso?
     -        A senhora sofria; ela, em sua forma de ver, em sua ignorncia, quis fazer alguma coisa para ajudar.
     - E causou tantos sofrimentos! No quero mais ver essa negra traidora.
     -        Pense bem, dona Maria Jos. Ela fez tudo porque a quer muito.
     -        No posso mais confiar nela. Quem me garante que amanh ela no venha a fazer coisa pior?
     -        A lio foi boa, eu acredito.
     -        Vejo que no aprova minha atitude. Sou justa.
     - No lhe nego o direito a indignao. O que ela fez foi injustificvel. Porm,  uma pessoa ignorante. Pensava at estar lhe fazendo um bem.
     -        Isso no impede que eu no confie mais nela.
     -         um direito seu. Contudo, todos ns somos passveis de erros. Quem de ns pode atirar a primeira pedra?
     Maria Jos enrubesceu. Eduardo teria desconfiado dela com Menelau? Ele, porm, prosseguiu sereno:
     -        Deus sempre nos ajuda, apesar disso.
     Vencida, Maria Jos perguntou:
     -        O que me aconselha?
     -        Que a perdoe. A Zef a a estima muito. A senhora pode ajud-la a enxergar melhor as coisas, ensinando-lhe a respeitar os sentimentos alheios. No devemos 
esquecer que os escravos so seres humanos e que se nos servem no dia a dia, temos o dever de ensinar-lhes o que no sabem. Creio que, depois de hoje, nunca mais 
ela se atrever a fazer nada escondido.
     Maria Jos sorriu. A raiva tinha passado.
     -        Fao idia do susto daquela safada quando aconteceu aquilo. Pode explicar-me o que houve?
     -        Deus nos ajudou. Nossas preces movimentaram os espritos do bem. A princpio envolveram o Bentinho, inspirando-lhe bons pensamentos. Como ele persistisse, 
resolveram dar-lhe uma lio.
        - Como assim?
     -        Tiraram seu esprito do corpo e o ligaram  senhora.
     -        Como pode ser isso?
     -        A nica diferena que existe entre ns e os espritos desencarnados  que eles j no tm o corpo de carne. No mais, somos iguais.
     -        E ento...
     -        Afastaram o esprito do Bentinho do corpo e pudemos conversar com ele, fazendo-o compreender que agia errado.
     -        No seria mais simples se fssemos falar com ele pessoal-mente?
     -        No. Primeiro, no sabamos o que estava acontecendo. Depois, se ele nos ouviria, O susto foi grande, nessas circunstncias o esprito acredita que 
pode morrer. Sente-se preso e teme ser impedido de voltar ao corpo.
     -        Que estranho! Por isso senti tanto medo de morrer! Era ele?
     -        Por certo. Mancomunado com espritos iguais a ele, acreditava-se dono da situao.
     Porm, ao perceber que estava sob ao de foras superiores a pedir-lhe contas de seus atos, compreendeu o quanto estivera iludido.
     -        O que faremos com ele?
     -        Lembre-se do que disse sabiamente aquele orientador que veio nos confortar. Que era preciso somar foras, conquistar simpatias, no fazer inimigos. 
O perdo  bno que podemos dispensar com segurana.
     -        E se ele voltar a mexer com as bruxarias?
     -        Se me permite, gostaria de sugerir que, ao invs de castig-lo, procure traz-lo para mais perto.
     -        Como?
     -        Est claro que ele conhece os segredos da magia e tem mediunidade acentuada.  prprio do seu esprito. Para termos a certeza de que ele no mais prejudicar 
ningum, o melhor ser ensin-lo a ajudar os outros.
     -        No entendo.
     -        Que ele use seu magnetismo para ajudar de verdade. Para curar doenas, aliviar o sofrimento humano.
     -        Acha isso possvel? Como confiar nele?
     -        Valorizando o que ele apresenta de bom. Amanh irei ter com ele. Vou conhec-lo. Conversaremos. Depois, lhe direi exatamente o que seria indicado.
     Maria Jos considerou:
     -        E Demerval? No vai concordar. Vai querer bani-los para sempre.
     -        Dona Maria Jos, a vingana no  indicada. A punio pertence a Deus. Conversarei com o sr. Demerval. A ele deve bastar a cura, para que no lhe acontea 
coisa pior.
     -        Ele pode voltar a piorar?
        - Claro. Se a mandinga da Zefa e do Bentinho "pegou" nele foi porque seu padro emocional, mental, espiritual permitiu. Se cada bruxaria que fosse feita 
nas senzalas pegasse, no haveria mais branco que tivesse sade.
     -        Quer dizer que a culpa no  s deles?
     -        No se trata de culpa, mas da posio de cada um diante das leis da Justia Divina.
     Todos ns temos contas a acertar com ela, sejam atuais ou de vidas passadas. E, s vezes, uma mandinga como a que fizeram pode acionar o processo.
     -         complicado - considerou ela.
     -        E  por isso que no devemos julgar. Corremos o risco de errar ainda mais. O perdo  sempre mais acertado. Depois, se fazemos dos nossos inimigos 
amigos, nunca mais nos faro mal.
     -        No tinha pensado nisso!
     -        Deixe o sr. Demerval comigo. S lhe peo que perde os dois faltosos. Ajudar a consolidao da cura do sr. Demerval. Falarei ao Bentinho e veremos 
o que fazer.
     -        Est bem, sr. Eduardo. Farei como diz. No sei como agradecer o que tem feito por ns.
     Eduardo abanou a cabea.
     -        Gosto quando posso ser til. No deve agradecer seno a Deus. Devemos convir que ele disps tudo para ns. Quero apenas a sua amizade e a da sua famlia.. 
Sinto-me feliz assim.
     -        Por isso Menelau o estima tanto. Deus o abene.
     Eduardo sorriu contente.
     No dia imediato levantou-se cedo e saiu  procura do Bentinho. A Zefa conduziu-o  cabana e disse, amuada:
     -  ali, sinh Eduardo. Num quero v a cara daquele nego feiticeiro.
     -        Pode voltar, eu falo com ele.
       Aproximando-se da cabana, Eduardo chamou:
       - Bentinho! Bentinho!
    Estava tudo fechado. A porta, a pequena janela. Eduardo bateu palmas:
-  de casa! Sei que voc est a. Abra a porta.
    Devagar, a porta da tapera humilde se abriu e a cara assustada do Bentinho apontou. Vendo Eduardo, abriu e saiu em atitude humilde.
- Voc  o Bentinho.
       - Sim, sinh.
       - Precisamos conversar.
    O negro olhou-o temeroso. Com certeza a Zef a tinha dado com a lngua nos dentes. Fez-se de desentendido.
    - O que deseja de mim, sinh?
    - Conversar. Sei que voc no tem passado muito bem esses dias. Para dizer melhor, de ontem para c.
    O negro olhou-o admirado.
       - Quem disse essas mintira?
       - Voc mesmo disse. No se lembra?
       O outro olhou-o assustado.
       - Nunca conversei com sinhozinho.
    - Voc nem me viu, estava com medo de morrer. Sabe que isso podia ter acontecido?
    Se voc no voltasse para o corpo, ele morreria e voc iria ajustar as contas com todos seus inimigos, que o esperam l, do outro lado, alm da morte.
    O negro comeou a tremer. Olhou Eduardo com olhos arregalados. Que feiticeiro era aquele que tinha tanto poder? Como ele podia saber daquele pesadelo horrvel 
que o estava atormentando e do medo de morrer que ele tinha? Das vozes dos seus inimigos que ouvia ao seu redor? A Zef a no poderia ter lhe contado isso. Ela no 
sabia.
    Depois daquele pesadelo terrvel em que tinha sido julgado em um tribunal onde lhe pediam contas de seus atos e onde ele temeu estar morto, no tinha mais conseguido 
dormir. Todas as vezes que, vencido pelo sono, fechava os olhos, via as caras das pessoas que tinha envolvido em suas bruxarias, algumas exigindo-lhe contas, outras 
ameaando-o. Apavorado, fechara-se em sua cabana sem querer sair.
- Sei o que est acontecendo com voc - tornou Eduardo.
      - Vim para ajudar.
     O        negro olhou-o, admirado. A troco de qu? Desconfiado, retrucou:
     -        Sinhozinho nem me conhece. Ajud o qu?
     -        Vamos nos sentar. Ande.
     Bentinho pegou dois caixotes que serviam de banco na tosca tapera e colocou-os sob uma rvore, conforme Eduardo pediu. Acomodados, este comeou:
     -        Sei o que lhe aconteceu ontem e sei o que est acontecendo agora. No adianta disfarar. Sei de tudo.
     - Tudo o qu? - fez o Bentinho, tentando ganhar tempo.
     -        Vim conversar com voc porque, apesar do que tem feito, das mandingas que fez para o senhor Demerval adoecer, no gostaria de ir embora sem acabar 
o que comecei.
     -        A Zefa  mintirosa. Eu num fiz nada.
     -        No foi a Zefa quem contou, foi voc mesmo.
     -        Eu?
     -        Voc. No se lembra do seu sonho?
     O        negro ficou desfigurado.
     -        Sinhozinho. Eu num fiz nada. Se sinh DemervaL soub dessa histria, manda me mat!
     -        Voc sabe bem o que fez?
     -        Eu s queria a Zefa pr mim. Vivo sozinho e sou louco por causa daquela marvada.
     -        No teria sido melhor pedir ela para dona Maria Jos? Sabe que sua sinh a quer muito bem.
     -        Ela num ia deix, s negro ignorante. Se eu fosse letrado, como o Tom, eu podia trabalh na casa-grande e a Zefa ia me quer. Mas eu nunca fui aprend 
as letra e s sei mex com as erva do mato. Minha me me ensin.
     -        Voc no mexe s com as ervas. Voc mexe com os espritos dos que morreram.
     O        negro comeou a tremer novamente.
     -         mentira.
     -        Bentinho, vim como amigo. Quero ajudar voc. Se quer mentir, enganar, ento deixo voc a, para se entender com sinh Demerval.
     -        Por fav, sinh Eduardo. Perdo. Sei que a sua magia  maior do que a minha. Me ajude. T perdido. Se sinhozinho descobre me mata, se eu morr tem 
aqueles espritos querendo me peg. Me ajude, por fav!
     -        Agora voc comea a falar de corao. Sabe que sinh Demerval podia ter morrido?
     -        Eu num queria mat. Era s pra ele fic na cama e a sinh se livr dele. Depois, ele queria 1 simbora e eu queria a Zefa aqui cumigo. Por causa da 
magia, ela me admirava. Fic cumigo e eu t cada vez mais loco por ela!
     -        Voc est mesmo muito atrapalhado.
     -        T. T perdido. Pensei at em fugi daqui, de 1 pro quilombo do Tombo, mas a diaba da Zefa me enfeiti. Aquela negra marvada.
     -        Fugir no vai ajudar voc a encontrar paz. Voc nem consegue dormir. Onde estiver, esses perseguidores vo atrs.
     -        Que Nosso Sinh me ajude! T cansado de verdade. Duas noite sem preg os io. Foi sua magia.  mais forte do que a minha.
     -        Sabe por qu?
     -        No. Num conheo essa.
     -         a magia do bem. E no fazer mal a ningum. E ajudar com amor aos que sofrem e precisam, sem querer nada em troca.
     -        S isso?
     -        Tudo isso.  a mais forte magia que existe. E Deus que manda seus servos para nos ajudar, sempre que queremos o bem das pessoas.
     -        Isso  muito demorado. Nunca deu resultado pra mim.
     -        Porque voc nunca desejou de verdade as coisas boas. Nem sempre o que queremos e nos parece ser bom  bom aos olhos de Deus. S quando ele aprova nossos 
atos  que vem em nosso auxlio.
     O        negro abanou a cabea, admirado. Diante de Eduardo sentia-se respeitoso, humilde. Ele tinha demonstrado conhecer mais sobre magia do que ele prprio. 
Sentia a fora da magia branca pela primeira vez e estava assustado. Ela no s havia anulado todos seus esforos, como lhe mostrara muitas coisas novas que o atemorizavam.
     - Voc achou mais fcil misturar-se aos espritos ainda muito presos  vida na Terra, utilizando-os para conseguir arranjos e favores, sem pensar que, acima 
de tudo, existe a justia de Deus que um dia vai pedir-lhe contas de tudo isso. Voc ajudou-os a manterem-se ignorantes, deu-lhes oferendas macabras, pinga, fumo, 
e no percebeu que os carrega a seu lado, tirando suas energias e explorando tambm suas foras. Voc fez pacto com eles e agora esse compromisso vai ser pesado 
em sua vida.
     -        Eu deixo eles em paz. No mexo mais com essas coisa. Minha me me ensinou pra eu me defend dos sinhozinho branco. Bentinho nunca foi pro tronco. Quando 
sinh t bravo, mesmo que eu teja perto, ele num consegue me v. Esses esprito me protege.
     -        Protegem, mas usam suas energias. Comem, bebem, dormem, tudo cm voc. No sabe disso?
     -        Sei, mas acho que me protege.
     -        Isso afasta os espritos bons do seu caminho. Voc faz o que eles querem; eles, os espritos atrasados, fazem o que voc quer. Tudo vai assim at quando 
Deus permite. Chega sempre uma hora em que Deus determina que isso precisa mudar. Vocs precisam melhorar, ento acontece o que aconteceu. Levaram seu esprito para 
perceber o mal que estava fazendo.
     -        Foi isso? - perguntou o Bentinho, arrepiado.
     -        Foi, Bentinho. Tudo o que ns fazemos, mesmo que seja contra os desgnios de Deus, est sendo visto pelos espritos superiores. Condodos da sua situao 
eles quiseram mostrar-lhe a verdade, e ajudar o sinh Demerval, que mereceu essa cura. Foi um aviso de que o seu tempo acabou. Ou voc muda, deixa de fazer mal e 
passa a fazer o bem, ou sua situao vai ficar cada vez pior. Voc vai ter de aprender a lio.
     O        Bentinho suava.
     -        Sinhozinho me ajude. T cum medo. Num quero faz nada de mal. Mas ainda num sei o que faz. Nunca mais mexo cum essas coisa.
     -        Voc tem o dom da mediunidade, Bentinho. Conhece as foras da natureza, sabe como mexer com os espritos, parar agora voc no saberia. Por que no 
usa isso tudo s para o bem? Por que no alivia as dores dos que sofrem, curando as doenas com a ajuda de Deus?
     -        Sinhozinho acha que eu posso? Deus vai ajud um pobre negro ignorante e marvado como eu?
     -        Se voc quiser ser bom, ajudar os que esto em sofrimento sem querer nenhuma paga, garanto que Deus vai ajudar. Voc pode.
Os olhos do negro brilharam.
     -        Sinhozinho Eduardo me ensina suas magia branca?
     -        Ensino - tornou Eduardo, com ar bondoso.

    -        Mas num adianta, pobre de mim, sinh Demerval vai me mand mat. Se ele descobre o que eu fiz! Melhor eu fugi daqui o quanto antes.
    -        Gostaria que ficasse. No quer o amor da Zefa?
Bentinho suspirou.
     -        Quem dera! Ela num vai mais quer sab de mim.
     -        No sei, no. Confia em mim?
     O        negro olhou-o nos olhos. Eduardo sustentou o olhar.
     -        Confio, disse. De hoje em diante, o que o sinh diss, eu fao.
     -        Muito bem. Ento no faa nada por enquanto. Vim para ajudar. Amanh cedo, virei aqui e decidiremos. No quero que lhe acontea nada de mal.
     O        negro apanhou as mos de Eduardo e tentou beij-las. Eduardo procurou retir-las.
     -        No faa isso - pediu.
     O        negro atirou-se a seus ps. Lgrimas vieram-lhe aos olhos. Soluando, disse com voz entrecortada:
     -        Sinh Eduardo  um santo. Eu s peste ruim, num mereo. S negro pestiado, marvado, mereo s castigado.
     Eduardo, comovido, alisou-lhe a cabea.
     -        , de fato, voc no merece nada de bom. O que fez foi muito grave. Porm, se est arrependido, se quer se modificar, eu estou aqui para dar-lhe a 
mo.
     O        negro soluou ainda mais. Nunca ningum havia lhe falado assim, alisado sua cabea, nem sua me, mulher dura e sofrida. Toda sua emotividade veio  
tona.
    -        Sinh, s seu escravo daqui pra frente. T muito arrependido do que fiz, t disposto a faz o que me mand.
Eduardo forou-o a levantar-se.
     -        Sente-se aqui - disse, indicando o tosco banco de caixote. Bentinho sentou-se e o senhor, por sua vez, continuou: - Vamos orar. Agradecer a Deus o 
incio da nossa amizade, Bentinho.
     Comovido e trmulo o Bentinho repetiu palavra por palavra o que Eduardo dizia, com voz comovida, e comeou a aprender verdadeiramente a orar.

CAPTULO 8

    Eduardo regressou  casa grande pensativo. Aquele escravo, apesar do que fizera, tocara-lhe o corao. Se estivesse no lugar dele, sem cultura, sem ningum, 
pressionado, condenado ao cativeiro, no teria agido da mesma forma?
    Chegando na casa, notou desusado movimento. No havia a costumeira calma. A Zefa passou nervosa e Eduardo indagou:
    -        O que est havendo?
    -        Nada no, sinh. S sinhozinho Demerval que t igualzinho era antes.
    -        Como assim?
    -        Est brabo e deu uma briga comigo por causa do almoo que atrasou meia hora.
    Eduardo disse, calmo:
    -        Vou falar com ele.
    A negra tremia.
    -        Sinhozinho, se ele descobre tudo, t perdida.  melhor morr.
    -        No dramatize, Zefa. Vou falar com ele. No acha melhor rezar?
    -        Rezar?
    -        Claro. O que seu sinh precisa  de ajuda, de reza, no de raiva e de medo.
    -        Cruz credo, sinh! Eu num tava pensando nisso.
    -        Estava sim. Est com medo do que fez, sabe que foi errado, mas est com muita raiva dele. Se quer ganhar essa luta, viver melhor e em paz, aprenda a 
rezar por ele. No v que  quem mais precisa?
    -        Sim, sinh.
    -        Confie em Deus! O Bentinho est arrependido e disposto a mudar.
    -        Num quero mais sab daquele traste.
    Eduardo sorriu.
        - Voc  quem sabe. Ele est sofrendo por sua causa.
     Ela sacudiu os ombros.
     -        Vai fic l, eu num v mais v ele.
     -        Dona Maria Jos est no quarto do sinh?
     -        T sim. Pobrezinha, vai sofr tudo de novo.
     -        No diga isso. No acha que sinh Demerval pode mudar?
     -        No. Ele t l que s Deus sabe. Igualzinho era. Num adiantou nada.
     Eduardo dirigiu-se ao quarto de Demerval e bateu na porta. Uma escrava veio abrir. Maria Jos aproximou-se.
     -        Pode entrar, sr. Eduardo. Veio em boa hora.
     -        Posso ver o sr. Demerval?
     -        Claro. Vamos entrar.
     Demerval estava sentado em uma poltrona confortvel tendo  sua frente um banquinho onde descansava os ps, com muito boa aparncia. Vendo-o entrar, olhou-o 
curioso, dizendo polidamente:
     -        Acomode-se, sr. Eduardo, por favor.
     Eduardo sentou-se, acomodou-se em outra poltrona ao lado do enfermo.
     -        Est com tima aparncia - disse, bem-humorado.
     -        Quase bom, sr. Eduardo. No fora esses pequenos dissabores caseiros, talvez estivesse melhor.
     -        Dissabores caseiros?
     -        Sim. O senhor sabe, quando adoeci, tudo aqui ficou abandonado. As coisas se conturbaram, relaxaram, e agora preciso recolocar tudo nos devidos lugares. 
Vai dar-me trabalho, mas, o que fazer?  preciso assumir a famlia.
     -        O senhor no precisa preocupar-se - garantiu Eduardo.
       - Por aqui tudo vai muito bem.
     -        O senhor  muito amvel! V-se em tudo a diferena.
     Eduardo fez um gesto para Maria Jos, que adiantou-se:
     -        Vou dar algumas providncias, aproveitando a bondade do sr. Eduardo fazendo-lhe companhia.
     -        O que vai fazer? Espero que hoje nada mais atrase e que as coisas melhorem.
     A expresso do rosto de Maria Jos endureceu.
     -        O que vou fazer eu sei. Tenho feito tudo sozinha e tudo est indo muito bem. Nada tem faltado a voc, a no ser calma e boa vontade.
     Ela saiu apressada e Demerval desabafou:
     -        Veja, sr. Eduardo, como ela me trata. No  mais a esposa dcil e obediente. Recusa-se a atender ao que digo. No vejo a hora de levantar-me para tomar 
as rdeas de tudo.
     -        Para qu? - indagou Eduardo, calmo.
     -        Para qu? Para pr tudo na devida ordem. Para manter nossa rotina, para dirigir tudo.
     -        O senhor no deve fazer isso assim.
     O        outro admirou-se:
     -        Por qu?
     -        Porque seno corre o risco de piorar.
     -        De novo? - indagou ele apavorado.
     - O que lhe digo. Seu caso precisa ser examinado. O senhor sempre imps sua vontade.
     -         verdade. Sempre mandei e fui obedecido.
     -        Mas, a que preo?
     -        No estou entendendo. O que fao  sempre visando o benefcio da minha famlia.  para o bem deles que eu exijo esta ou aquela disciplina. Para ensin-los 
a viver bem.
     -        Permita que lhe diga que sua imposio tem feito infelizes todos os que esto  sua volta.
     Demerval enrubesceu. No admitia ser advertido. Conteve-se, porm. Eduardo inspirava-lhe certo receio, ele parecia ser dotado de poderes sobrenaturais. Contudo, 
no podia deixar de reagir. Disse com voz lamentosa:
     -        O senhor me acusa? Eu, torn-los infelizes? Eu, que no tenho feito outra coisa na vida seno viver para eles?
     Eduardo olhou-o firme nos olhos enquanto dizia:
     -        Ser que foi unicamente por isso que sempre exigiu deles um comportamento acima de suas foras?
     -        No exigi nada que no fosse possvel fazer. Eu tambm me incluo.
     -        Certo, porm impe sua vontade. Dona Maria Jos sequer pode escolher como gastar seu tempo. Acha justo isso? Agindo assim pensa realmente na felicidade 
deles ou na sua? No orgulho de dirigir e de mandar, de fazer apenas o que o senhor quer sem pensar que os outros podem querer agir de forma diferente?
     Demerval ficou furioso, todavia no queria indispor-se com Eduardo.
     -        Ofende-me - disse, com ar sentido.
     -        No tenho essa inteno, sr. Demerval. Quero apenas que recupere sua sade sem que lhe acontea coisa pior.
     -        Como assim? - indagou ele, assustado.
     -        Criar inimigos no  de bom alvitre. Os ditadores acabam odiados. O senhor pode piorar de novo.
     -        Afinal, sr. Eduardo, que doena eu tenho? At agora no consegui descobrir.
     -        O senhor foi acometido de um ataque de bruxaria.
     Em outros tempos Demerval teria rido, agora estava muito assustado para isso. Um frio correu-lhe pela espinha.
     -        No acredito nessas coisas - disse, irritado.
     -        O que no adiantou nada. Pegaram-no assim mesmo. E sabe por qu?
     Demerval abanou a cabea. Eduardo prosseguiu:
     -        Porque o senhor deu chance. Sua maneira de ser, de agir, criou um crculo de antipatia ao seu redor e isso permitiu que eles o agarrassem.
     -        No  possvel! Deus no permitiria!
     -        Foi o que aconteceu. O senhor deve lembrar-se de que s melhorou depois que dona Maria Jos foi envolvida pelo esprito que o estava atingindo e ele 
foi convencido a desistir. No a viu estendida no cho?
     Demerval estava boquiaberto.
     -        O que Maria Jos tem a ver com isso? Por acaso ela me odeia?
     Eduardo abanou a cabea.
     -        No diga isso!  uma injustia. Dona Maria Jos  uma mulher extraordinria. Tem sido muito dedicada. Quase no saiu da sua cabeceira, rezando pelo 
senhor. E  inteligente tambm, h que ver a fazenda que linda est, tem comandado tudo com muito zelo e todos a respeitam e amam. O senhor tem uma esposa admirvel!
     Demerval corou de prazer, porm objetou:
     -        Ela est diferente. Responde-me. Recusa-se a obedecer.
     -        Claro. O senhor est sendo injusto com ela. Durante estes meses ela foi competente para dirigir tudo, no vai aceitar mais suas ordens como antes. 
Por que no experimenta trocar idias com ela, sem ordenar nada?
     -        E minha autoridade de marido?
     -        De que lhe serve ela? Tem lhe trazido alguma alegria?
     Demerval sentia-se aturdido.
     -        O senhor a defende. Est do seu lado - reclamou ele.
     -        Estou do lado dos dois. Gostaria de v-los felizes. Isso s acontecer se o senhor modificar seu modo de agir.
     -        E se eu no quiser? - indagou ele, teimoso.
     -        Ento no respondo pela sua cura. Como pode estar bem espiritualmente, se mergulha em energias negativas irritando os outros para satisfazer seus desejos?
     -        Acha que gosto de contrari-los? E a disciplina?
     -        No deve ser imposta pela fora. Ver que tudo ir muito melhor com compreenso e tolerncia.
     -        O trabalho ficar prejudicado. No posso deixar todo pessoal  vontade.
     -        Est claro que a organizao da fazenda precisa ser mantida. Mas, com atitudes adultas, onde no falte o entendimento na hora certa.
     -        No posso concordar.
     -         pena, sr. Demerval. Isso o deixa muito vulnervel ao ataque de espritos perturbados e doentes.
Demerval sentiu um arrepio percorrer-lhe o corpo.
     -        Custa-me crer numa coisa destas. Se no fosse dita pelo senhor, a quem considero muito e a quem tanto devemos, nem ouviria.
     -        Deve acreditar. Quando fazemos inimigos, nos cercamos de foras destrutivas e favorecemos o envolvimento deles.
     -        O senhor falou em bruxaria. Quem fez?
     -        Isso no  importante. Quando estamos irritados e queixosos, quando exigimos muito e damos pouco, somos um m natural para esses espritos. Embora 
possa no acreditar, os espritos esto ao nosso redor, vivendo e convivendo conosco. No os iluminados, claro, que vm aqui apenas para nos ajudar, mas os que viveram 
neste mundo descrentes e apegados s coisas terrenas, s paixes e que no querem afastar-se. Utilizam-se de ns para suprir suas necessidades.
     -        O que me diz  assombroso! Assombroso e desagradvel. Por que Deus permite tanta injustia?
     -        Injustia por qu? Eles so gente e guardam seus anseios e suas paixes tanto quanto ns. Querem ficar por aqui, recusam-se a sair, mesmo sabendo que 
seus corpos j morreram. Unem-se de acordo com suas antipatias ou simpatias e representam uma fora da prpria vida.
     -        Como podemos nos defender deles?
     -        Unindo-nos com Deus, no s pela prece como principalmente pelo sentimento.  conquistando a simpatia dos espritos superiores que estaremos mais protegidos. 
S conseguiremos isso pelo nosso comportamento. Fazendo todo bem possvel, procurando ser justos, sinceros.
     - Isso eu sou. Jamais cometi uma injustia - sentenciou Demerval, orgulhoso.
     -        Tem certeza? No  o que tenho ouvido contar a fora, nem o que pude perceber.
     -        Novamente me ofende.
     -        No tenho essa inteno. Sei que  um homem honesto, sincero e pretende o melhor.
     Contudo, seus mtodos so inadequados e, por isso,  obedecido pelo pavor, pelo medo.
     Como as pessoas no podem perceber sua inteno,  odiado.
     Demerval sentia-se magoado, sua vaidade ferida.
     -        Queixaram-se de mim. Quem? Minha mulher? Meus filhos? Meus escravos?
     -        No se trata disso. O que desejo que perceba  que, embora pensando ser justo, tem cometido injustias. Apesar da boa inteno, tem arranjado inimigos 
entre os escravos, feito sua famlia sentir-se infeliz. No foram eles que se queixaram, mas eu que notei.
     Demerval abaixou a cabea, desanimado. Doa-lhe ouvir isso. Eduardo continuou:
     -        Vai dizer-me que nunca percebeu o quanto sua esposa odiava ler versos em francs?
     -        Sei que ela no os apreciava, mas estava velando pela cultura familiar.
     -        E criando antipatia, sofrimento nos outros. Acha justo?
     -        O que tem isso de ver com a bruxaria? Por acaso minha mulher foi capaz de fazer isso?
     -        No cometa a injustia de, sequer, pensar nisso. Ela seria incapaz!
     -        Ento?
     -        O senhor com suas exigncias, criou ambiente de hostilidade, enquanto dona Maria Jos, dedicada, boa me e esposa  adorada por todos. Acha que se 
tivessem que escolher entre os dois, ficariam do seu lado?
     -        Sempre tratei muito bem minha mulher. Bem demais, eu acho.
     -        Digamos que bem a seu modo, impondo-lhe suas vontades a ponto de faz-la adoecer.
     -        A doena de Maria Jos no tem nada a ver com isso.
     -        S tem. Ela no agentava mais a rotina e a vida que levavam. Est claro que os escravos que a estimavam doeram-se por ela.
     -        Foram eles que me fizeram a bruxaria.
     -        Pode ser - concordou Eduardo. - H de convir que, como seres humanos, eles reagem como qualquer de ns. Ou pensa que eles no so gente?
     -        So gente, mas sem inteligncia e direo. Precisam de comando.
     -        So seres humanos, repito, como ns. Precisam de comando porque esto reduzidos a homens sem vontade ou escolha.
     -        O senhor  abolicionista!
     -        Sou. No  isso o que importa agora. Quero que perceba que, feridos e magoados, muitos se defendem apelando para a magia. Isso  comum nas crenas 
africanas.
     -        Mal-agradecidos. Cuspindo no prato onde comeram.
     -        Defesa, senhor Demerval, simples defesa. J que no podem vencer uma luta frente a frente, chamam seus santos e seus espritos amigos para os ajudar. 
Se estivssemos no lugar deles, talvez fizssemos o mesmo.
     -        Ingratos! Traidores!
     -        Mas se o senhor no acredita...
     -        Acreditar, no acredito. O que eu tive foi muito esquisito. Pode mesmo ter sido bruxaria?
     -        S foi, sr. Demerval.
     -        Ah! Se eu pego o malvado! Mando matar  vista de todos.
Eduardo sacudiu a cabea.
     -        E a vai conquistar mais raiva e mais dio. No entende que essa  a fora deles? No pode impedi-los.
Demerval recostou-se na cadeira, preocupado.
     -        Devo ficar  merc deles? Como Deus pode permitir?
     -        Lembre-se de que Jesus, quando curava, aconselhava as pessoas a se modificarem para que no lhes acontecesse coisa pior.
     -        Estou arrasado. Desse jeito, estou perdido.
     -        A sua defesa  um direito sagrado.
     -        Como?
     -        O mais seguro  criar um ambiente amigo a seu redor.
     -        Vo dizer que estou com medo - disse Demerval, irritado.
     -        No. O senhor no vai perder sua dignidade, nem descer do seu lugar de chefe desta casa. Porm, pode ser um chefe compreensivo, que aprenda a conviver 
com os outros e possa dar-lhes um pouco mais de paz. Ver como eles trabalharo melhor e sua vida voltar ao equilbrio.
     Demerval srio, pensativo, depois perguntou:
     -        E se eu no quiser?
     -        Nesse caso, s Deus sabe o que pode lhe acontecer.
     Demerval olhou-o desesperado.
     -        Sinto-me acuado. Pelo visto agora estou sendo pressionado. Tenho que mudar, fingir o que no sou.
     -        Se isso lhe  to desagradvel, por que o exige dos outros?
     Demerval abriu a boca mas no conseguiu responder. Sentia-se irritado, nervoso, sem saber o que dizer.
     -        Pense no que eu disse. Pode crer que falo com sinceridade. Estou realmente interessado no apenas na sua melhora, mas na sua cura completa. Tudo est 
em suas mos.
     A verdade s vezes di, mas sempre ajuda a viver melhor.
     Demerval abaixou a cabea. Subitamente sentiu-se deprimido.
     -        No sabia que estava fazendo mal aos meus. Custa-me crer. Como vamos viver sem organizao?
     -        No se posicione como uma vtima, que o senhor nunca foi e no , nem seja radical.
     Se falei em transigir, ser tolerante, no foi para largar tudo. Contudo, nestes meses que o senhor esteve afastado da direo, dona Maria Jos lutou muito, 
aprendeu. Menelau ensinou-a a conhecer os negcios. Ela fez tudo muito bem. As coisas esto indo otimamente na fazenda. Sua mulher tem pulso, isso tem, precisa v-la 
vistoriando a plantao, cuidando de tudo. Conquistou o respeito e a estima de todos, que trabalham felizes para ela. Na verdade, ningum poderia prever quando o 
senhor iria melhorar. Agora, seria justo que a tratasse com igualdade, ao invs de dar-lhe ordens, como a uma criada.
     Demerval enrubesceu:
     -        No  bem assim. Claro que ela  minha mulher.
     -        Quando entrei aqui, o senhor falava com ela como a uma serva. Dava-lhe ordens.
     -        No tenho culpa dela ser mulher. A mulher deve obedecer ao marido.
     -        Esse tempo est passando, felizmente. A mulher  igual a ns. Em muitos casos,  superior em dedicao, abnegao, fidelidade.
     -        O senhor pretende me ferir.
     -        Em absoluto. Ficarei feliz se perceber a verdade. Sua esposa  sua companheira. Deve-lhe muito esforo, abnegao.
     -        Sei o quanto  dedicada.
     -        Peo-lhe que seja justo com ela. Pense nisso.
     Demerval baixou a cabea, triste. Eduardo retirou-se. Naquele dia, quase no tocou nos alimentos porm, no reclamou de nada. Preocupada, Maria Jos falou com 
Eduardo, que respondeu:
     -        Deixe-o. Est querendo provocar piedade. Enquanto isso. vai pensando no que eu disse. No esquea a prece e proceda com ele como se nada notasse.
     -        Est bem - concordou Maria Jos.
     Estava exausta, triste. No podia evitar de comparar Demerval com Menelau. A diferena era enorme. Por que no tinha conhecido Menelau antes do marido? Lembrando-se 
do cunhado, seu corao batia mais forte e a saudade doa. Vendo o marido to irascvel, no sentia remorso pelo que tinha acontecido. No haviam planejado nada. 
Acontecera. Fora uma atrao to forte que eles no resistiram.
     Agora, nunca mais veria Menelau. Sabia que ele no se aproximaria deles depois do que acontecera. Maria Jos sentia vontade de chorar. S a presena dos filhos 
a confortava. Sua pacincia com o marido se limitara. Nunca mais se sujeitaria  sua tirania.

CAPTULO 9

     Menelau deixou a fazenda com o corao partido. Sentia que amava Maria Jos e esse amor o enchia de remorsos. Jamais pensara em tirar proveito da situao. 
Seu irmo no leito, indefeso, ele se arrependia de haver cedido ao afeto que a cunhada lhe inspirara.
     Que mulher! Aqueles meses de estreita convivncia o fizeram admir-la profundamente.
     Bela, inteligente, digna. Por que no a conhecera antes de Demerval? Teriam sido muito felizes juntos. Lembrou-se de Maria Antnia, suspirou fundo. Que diferena! 
Sua mulher era ftil, pretensiosa, dura, exigente, spera. No possua nenhuma das qualidades que ele desejava numa mulher. Triste destino o deles: viverem juntos 
sem se apreciarem. O entusiasmo dos primeiros tempos passara depressa. Contudo, reconhecia seus deveres para com ela. Era sua esposa, estava doente. Por outro lado, 
no poderia ficar na fazenda depois do que acontecera. Tinha medo de no resistir aos encantos de Maria Jos, ela era mulher de seu irmo.
     Se tivesse ficado, a situao seria insustentvel. Eles no haviam premeditado nada, isso atenuava-lhe os remorsos; todavia, conviver com ela depois disso, 
controlando as emoes, seria forte demais para ele.
     Gostaria de ter deixado a fazenda quando o irmo estivesse melhor, mas isso tambm era problemtico. Ningum sabia quando ele melhoraria. Eduardo estava l, 
confiava nele. Sabia que faria tudo para ajud-los.
     Por outro lado, sentia que cumprira seu dever orientando a cunhada na direo dos negcios. Estava satisfeito, ela realmente revelara-se excelente administradora. 
Este detalhe aumentava a admirao de Menelau, contrastando com Maria Antnia, incapaz de ver alm das futilidades de salo.
     Apesar do seu propsito de no voltar a v-la, Menelau no conseguia esquecer aquela noite. O desejo de rever a cunhada, o gosto de seus lbios queimavam-no 
e ele sentia o quanto a amava. Esse segredo, ningum alm dela saberia. As lembranas morreriam com ele, porm a recordao doce daqueles momentos lhe daria fora 
para suportar a vida sem ela.
     Foi cansado e abatido que chegou a sua casa no Rio de Janeiro. Uma bela e solarenga casa, com cavalarias, senzala e lindo jardim, situada em aristocrtico 
bairro. Saltou da carruagem na entrada principal e foi logo perguntando pela esposa.
     Informado de que ela estava em seus aposentos, dirigiu-se para l com certa ansiedade.
     Bateu delicadamente e entrou. Sentada em um div, cheia de laos e fitas, em seu nglig, Maria Antnia escolhia algumas flores com jias que deveria usar num 
prximo sarau, discutindo os detalhes com o joalheiro. Vendo-o, despediu o homem.
     -        Agora pode ir. Amanh cedo quero ver as provas.
     O        homem recolheu seus pertences rapidamente e, curvando-se, retirou-se. Menelau mal continha a irritao. A esposa parecia-lhe melhor do que nunca. Ela 
levantou-se, dirigindo-se a ele com voz amvel:
     -        Que bom ver voc, meu querido! Finalmente resolveu retornar s suas obrigaes!
     Menelau fingindo no ver a mo que ela lhe estendia para o beijo de praxe, disse mal-humorado:
     -        Recebi um recado que voc estava mal. Por isso vim.
     -         verdade. Estive  morte, mas j me recuperei. No est contente?
     Ela mentia, claro. Menelau percebia com raiva que ela lhe armara uma cilada. Vendo-lhe a fisionomia sria, ela continuou com certa ironia:
     -        Preferia que eu estivesse mal, com certeza. No o alegra eu haver melhorado?
     -        Claro - disse ele, mal-humorado. - Se eu acreditasse na sua enfermidade. No precisava enganar-me.
     Ela deu de ombros.
     -        Cansei-me de parecer viva. De ir s a toda parte, de explicar que meu marido abandonou o lar por causa dos seus parentes.
     -        Est sendo injusta. Viu o estado de Demerval.
     -        Ele tem mulher que cuide dele. Voc no pode deixar nossos negcios por causa deles.
     -        Nossos negcios vo muito bem nas mos do doutor Afonso. No h com o que preocupar-se.
     -        Cansei-me. Cansei-me de parecer viva. Voc me fazia falta. Para isso me casei.
     Se ela houvesse dito que sentia saudades ou lhe demonstrasse alguma afeio, Menelau teria sido mais atencioso. Mas ela deixara claro que desejava apenas a 
presena do marido como um complemento social. Ele fez silncio para no ter que ser desagradvel. Ela prosseguiu:
         Se eu tivesse deixado, talvez voc ficasse por l para sempre. Eles se vo arranjar muito bem sem voc, ver.
     -        Sei cuidar dos meus deveres sem sua interferncia - respondeu, contendo a irritao.
     -        No parece. Amanh teremos uma recepo em casa do Visconde de Maric e espero que voc me acompanhe.
     Menelau estava cansado e aborrecido. No querendo alongar a discusso, respondeu:
     -        Vou pensar. Agora, preciso banhar-me e descansar.
     Ela olhou-o com um brilho vitorioso no olhar. Menelau, resignado, dirigiu-se aos seus aposentados. Sua mulher era sua cruz, o que fazer? No encontrava nenhum 
prazer nessas reunies em sociedade, onde havia muitos mexericos, muita falsidade e muita ostentao. Ao mesmo tempo, reconhecia que Maria Antnia era jovem e gostava 
desses lugares. No estaria sendo rigoroso demais com ela?
     J que precisava viver em sua companhia e resolvera esforar-me para melhorar seu relacionamento com ela, esquecer Maria Jos, talvez fosse melhor no contrari-la. 
Acompanhando-a s festas das quais tanto gostava, talvez pudessem viver em paz. Sentia-se culpado pelo amor que nutria pela cunhada. Queria aproximar-se de Maria 
Antnia, ela era sua esposa e embora fosse ftil, vaidosa, pretensiosa, merecia toda sua ateno pela moral inatacvel. Decidiu ir  festa; poderia, quem sabe, rever 
alguns amigos.
     Na noite seguinte, Menelau, em traje de gala, acompanhou a esposa  casa do Visconde de Maric. Maria Antnia estava muito bem vestida, empoada, ostentando 
lindas jias. Menelau, vendo-a sorrir com galanteria aos cumprimentos que recebia pensou:
     -         como uma criana. Preciso ter pacincia com ela.
A recepo estava como sempre. Animada, discutia-se as notcias palacianas, os problemas polticos, as peas dos teatros e a vida alheia. Menelau conversou com amigos 
e fez o possvel para distrair-se, porm, aborrecia-se. Ao contrrio de Maria Antnia que, como sempre, monopolizava atenes conservando uma roda de pessoas conversando 
animadamente.
     Menelau queria retirar-se, mas vendo a esposa to satisfeita, resolveu dar-lhe mais tempo. Sentou-se na varanda, saboreando um clice de licor de amora. Seu 
pensamento fugiu para a fazenda, as crianas que ele amava muito e Maria Jos. Suspirou fundo. Saudade imensa o acometeu. Quando colocou a mo no bolso, percebeu 
que havia algo dentro dele. Intrigado, verificou que era uma carta. No estava ali quando se vestira. Quem a teria colocado? Abriu e leu.  medida que lia, seu rosto 
foi se avermelhando. Dizia o seguinte:
     "Senhor Menelau. Enquanto o gato no est em casa os ratos passeiam e vivem  larga. Quem tem mulher moa,  bom vigiar! Quem ser o homem que tem sido visto 
sair s escuras dos aposentos de sua mulher? No acredito que seja o senhor, to oculto e to a medo. Cuidado. O marido  sempre o ltimo a saber!"
     Menelau amassou a carta com raiva atirando-a longe. Tanta maledicncia enojava-o. O covarde no tivera a corgem de assinar ou de dizer-lhe o insulto cara a 
cara. Pusera-lhe no bolso, disfaradamente, a carta annima.
     No julgava Maria Antnia capaz de tanta baixeza. Ou seria? Plido, inquieto, Menelau ficou sem vontade de permanecer ali. E se fosse verdade? E se estivesse 
fazendo papel de imbecil?
     Nervoso, irritado, lutou para acalmar-se pensando que no devia dar crdito quela carta vergonhosa. Entretanto, uma suspeita nasceu dentro dele. E se fosse 
mesmo verdade? E se Maria Antnia tivesse um amante? No a sabia muito ardente, porm o despeito, a raiva eram nela muito fortes. E se quisesse vingar-se dele pelo 
descaso e pela ausncia?
     Isso ele no se sentia com foras para tolerar. A traio, no. Se fosse verdade, tomaria providncias. De todas as maneiras, precisava ir embora dali. De repente 
pareceu-lhe que todos sabiam e s ele desconhecia.
     Aproximou-se de Maria Antnia, to  vontade no meio de uma roda de amigos, e reparou, indignado, que ali no havia nenhuma mulher. Disfaradamente disse-lhe, 
com raiva:
     - Chega agora. Vamos embora. No suporto mais esta comdia.
     Vendo-lhe a fisionomia perturbada, ela percebeu seu descontrole. Pediu licena, despediu-se dos donos da casa, porm ficou muito contrariada. Na carruagem de 
volta perguntou, com raiva:
     - Por que tivemos que sair assim, to de repente, de um local to agradvel? Eu estava adorando. Esperei por esta recepo muito tempo. Preparei-me, estava 
em pleno sucesso. Por certo  isso que o desagrada. Por acaso voc deseja que eu esteja sempre triste?
     Menelau, ainda preocupado, olhou-a e respondeu simplesmente:
     -        No gostei de l. E voc, por incrvel que parea, s tem amigos entre os cavalheiros!
     Ela irritou-se ainda mais.
     - O que quer insinuar? Por acaso deverei faltar com os deveres da boa educao? Aqueles senhores conversavam e havia outras mulheres. Elas foram-se afastando 
e acabei ficando s. No o sabia ciumento!
     - E no o sou! - eschweceu Menelau com raiva. -  meu desejo preveni-la de que, se a apanho em adultrio, vai arrepender-se por toda a vida!
     Ela empalideceu e seus olhos faiscavam de raiva.
     Isso  desculpa para voc recusar-me os prazeres da corte! Mas no vai conseguir afastar-me dos sales. Nunca!
     Menelau calou-se. No tinha certeza de nada. A lembrana da carta queimava-lhe os pensamentos. Que fazer? E se fosse calnia? E se Maria Antnia fosse inocente? 
Sabia que sua mulher no era apreciada pelas outras mulheres, que no lhe toleravam o temperamento irascvel e exigente. Reconhecia que a carta poderia ter sido 
escrita por uma das suas inimigas. Algum que no a suportasse e tivesse querido vingar-se. Por outro lado, no lhe agradara observar que Maria Antnia gostava da 
companhia masculina. No possua nenhuma amiga.
     Menelau sentiu-se atormentado pela dvida. Se estava disposto a tolerar as futilidades de sua mulher, no queria transigir com a moral. Lembrou-se de Maria 
Jos e estremeceu. Ele tinha trado, mas sem premeditar. No enganara a mulher deliberadamente. Acontecera e pronto. Sentiu saudades de Maria Jos.
     Por outro lado, ele havia deixado a jovem esposa sozinha durante muito tempo. No teria contribudo para que ela procurasse afeto ou fosse envolvida por algum?
     Menelau acusava-se ao mesmo tempo que reconhecia em Maria Antnia o amor s futilidades, s iluses e s aparncias.
     Sua cabea escaldava e mal conseguiu dormir. Pretendia observar a esposa. Estremecia ao pensar que ela o pudesse estar traindo.
     Nos dias que se seguiram, a situao no se modificou. Por mais que a observasse, Menelau nada descobriu, alm da sua vaidosa futilidade, do seu orgulho. Maria 
Antnia s se preocupava em brilhar e em ofuscar as outras mulheres com o sucesso de sua presena.
     Em vo Menelau tentava conversar com ela sobre outros interesses, entret-la de outra forma, manter com ela assuntos mais srios. Maria Antnia no respondia 
nem participava a no ser quando se falasse sobre moda, intrigas sociais ou as novidades dos teatros. Quanto a filhos, detestava que se lhe falasse sobre isso. Era 
desagradvel deformar o corpo e ter que suportar crianas, que lhe tirariam o sossego.
     Menelau, triste, recordava-se mais de Maria Jos, dos sobrinhos e da famlia do irmo, que gostaria que fosse a sua. Desta forma, por mais que tentasse aproximar-se 
de sua mulher, no conseguia afinar-se com ela. Ele que tinha, a princpio, o desejo de viver bem com a esposa, passou sem perceber a distanciar-se dela cada vez 
mais.
     Notou que ela se abalava pouco com suas ausncias, tendo sempre uma recepo, um sarau, um teatro para ir. Fazia-se acompanhar de uma senhora da nobreza que 
empobrecera e a quem ela pagava regiamente. Contava assim tapar a boca aos maldizentes. Assim, ia a toda parte com Adelaide, que gozava de reputao ilibada e era 
muito bem vista na corte.
     Menelau via com bons olhos essa dama de companhia que lhe oferecia a oportunidade de no acompanhar a esposa, s comparecendo a lugares e ocasies onde no 
podia absolutamente esquivar-se.
     Entretinha-se com os livros, gostava de andar a p pelos campos, assistir a concertos, onde Maria Antnia no ia e, aos poucos, passou a viver completamente 
 parte da esposa. Trs meses depois de ter regressado foi que recebeu a visita de Eduardo.
     Emocionado, f-lo entrar em seu gabinete e depois de abra-lo quis saber de tudo.
     - As coisas esto melhores - declarou ele, satisfeito. - Seu irmo e a famlia j retornaram  provncia e eu achei que era tempo de deix-los sozinhos.
     -        Voc conseguiu! Conta-me, como est Demerval?
     -        Melhor, embora seja muito teimoso.
     -        Quero saber de tudo. Como conseguiu a melhora? Descobriu a causa do problema?
     -        Em parte. Seu irmo foi mandingado e muito bem.
Eduardo relatou sua experincia com a Zefa e o Bentinho.
     -        Bem que eu desconfiava daquela negra! Maria Jos a vendeu?
        Eduardo fez ligeira pausa, depois esclareceu:
        - No sejamos injustos. H que considerar seus motivos. Ela
agiu assim impulsionada pelo apego que tem  sua sinh. Acreditava estar lhe fazendo um bem.
     -        Voc a defende?
     -         mulher ignorante, mas boa e fiel  sua dona. Todos podemos nos enganar e ela se enganou. Demerval tem a sua parcela de responsabilidade. Era intolerante 
ao extremo. Ela desejou apenas que ele mudasse.
     -        E o Bentinho?
     -        Fez isso por amor. Gosta da Zef a e queria ser importante diante dela. Usou seus conhecimentos, seus dons de mediunidade para conquist-la. A ele s 
interessava o amor da Zef a.
     -        Negro safado. Quase matou meu irmo!
     -        Menelau, as coisas no so bem assim. Voc acredita que Deus permitiria que uma pessoa to ignorante tivesse tal poder?
     -        Ento no entendo.
     -        Ele s conseguiu derrubar e atingir Demerval porque este estava dando chance com seu comportamento. Mostrava-se intolerante, exigente, tornou-se antiptico 
at aos seus famliares. Isso o enfraqueceu, permitindo que espritos perturbadores o envolvessem. Se ele procedesse diferentemente, nenhuma mandinga o teria prejudicado. 
No defendo o Bentinho, que abusou de sua capacidade de lidar com as foras da vida, mas, ao mesmo tempo, reconheo que ele s foi bem sucedido porque Demerval permitiu.
     -        O assunto  mais complexo do que parece.
     -        Claro.
     -        E como ficou?
     -        Ficou que expliquei tudo a Demerval. Ele precisava saber. Assim que se sentiu melhor, voltou a agir como antes.
     -        O mal-agradecido...
     -        Queria mandar em tudo, exigir, coordenar, e fui obrigado a ser duro com ele.
     -        No que fez muito bem.
     -        Se ele no modificasse seu modo de agir, por certo ficaria doente de novo. A, ningum sabe o que aconteceria. A custo fi-lo entender que a melhor 
maneira de eliminar um inimigo  fazer dele um amigo.
     -        Demerval aceitou isso?
     -        A princpio no. Depois acabou compreendendo. Tratou de ser melhor com a esposa. Ela tambm mudou muito e j no aceita voltar a situao antiga. Agora, 
ele a respeita, depois de ter visto como ela administrou a fazenda durante sua doena.
     -        Ele j est bem?
     -        No de todo. Compreendo isso. Se ele vier a sarar logo, por certo esquecer o que passou e voltar ao procedimento anterior. Enquanto que se ele, de 
vez em quando, sentir-se indisposto, isso o far lembrar-se do que aconteceu e procurar moderar-se. Ningum muda de um dia para outro. O processo  lento. Sua cura 
definitiva est dependendo dessa mudana.
     -         incrvel!
     -        . A vida ensina o que  preciso.
     -        Quer dizer que a Zefa continuou l?
     -        Sim. Dei-lhe um bom susto, mostrei-lhe que estava errada, ela se arrependeu. Vendo que seu patro trata melhor sua sinh, est calma.
     -        E o Bentinho?
     -        O Bentinho, eu ainda no consegui o que pretendia. Gostaria que ele pudesse morar com a Zefa, de quem  apaixonado. Queria voltar a provncia a todo 
custo por causa dela. Demerval foi intransigente. No quis atender-me, mas Maria Jos prometeu ajudar-me. O melhor seria levar o negro junto para a provncia e ensin-lo 
boas coisas.  inteligente e pela Zefa far qualquer coisa. Se Demerval permitir que ele viva com ela na casa da provncia, por certo ter ganho sua amizade para 
sempre. Depois, ele tem percepes,  mdium curador. Bem apoiado, ele poder fazer muito bem s pessoas.
     -        Acredita isso?
     -        Acredito. A Zefa j o perdoou e estava com os olhos vermelhos de tanto chorar no dia da partida. O Bentinho pediu perdo
a Maria Jos, e ela implorou para lev-lo junto. Demerval no deixou. Ela garantiu-lhe que tudo far para busc-lo antes das crianas nascerem.
       - Crianas?
       - Esqueci de dizer que a Zef a tambm est grvida.
       - Tambm?
       - Sim. Maria Jos espera um filho.
Menelau abalou-se.
       - Ela est bem?
    -  uma mulher forte. Est firme no posto. Agora que sentiu o prazer da liberdade no ser mais to submissa s implicncias do marido.
    O        corao de Menelau batia forte. Um filho! Seria de Demerval ou...
    -        Para quando ser a criana?
    -        No sei bem. O curioso  que as duas esto grvidas ao mesmo tempo. Demerval melhor faria se deixasse o Bentinho ir junto, o pobre diabo estava desesperado.
    -         uma crueldade separar o pai do filho - reconheceu Menelau. Deixara uma semente em Maria Jos. Teria germinado? Desejou estar perto dela, perguntar-lhe 
a verdade. Como saber? O filho poderia ser de Demerval.
    -        Voc se emocionou - disse Eduardo.
    -        As notcias de nascimento sempre me emocionam. Seria o homem mais feliz se tivesse um filho. Maria Antnia no aceita a idia. Odeia crianas. Estou 
condenado a viver em solido toda minha vida.
Eduardo olhou-o firme nos olhos e respondeu:
    -        Quando fazemos o melhor, quando nos esforamos para ser honestos e cumprimos nosso dever, Deus faz o resto.
    -        O que quer dizer?
    -        Que confie nos desgnios de Deus. Ele nunca erra. Se no lhe deu filhos at agora, alguma razo deve haver. Um dia, quando for possvel, por certo esse 
desejo ser realidade. Tudo quanto Deus faz  bom. Ele sempre faz o melhor.
     -        Quer dizer que eu no ter filhos  um bem?
        - No. Quero dizer que se ainda no os tem,  porque no  o melhor momento para isso. As coisas vm na hora certa. Por isso  bom sermos pacientes e entendermos 
o que a vida quer de ns.
     -        Talvez eu ainda no merea. Voc pode ter razo. O jeito  saber esperar.
     Entretanto, no corao de Menelau cantava uma esperana, na qual ele no ousava acreditar, mas que era suficiente para embalar-lhe o sonho e aquecer-lhe o corao.
     Maria Jos deu  luz em setembro a um belo menino e Demerval sentiu-se muito orgulhoso. Ter mais um filho significava que ele estava forte e bem de sade apesar 
dos achaques que o acometiam de vez em quando. Acercando-se do leito, olhando o pequeno ser que dormia ao lado de Maria Jos, disse, embevecido:
     -        Estou feliz, Maria Jos. Voc me deu mais um filho. Escolha um presente que eu darei. Uma jia, algo que fique na lembrana deste dia feliz de nossas 
vidas.
     Maria Jos olhou-o com olhos brilhantes e pediu:
     -        Voc sabe que a Zef a espera um filho por estes dias. Quero que ela seja feliz. A coitada vive chorando.
     -        Chora porque  teimosa. Precisa esquecer aquele negro atrevido.
     -        Depois que voc adoeceu, sofri muito. Di-me pensar que eu podia agora estar s, se sua doena piorasse. Se posso pedir algo a voc que me d alegria, 
quero que mande buscar o Bentinho para viver com a Zef a. Ele  pai e quer ver o filho nascer.
     Demerval abanou a cabea:
     -        O que me pede  difcil. No posso esquecer que aquele
negro  mandingueiro. Deve dar graas a Deus de eu no t-lo posto
a ferros. Estou sendo bom com ele at demais em ateno a voc
e ao senhor Eduardo.
     -        Quero que o mande buscar. T-lo como inimigo  pior. No sei o que ele poder fazer em seu desespero. Se voc quer me dar algo, que seja isso. Tenho 
o direito de pedir. Quero o Bentinho aqui quando o filho da Zef a nascer.
     Demerval resmungou, discutiu e por fim acabou concordando. No queria negar o desejo da mulher naquela hora. Mandou buscar o Bentinho.
     O        negro chegou dois dias depois e, assim que viu Maria Jos, atirou-se a seus ps, beijando-lhe a barra da saia.
     -        Sinh! De hoje em diante sou vosso servidor at morr!
     A Zefa estava radiante.
     -        Levante-se, Bentinho - disse Maria Jos, tentando sorrir, emocionada. - Deixe disso. Quero que cuide bem da obrigao. Vai aprender servio aqui dentro 
de casa, comer com a Zef a na cozinha. Vou dar para vocs um quarto para morar sozinhos. J mandei uma cama e uns arranjos. Estou fazendo isso porque gosto da Zef 
a e essa peste gosta de voc. Mas quero tudo bem limpo e servio bem feito. Tem de ir no mercado, cuidar dos cavalos, a Zefa ensina tudo. Vo morar juntos e voc 
vai cuidar muito bem dela e do filho que vai chegar.
     O        Bentinho chorava de emoo. Tinha se levantado, mas atirou-se de novo ao cho.
     -        Perdo, sinh! Nego foi muito marvado e sinh  uma santa!
     -        Quero ver como voc vai se portar. Se fizer tudo direito, vai ter famlia e mulher, eu prometo.
     Foi com imensa alegria que Maria Jos os viu afastarem-se. A Zefa estava feliz, ocupada em ajeitar o pequeno quarto ao lado das cavalarias em que iriam morar.
     Demerval, vendo a alegria da esposa, tornou:
       -   Espero nunca me arrepender desta concesso.
     -        Eles esto felizes e sero fiis pelo resto da vida! Afinal, so gente. Amam, choram, sofrem, como ns.
     -        Voc est sentimental. Eles no so como ns, so como animais, precisam de pulso e de orientao.
     -        Pode ser. Mas a Zef a  como da famlia. Quero v-la contente.
     Demerval deu de ombros.
     -        Se  assim, est bem. Espero nunca arrepender-me desta fraqueza.
     Nos dias que se seguiram, Maria Jos comprovou a boa vontade do Bentinho. Estava feliz e tudo fazia para agradar. A criana da Zefa nasceu trs semanas depois. 
Uma linda menina, forte e gulosa, que fez o Bentinho se emocionar. Maria Jos tomou-se logo de amores pela criana, dando-lhe roupas e zelando pelo seu bem-estar. 
A Zefa sentia-se muito feliz.
     Demerval, apesar de no aprovar essas intimidades, gostava de ver Maria Jos contente. Tinha notado que ela, s vezes, ficava triste e pensativa. Receava adoecer 
novamente. Sua sade nunca mais havia sido a mesma. Acreditava que, a despeito do que lhe haviam dito, ele era portador de molstia difcil, que de vez em quando 
o enfraquecia, deprimia e assustava.
     Nessas horas, procurava pela esposa e apoiava-se nela, que durante a sua doena se mostrara to forte e conduzira tudo sozinha. No queria aborrec-la. Se ela 
adoecesse tambm, o que seria deles? Por essa razo, v-la contente o alegrava, pouco lhe importando os escravos.
     Foi com prazer que receberam a visita de Eduardo. Ele ficou satisfeito vendo o Bentinho muito diferente do que fora, falando da sinh com respeito e adorao.
     Eduardo conversava com eles alegremente e Maria Jos, embora ansiosa por saber de Menelau, no se animava a perguntar. At que arriscou:
     -        Dona Maria Antnia j recuperou a sade?
     -        Est to bem que nem parece haver estado doente.
     -        Antes assim - considerou Demerval, educadamente.
     -        E Menelau?
     -        Passa bem. Tem trabalhado muito.
     -        Esse meu irmo est se revelando.  mais jovem do que eu e eu temia pelas suas idias de modernismo. No concordo com sua maneira de ser.
     -        No diga isso, Demerval - disse Maria Jos, a custo contendo a irritao. - Ele  muito capaz. Foi de uma dedicao muito grande. Devemo-lhe favores 
que nada poder pagar.
     -        Quanto a isso, reconheo. Veio e tentou ajudar-me. Entretanto, no concordo com suas idias.
     -        Ele ensinou-me tudo quanto sei. Sou-lhe muito grata. Jamais esquecerei o que fez por ns. Chegou a desentender-se com
a esposa para ficar aqui, em detrimento de seus prprios interesses
e negcios na capital da provncia. Voc teria feito isso por ele?
     Apanhado de surpresa, Demerval no soube o que responder. Depois de alguns instantes disse:
     -        No sou ingrato. Sei o que ele fez por mim. Mas ele diferente e eu no aceito sua forma de pensar. Ele me surpreendeu,  inteligente, porm desperdia 
seus talentos.
     Maria Jos a custo dominou-se. Decidiu mudar de assunto. Teve vontade de gritar que preferia Menelau e gostaria que o marido fosse igual a ele. Contudo, nada 
disse.
Naquela tarde, a saudade de Menelau, de seu sorriso amigo, seu ar alegre, sua voz serena, surgiu forte. Maria Jos lutou para esquecer esses pensamentos, porm, 
a lembrana daquela noite de amor no lhe saa da mente e ela procurava conter-se para no dar a perceber o que lhe ia na alma. Ah, se ele soubesse! Se ele soubesse 
que o pequeno Romualdo era seu filho! Esse era o seu segredo, que deveria levar at a hora da morte. Ningum jamais saberia. Cri-lo seria para ela uma alegria. 
Saber que ele deixara nela sua marca, um pedao do seu amor!
     Eduardo, entretanto, conversava longamente com Demerval, interessado em informar-se sobre sua sade.  tarde, a ss na varanda, Demerval confidenciou-lhe:
     -        Apesar de melhor, nunca mais fiquei bom como antes.
     -        O que sente?
     -        H momentos em que estou muito bem, porm, de repente, sinto depresso, tristeza, medo e ento a fraqueza volta. Nessa hora, tenho receio de adoecer 
outra vez. Sinto-me sem energia e em minha casa no tenho conseguido impor mais minha autoridade.
     -        Gostaria que tudo voltasse a ser como antigamente?
     -        Gostaria. Tudo andava em ordem e a rotina era perfeita.
     -        Mesmo que sua famlia no se sentisse feliz?
     -        Est enganado. Minha famlia era feliz - disse ele, com orgulho.
     -        Menos do que agora. Seus filhos esto alegres, falantes, dona Maria Jos muito mais feliz. E pelo que pude perceber, as coisas nesta casa esto na 
mais perfeita ordem.  uma casa bem administrada.
     -        No como deveria. Maria Jos tem momentos de tristeza em que me parece muito sofredora.
     -        Todas as pessoas tm seus momentos de humor. Quem no se sente triste de vez em quando? Agora ela  mais firme, mais atuante.  mulher de fibra, sr. 
Demerval.
     -        Eu sei. Mas h momentos em que me sinto incapaz de conduzir as coisas e isso me preocupa. Sempre fui homem de vontade forte. Agora no consigo melhorar 
definitivamente.
     -        Mas o senhor est muito melhor! A cada dia aprende mais.
     -        No  isso o que eu sinto.
     -         porque no est percebendo. Note que, hoje, o senhor est mais sensvel, mais humano.
     -        Estou mais fraco.
-        Engano seu. A imposio jamais representou a verdadeira fora.  apenas o forte subjugando o fraco. Somos todos iguais em direitos perante Deus. A vida 
exige isso de ns, que respeitemos os direitos dos outros e sua liberdade.
     -        Deus  autoritrio. Impe suas determinaes contra nossa vontade.
     -        Engano seu. Deus nos permite sempre optar.  claro que cada ato nosso, cada ao que resultou da nossa atitude, da nossa escolha, provoca uma reao 
e essa  determinada pelos nossos atos, no por Deus.
     -        Estranha filosofia.
     -        No  filosofia.  verdade.
     -        No meu caso...
     -        No seu caso a doena veio para modificar sua maneira de ser. Para mostrar-lhe que tudo pode ser diferente. Que no h necessidade de impor rotinas 
aos outros porque eles podem conduzir-se sozinhos. Diante de Deus, cada um  responsvel pelo que faz.
     -        Isso  o abuso da liberdade! Como deixar a esposa e os filhos sem apoio?
     -        Isso no significa deixar sem apoio mas tambm no nos autoriza a querer conduzi-los pela mo, fazendo tudo por eles, da nossa maneira, impondo-lhes 
nosso modo de ser.
     -        E a autoridade do chefe, como fica?
     -        Por conta d exemplo e da dignidade. O bom exemplo e a dignidade so os melhores meios de induo ao bom comportamento. Muitos de ns esquecemos as 
palavras que ouvimos dos outros mas nos lembramos inmeras vezes dos fatos e das atitudes que tiveram.
     -        Recuso-me a concordar com esse excesso de liberdade! Desse jeito, aonde iro nossos valores?
     -        Nossos valores sero enriquecidos. Se o senhor, ao invs de impor suas idias, antes as expusesse a dona Maria Jos, ouvindo-lhe um parecer, perceberia 
ngulos em que jamais pensou e elas ganhariam fora, realismo. Se seus filhos, j mais adultos, fossem tambm ouvidos, veria como o resultado seria maravilhoso. 
Cada cabea, cada pessoa, v as coisas por um ngulo particular; juntos, por certo, perceberiam melhor e agiriam dentro da mais objetiva realidade.
     -        E minha autoridade? E minha condio de pai de famlia com a obrigao de decidir as questes?
        - Ficariam em sua verdadeira posio, na maturidade e no bom senso para, de todas as idias, extrair a melhor, a mais prudente, a mais til, a mais acertada. 
No pode negar que, depois de todos opinarem livremente, o senhor teria uma viso maior do assunto. No subestime sua mulher nem seus filhos, apesar de crianas. 
Todos sempre podero contribuir para enriquecer sua experincia. So pessoas e cada um tem sua maneira particular de ver.
       - O que diz  assombroso! O que tem tudo isso a ver com minha doena?
       - Seu estado doentio vem da necessidade que a vida tem de romper seus preconceitos e mostrar-lhe a realidade. Sempre que quiser voltar  situao antiga de 
autoridade, a vida vai lhe cobrar, a doena aparece, como a dizer-lhe da precariedade da sade e que a verdadeira fora no se encontra na imposio. i o orgulho 
que nos cega, e a esse ponto, e a vida sempre fere os orgulhos para faz-los enxergar a verdade, O senhor est muito melhor. Antigamente sequer discutiria este assunto 
comigo.
       -  verdade. Reconheo isso.
       - Pois ento. Tenha coragem para mudar e perceber que sua esposa  pessoa capaz e inteligente e tem feito muito pela famlia.
       - Eu sei. Jamais pensei que ela pudesse. Era to dcil, jamais discordava de uma opinio minha. Agora, est diferente. Faz tudo sem consultar-me.
       - Habituou-se quando da sua doena. No entanto, se ela faz tudo bem, melhor para o senhor. Pode descansar mais, refazer-se.
       - Sinto-me humilhado.
       - Para que tanto orgulho? De que lhe serve? Se dona Maria Jos fosse incapaz, como estariam as coisas?
       -  verdade. Porm, sinto-me intil.
       - Procure cooperar. Estou certo de que, se deixar de lado a imposio, tudo ser mais fcil.
       Demerval suspirou fundo.
       - Sentir-me-ei envergonhado.
       - Estou certo que no. Sua experincia, sua capacidade sero
apreciadas. Dona Maria Jos as aceitar de bom grado.
       - A que ponto cheguei! - disse ele, amargurado.
       - No se lamente. Deus faz tudo certo. Se fizer o digo, garanto que se sentir melhor.
       - No sei, vou pensar. No sei fazer o que me diz.
     -        Claro que sabe. Vai melhorar muito se fizer isso.
     -        Vou tentar.
     E realmente, ele tentou. A custo sofreava seus mpetos de autoridade procurando no impor nada. Era-lhe muito difcil. Maria Jos, instruda por Eduardo, procurava 
ajud-lo, dando-lhe chance de opinar, embora nem sempre fizesse o que ele dizia. Era uma luta em que eles submetiam-se em favor da harmonia domstica.
     Eduardo preparou-se para partir. Ia satisfeito. A situao daquele lar ia melhorando. Na vspera da sua partida, Maria Jos procurou-o, comovida.
     -        Sr. Eduardo! Muito obrigada por tudo quanto tem feito por ns.
     -        A luta  de cada um. Apenas lhes mostrei isso.
     -        Gostaria que agradecesse a Menelau em nome de todos ns e lhe entregasse esse retrato como lembrana e nossa saudade.
     Maria Jos desembrulhou o pacote que trazia, mostrando a famlia reunida, pintada delicadamente sobre uma madeira oval. O pequeno Romualdo ao colo de Maria 
Jos.
     -         um lindo trabalho. Ele vai apreciar muito.
     -        Desejamos mostrar nossa gratido.
     -        Estou certo que lhe agradar. Sentia-se muito saudoso de todos. Ele adora famlia, crianas, mas at agora dona Maria Antnia no deseja ter filhos.
     -         pena. Diga-lhe que todos sentimos muito sua falta.
     -        Direi, dona Maria Jos.
     Maria Jos a custo dominava a emoo. Sentia mpetos de escrever-lhe, vontade de contar-lhe seu segredo. Dominou-se. De que lhe adiantaria? Menelau era um sonho 
impossvel e devia procurar apag-lo do seu corao.
     Eduardo despediu-se de todos com alegria. A Zef a preparou ela mesma uma galinha bem gorda para ele comer em viagem e o Bentinho beijou-lhe as mos com devotamento 
na hora da partida. Maria Jos tinha lgrimas nos olhos.
       Deus o abenoe - disse, comovida.
     A carruagem partiu e ela ficou na varanda, olhando a poeira e com o corao partido. O retrato da famlia e de Romualdo diria alguma coisa a Menelau? Por certo 
ele se recordaria daquela noite. Compreenderia? Para ela esse segredo, esse amor, representavam sua fora, sua alegria, de onde tirava energias para as lutas do 
dia a dia. Ela nunca haveria de esquecer.

CAPTULO 10

     A tarde estava quente e o mormao incomodava. Menelau, sentado em seu escritrio, escrivaninha aberta e muitos papis  sua frente, lia plido e contrafeito. 
Amassou o papel com raiva e arremessou-o ao cesto. Essa situao no poderia continuar. Era a terceira carta annima que recebia e isso irritava-o intensamente.
     Levantou-se e encaminhou-se at o console que guarnecia um dos cantos da sala; olhou o retrato de Demerval e famlia que Eduardo lhe entregara como lembrana 
de Maria Jos. Fundo suspiro escapou-lhe do peito. A saudade doa-lhe. Olhou, como de costume, o beb no colo de Maria Jos e seu corao bateu forte. Seria seu 
filho? Esta pergunta queimava-lhe o peito, mas, apesar disso, no tivera coragem para voltar a v-los. Partira da fazenda h dois anos, porm considerava aqueles 
tempos como os melhores de sua vida.
     O amor dos sobrinhos, a vida em famlia, a presena da cunhada era tudo quanto snhava ter obtido na vida. Contudo, apesar disso, no pretendia perturbar a 
felicidade do irmo a quem desejava, sinceramente, pudesse viver bem com a famlia.
     No entanto, sua situao com Maria Antnia piorava dia a dia. Eles mal se toleravam. Menelau esforava-se para compreender a esposa, porm esta mostrava-se 
mais ftil a cada dia e seus caprichos tinham o dom de irrit-lo. Negava-se a aliment-los. Quanto a ter filhos, ela conservava-se irredutvel. No queria sequer 
pensar no assunto e quando Menelau tentava falar-lhe de seu velho sonho e da necessidade de um herdeiro, ela encolerizava-se dizendo que em hiptese alguma iria 
deformar seu corpo.
     Menelau procurava conformar-se, porm um tdio imenso tomava conta dele. Estava perdendo o gosto pela vida, tornando-se indiferente e triste. J no sorria 
como antes e evitava a esposa sempre que podia. Eram como dois estranhos vivendo juntos. O pouco tempo que desfrutavam em comum transformava-se sempre em um amontoado 
de queixas recprocas das quais Maria Antnia saa mais irritada e Menelau mais triste.
     Preocupado com o amigo, Eduardo visitava-o amide tentando faz-lo interessar-se por outros assuntos, percebendo que, no momento, nada podia fazer para ajud-lo. 
A princpio ele demonstrava pouco interesse, mas aos poucos foi tomando gosto pela leitura dos assuntos psquicos e pelas pesquisas de Eduardo realizadas em sesses 
espritas, na residncia de um amigo, as quais passou a freqentar.
     Apesar de sua situao famliar ser a mesma, Menelau agora j podia comprender melhor os problemas de sua mulher, evitando agrav-los ainda mais. Porm, quando 
tudo estava calmo, eis que uma nova carta annima o desequilibrava. Percebia as futilidades de Maria Antnia, contudo no a julgava leviana a esse ponto.
     Nas intrigas da corte, onde ela era figura assdua e destacada, havia sempre muita inveja, muita maldade e at rivalidade. Conhecia mulheres que disputavam 
seriamente um lugar de destaque com a famlia imperial, usando para esse fim de todas as armas. Era possvel que Maria Antnia estivesse sendo vtima dessas intrigas 
de salo. Mas, ao mesmo tempo, uma dvida, um receio, uma indagao: e se fosse verdade? E se Maria Antnia se apaixonasse por um daqueles peralvilhos empoados dos 
sales? Ela era jovem e ftil, isso poderia estar acontecendo.
     Irritado, Menelau caminhou nervoso pela sala. No conseguira trabalhar. Nos ltimos tempos abrira o escritrio para negociar exportando seus produtos, vendendo-os 
ou trocando-os com os estrangeiros, sempre com muito sucesso. Progredira financeiramente. Dedicava-se ao trabalho para ocupar-se ao mximo. Naquele dia no se sentia 
em condies de fazer nada.
     Resolveu sair. No suportava mais. Precisava ver Eduardo, desabafar. Procurou o amigo, que o recebeu com deferncia. Observando-lhe o ar preocupado, perguntou 
atencioso:
     - No est bem. Aqui, a esta hora... aconteceu alguma coisa?
     - Aconteceu.
     E Menelau, sentado em frente ao amigo, abriu seu corao
     - Sei que no se deve dar crdito a cartas annimas, mas por outro lado sinto-me desconfiado e triste. O que fazer? E se for verdade mesmo? E se Maria Antnia 
for culpada?
     - Calma, Menelau. No perca a cabea. O desespero no solucionar o assunto. Infelizmente voc no tem afinidades com dona Maria Antnia. Na verdade o que no 
 bom  estarem sempre to distantes um do outro. I claro que quem escreve conta com
isso. Deve saber que vocs no se do bem. Por que no tenta aproximar-se mais de dona Maria Antnia? Poderia ajud-la a que viesse a interessar-se tambm por outros 
assuntos.
     Menelau suspirou:
     -        Eu tentei. Deus sabe que tentei. Mas ela recusa-se a ouvirme. Ou fao-lhe todos os caprichos e vontades ou no me d ouvidos.
     -        Voc deve ser paciente. Dona Maria Antnia  pessoa fascinada com o barulho dos sales. Vai desiludir-se, fatalmente. Um dia compreender a verdade.
     -        Tento ajudar, mas  difcil. Parece-me v-la caminhar para o abismo com alegria e obstinao. Sei que um dia se desiludir pois o que  falso sempre 
acaba, mas quando? Sinceramente, no me agrada essa suspeita vil.
     -        O que pensa fazer?
     -        Ainda no sei. Posso impor-me como marido proibindo-a de sair sem ser em minha companhia. Isso me obrigaria a acompanh-la por toda parte, o que  
para mim um grande sacrifcio.
     Eduardo levantou-se e, aproximando-se do amigo, pediu:
     -        Venha comigo esta noite  casa do sr. Sampaio. Voc fica desde j, janta comigo, depois iremos at l.
     Menelau levantou-se indeciso.
     -        No sei. Afinal o problema  meu e de Maria Antnia. Ningum poder mudar as coisas, isto , no h ajuda espiritual capaz de nos fazer diferentes 
do que somos.
     -         verdade. Contudo, a prece, a ajuda dos espritos bons, podero sempre nos acalmar, aclarando-nos as idias e ajudando-nos a ver melhor. Est decidido. 
Voc fica e vamos juntos.
     Menelau concordou. Se fosse para casa, irritado como estava, poderia ter uma cena com a mulher e no queria isso. Precisava mesmo acalmar-se.
     Eduardo procurou ajudar o amigo tentando faz-lo interessar-se por outras coisas.
     -        Tem recebido notcias de Demerval? - indagou, amvel.
     -        Poucas. J faz algum tempo que ele no me escreve. Alis, Demerval nunca foi muito comunicativo comigo.
     -        Eu tenho boas notcias. De quando em quando dona Maria Jos me escreve para contar como esto. Respondo com alegria. Mulher extraordinria, a sua cunhada. 
Admiro-a muito.
     Menelau corou de prazer. Maria Jos era sua deusa. Sua mulher ideal.
     -        Eu tambm a admiro. Como vo eles?
     Vendo-o interessado, Eduardo foi at sua escrivaninha e voltou com uma carta entre os dedos.
     -        Leia-a. Chegou ontem.
     Menelau apanhou o papel, emocionado. Conhecia muito bem aquela letra. Maria Jos informava sobre Demerval, relatando suas lutas. Era-lhe difcil aceitar novamente 
a direo do marido, mesmo nos negcios, porqanto havia muitos pontos com que ela no concordava. Achava suas idias fora de propsito. Reconhecia estar certo que 
ele voltasse a dirigir os negcios, a fazenda, j que estava melhor. Pedia a Eduardo que a aconselhasse e dizia: "Lamento que ele no seja como Menelau. Ns quase 
nunca discordvamos, mas quando isso ocorria, ele sempre me explicava o porqu. Demerval irrita-se e no aceita sequer minha opinio. Est sendo difcil para mim. 
J no suporto mais ser apenas a mulher, dona de casa, cujos servios os escravos fazem muito bem. Estarei sendo considerada igual a eles? Ajude-me, sr. Eduardo, 
por favor. Est muito difcil suportar isso e s a presena de meus filhos me trazem alegria e conforto. Romualdo  meu enlevo. Cada dia que passa mais me apego 
a ele como razo maior da minha vida".
     E terminava agradecendo a ajuda e pedindo resposta breve. Menelau tinha lgrimas nos olhos.
     -        Voc os quer muito, no?
Muito. Gostaria de conhecer o pequenino.
-  um belo menino.
     Eduardo dirigiu-se a outra sala e voltou com um pequeno quadro oval que entregou a Menelau.
     -        Veja. Recebi essa pintura junto com a carta.
     Emocionado, Menelau segurou o pequeno quadro onde havia pintado o rosto de uma criana. Suas mos tremiam enquanto fixava o rostinho redondo e corado do menino.
     -        Gostaria de possuir uma. Pena que eles no me mandaram.
     -        Pode guardar esta. Sei que dona Maria Jos no se ofender.
     Menelau no podia desviar os olhos do retrato. Mil pensamentos passavam-lhe pela mente. Seria seu filho? Sentia-se sufocar. Ardia de desejo de perguntar isso 
a cunhada. Mas, como?
     -        Voc est emocionado! Gostaria de ter um filho.
-  um grande sonho que jamais realizarei.
     Os dois continuaram conversando e Menelau sentia-se mais calmo. Seu rosto guardava mais paz e, de quando em vez, fixava o rostinho delicado do menino.
      noite dirigiram-se  casa do sr. Sampaio para a sesso. Eram cinco pessoas: o casal, a jovem filha, que era a mdium, e os dois visitantes.
     No momento da reunio, sentados ao redor da mesa, Menelau sentiu-se tomado de intensa emoo. Toda dor, angstia, tristeza que o amarguravam e que durante tanto 
tempo reprimira, reapareceram, tomaram corpo, sufocando-o. Na obscuridade da sala, lgrimas lhe fluram dos olhos qual catadupas desordenadas. Deixou-as correr livremente, 
e quando serenou um pouco, murmurou ardente prece. Sentia necessidade de conforto, de fora, de esperana.
     Nessa hora a jovem mdium foi sacudida por um frmito que lhe acelerou a respirao. A atmosfera era diferente, como que modificada por uma aragem fresca, agradvel.
     Menelau no saberia dizer o que se passava dentro dele. Um misto de alegria e dor, serenidade e nsia, fazendo-o pressentir que ia acontecer alguma coisa.
     A jovem suspirou e disse com emoo:
       - Menelau, meu filho.
Admirado ele colocou toda ateno em escutar. Ela prosseguiu:
     - Vim abra-lo. Finalmente posso falar de novo com voce. Sei que me atender.
     Menelau tremia emocionado. Sua me! Seria mesmo ela? A jovem mdium continuou:
     - Quanta saudade, meu querido Lelo! Quanto esperei por este dia!
     Menelau no teve mais dvida. Era ela! S ela o chamava por esse apelido, que h muitos anos no ouvia.
     - Me! - disse ele, com emoo. - Quisera ser menino de novo para correr para os seus braos! Que saudade!
     - Vim para dizer-lhe que no desanime. Na Terra, todos temos nossos deveres a cumprir. Procure cumprir os seus at o fim. Sei o que lhe custar.
     - Sabe? Por acaso conhece o que vai ser de mim?
     - Posso ler seu corao como um livro aberto. Compreendo sua dor. Contudo, voc tem um trabalho a executar, um compromisso a cumprir. No se deixe abater. Lembre-se 
sempre de que Deus no nos abandona nunca. Ore com f. Tenho seguido de perto
sua vida. No se faa de fraco na hora de ser provada sua fora. Siga confiante. Voc h de vencer!
     Menelau pensou em Maria Antnia e nas cartas infamantes. No se sentiu com coragem de perguntar. A jovem mdium contudo, depois de ligeira tosse, continuou:
     - Lelo, no se atormente. Deixe a infmia por conta de quem a pratica, no desa at ela. Deus tudo v. Guarda seu corao em paz.
     - O que deverei fazer?
     - Orar, confiar e esperar, sejam quais forem os acontecimentos. Cultive a f e a coragem e deixe a Deus o julgamento e a ao. Lembre-se tambm de que eu estarei 
sempre com voc. Ligue-se comigo pela prece e farei tudo para ajud-lo. Coragem. Agora preciso ir.
     Menelau sentiu-se agradecido.
     - Deus a abenoe - disse.
     - Obrigada, meu filho. No se esquea do que eu disse. Coragem. O dever acima de tudo. Deus o guarde.
     Fundo suspiro escapou do peito da jovem e depois ela calou-se. Menelau sentia-se emocionado. O esprito de sua me estivera ali, falara com ele! No alimentava 
nenhuma dvida. Alm do apelido j esquecido, a tosse um tanto seca que a acompanhara durante sua doena at a morte. Como duvidar? Sentia-se calmo. Ela infundira-lhe 
esperana e serenidade. Recordara-lhe o dever para com a esposa e o exortara a esquecer a calnia.
     Outro esprito ainda trouxe orientao e palavras consoladoras aos presentes, e depois de mais meia hora foi encerrada a sesso.
     Menelau, mais animado, no pde sopitar o entusiasmo. Sua querida me estivera ali. No estava mais sozinho. Dali para frente, encontraria disposio para lutar.
     A partir daquela noite, Menelau tornou-se um assduo freqentador das sesses na casa do sr. Sampaio e um estudioso de "O Livro dos Espritos". Eduardo recebera 
da Frana o original e se comprazia em traduzi-lo para os estudos com os amigos.
     Menelau foi, aos poucos, se sentindo mais sereno. O esprito de dona Agnes, sua me, vrias vezes se comunicara pedindo-lhe pacincia para com Maria Antnia. 
Certa vez, lhe dissera:
     - Pense nela como em uma filha muito querida que voc, com seu amor, precisa conduzir, orientar e despertar para os verdadeiros valores da vida. Que ela seja 
a filha que voc no teve.
     Menelau aceitava e procurava olhar a esposa como uma mulher inexperiente. Tentava aproximar-se mais, procurando despertar-lhe o gosto por outras coisas, pela 
arte, pela boa msica, pela leitura. Intil, porm. Maria Antnia s tinha olhos para as atividades sociais, achando maantes outras atividades que no as palacianas.
     Uma noite, os dois estavam sentados na sala quando a sineta da porta se fez ouvir. Logo um cavalheiro, pedindo licena, foi introduzido pela mucama.
     -        Tem uma mensagem urgente para meu sinh.
     Maria Antnia, curiosa, olhou para o mensageiro enquanto que Menelau, j em p, perguntou:
     -        De onde vem? O que o traz?
     -        Mensagem do Imperador.
     Menelau admirou-se:
     -        De Sua Majestade? Deixe-me ver.
     Apanhou o envelope que lhe era estendido com surpresa. No mantinha laos de ligao com a corte, alm dos protocolares.
     Maria Antnia olhava com o rosto corado de emoo.
     -        Sua Majestade deseja resposta urgente.
     Menelau abriu o envelope e leu. Era um chamado a que se apresentasse em palcio na manh seguinte, s 9 horas, para uma audincia direta com o Imperador.
     Intrigado, Menelau curvou-se e respondeu:
     -        Diga a Sua Majestade que estou honrado com o convite. Estarei l na hora certa. Quer por escrito?
     -        No  necessrio. Vossa resposta ser dada. Boas-noites.
     -        Boas-noites - respondeu Menelau.
     Assim que ele se foi, Maria Antnia, olhos brilhantes de emoo, aproximou-se do marido.
     -        O Imperador o chama!  sua grande chance! Se conseguir agrad-lo, nossa posio pode melhorar! Ser a glria.
     -        No espere muito. No sabemos ao que me chama.
     -        Claro que para algum encargo de responsabilidade.
     -        Gostaria de servir ao meu pas. Entretanto, no sei se poderei aceitar... Afinal, temos os nossos negcios.
     -        Que podero ficar nas mos dos seus auxiliares.
     -        Sequer sei ao que me chama Sua Majestade.
     -        Prometa que voc aceitar o que ele quiser.
     -        No sei. Como posso prometer?
-        Em todo caso,  emocionante.
     Menelau riu do entusiasmo da mulher. No pde evitar a curiosidade. Afinal, o que o Imperador poderia querer?
     No dia imediato, um quarto antes da hora marcada Menelau estava presente na ante-sala do palcio. Dom Pedro 2 era rigoroso no horrio. Levantava-se muito cedo 
e no tolerava atrasos. Foi introduzido na antecmara, e um minuto antes de bater as nove horas. Menelau j estava diante da mesa lindamente lavrada do Imperador.
     Emocionado, fitando-lhe o rosto srio e a barba grisalha, curvou-se reverente, saudando-o e colocando-se  sua disposio.
     DONA        Pedro olhou-o bem de frente apertando um pouco os olhos. num jeito muito seu. Menelau sustentou o olhar e esperou. Ele comeou:
     -        O senhor  o dr. Menelau Graciano Coutinho?
     -        Sim, Majestade.
     -        Muito bem. Fui informado de que o senhor  bacharel e estudou na Sorbonne.
     -        Sim, Majestade.
     -        Preciso de um homem de confiana para uma tarefa de responsabilidade. O senhor no ignora que tenho no reino muitos cavalheiros que se sentiriam honrados 
com meu convite. No entanto, eu preciso de algum que no seja conhecido nos meios diplomticos. Indicaram-me seu nome. O Visconde de Abaet garantiu-me que o senhor 
preenche todas as condies.
     Menelau curvou-se, agradecendo. O imperador cofiou a barba pensativo, depois disse:
     -        O senhor fala outros idiomas alm do francs?
     -        Espanhol e ingls, Majestade.
     -        timo. A misso que desejo confiar-lhe  sigilosa e de grande interesse para o Brasil. Estaria disposto a deixar seus negcios e sair do pas por algum 
tempo?
     Menelau olhou-o, curioso. Sua figura nobre impressionava e mais ainda o que ele representava como chefe supremo do pas. No pensara em deixar seus negcios, 
que iam muito bem, mas olhando aquele homem srio, que o encarava e solicitava sua opinio quando dispunha de poderes para ordenar, respondeu:
     -        Vossa Majestade acredita que eu possa desempenhar a misso que deseja?
     DONA        Pedro olhou-o firme:
     -        Penso que sim.
     -        Ento, aceito. Se puder servir Vossa Majestade e o Brasil. ficarei satisfeito.
     -        Muito bem. No se arrepender de sua dedicao.
     DONA        Pedro agitou a sineta e logo seu oficial de gabinete apareceu solcito.
     -        V  sala nobre e diga ao Visconde de Graja que venha at aqui.
     Dentro de alguns instantes o Visconde deu entrada na sala. Era um homem alto, forte, de meia idade, suas e um pouco calvo. Fisionomia sria e interessada. 
Fechada a porta, Dom Pedro foi logo dizendo:
     -        Eis aqui o senhor Menelau. Est disposto a aceitar a incumbncia. Podemos tentar.
     Menelau curvou-se atencioso ao cumprimento do Visconde. Ele era um homem muito respeitado que privava da intimidade do Imperador. Possua cultura invulgar e 
era um dos conselheiros do Imprio. Menelau sentiu-se honrado em conhec-lo e ainda mais daquela forma.
     -        Podem sair agora - disse Dom Pedro. - Coloque-o a par de tudo. Quero v-lo novamente antes de partir e acertar com ele alguns detalhes.
     O        Visconde concordou e Menelau curvou-se em despedida, dizendo:
     -        Majestade, farei tudo para corresponder  confiana que deposita em mim. Deus salve vossa Majestade.
     DONA        Pedro assentiu com a cabea e em seus olhos lcidos havia um brilho de emoo. Menelau afastou-se, cativado. Dom Pedro acabava de conquistar-lhe 
a amizade e o respeito para sempre.
     O        Visconde levou-o para pequena sala onde fechou as portas e convidou-o a sentar-se. Menelau sentia-se curioso.
     -        O senhor tem muitos amigos que o estimam e respeitam -disse ele. - Fale-me um pouco sobre sua estada no exterior. O senhor bacharelou-se na Frana, 
pois no?
     Menelau percebeu que ele desejava conhec-lo melhor. Achou natural. Por isso, falou de sua vida com sinceridade, de suas aspiraes e de suas ocupaes atuais. 
Conversaram durante meia hora e o Visconde trocou idias com ele sobre vrios assuntos, principalmente sobre poltica. Menelau, apesar de curioso, entregou-se ao 
prazer daquela palestra inteligente e agradvel, O Visconde era objetivo, arguto, franco. A certa altura, disse:
     -        O senhor  abolicionista?
     Menelau sustentou-lhe o olhar, que parecia querer devassar-lhe o ntimo do ser. Alou a cabea e respondeu:
     -        Sou. No h neste pas homem livre e de conscincia que no reconhea a necessidade da abolio.
     -        Hum... - fez ele, pensativo. - Est participando de alguns dos movimentos de classe para este fim?
     -        No, confesso que no. Tenho acompanhado os debates com simpatia pela abolio, mas no tive chance seno de alforriar alguns negros de nossa propriedade.
     -        O que vou lhe dizer deve ser guardado entre ns.  segredo de Estado. Alis, quero sua palavra de que nada do que dissermos aqui vai transpirar.  
condio do nosso acordo.
     -        Tem minha palavra - disse Menelau, srio.
     -        Muito bem. H muito que o Imperador deseja acabar com a escravido no Brasil. Entretanto, estamos informados pelo servio secreto que, assim que ele 
assinar essa lei, ser esmagado pela fora republicana.
        - No  justo - disse Menelau, a quem a figura do Imperador inspirava respeito e gratido.
- O que Dom Pedro tem feito pelo Brasil, nenhum governo republicano conseguir fazer.
     -        Folgo em saber que defende a monarquia.
     -        Acredito mais adequado confiar em um homem que por toda sua vida aprendeu a governar a aceitar o governo de algum sem experincia, que governar por 
um perodo curto. Depois, temos o Parlamento, onde o povo tem seus representantes e participa do governo.
     -        Concordo plenamente. Contudo, estamos informados que h um grupo de republicanos, sustentado por uma potncia estrangeira, interessado em derrubar 
o imprio. O ouro tem corrido a soldo dos inimigos do trono e Sua Majestade j sabe que h uma infiltrao de idias republicanas que corrompem a mocidade nas universidades. 
Sua Majestade acredita que, na Frana, rene-se um grupo poderoso que comanda a agitao, interessado no Brasil. Se no podem dominar pelas armas, querem o domnio 
econmico, explorando nossas riquezas. O Imprio tem se empenhado em desenvolver nossas prprias foras, lutando para evitar, na medida do possvel, o domnio do 
poderio econmico estrangeiro. Sua Majestade acredita ser melhor para o Brasil caminhar devagar do que sofrer a explorao de suas riquezas por pases interessados 
apenas em satisfazer seus prprios interesses.
     -        O senhor acredita que a Frana seja esse pas?
     -        No sabemos. Temos quase certeza de que o movimento parte de l. Mas quais os pases ou o pas que est financiando, no sabemos.
     -        Em que isso impede a abolio?
     -        No compreende? A escravido tornou-se a base econmica do nosso pas, essencialmente agrcola. Fortunas encontram-se concentradas no brao escravo. 
As modificaes vo remexer a fundo os costumes e modificar a estrutura da nossa base econmica. Essa mudana vem sendo lenta e o Imperador gostaria j de ter abolido 
a mancha da escravido que obscurece o pas. Dom Pedro h muito tempo vem recebendo apelos nesse sentido de todos seus amigos do outro lado do mundo. Homens de cincia, 
de cultura, humanistas e ele gostaria realmente de responder  altura. Porm, guarda a certeza de que, se atender a esse apelo, seu trono cair.
     -        No  possvel!
     -         verdade. Contudo, acreditamos que se conseguirmos descobrir a sede do inimigo, que se oculta na espionagem e age na sombra, poderemos atravessar 
esta crise, decretar a abolio e o trono sair fortalecido.  para isso que precisamos do senhor.
     -        Pensa que poderei ajudar?
     -        Confiamos que sim. O senhor viajar para a Frana, como se fosse reativar seus estudos, e l verificar se nossas desconfianas se concretizam. Ningum 
dever saber ao que vai, sob hiptese alguma. Daremos endereos e nomes que serviro como base para suas investigaes. Teremos um cdigo para nossas comunicaes. 
Tudo j est preparado. Temos pessoas que iro ajud-lo em suas dificuldades. No se esquea que nos deu sua palavra de que ningum saber o que conversamos aqui. 
Nem sua famlia poder saber.
     Menelau concordou, excitado. Era uma nova aventura e ele no queria recusar. Depois, como dizer no ao Imperador que o convocara a servir o pas, em um gesto 
de confiana e de seriedade?
     Menelau saiu dali preocupado. O navio sairia dentro de dois dias e ele deveria embarcar nele rumo a Paris. Tinha que ultimar negcios, cuidar de sua casa, porque 
no sabia quando iria voltar.
     Foi decepcionada que Maria Antnia ouviu do marido que o Imperador o convidara interessado em um carregamento de cana que deveria seguir para a Europa.
     - Ele olhou-me e encaminhou-me para o Ministro das Finanas, com o qual fizemos um negcio. Foi s - explicou Menelau para a esposa.
     No lhe contou a prxima viagem para que ela no desconfiasse. Naquela noite procurou Eduardo em quem confiava seriamente. No pde ocultar-lhe a verdade.
     - Vou para uma empresa que poder tornar-se perigosa. Se algo me acontecer, se eu no voltar, quero que cuide de Maria Antnia. Vou institui-lo meu representante 
legal. J redigi este documento onde disponho os meus bens. Tenho a certeza de que, se eu no voltar, voc velar pelos meus.
     Emocionado, Eduardo abraou o amigo e, no aconchego da sala, Menelau confidenciou a ele seu amor pela cunhada e a suspeita de que Romualdo fosse seu filho. 
Eduardo comoveu-se e prometeu solenemente que zelaria sempre por eles.
     Depois disso, Menelau sentiu-se aliviado. Dividir seus segredos com o amigo fizera-lhe grande bem. No dia seguinte, comunicou esposa que um grande carregamento 
de produtos que mandara para Havre estava em dificuldade de prosseguir viagem e ele teria que ir pessoalmente para salv-lo. O navio partiria no dia seguinte.
     Maria Antnia esbravejou mas no pde fazer nada.  noite havia a sesso esprita em casa do Sampaio e Menelau acompanhou Eduardo. Ficou comovido. Sentiria 
falta daqueles encontros.
     Durante a sesso, compareceu o esprito de sua me, confortando-o. Ao final, disse-lhe:
     - V, filho. Deus o abenoe. No se esquea da prece. Aceite com alegria os desgnios de Deus. Estaremos sempre a seu lado. No tema.
     Assim, encorajado e esperanoso, no dia seguinte, MeneLau embarcou no navio com destino  Frana. Alm das indicaes e dos cdigos, das recomendaes e dos 
compromissos, levava muita vontade de servir ao pas e acertar.

CAPTULO 11

     Foi dois meses depois que Menelau finalmente chegou ao Havre. A viagem fora um tanto acidentada e ele sentiu-se satisfeito e aliviado ao desembarcar e providenciar 
sua ida para Paris. L chegando, instalou-se em modesta habitao para estudantes, um pequeno quarto no Quartier Latin. Em seguida procurou pelo seu contato, que 
deveria dar-lhe instrues. Tratava-se do sr. Ildefonso Vilela, diplomata brasileiro, membro da chancelaria do Brasil. O encontro com Menelau foi secreto, em local 
perifrico.
     Ildefonso orientou-o a que se inscrevesse em um curso para estrangeiros na Sorbonne. Era preciso que Menelau alardeasse o fato de ser republicano e s desejar 
voltar ao Brasil quando a repblica se concretizasse. Era esse o ponto importante e ele deveria procurar fazer muitas relaes com os outros estudantes, granjear-lhes 
a amizade. Convencionaram a maneira de se comunicarem discreta e secretamente, o que deveria ocorrer s quando um deles tivesse algo importante a relatar.
     No dia imediato, comeou vida nova para Menelau. O ambiente da famosa universidade passara por grande modificao desde que Menelau lhe freqentara as disciplinas 
nos tempos da juventude. A austeridade estava sendo substituda pelos debates e vivia-se intensamente o regime republicano.
     Foi fcil, para Menelau, o papel de um homem inconformado com o regime do seu pas. Exaltava-se a repblica como uma conquista de liberdade e no havia entre 
os estudantes quem defendesse a monarquia, considerada por todos um regime de excesso.
     Tanto interesse dos seus colegas pelo regime republicano, pelas eleies, pelos lderes polticos atuantes preocupou Menelau, fazendo-o sentir-se quase impotente 
para cumprir sua misso.
     Se a repblica era a fora do progresso, quem conseguiria impedi-la de chegar ao Brasil? Entretanto, ele estava ali para descobrir uma conspirao. Existiria 
ela? Chegava a duvidar. Seus mandatrios no estariam enganados?
     Os dias foram passando e Menelau, atento ao trabalho que lhe havia sido pedido, era habitual freqentador dos cafs e das atividades dos seus colegas. Fora 
o prazer de estudar preparando tese para o doutoramento, tese que deveria durar o mximo de tempo possvel. Menelau sentia saudades do Brasil, de Maria Jos, de 
Eduardo. Confortava-o pensar que pelo menos estava distante de Maria Antnia, a quem comunicara em carta sua deciso de. retomar os estudos, j que estava em Paris 
e no sabia quando voltaria.
     Recebeu da esposa uma carta zangada, ameaadora, porm em breve a esqueceu. Sua vida passou a ser agitada e as noitadas repetiam-se. Aos poucos, foi fazendo 
amigos aos quais sempre se colocava como um revolucionrio e inimigo da monarquia. Contudo, no conseguiu descobrir nada de especial, alm d entusiasmo franco e 
idias republicanas generalizadas.
     O        tempo foi passando e Menelau j duvidava das informaes que trazia. Uma noite em que conversava com seu amigo Jean-Paul, este notou:
     -        Voc est triste esta noite, O que h, saudades da ptria?
     -        Saudades de uma mulher e, no posso negar, saudades do Brasil.
     -        Desse jeito voc nem acabar os estudos.
     -        No penso em voltar enquanto no cair o trono e a vergonha da escravido. Vou confiar-lhe uma coisa. Sa do Brasil para no ser preso. Se pode guardar 
um segredo, eu fazia parte de uma conspirao.
     O        outro sorriu malicioso.
     -        Contra o regime?
     -        Claro. Revoltavam-me os desmandos e o elemento servil.
     -        Pelo que sei o seu imperador  tido como um grande homem e muito estimado pelo povo.
     -        No nego, ele  respeitado, mas no governo precisamos ver o bem do povo. Nosso imperador est velho, at adoentado.  preciso sangue novo. Se ele morrer 
teremos uma mulher e um estrangeiro, seu marido, para ocupar o trono. No posso aceitar isso.  preciso o prprio povo governar. A repblica  uma necessidade. Por 
essas idias fui perseguido e resolvi partir para no ser morto. Gostaria de lutar para libertar meu pas. Infelizmente, no possuo os meios. Meus amigos no so 
influentes. Por essa razo, no sei quando voltarei e isso me entristece.
     Jean-Paul olhou-o fixamente.
     -        Sabe que sou seu amigo. Tenho algumas amizades, so influentes. Republicanos, trabalham na libertao dos povos oprimidos e fracos. Talvez o possam 
ajudar.  
     O        corao de Menelau bateu forte. Seria a primeira pista? Respondeu emocionado:
     -        Estou disposto a dar at a ltima gota de sangue pela liberdade do meu pas.
     O        outro sorriu satisfeito.
     -        Verei o que posso fazer.
     Menelau exultou. Dois dias depois, Jean-Paul convidou-o a uma reunio em casa de um amigo. Foi com o corao batendo forte que Menelau o acompanhou.
     Ia disposto a observar tudo quanto pudesse. Foram recebidos por um homem de meia idade, educado e srio, cujos olhos penetrantes pareciam querer devassar-lhe 
o ntimo. Menelau sustentou-lhe o olhar.
     -        Apresento-lhe o doutor Levin - disse Jean-Paul. Menelau curvou-se atencioso, apertando a mo que lhe era estendida. Convidado a sentar-se, o olhar 
de Levin no o abandonava um s instante. Um frio percorreu a espinha de Menelau. Apesar disso, no desviou o olhar.
     -        Estejam  vontade - disse ele, polidamente. - Seu amigo Jean-Paul disse-me que o senhor sentia-se triste e precisava de ajuda. Em que lhe posso ser 
til?
     Apanhado de surpresa, Menelau, a princpio, no soube responder. Procurou controlar-se e, depois de alguns segundos de hesitao, disse:
     -        Meu mal  de difcil soluo. Aqui neste pas, onde j se conquistou a liberdade, talvez no possam compreender minha revolta com o regime do meu pas, 
onde ainda pesa a mancha dolorosa da escravido.
     Um lampejo brilhante passou pelos olhos de Levin.
     -        Engana-se, sr. Menelau. Ns podemos compreender, tanto que lutamos para defender e libertar os pases escravos.
     -        Quisera tambm poder lutar - disse Menelau, com convico. - Porm, s e distante, o que poderei fazer?
     Levin levantou-se dizendo:
     -        Junte-se a ns. Temos observado sua conduta desde que chegou a Paris e verificamos que possui as condies necessrias para ingressar em nosso grupo.
     Radiante, Menelau respondeu:
     -        Vejo que pensa como eu.
     - Todo nosso grupo pensa. H muitos anos que nosso ideal de luta republicana nos irmana com amigos de outros pases e, no mo mento, temos intenso movimento 
no Brasil, onde esperamos concretizar brevemente os ideais de liberdade.
     Menelau procurou deixar transparecer alegria. No lhe foi difcil. porqanto finalmente comeava a trabalhar em sua misso.
     Dali, foi introduzido em um salo onde havia muitas pessoas quc palestravam animadamente. Vendo-os chegar, fizeram silncio. Levin encaminhou-se para a mesa 
lavrada que havia a um lado, de frente para o largo grupo de cadeiras onde as pessoas acomodaram-se.
     Tomando a palavra, Levin apresentou Menelau como candidato a membro do grupo, desejoso de trabalhar pela libertao do Brasil. Foi saudado alegremente e logo 
percebeu alguns brasileiros que o convidaram a tomar assento entre eles. Procurando calar a surpresa. Menelau reconheceu pelo menos dois que militavam no Brasil. 
dentro do imprio, como homens de confiana da coroa.
     Durante a reunio, Menelau percebeu que se tinha metido em algo muito srio e perigoso, que colocava em risco sua prpria vida Eles trabalhavam decididos e 
conspirava-se contra o regime da Inglaterra, da Espanha, do Brasil, de Portugal, do czar da Rssia e da Alemanha. Faziam reunies semanais onde davam conta das tarefas 
e traavam novos planos.
     Menelau comeou a freqentar essas reunies e notou que o dinheiro corria e a organizao era bastante poderosa, tendo se infiltrado em todos esses pases. 
No Brasil, o grupo era bastante grande e havia polticos de nome engajados ao movimento. At dentro do exrcito grassava o trabalho de politizao republicano. A 
imprensa, abolicionista e republicana, apoiada pelo movimento, vrias vezes socorreu-se da ajuda financeira da organizao para poder sobreviver.
     O entusiasmo era geral e Menelau, que a princpio se havia colocado intimamente como salvador da ptria, comeou, depois de certo tempo, a se sentir dividido.
     Atravs de bem urdida rede de espionagem. os membros do grupo que se reunia em casa de Levin, tomavam conhecimento de casos dolorosos que causavam revolta e 
alimentavam o desejo de liberdade.
     Aos poucos, Menelau comeou a contagiar-se de revolta. Seus impulsos abolicionistas brotaram fortes, sinceros, fazendo-o esquecer que havia se tornado membro 
do governo do pas cujos atos execrava.
     Seus chefes sabiam das reunies em casa de Levin, alis realizadas sem muitas reservas. Esperavam que Menelau descobrisse quem pagava e quais os membros que 
participavam no Brasil, traindo a coroa. Queriam os nomes dos conspiradores brasileiros e Menelau esquivou-se.  que comeava a duvidar da justia da sua misso, 
apesar do respeito e da amizade que sentia pelo Imperador.
     Comeava tambm a perceber que os republicanos tinham acesos ideais de liberdade para os quais empenhavam-se com esforo e dedicao.
Arrependeu-se de haver se metido naquela situao. Colocara-se entre dois poderes que poderiam esmag-lo. Agora que estava fora do pas, podia ver o outro lado da 
situao. As notcias dolorosas sobre o elemento servil, o apoio dos escravocratas ao trono para negociar com ele a continuidade da escravido, ameaando-o com o 
poderio econmico e o prestgio dentro das classes abastadas, revoltava-o. fazendo-o perguntar-se intimamente se ele estaria agindo bem.
     Sua conscincia o incomodava. O homem que o Imperador era, sua bondade, sua honestidade, sua dedicao seriam mais importantes do que o bem-estar de um povo? 
Do que a liberdade de uma raa escravizada e sofrida, a gemer na misria e na dor seu triste destino? Por outro lado, no seria a repblica melhor do que a monarquia? 
No daria ao povo a oportunidade de escolher e de participar do governo?
     Menelau, a cada dia, sentia-se mais impressionado. Dava-se conta do imenso progresso que grassava na Frana com efetivao republicana e s a lealdade com sua 
palavra empenhada ao Imperador o faziam continuar na misso. Porm, no tinha coragem de delatar os companheiros.
     Diante de tanto entusiasmo e idealismo, ele se sentia contagiado e a traio o abalava. Por que se envolvera?
     s vezes, sentia impulsos de voltar ao Brasil alegando nada haver descoberto. Mas no seria tambm uma traio?
     Sabia que os dias da monarquia estavam contados. Tinha essa certeza pelo entusiasmo e pelas adeses com que o movimento contava no Brasil. Depois, na Frana, 
ningum duvidava de que a Repblica viria, e na Amrica do Norte o regime se mostrava poderoso e forte. Seria fatal.
Menelau desejava voltar. Seus contatos o pressionavam, sabendo-o participante das reunies de Levin. Ele contemporizava. No tinha o        estofo de um delator. 
Por outro lado, reconhecia que o Imperador confiava e esperava. O que fazer?
     Foi ficando preocupado, triste. Em meio a essa tristeza, s uma carta de Eduardo tivera o dom de alegr-lo. Contara-lhe que visitara Maria Jos e conseguira 
dela a confisso esperada. Romualdo era seu filho! Pedia-lhe para queimar a carta depois de l-la. Depois dessa notcia, ele sentiu uma nova fora aquecer-lhe o 
corao. Enquanto as chamas destruam a carta de Eduardo, lgrimas comovidas corriam-lhe pelas faces.
     Dominada a primeira emoo, Menelau escreveu a Eduardo agradecendo as notcias e recomendando continuasse a olhar pela sua famlia. As notcias do Brasil no 
eram boas. O Imperador, doente, afastara-se do governo e fora substitudo por sua filha. Esse fato fez aumentar a presso no Parlamento brasileiro e novas adeses 
ao movimento republicano de nomes importantes do Imprio confirmavam para Menelau a mudana prxima do regime.
     As idias republicanas comeavam j a entusiasm-lo. Ele tambm j se perguntava at que ponto seria vlido apoiar-se um homem bom em desfavor do progresso 
e do bem do pas.
     Entretanto, sua honra de cavalheiro o impulsionava a no trair o compromisso assumido. Chegando a esse ponto, Menelau decidiu voltar ao Brasil. Procurou seu 
contato e alegou que sabia o bastante e desejava regressar. Havia um ano que estava fora e no podia demorar-se mais. Daria contas de sua misso ao prprio Imperador. 
Obteve a permisso.
     Aos companheiros republicanos, Menelau declarou que problemas famliares o obrigavam a regressar. Marcada a viagem de volta. foi chamado por Levin.
     - Queremos incumbi-lo de um trabalho especial no Brasil.
     Menelau estremeceu. Como dizer-lhe que no podia fazer isso? Como dizer-lhe que estava ali como espio? Sua honestidade no aceitava esse papel. Segurou o brao 
de Levin e disse triste:
     - Sr. Levin, a bem da verdade devo dizer-lhe que pretendo no me envolver mais com poltica no Brasil. No tenho condies de assumir o que me pede. Para regressar 
fui forado a prometer que no tomarei parte em nada contra o Imprio. Sabe que fui banido. Temo pela segurana da minha famlia. Foram els que conseguiram permisso 
para meu regresso. Por isso, peo-lhe que me desobrigue de qualquer tarefa.
     Os olhos de Levin apertaram-se fixando-o, firmes.
     -        O senhor parecia-me muito ardoroso, at aqui. O que o fez mudar de idia?
     -        Continuo com o mesmo ideal - mentiu Menelau. - Problemas particulares me obrigam a voltar e para isso preciso retirar-me da vida pblica, ater-me unicamente 
aos meus negcios. Assim sendo, no gostaria de assumir nenhum compromisso.
     -        No deve desistir agora. Est envolvido demais. Sabe muito sobre os nossos negcios.
     -        Quanto a isto, pode estar seguro. Jamais contarei a ningum o que presenciei aqui.
     Ele continuou a fit-lo srio e indagou:
     -        Tem certeza de que  isto o que deseja?
     Menelau sentiu um arrepio pela espinha mas respondeu, sem pestanejar:
     -        . Quero deixar tudo isso, viver com minha famlia, esquecer a poltica.
     -        Seja como deseja - respondeu Levin.
     Quando se viu na rua, Menelau respirou com gosto. Estava livre! Agora, s lhe restava regressar ao Brasil e dizer ao Imperador nada haver descoberto. Seria 
sua libertao definitiva daqueles compromissos que nunca deveria ter aceito.
     Entusiasmado, ultimou os preparativos para a volta. Estava feliz. Comprou presentes para a esposa, para o amigo, para o irmo, para Maria Jos e as crianas, 
escolheu com especial carinho o de Romualdo. Seu corao bateu forte. Ele era seu filho! Quando chegasse ao Brasil, iria visit-los. Mesmo que rapidamente, queria 
conhecer o filho, mesmo que depois nunca mais os procurasse.
     Menelau preparou tudo com o corao cantando de alegria. Com euforia despediu-se dos amigos partindo para o Havre onde deveria tomar o vapor dali a dois dias. 
Sentia-se impaciente e saudoso, contava as horas que faltavam para estar em casa.
     Mandou a bagagem para o navio e, quando se dirigia para o embarque, dois homens tomaram-lhe o brao, um de cada lado, enquanto um deles lhe dizia:
     -        Continue andando. Um gesto em falso e eu o mato.
     Menelau sentiu a ponta aguda da faca embaixo da sua costela.
     -        O que querem? - murmurou, assustado. - Se  dinheiro, posso dar-lhes o que tenho. Deixem-me em paz.
     -        No queremos seu dinheiro, mas temos algo para os traidores como voc.
     Menelau empalideceu. No se tratava de ladres vulgares, mas de homens de Levin.
     -        Enganam-se, por certo - disse corajosamente. - No tra ningum.
     -        Cale essa boca e vamos andando.
     Menelau, assustado, obedeceu. Estava em apuros, sabia disso. Estavam no cais. Levaram-no a uma barcaa aparentando ser de transporte de pescado pelo cheiro 
forte que revoltou o estmago de Menelau. Trancaram-no em apertada cabine. Sentiu-se desesperado. Eram os homens de Levin, tinha certeza. Ele no os traira nem pensava 
em faz-lo e isso era injusto. Bateu, gritou, chamou, at que um marinheiro entreabriu a porta dizendo:
     -        Se no se calar, quebro-lhe o pescoo. Tenho ordens para isso.
     Ele cheirava a lcool e Menelau percebeu que falava srio. Calou-se. Os outros dois teriam ido embora? Aflito, ele pensava no navio que partiria na manh do 
dia seguinte e sentia um frio no corao. Precisava fugir e alcan-lo de qualquer forma.
     O        marinheiro fechou a porta com raiva. Menelau sentou-se no banco tosco que deveria servir de cama e estava coberto por pequeno e sujo colcho, lutou 
contra o desnimo e o desespero que o acometeram. Precisava conservar o sangue frio. O descontrole no o ajudaria em nada. Foi a que comeou a pensar em sua ingenuidade. 
Havia procurado seu contato e conversado. Teria sido seguido? Levin por certo teria tomado suas precaues. Menelau passou a mo pelos cabelos, num gesto desesperado. 
Por que confiara nele? Ingenuamente fornecera-lhe as provas de sua posio dbia. Necessitava falar com ele, contar-lhe que no os trara. Contudo, ele acreditaria? 
Seu olhar duro, penetrante voltava-lhe agora  mente e ele reconhecia que fora ingnuo pretendendo sair de seu reduto. Sua vida corria perigo. Reconhecia que fora 
longe demais para recuar. Conhecia todos os envolvidos na conspirao que atuavam no Brasil. Se falasse, muitos deles seriam presos, abrindo larga brecha no movimento.
     Menelau arrependeu-se novamente de haver-se metido nisso. Logo ele, que no se interessava por poltica. Agora estava enterrado at as orelhas. O que fazer?
     O        tempo passava e ele no sabia se era dia ou noite. Notou que o barco comeou a jogar mais e sua angstia aumentou. Eles estavam
zarpando. Aflito, sem saber o que fazer, lembrou de Eduardo e resolveu orar. Os bons espritos poderiam ajud-lo. Sentando no banco estreito do cubculo, Menelau 
suplicou a ajuda de Deus. Lgrimas corriam-lhe pelas faces e ele orava sentidamente, reconhecendo-se inocente. No atraioara ningum. Se Deus o ajudasse naquela 
hora difcil, dali para frente haveria de dedicar-se de corpo e alma  ajuda do prximo, e nunca mais meter-se em poltica. Depois disso, sentiu-se um pouco mais 
calmo. Lembrou-se das palavras do esprito de sua me, na ltima sesso em casa do Sampaio. Que ele tivesse f, fossem quais fossem as lutas que tivesse que enfrentar. 
Suspirou fundo. Deus estava no leme de tudo. Naquele momento entregava-lhe seu destino.
     O        tempo foi passando e Menelau apenas sentia o enjo, o mal-estar, a ansiedade. Pelo movimento sabia que o barco estava andando. Para onde o levariam?
     Quando o marinheiro abriu a porta, Menelau tentou conversar:
     -        Onde estamos? Que barco  este?
     O        homem olhou-o carrancudo e nada respondeu. Menelau insistiu:
     -        Houve um engano. Posso explicar tudo - disse.
Cale-se - respondeu ele. - No tenho ordem de dizer-lhe.
     -        Para onde me levam?
     -        Trouxe-lhe essa garrafa com gua e po.
     -        Estou enjoado, no posso comer.
     O        homem deu de ombros. Apesar de no parecer embriagado, cheirava a lcool, aumentando o mal-estar de Menelau.
     -        Trate de comer, porque a viagem  longa - disse com indiferena.
     -        Eu gostaria de respirar um pouco de ar fresco.
     -        Contente-se com o po.  s o que posso fazer.
     Saiu fechando a porta. Menelau sentiu o estmago revoltar-se. Estirou-se no banco que lhe servia de leito, desanimado. Queria sair, ver o barco, as pessoas; 
respirar. O cheiro de mofo que havia ali enjoava-o ainda mais. Deixou-se ficar estirado no banco entre o desnimo e a ansiedade. Apesar de tudo, sentia muita vontade 
de viver e no queria perder as foras. Por isso, devagar e lentamente ingeriu pequenos pedaos de po. Sentiu-se ligeiramente melhor depois disso.
     Tentou analisar os fatos. Se planejassem mat-lo, fcil lhes teria sido faz-lo. Estivera e ainda estava  merc deles. Se ao menos pudesse respirar um pouco 
de ar fresco! Exasperar-se no lhe traria nenhum benefcio. Fez um esforo sobre-humano para acalmar-se um
pouco. Foi assim que conseguiu dormir durante algumas horas. Quando acordou, sentiu-se melhor. Comeu mais um pedao de po e tomou a gua.
     O        tempo foi passando e Menelau no sabia se era dia ou noite. Tinha conseguido do seu carcereiro, alm de mais po, pedaos de peixe e de queijo. Zelava 
pela sua sade porque queria estar menos mal para aproveitar a chance de fugir. Guardava essa esperana.
     Havia perdido a noo do tempo. At que, finalmente, o carcereiro apareceu e, amarrando-lhe os pulsos, disse com voz forte:
     -        Vamos embora. Chegamos ao seu destino.
     Menelau sentiu o corao bater mais forte. Levantou-se. Sua cabea rodava, as pernas tremiam.
     -        Vamos - insistiu o homem, empurrando-o com brutalidade. Menelau fez um esforo enorme para andar. Os ouvidos zumbiam e ele sentia tonturas, mas o anseio 
de respirar o ar de fora ajudou-o a seguir para frente. Saram no convs. A tripulao movimentava-se de um lado a outro e ele, surpreendido, notou que havia mais 
prisioneiros iguais a ele, sendo conduzidos para fora do barco. Eram mais de dez e todos com as mos amarradas.
     Ansioso, Menelau tentava perceber onde estavam, sem resultado. O ancoradouro era tosco e o local parecia uma ilha deserta. Colocaram os prisioneiros, dividindo-os 
em dois botes conduzidos por dois homens fortes. Enquanto remavam, havia um outro marujo apontando uma arma. Olhou seus companheiros de infortnio: todos estavam 
como ele, sujos, abatidos, e mareados. Obedeceram docilmente s ordens.
     Chegaram  terra e, dentro em pouco, alguns homens armados apareceram. Os marujos os entregaram queles homens e um deles comentou:
     -        Desta vez a carga no foi muito grande.
     -        No  de se jogar fora - respondeu o outro.
     -        Est bem. Vamos andando.
     Apesar da ansiedade, Menelau respirava gostosamente o ar puro, procurando recompor as foras. O grupo ps-se a caminho. Mesmo sendo final de tarde, o sol ainda 
estava muito quente, e a maioria dos prisioneiros, muito abatidos.  medida em que se distanciavam da praia, foram aparecendo pequenas habitaes de pescadores, 
rudes, toscas.
     Finalmente chegaram. Menelau olhou para a enorme construo, rodeada por um muro alto e cheia de pontiagudos cacos de vidros no
topo, com um aperto no corao. Por certo era uma priso. Uma enorme priso, muito bem guardada e da qual ser-lhe-ia muito difcil sair. Os prisioneiros olharam-se 
com tristeza e angstia.
     - Adiante - berrou o enrgico comandante do grupo.
     Quando o enorme porto de madeira, empurrado por dois homens armados at os dentes, se abriu, Menelau sentiu aumentar seu receio. Entraram no ptio enorme.
     O entardecer, aos poucos, se transformava e a noite j comeara a estender seu manto sobre os homens. O chefe do grupo desmontou e, fixando os prisioneiros 
com energia, disse-lhes:
     - De hoje em diante, vivero aqui para sempre. Ningum pense em fugir, porque ser intil. Estamos em uma ilha distante e mesmo que algum conseguisse sair 
daqui, o que duvido, morreria no mar pois os tubares rodeiam a ilha e esto sempre com fome. Jamais algum conseguiu escapar. Por isso, o melhor que tm a fazer 
 aceitar seu destino. H muito trabalho a fazer. Podero descansar amanh e depois comearo a trabalhar. Saberemos reconhecer os que souberem obedecer, mas quem 
se revoltar ser colocado a ferros e morto como exemplo. Podem ir.
     Ningum disse nada. O desnimo, a fraqueza e a certeza da prpria inutilidade os impediu de falar. Baixaram a cabea e deixaram-se conduzir por um corredor 
sombrio atravs do qual foram sendo distribudos em duas celas diferentes.
     Menelau percorreu com o olhar a sala estreita, escura, malcheirosa. Um calafrio percorreu-lhe o corpo e um sentimento ainda mais angustioso envolveu-Lhe o corao.
     Deixou-se cair sobre um dos colches que havia no cho. Sua cabea rodava e de seus olhos cansados algumas lgrimas tristes comearam a rolar. Sentia-se impotente 
para lutar, nada podia fazer seno entregar-se ao seu doloroso destino.

CAPTULO 12

     A tarde ia-se em meio e o calor era intenso. Sentada na varanda, Maria Jos sentia-se triste e pensativa. Recordava Menelau com acentuada saudade. Apesar de 
am-lo, continuava a ser a esposa dedicada e diligente de sempre, muito embora os problemas de seu relacionamento com Demerval estivessem cada vez mais difceis.
     O marido havia se modificado bastante. J no era mais o tirano dos primeiros tempos mas, se transigira em alguns pontos, mostrava-se irredutvel em outros 
e muito teimoso.
     Nunca mais conseguira ser o mesmo de antes. Contudo, era-lhe ainda difcil ouvir e acatar as idias da mulher, cujo bom senso e simplicidade eram acentuados.
     Maria Jos estava cansada daquela vida. Raros eram os momentos em que podia desfrutar de paz e de satisfao ntima. s vezes, sentia vontade de sair dali, 
largar tudo e ir viver em outro lugar, mas o que fazer? Reconhecia ser impossvel.
     Passavam grande parte do tempo na fazenda, porque Demerval sentia-se melhor l. Mas agora estava na Provncia, onde procediam  venda do caf, da cana e compravam 
o necessrio. Possuam em Itu bela casa. Era construda no centro de lindo jardim, rodeada de belas rvores. Apesar da linda paisagem que a circundava, Maria Jos 
no conseguia sentir-se feliz.
     Naquele instante, teve sua ateno voltada para Romualdo que abraava-lhe as pernas deitando a cabecinha delicada em seus joelhos.
     - Mame, vem - pediu ele, segurando-lhe a mo, querendo pux-la.
     Os olhos de Maria Jos o fixaram com imenso carinho. Levantou-se e deixou que o menino a arrastasse pelo jardim. Ele estava bonito e grande, observou ela. Completara 
cinco anos. O que pensaria Menelau se o pudesse ver? Era um garoto vivo e inteligente.
Menelau! Nunca mais tivera notcias. Teria morrido? Sentiu o corao bater descompassado a esse pensamento. Romualdo a conduzia, alegre. A Zita apareceu juntando-se 
a ele. Romualdo adorava brincar no jardim e a Zita era sua companheira de brinquedos. Tinham a mesma idade, tendo ela nascido trs semanas depois do que ele. Maria 
Jos afeioara-se a Zita tanto quanto gostava de seus pais. Levava-os sempre para a cidade. Claro que a Zefa era insubstituvel mas Maria Jos gostava tambm do 
Bentinho. Era homem de opinio e adorava Maria Jos. Era capaz de tudo para agrad-la. O amor e a deferncia que ela tinha pela Zefa e pela sua filha Zita, mais 
faziam aumentar o amor do Bentinho, conquistado quando ela lhe deu chance de viver com a Zefa e trabalhar na casa-grande. Bentinho tinha se revelado trabalhador 
dedicado.
     Se antes era arredio e s fazia o indispensvel, agora era diligente e pronto esforando-se para agradar sua sinh. Maria Jos, por sua vez, aprendera a apreciar 
o Bentinho e a recorrer a ele nos casos de doenas da famlia. O negro era um benzedor de primeira. Muitos doentes haviam sido curados com suas benzeduras. s vezes, 
ele via o futuro e fazia algumas premonies que se realizavam e isso o colocara como um curandeiro de prestgio no s entre os outros escravos como entre os brancos.
     Apesar de gostar de exercer essas atividades, Bentinho s fazia o que sua sinh permitia. No queria que ela se aborrecesse.
     -        Mam, olha o Nequinho! Ele vai fugir, vamos atrs dele.
     Romualdo saiu correndo com a Zita atrs do Nequinho, um leitozinho que estavam criando para as festas. Mesmo na cidade, eles tinham sempre um no cercado do 
fundo do quintal. Nequinho escapara e as crianas pretendiam peg-lo.
     Maria Jos parou, olhando-os pensativa. Lembrou-se de Menelau Funda tristeza a acometeu.
     -        Sinh Menelau t vivo!.
     Maria Jos assustou-se. Bentinho estava na sua frente, segurando a enxada com a qual arrumava o jardim.
     -        Por que diz isso? - inquiriu ela, num fio de voz.
     -        Num sei, sinh. Tive vontade de dz. Sinto dentro do meu corao que sinh Menelau num morreu.
     Preocupada, Maria Jos perguntou:
     -        Que mais voc v? Por que ele no manda notcias?
     O        Bentinho fechou os olhos durante alguns instantes, depois disse:
     -        Vejo ele longe, muito triste e magro, com muita saudade. Parece que num pode volt. Num sei pru qu. Mas ele t vivo. Isso eu sei.
-        Deve ter acontecido alguma coisa grave. Bentinho, faa sua reza. Estou muito triste. Sinto que algo ruim aconteceu com ele. Faa sua reza. Ele precisa voltar. 
Aqui  sua terra, sua gente. Ele pode estar doente.
     Maria Jos sentia-se muito aflita. O negro olhou-a com firmeza.
     - Sinh manda, Bentinho obedece. Esta noite mesmo vou cham meus amigos e rez. V faz de corao.
     - Deus lhe pague, Bentinho. Confio na sua reza.
     Maria Jos afastou-se e Bentinho a seguiu com olhos de adorao. Naquela noite mesmo atenderia o pedido da sua sinh.
     Os dois dias que se seguiram foram calmos e sem novidades. Maria Jos estava irritada, nervosa. Demerval mostrava-se intransigente na efetivao de alguns negcios. 
Haviam realizado boas vendas e recebido bom dinheiro com a exportao de caf. Ela desejava empregar parte desse dinheiro na melhoria da fazenda, modernizando seu 
mecanismo de trabalho, saneando e melhorando as habitaes dos escravos e pees.
     Demerval era contra. Por que teria que gastar seu dinheiro com aquela corja? Se atendesse sua mulher, logo escravos e colonos teriam comida e casa de branco. 
Ela era uma perdulria.
     Maria Jos no se conformava. Discutiram e Demerval, que esperava ser obedecido, foi forado a admitir que sua mulher no mais o atendia. Ela mostrou-se irredutvel. 
Argumentou que, melhorando a vida dos escravos e dos colonos, melhoraria a produo e que eles eram responsveis pelas doenas e mortes que acontecessem l por causa 
da m alimentao e da falta de higiene.
     Demerval ficou furioso. No podia acreditar. Sua mulher! Devia-lhe obedincia e apreo, ousava enfrent-lo. Irritado, gritou:
     - Farei como eu quero. Comprarei terras e ouro. Acho melhor no intrometer-se em negcios de homens e cuidar de suas mucamas na cozinha.
     Maria Jos levantou-se, furiosa.
     - Pois eu no aceito isso. Sou sua mulher. No quero que voc faa isso. Se insistir, no olho mais na sua cara e no falo mais com voc.
     Demerval ficou vermelho de raiva. A audcia da mulher, enfrentando-o, tirava-lhe a fala. Fez um esforo para reagir mas de repente, sentiu-se muito mal. Um 
zumbido na cabea, uma tontura, o estmago enjoado. Estaria doente de novo? Assustou-se. De vermelho fez-se plido e sentou-se em uma cadeira. Maria Jos nada disse, 
olhando-o sria. Ao cabo de alguns minutos, ele disse com voz sumida:
     - Estou passando mal!  
     -        Acalme-se - respondeu ela. - Voc no deve irritar-se tanto.
     -        Se sabe disso, por que faz tudo para contrariar-me? Est se aproveitando por causa da minha doena!
     -        Acalme-se - repetiu Maria Jos, procurando controlar a raiva. - Se no fosse to teimoso, veria que tenho razo
     Demerval passou a mo pela testa molhada de suor.
     -        No posso discutir - disse, com voz fraca. - Ai, Deus meu, a que ponto fiquei reduzido!
     -        No acho justo voc se queixar. Deveria agradecer a Deus sua sade. Tem passado muito bem. Seu mal-estar sempre aparece quando voc quer impor sua 
vontade e brigar.
     -        Quando sou contrariado e desautorizado em minha prpria casa, por minha prpria mulher - murmurou ele, com voz trmula.
     -        Vou mandar a Zefa fazer um ch.
     Demerval assentiu com a cabea e Maria Jos embarafustou para a cozinha. Ele tomava seu ch com olhos tristes quando Eduardo entrou na sala. Fundo suspiro escapou-se-lhe 
do peito.
     -        Foi Deus quem o trouxe por aqui.
     Demerval nutria por Eduardo admirao e respeito. Embora nem sempre entendesse bem o que ele dizia, sempre melhorava quando ele aparecia e, no fundo, pensava 
que ele possua um dom de cura, graas ao qual se tinha recuperado da difcil molstia que o acometera.
     Eduardo abraou-o com cordialidade.
     -        As saudades trouxeram-me a esta casa. Pelo que vejo, o amigo est muito bem.
     -        Nem tanto, senhor Eduardo, nem tanto. Tenho sofrido muito...
     Eduardo fixou-lhe os olhos com energia, enquanto dizia com leve sorriso:
     -        Vamos cultivar a alegria, sr. Demerval. S ela pode nos ajudar na conquista do equilbrio e da sade. A queixa apenas piora o quadro das nossas necessidades. 
 preciso reconhecer que o senhor goza de otima aparncia e parece-me que tudo por aqui vai indo muito bem. No ser ingratido manter o desnimo depois de receber 
tantas bnos?
     Demerval olhou-o, surpreendido.
     -        Pensa mesmo que estou bem? Ainda agora, com o desgosto que minha mulher me deu, quase desfaleci.
     -        Por que no cede um pouquinho aos desejos de dona Maria Jos? Afinal, ela  uma mulher admirvel, de rara inteligncia e que o tem cercado de atenes 
e carinho.
     -        Sou um homem! Como posso ser conduzido pela mulher? Ao marido cabe cuidar dos negcios da famlia. Mas ela no cede. Quer fazer tudo a seu modo.
     -        Dona Maria Jos tem muito jeito para administrar. O que fez na fazenda foi maravilhoso. No concorda?
     Demerval balanou a cabea.
     -        Devo admitir que ela trabalhou bem. Mas agora, que estou bom, sou eu quem deve resolver esses assuntos. Foi Menelau quem a destrambelhou. Deu-lhe asas. 
Agora, ela no quer ceder.
     Maria Jos entrou e, sorrindo, dirigiu-se a Eduardo.
     -        Senhor Eduardo, que alegria!
     Eduardo curvou-se, beijando-lhe a mo delicada. A conversa continuou amvel e o corao de Maria Jos batia descompassado. A presena dele recordava-lhe mais 
Menelau.
     Demerval sentiu-se mais calmo e j as cores haviam voltado a suas faces, enquanto, sentados, os trs conversavam.
     -        Alm das saudades, outro assunto me traz aqui.
     -        Qual ? - indagou Maria Jos, com o corao aos saltos.
     -        O desaparecimento de Menelau. Nunca me conformei.
       Morreu, com certeza - ajuntou Demerval. - Morreu ou sumiu para fugir da mulher. Ela  intratvel!
     -        No diga isso, Demerval. No vamos pensar no pior. Claro que ele deve estar vivo! Quem sabe impossibilitado de voltar!
     -        Pode ser - tornou Eduardo, pensativo. - Tambm no creio que tenha morrido. Se isso tivesse acontecido, teramos tido notcias de um modo ou de outro.
     -        O que pode ter acontecido? - indagou Maria Jos.
     -        Aconteceu um fato novo. Um amigo meu tem investigado seu desaparecimento e conseguiu descobrir que Menelau comprou passagem de volta no dia 9 de junho 
de 1885, despediu-se dos amigos em Paris e viajou para o Havre. Conseguir ainda saber que Menelau despachou sua bagagem no navio Britnia  foi a que a pista se 
perdeu. Se ele comprou passagem e embarcou a bagagem, por que no foi para bordo?
     -        Teria morrido em viagem? - aventou Demerval.
     -        No creio. Se ele tivesse embarcado, seu nome teria sido anotado a bordo. Eles sempre fazem isso. Tm o de todos os passageiros. O nome dele no consta.
     -        No seria um engano? Ele teria comprado mesmo essa passagem?
     -        Quanto a isto, no tenho dvida. Meu amigo esteve l, reconstituiu todos os passos de Menelau. Seu nome consta como tendo comprado passagem. Depois 
que descobri isso, fui aos armazns do porto e localizei a bagagem. Realmente, l estava.
     Maria Jos levantou-se um tanto plida.
     -        Encontrou mesmo?
     -        Sim. E como era meu dever, procurei dona Maria Antnia para retir-la. Ela surpreendeu-se muito e acompanhou-me ao porto.
     -        Como est ela? - indagou Demerval, curioso.
     -        Parece muito bem. Disse-me que acredita que Menelau esteja morto. J vestiu luto, espera apenas que sua morte seja oficialmente reconhecida. No lhe 
agrada a situao indefinida em que se encontra. Concordou em acompanhar-me para ver se descobria alguma pista que lhe confirmasse a morte do marido. L mesmo, pediu 
aos homens do depsito que abrissem os bas e rapidamente vistoriou tudo, remexendo. Encontrou um pacote onde estava escrito "A dona Maria Antnia", abriu-o e encontrou 
alguns objetos de adorno, cortes de seda.
     -        "Levarei apenas isto - disse-me, calma. - O resto, jogue fora, faa o que quiser. No vou levar para casa essas tranqueiras.
     -        Posso levar para minha casa? - indaguei. - Ela balanou a cabea afirmativamente:
     -        Faa o que quiser.
     -        H outros pacotes para o resto da famlia.
     -        No tenho contato com eles. No mantemos relaes.
     -        Muito bem. Ento providenciarei tudo." Assim fiz. Mandei a bagagem para minha casa. L esto suas roupas, seus objetos de uso. Tomei a liberdade de 
trazer os pacotes que lhes pertencem. Esto em minha bagagem. Se quiserem o resto, poderei mandar. Se preferirem, posso guardar. Tenho certeza de que Menelau ainda 
vai regressar.
     Maria Jos estava excitada. Depois de tantos anos, eis que, de repente, as notcias comeavam a aparecer.
     -        Estou curiosa - disse ela, procurando dominar a impacincia.
     -        Vou apanhar tudo. Com licena.
     Maria Jos o acompanhou.
     -        Sua bagagem j est no quarto de hspedes. Venha comigo - disse.
     Assim que se viu longe de Demerval, ela continuou, emocionada:
     -        Rezo todas as noites por Menelau. O que lhe teria acontecido? Por que no embarcou naquele navio?
     -        Tenho suspeitas, porm nada posso afirmar, O que sei  o que ele me escreveu em sua ltima carta. Queria voltar, no suportava mais as saudades.
     Foi com lgrimas nos olhos que Maria Jos segurou o pacote caprichosamente embrulhado em lindo papel colorido e amarrado com um lao de fita. Seu nome estava 
escrito delicadamente a um canto e ela reconheceu a letra bem feita e inesquecvel do cunhado.
     Eduardo colocou outros pacotes sobre a mesinha. No esquecera ningum. Para Ana, Rosa, Adalberto e Romualdo. Havia um para Demerval e at para a Zita e a Zefa. 
S Menelau pensaria nos escravos de estima de casa. Os olhos de Maria Jos encheram-se de lgrimas.
     -        Desculpe-me, sr. Eduardo. No posso conter-me.
     -        Eu tambm senti a mesma coisa quando apanhei estas coisas e vistoriei sua bagagem. No devemos desanimar, dona Maria Jos. Deus  bom. Ele est vivo 
em algum lugar e, por certo, algum dia voltar.
     -        A reza do Bentinho! Foi a reza do Bentinho!
     -        O que foi?
     -        Foi ele. Me garantiu que Menelau est vivo. Prometeu fazer uma reza daquelas para traz-lo de volta.
     -        Quando foi isso?
     -        H dois ou trs dias.
     -        , o Bentinho tem muita fora. Eu estou com essas notcias j h uma semana, mas no podia vir aqui agora, mas faz dois dias que no conseguia pensar 
seno na senhora. Eu pretendia vir daqui a duas semanas, porm no consegui resistir. Senti forte impulso de vir aqui. Sequer pensei no Bentinho. Ento, foi ele!
     -        Ele?
     -        Sim. Ele que apressou minha viagem. Depois quero falar com ele. Juntos talvez cheguemos  verdade.
     Maria Jos ficou radiante.
     -        Claro. Por certo chegaremos!
     -        Meu amigo continua investigando. Tem pessoas de confiana na Frana que continuam a busca.
     Maria Jos suspirou fundo.
     -        Deus queira que possamos encontr-lo.
     Demerval j se sentia refeito quando eles retornaram  varanda. Maria Jos, mais animada pela presena de Eduardo, estava falante e atenciosa. As crianas fizeram 
tanto alarido com os presentes do tio que Demerval as mandou sair dali, para poderem continuar a conversar.  tarde, enquanto DemervaL descansava, Eduardo procurou 
pelo Bentinho. O negro alegrou-se ao v-lo.
     -        Deus abene sinhozinho - disse, contente.
     -        Obrigado Bentinho. Como vai voc?
     -        Bem, sinh.
     Eduardo foi direto ao assunto.
     -        Voc acha que sinh Menelau est vivo?
     -        Acho sim, sinh.
     -        Por qu?
     -        Num sei. S sei que ele t vivo. Isso eu posso int jur.
     -        Dona Maria Jos pediu que voc rezasse para ele voltar. Voc rezou?
     -        Rezei muito sim, sinh. Mas a nica coisa que pude sab que ele t vivo. Como e onde num sei. vi ele magro, muito triste, num lug pequeno, vi mar, 
vi um grande castelo, diferente dos da provncia. Parece que ele num pode sa.
     -        Estar preso? Essa idia j me ocorreu.
     -        Penso que  isso sim, sinh.
     -        Bentinho, precisamos ajudar Menelau com nossas oraes. Vamos pedir aos bons espritos que o ajudem a sair.
     -        Vamo sim. Hoje de noite v faz uma reza especi.
     -        Vamos fazer juntos. Posso ajudar.
     -        Sim, sinh. Vamo consegui.
     -        Com a ajuda de Deus.
     -        Tenho esperana.
     Os dois combinaram encontrar-se quando todos estivessem recolhidos para fazer a prece; convidariam Maria Jos tambm.
     Eram nove horas e a casa toda dormia quando os trs se reuniram em pequena sala da casa. Demerval dormia e sequer notou a sada de Maria Jos. Os trs sentaram-se 
e Eduardo fez sentida prece pedindo ajuda de Deus para Menelau enquanto que o negro caa em sono solto, cabea pendida sobre o peito.
De repente, Maria Jos sentiu vontade de sair dali, de correr, de gritar, conteve-se a custo. Precisava rezar por Menelau e procurou estorar-se para isso. Porm 
a emoo de terror e de revolta brotou forte dentro dela. Eduardo levantou-se e disse-lhe, calmo:
     -        No tema. Se sentir vontade de falar, no segure. Seja o que for, fale. A senhora est sob ao de um esprito.
     Maria Jos no mais se conteve:
     -        Deixem-me sair - disse com voz irritada. - Voc no pode prender-me aqui.
     -        S quero alguns esclarecimentos.
     -        No os darei. Sei de tudo, mas eles vo penar mais do que eu penei. Assim eu quero. Estarei vingada!
     -        O dio  doena perigosa. Fere mais a quem o sente.
     -        Como se eu no estivesse ferida! No v como me encontro?
        - A voz de Maria Jos era amargurada e rancorosa. - Por acaso sabe o que eles fizeram comigo? Meu dio h de persegui-los para sempre.
     -        Eu gostaria de ajudar voc. A quem se refere?
     -        A todos eles. Ao esposo traidor e infiel e a mulher sem alma que mo roubou! Eu os vi juntos! Apesar de tudo, eles ainda se amam. Mas hei de separ-los 
para sempre. Nunca mais ho de ver-se, nunca mais!
     -        Se eles se amam por que no os deixa em paz? Voc est no mundo dos espritos e no deve interferir na vida de pessoas que, na Terra, lutam para vencer 
suas provas.
     -        Quando eles reencarnaram fiquei vigilante. Tudo ia bem. Ela casou com Ulisses, a quem tinha abandonado por causa dele.
     -        Quem  Ulisses?
     -         Demerval, no sabe? Ulisses  Demerval agora, mas continua o mesmo prepotente de sempre. Eles casaram e eu fiquei sossegada. Embora ele fosse irmo 
de Raul, no se davam bem.
     -        Quem  Raul?
     -        No sabe que  Menelau? Meu Raul, esposo traidor e cruel, agora  Menelau. E ela, a mulher pecadora e leviana, Isabel que eu odeio,  Maria Jos. Voc 
no sabe! Eles fugiram juntos, abandonaram tudo. Eu tinha cinco filhos e ela o tirou de mim. Passamos fome, privaes. Eu adoeci, no v meus pulmes como esto? 
Meus filhos ficaram rfos por causa deles. vi o sofrimento deles, sem pai ou me nesse mundo cruel! Como pede que no odeie? Enquanto ficaram separados, eu suportei, 
mas quando os vi juntos, todo meu dio reapareceu, ganhou fora!
     -        Procure compreender! A atrao deles foi forte, mas eles reagiram. ela cumpre seus deveres de esposa e me, ele tambm.
    - No suportei os pensamentos deles. Amam-se, apesar de tudo. Antes de voltar  Terra ele parecia to arrependido! Nossa filha, Antonieta estava muito mal. Pobrezinha, 
rf havia se apegado ao dinheiro, ao poder, conquistara homens poderosos, cometeu desatinos, mergulhou no erro e nos vcios. Ele se props a ajud-la a recuperar 
sua paz.
Quem  Antonieta?
     -         Maria Antnia no v? Ele casou com ela e fiquei sossegada. Estava cumprindo sua promessa. Haveria de reconduzi-la ao bom caminho. Mas qual! Quando 
encontrou-se com Isabel. perdeu a cabea.
     Eduardo, emocionado, orava comovidamente. Aquela sofrida criatura precisava perdoar. Pediu a Deus que o inspirasse.
     -        Sabe o que foi para mim v-los juntos de novo? Eu tinha acreditado nela. Havia perdoado Isabel quando ela prometeu ajudar meus filhos e receb-los 
como seus, dando-lhes amor e se dedicando a que eles pudessem ter tudo quanto lhes havia sido tirado. Acreditei nessa mentirosa at que os vi juntos de novo, aos 
beijos, sem se lembrarem dos compromissos. Sei que, se eles se encontrarem, faro tudo de novo! Por isso, quero ele longe. Nunca mais ele voltar. No deixarei.
     -        Voc no confia em Deus?
     Maria Jos pareceu hesitar.
     -        Confio, um pouco.
     -        No acha que ele faz tudo certo?
     -        Acho, mas no meu caso, as pessoas so fracas. Deus no tem nada com isso. Deixe-me ir embora, agora que eu j disse tudo.
     -        Espere um pouco mais.  verdade que eles fraquejaram, mas depois, eles lutaram, reagiram. No abandonaram seus compromissos. Quem pode saber se eles 
iriam mesmo fracassar? Agora, esto mudados. Embora se amem, no largaram as obrigaes. Voc est sendo precipitada.
     -        No quero correr o risco. Preciso defender meus filhos. Eu ainda no pude renascer. No obtive permisso. Porm, estou vigilante!
     -        Perdoe e tudo ser melhor. Ningum pode ajudar conservando dio no corao. Maria Jos cria seus filhos com todo amor. Agora so dela tambm. Menelau 
procurou ser bom para Maria Antnia. Deixe-os seguir seu prprio caminho. Perdoe e assim poder ajudar de verdade. Liberte Menelau. Deixe-o voltar. Eu falarei com 
ele, lembrarei os compromissos. ajudarei no que for possvel.
     -        Sei que  sincero. Porm, a liberdade dele no depende de mim. Tem um chefe que tem poderes sobre ele. Eu posso dar um tempo. Mas, se ele no cumprir 
o que prometeu, voltarei.
     -        Ajude-me a libert-lo. Voc pode.
     -        Falarei com o chefe. Esse caso no sou eu quem decide. Minha parte eu concordo em esperar. Ele, no sei.
     -        Agradeo sua boa vontade. Deus a recompensar.
     -        Verei o que posso fazer. Agora eu j posso ir. Adeus!
     Fundo suspiro escapou do peito de Maria Jos que pendeu a cabea sobre o peito e, com os olhos fechados, parecia dormir. De repente, seu rosto foi se modificando. 
Abriu os olhos olhando fixa-mente para frente, disse com voz grave:
     -        Quem teve a petulncia de trazer-me aqui? Quem me arrancou da minha caverna?
     -        Somos amigos, queremos conversar - disse Eduardo, com voz calma.
     -        Conversar sobre o qu? Nada tenho com voc!
     -         sobre Menelau...
     -        Aquele cachorro malvado? Sobre ele no desejo falar. Tem o que merece, O que ele passa ainda  pouco.
     -        Por que o odeia?
     -        No sabe? Voc no estava l quando ele me condenou. Por maldade! Eu era inocente. Ele mandou-me para a masmorra. Fiquei preso l at a morte. Sabe 
o que  isso, sabe? Agora quer defend-lo, a troco de qu? Acha que tem perdo o que ele fez comigo? Pensa que posso esquecer? Sabe o que sofri dia a dia, hora a 
hora naquele pestilento lugar? Agora  sua vez. Est apenas comeando a pagar! Cobrarei at o fim. H de morrer  mngua e quero estar l para me alegrar com sua 
dor.
     -        No lhe ocorreu que sua prpria situao no vai melhorar nada com isso? Que h muito voc poderia estar vivendo uma vida melhor, mais feliz, ter esquecido 
esse sofrimento, seguir para frente enquanto permanece a, infeliz e sofredor, preso s lembranas infelizes?
     -        Como eu poderia esquecer? Deix-lo na impunidade?
     -        Deus d a cada um as lies de que precisa para aprender e corrigir-se.
     -        No a ele. Como v-lo rico, feliz, sem lembrar-se de que eu existo e sofro minha dor? No. Eles ho de pagar. Eu jurei.
     Foi quando o Bentinho disse, com voz rouca:
    -        Se quer cobrar dele eu posso cobrar o meu de vosmic!
    Maria Jos estremeceu:
    -        Quem me fala? Por que me recorda coisas passadas?
    -        Porque foi a mim que vosmic matou naquela noite escura. No se lembra? Como se diz inocente?
    -        Seu espectro me tem perseguido. Mas sou inocente do crime para o qual fui condenado!
    -        Mas no da minha morte! Eu gostava da vida. Era jovem, feliz. Voc me matou para roubar. Por acaso esqueceu?
    Eduardo orava em silncio. Bentinho prosseguiu:
    -        J o odiei muito. Agora, estou cansado. Quero esquecer. De que me adianta ficar sempre relembrando minha dor? Quero uma nova vida na Terra, quando poderei 
recomear a viver. Reconheo que mereci o que me aconteceu. Aprendi muito com essa dor. No quero vingana. Quero melhorar e voltar a nascer. Vim s para dizer que 
voc no  inocente como se diz.
    -        No me acusa? - tornou Maria Jos, com voz comovida.
    -        No.
    -        Eu poderia esquecer e voltar a nascer?
    -        Poderia, se perdoasse. Ningum deve recomear a vida com dio no corao.
    -        No posso perdoar, mas quero esquecer.
    -        Comece ajudando a libertar Menelau. Isso o auxiliar -disse Eduardo, convicto.
    -        Est bem. Farei isso. Depois, quero esquecer. Quero voltar! Viver outra vida melhor!
    -        Deus o ajudar. Vamos orar por voc.
    -        Verei o que posso fazer.
    Maria Jos suspirou fundo e se calou, parecendo adormecida. Bentinho e Eduardo oravam em silncio. Por fim, ela acordou um pouco preocupada.
    -        O que aconteceu? - indagou.
    -        Nada de mais. No se lembra?
    -        Lembro-me de haver sentido emoes estranhas. Mal-estar. Depois falava coisas sem poder parar. Sabia que era minha voz mas sentia-me como se fosse outra 
pessoa, estou com medo!
    -        No se preocupe. Hoje levantamos a ponta do vu que cobre o seu passado. Pudemos entender muitas coisas. Vamos agradecer a Deus por isso.
     Quando Eduardo acabou a ligeira prece, Bentinho foi logo dizendo:
     -        Fui v o sinh Menelau. T preso e num pode sa.  uma ilha longe, muito longe. Na porta da cela dele tava de guarda essa alma que queria vingana. 
Com a ajuda dos esprito meus amigo, trouxemos ele. Agora a porta t livre. Logo sinh Menelau vai pod sa.
     Maria Jos sorriu, animada.
     -        Acha mesmo?
     -        Acho. Mas amanh vamo rez de novo.
     -        Deus nos ajudar - disse Eduardo, pensativo.
     Agora que sabia a verdade, compreendia os srios laos que prendiam aquelas criaturas. Compreendia tambm porque lhes havia sido permitido ajudar. Agora, guardava 
certeza de que Menelau voltaria. No porque eles quisessem apenas, mas porque ele ainda tinha, para com aquelas pessoas que eram sua famlia, responsabilidades que 
deveriam continuar.
     Naquela noite, sentindo a grandeza de Deus, a bondade da Providncia Divina, os sagrados impositivos da vida, Eduardo no conteve as duas lgrimas que lhe rolaram 
dos olhos.

CAPTULO 13

     Estirado na dura enxerga que lhe servia de leito, Menelau pensava. No sabia h quanto tempo estava prisioneiro, sentia que precisava conservr toda lucidez 
se quisesse um dia sair dali com vida. A empreitada era difcil mas ele no perdia as esperanas. Tratou de alimentar-se o melhor possvel e tomar certos cuidados 
para no apanhar as doenas que, de tempos em tempos, grassavam ali, ceifando vidas.
     Ao raiar do dia levantavam-se e, aps receberem po e gua, eram colocados em carroas e levados ao local de trabalho. L, enquanto alguns cavavam uma montanha 
 procura do veio do minrio de ferro, outros desciam s profundezas da terra  procura de carvo. O ar era escasso e insuportvel o cheiro do lampio.
     Menelau j trabalhara nos dois setores e eles se revezavam porqanto ningum agentaria um trabalho constante dentro da mina sem adoecer. Ele procurava fazer 
exerccios respiratrios para limpar os pulmes daquele ar e daquele p que existia em toda parte. Mesmo no gostando da comida, esforava-se por engoli-la, tendo 
antes o cuidado de verificar se no estava estragada.
     Lutava para conservar-se bem fsicamente para poder fugir. Em sua cela, marcava cada dia com pequeno trao na parede. Assim percebeu que a cada quinze dias 
novos prisioneiros chegavam e eles carregavam o barco de volta com o produto do trabalho. Para onde iriam? Quem comandava aqueles homens? Qual a bandeira que acobertava 
tanta desumanidade?
     Apurando o ouvido, Menelau pde, atravs da conversa de alguns carcereiros, saber que eles no se filiavam a nenhum pas em particular. Eram homens de negcios 
vendendo sua mercadoria a quem pagasse mais. Trocavam-na tambm por mais braos para o trabalho, negociando vidas humanas friamente.
     Sozinho, Menelau sentiu que nada poderia fazer, por isso tratou de escolher alguns homens de coragem e que estivessem dispostos a preparar-se e lutar para fugir. 
Aos poucos, uniu-se a alguns companheiros e trataram de observar todos os hbitos e vigiar constantemente os carcereiros, para manterem-se informados. Empresa difcil, 
porque no lhes era permitido conversar durante o trabalho sendo de l conduzidos s celas, cubculos escuros e desagradveis, agrupados de quatro em quatro. A necessidade 
cria meios e os olhos falavam mais do que a boca.
     Deitado no escuro, Menelau pensava. Orava todos os dias pedindo a ajuda de Deus e confortava-o pensar que nada acontece sem que Ele permita. Haveria de encontrar 
a maneira de sair dali. Confiava que a ajuda viria. Estava sempre pronto a observar e sabia que, por mais que seus carcereiros fossem homens rudes sem instruo 
e fiis ao patro, eram humanos e teriam seus momentos de distrao, de descuido. Contava em aproveit-los. Conseguira juntar-se a quatro homens decididos tanto 
quanto ele mesmo. Eram poucos, mas melhor do que nada. Procuravam trabalhar sempre juntos, sem que os demais percebessem.
     Naquela noite, ao orar, Menelau sentiu que uma energia suave e agradvel o envolveu. Seu corao encheu-se de esperanas. Assim, adormeceu.
     No dia imediato, enquanto aguardavam no ptio para se aboletarem na carroa rumo ao trabalho, o capito-da-guarda chegou e conversou com o capataz. Este concordou 
e depois, fixando-os, ordenou:
     - Vocs, formem ao lado do capito. Apontou para Menelau e escolheu mais nove homens, entre os quais os quatro amigos que dissimularam a alegria que sentiram.
     O capito necessitava de dez homens fortes e eles eram os que estavam em melhor forma fsica. Enquanto os outros foram para o trabalho, eles aguardaram ordens. 
Esperaram. Dois homens armados formaram ao lado deles e os levaram ao armazm perto do cais, onde a mercadoria era guardada, esperando a hora de embarque.
     Receberam ordem de carregar os sacos de minrio ao poro de um barco que estava ancorado. Normalmente, esse trabalho no era feito pelos prisioneiros. A tripulao 
dos barcos  que fazia isso. Eles no compreendiam o porqu dessa modificao. Enquanto trabalhavam, corao batendo descompassado, esperavam o momento oportuno 
para escapar.
     Os dois guardas, com as armas apontadas, vigiavam em terra e no barco; o capito mais seu ajudante tambm tinham armas nas mos. E a tripulao, onde estaria?
     O capito, irritado, queria a todo custo apressar o carregamento. Menelau o ouviu dizer ao ajudante:
     -        Quero ir-me embora desta ilha maldita o mais rpido possvel. Saindo daqui, os homens vo melhorar, com certeza.
     Uma idia louca passou pela cabea de Menelau. Corajosamente chegou perto do guarda que vigiava o carregamento e disse, com voz splice:
     -        Senhor! Tenha piedade de ns e permita-nos no voltar mais quele barco.
     -        Que  isso? Se insurge contra nossas ordens?
     -         que descobri um segredo terrvel! Nossas vidas correm perigo. Bebemos daquela gua, comemos do seu po!
     -        O que quer dizer? - gritou o homem, assustado. - O que pretende?
     -        A peste senhor! A tripulao est pestada. Ns todos vamos morrer! Tenha piedade, no nos mande voltar l!
     Os olhos do homem se abriram assustados.
     -        Como sabe? Os homens esto doentes de desinteria, s isso!
     -         mentira. Ouvi o capito falar em peste.
     -        Voltem para l. No toquem em nada. Vou j falar ao capito. Se for verdade, tocaremos fogo no barco. A peste tem que ser isolada. Voltem todos j 
a bordo.
     Assustados, os homens voltaram a bordo. Menelau exultava, enquanto seus quatro amigos, olhos brilhantes, haviam compreendido. Enquanto os homens andavam rumo 
ao barco, Menelau disse-lhes, com alegria:
     -        Ajudem-me. Agora temos que convencer o capito do barco do perigo que corremos.
     Aparentando pavor, eles subiram a bordo e o capito berrou irritado:
     -        O que  isto? E a carga? Deste jeito nunca sairemos daqui.
     Menelau aproximou-se srio:
     -        Senhor, se quiser salvar seu barco, partamos o quanto antes.
     -        No sem antes falar ao seu capito.  um motim?
     -        No, senhor capito - disse Menelau, com voz firme. - Eles pensam que o barco  pestoso e vo nos queimar a todos para acabar com a peste.
     -        Quem disse isso?  mentira! No h peste neste barco.
     -        Eles no vo acreditar. O melhor ser sair, antes que seja tarde!
     -        Paguei pela carga e no saio sem ela - teimou o capito.
     -        Em todo caso senhor - sugeriu Menelau -  melhor se fazer ao largo, eu ouvi o guarda falar em nos queimar a todos.
     O        capito resolveu.
     -        Vou investigar, mas a precauo  boa medida. Se estiverem me enganando, pagaro por isso.
     -        Capito, os homens esto mal, como movimentar as m-quinas?
     -        Senhor, estamos aqui - tornou Menelau. - Temos nsia de liberdade. Podemos trabalhar, com todo respeito, s suas ordens; aprenderemos depressa e tocaremos 
o barco!
     -        Sim! - gritaram todos com entusiasmo.
     O        capito coou a cabea; depois disse:
     -        Est bem. Vamos tentar. Nos poremos a largo. Verificarei a verdade.
     Os homens tremiam de alegria e dispuseram-se ao trabalho. s instrues do capito, iaram a passarela e levantaram ncora, movimentaram as mquinas, enquanto 
o capito, no leme, e o imediato orientavam os homens. O capito conservou o barco afastado e com uma luneta observava a movimentao dos homens no cais. De fato, 
havia um movimento desusado. E de repente rugiu o canho e o obus explodiu bem perto do barco, fazendo a gua subir ao convs.
     O        capito no quis saber mais. Os homens estavam certos. Se conseguisse sair dessa, jamais voltaria quele lugar. Ordenou a partida e Menelau, trabalhando 
duro, sentia a alegria cantando no corao. Reuniu os nove companheiros e disse, enrgico:
     -        Vamos trabalhar duro. Vamos ser gratos ao capito que nos est libertando. Trabalharemos como nunca. Obedeceremos at o fim.
     -        No sou bandido - respondeu um deles. - Estou to grato quanto voc.
     Os outros concordaram e com dobrada energia e muita disciplina obedeceram as ordens. Dentre eles havia um que entendia de ervas e pediu ao capito para cuidar 
da tripulao acamada. Foi  cozinha e cuidou da alimentao, ferveu a gua, escolheu alimentos e dentro em pouco os homens comearam a melhorar.
     O        capito, satisfeito, conversou com Menelau, em quem reconhecia o lder do grupo. Surpreendeu-se com sua cultura e posio. No fim esclareceu:
        - Eu aceitava a carga de homens julgando que eram desclassificados e vagabundos.
Acreditava limpar a cidade de maus elementos. Desconhecia que dentre eles havia homens de bem. Essa doena dos homens foi castigo de Deus. Nunca mais farei isso. 
Jamais voltarei quela ilha. H outras formas de comrcio mais dignas e sem esse risco. Sou homem de f!
     -        Faz muito bem. Deus o abenoar por isso.
     De todos, Menelau era o nico brasileiro. Na ilha falava-se o francs, mas havia gente de vrias partes do mundo. Menelau, con- tudo, s tinha um desejo: voltar 
ao Brasil. Tinha receios de voltar  Frana e preferia desembarcar em outro lugar.
     O        capito, impressionado com a disciplina e boa vontade daqueles homens, ofereceu:
     -        Aquele que quiser, pode ficar na minha tripulao. Sou bom para meus homens. Como sabem, h fartura na cozinha e pago a todos de acordo com nosso rendimento.
     -        Qual  nosso destino? - perguntou Menelau.
     -        Marselha. Preciso deixar l o carregamento que temos. No  completo, mas render o suficiente para nos mantermos at outra carga.'
     -        No gostaria de ficar em Marselha - disse Menelau.
     -        Compreendo. Mas l h outros barcos. Poder engajar-se na tripulao e assim fazer at chegar ao seu pas.
     Menelau aceitou.
     -        Que dia  hoje? - indagou, feliz.
     -        Dez de junho de 1888.
     Menelau suspirou fundo. Havia cinco anos que se ausentara do Brasil. Seu filho estaria crescido; e Maria Antnia. como estaria? Pensou nela e sentiu um aperto 
no corao. Se pudesse, correria para os braos de Maria Jos. No pretendia perturbar-lhe a vida famliar. Respeitava o irmo. Porm, o corao doa de saudades 
e os poucos momentos de amor que haviam vivido no lhe saam do pensamento. No amava a esposa, porm devia-the proteo e respeito. Pensava regressar ao lar. O 
que mais poderia fazer?
     Embora desejasse correr para casa, Menelau precisou submeter-se aos caprichos do tempo. No tinha dinheiro nem roupas. Trabalhou duro e finalmente, meses depois, 
embarcou em um navio que aportaria no Rio de Janeiro. No levava presentes nem bagagem, mas tinha muita alegria no corao.
     Dirigiu-se imediatamente  sua casa. Sentia grande emoo. Eram dez horas de uma quente manh de dezembro. Naturalmente Maria Antnia ainda no se tinha levantado. 
Ansioso, tocou a sineta do porto e logo o velho Amncio, to rpido quanto lhe permitiam suas velhas pernas, veio abrir, levando um susto, O velho escravo estremeceu 
e gritou:
     -        Sinh Menelau!  o sinhozinho Menelau!
     Ele transps o porto, enquanto dizia:
     -        Sou eu, Amncio. Finalmente pude voltar para casa. No vejo aqui os outros escravos, o que houve?
     -        Sinhozinho num sabe? Quase todos se foram. Sinh dona Isab libert os negro.
     -        Finalmente aconteceu. Voc no foi embora?
     -        T vio. Num tenho fama nem nada. Num posso trabai. Pra onde pudia ? Pedi a sinh e ela me deix fic.
     -        Quem mais ficou?
     -        S a Joana e Terno.
     Menelau entrou na casa e foi  cozinha onde a velha Joana,  beira do fogo, cuidava da comida. Ele sentiu vontade de beij-la, tal a sua alegria sentindo o 
cheiro gostoso de iguarias, que h muito no experimentava.
     -        Joana - disse, alegre - que cheiro bom!
     A velha voltou-se, assustada:
     -        Sinh Menelau! Valha-me Nossa Senhora!  o sinh mesmo!
     -        Sou eu, Joana.
     Num transporte de alegria Menelau a abraou. A velha, emocionada, chorava. Menelau, alisando-lhe a carapinha grisalha, brincou:
     -        No est contente em me ver? Chora?
     -        Sim, meu sinh. A sinh pensava que vosmic tivesse morrido. Mas eu no. Eu esperava sua volta.
     -        Voc foi libertada da escravido. No quis partir?
     -        Minha filha Janda veio me busc, mas eu num quis. lava aqui, tomando conta da sinh. Eu queria cuid dela at o sinh volt.
     Menelau disse, comovido:
     -        Obrigado, Joana.  bondosa e fiel. Hei de recompensar sua generosidade. A sinh, como est?
     -        Bem, sinh. Ela vai t um susto grande. Acreditava que vosmic tivesse morrido.
     -        Faltou pouco, Joana. Sofri muito. Mas agora tudo vai ficar bem.
     -        Vosmic t queimado de sol e mais forte.
    -        E mais velho. Olhe os cabelos brancos.
    -        Uns pco, eu vi. Num carece mais preocup. Tudo vai fic bem agora.
    -        V acordar Maria Antnia e conte-lhe que eu voltei. No quero assust-la.
    Joana concordou e, limpando as lgrimas com a ponta do avental, entrou no quarto onde Maria Antnia dormia. Chegando-se ao leito disse, respeitosa.
    -        Sinh Maria Antnia, acorde! Tenho notcias do sinh Menelau!
    Maria Antnia remexeu-se no leito e aps reiterados chamados, abriu os olhos visivelmente mal-humorada.
    -        O que aconteceu para que me desperte com tanta insistncia a esta hora? Quantas vezes devo dizer que detesto ser acordada?
    -         que tenho notcias do sinh Menelau.
    Maria Antnia acordou de vez. Fixou a serva e disse:
    -        Algum boato! A corte vive cheia deles.
    -        No, sinh. Sinhozinho t vivo, com sade e perto de vosmece.
    -        No acredito. Depois de tantos anos! Menelau est morto.
    -        Estou aqui, Maria Antnia - disse Menelau, aproximando-se do leito.
    Maria Antnia sentou-se na cama, como movida por uma mola.
    -        Est vivo e aqui! Estarei sonhando?
    -        No, Maria Antnia, sou eu mesmo.
    Menelau aproximou-se mais, abraando-a. Durante alguns segundos ela ficou calada, depois libertou-se do seu abrao e fixou-o, firme. De um salto saiu do leito 
e olhou-o profundamente irritada.
    -        Ento est vivo e com sade! Durante anos desapareceu de casa, sem notcias ou qualquer considerao e agora retorna com essa desfaatez, como se nada 
houvesse?
    -        Posso explicar o que me aconteceu - disse ele calmo, esforando-se para no empanar a alegria do regresso.
    -        Ah! Voc explica! Mas eu fiquei aqui todo esse tempo, sem saber se estava casada ou viva. Amarrada a voc, sem poder decidir minha vida.
    -        Eu no podia escrever. Estava preso.
    -        Preso?
        - Sim. Se no escrevi ou dei notcias foi porque no pude. Se no voltei foi porque estava
preso.
     -        O que aconteceu?
     -        Agora voc comea a perceber as coisas. Vou contar-lhe tudo. Mesmo no tendo sido recebido como esperava, estou feliz por haver regressado.
     -        Seu amigo, o sr. Eduardo, veio procurar-me e descobriu sua bagagem no armazm do cais.
     -        Descobriu? Ento as malas no se perderam?
     -        No. Um amigo do sr. Eduardo descobriu sua bagagem e fomos para retir-la.
     -        Ento esto aqui - disse Menelau, com alegria.
     -        No... Eu no sabia o que fazer com ela. O sr. Eduardo disse que a guardaria. S fiquei com o que me pertencia.
     -        E os mimos para Demerval e a famlia?
     -        No sei. Voc sabe que no me dou com aquela gente. Pergunte ao sr. Eduardo. Falemos da sua ausncia. Aquela viagem sua, eu nunca entendi. Percebo 
agora que voc entrou em uma encrenca. Por acaso conseguiu dinheiro, poder? O que foi?
     -        H um segredo que no posso contar. Por causa dele fui preso e levado a uma ilha onde fiquei em trabalhos forados e s a custo e com a ajuda de Deus 
consegui escapar. Isso eu posso relatar em todos os detalhes. Foi no dia em que eu ia embarcar no navio que me traria de volta ao Brasil.
     Menelau relatou seu drama  mulher, que o ouvia pensativa. No se sentia muito interessada em saber os detalhes ou o sofrimento do marido. Preocupava-a sua 
volta, porque certamente ele pretendia continuar exercendo sobre ela a tutela de marido, com a qual se tinha desabituado.
     Apesar da incerteza da sua situao civil, ela gostava de ser livre e de manter relaes amorosas a que no se proibia mas que poderiam tornar-se pblicas ou 
comprometedoras porqanto era ainda tida como casada. Era cmodo e excitante. Havia sempre muitos homens interessados em consol-la da "dolorosa" ausncia do marido.
     Isso era o que a irritava. Menelau no lhe fazia nenhuma falta e no sentia amor por ele. Agora, para ela, havia se tornado figura incmoda e inoportuna. Pensou 
em expuls-lo do lar sob alegao de abandono, mas seria uma mulher separada e seu nome ficaria comprometido. A separao sempre denegria o nome da mulher, mesmo 
que ela tivesse razes justas. A idia de que "homem  homem, nada pega" era norma acatada por todos.
    O        que faria? Precisava aceit-lo de volta, pelo menos por enquanto. Contudo, no o deixaria mandar em sua vida como antes.
    -        As coisas mudaram por aqui. Os escravos se foram -tornou ele.
    -        Uma loucura - respondeu ela, com raiva. - No se pode sequer andar pelas ruas. Esses vagabundos esto por toda parte. Alguns assaltam os antigos donos, 
matam e roubam. Uma malta horrvel!
    -        Essa fase vai passar. A escravido precisava acabar.
    -        Voc fala sem saber. Largaram seus donos, saram, sem ter para onde ir nem o que comer. Esmolam nas ruas ou roubam. O que mais poderiam fazer? Que so 
eles seno seres inferiores e ignorantes que precisam da orientao dos donos para sobreviver?
    -        So seres humanos, como ns. Podero trabalhar. Os antigos donos, agora seus patres, tero que pagar pelos seus servios.
    -        Uma explorao. Onde j se viu? Casa, comida e ainda dinheiro?
    -        Por que no? Aqui em casa no teremos mais nenhum brao escravo. Os que ficaram sero pagos pelo seu trabalho. Contrataremos outros tambm. O servio 
deve ser feito.
    -        Isso  loucura! Nos levar,  runa.
    -        Na Europa todos recebem pelo seu trabalho e esto cada vez mais prsperos. Assumirei os negcios e tudo ir bem.
    -        Voc cuida dos negcios, mas da minha vida cuido eu.
    -        Deseja a separao? - indagou ele, srio.
    Se ela desejasse separar-se ele se sentiria livre para viver sua vida, embora jamais alimentasse a minima esperana de realizar seus anseios de amor.
    -        No, querido - disse ela, calma. - O que eu no quero  que dirija minha vida. Sei conduzir-me muito bem.
    -        Desde que respeite o limites do bom senso, no penso em guiar seus passos como os de uma criana.
    -        Agora, deixe-me descansar mais um pouco. Estou morta. Essas emoes me cansam.
Foi com alivio que Menelau saiu do quarto da mulher. Pretendia fazer ainda muitas coisas naquele dia. Depois de comer a saborosa refeio que Joana amorosamente 
lhe preparara, Menelau foi procurar Eduardo. Desejava notcias e aproveitaria para buscar seus pertences. As ltimas palavras de Maria Antnia o fizeram tomar uma 
deciso. A casa era suficientemente ampla. Ele no se instalaria no quarto do casal. No Brasil, dormir em quartos separados era ainda motivo de escndalo. Ele no 
se preocupava com isso. Ficaria na outra ala da casa que possua vrias salas e assim a esposa teria sua liberdade e ele tambm. Talvez isso at melhorasse o relacionamento 
deles. Enquanto ele dormia cedo e gostava de cedo levantar-se, ela era o oposto. Por que no havia pensado nisso antes?
     Eduardo, ao abrir a porta de sua casa, deu um grito de alegria. O abrao apertado, as palavras de boas-vindas, a espontaneidade do amigo encantaram Menelau 
que, emocionado, considerou:
     -        Agora sinto que valeu a pena voltar. Pensei muito em voc e em nossas conversas.
     -        Temos muito o que conversar, Menelau.
     -        Estou ansioso por notcias! Demerval, Maria Jos, as crianas, esto bem?
     Sua voz tremia.
     -        Sim. Esto muito bem. Seu irmo continua com altos e baixos. Mas, com a graa de Deus, vai aprendendo suas lies. Maria Jos, dedicada como sempre, 
e as crianas vo indo bem. Romualdo j completou seis anos.  um belo menino, inteligente, sensvel e bom!
     Menelau estava engasgado sem saber o que dizer. Quando pde falar, disse, com voz trmula:
     -        Sinto uma vontade louca de correr para os seus braos e matar a saudade! No posso. Devo acalmar-me primeiro.
     -        Sim. Sente-se aqui, a meu lado, quero contar-lhe tudo que tem acontecido por aqui desde que partiu.
     -        Estou ansioso.
      medida que Eduardo contava as dvidas, as incertezas, os receios que eles viveram naqueles dias, lgrimas deslizavam pelos seus olhos. Quando Eduardo contou 
sua viagem a Itu, as palavras do Bentinho, ele no se conteve:
     -        Ele viu mesmo. Eu estava em uma ilha preso. Tudo foi verdade.
     -        Depois voc me contar tudo. Quero falar primeiro para que sinta a verdade das minhas palavras.
     -        Eu creio. Sei que fui libertado por mos divinas. Por uma fora maior do que a minha e dos meus inimigos.
     -        Falta o mais importante. A prece que fizemos e o que aconteceu.  
     Com os olhos molhados Menelau ouviu a narrativa, sentindo enorme emoo a cada palavra do amigo. Quando ele terminou, soluos sacudiam o corpo forte de Menelau, 
numa torrente inesperada, porm natural. Tantas lutas, tantas dvidas, tanta dor, enfim se explicavam no amor de Deus que tinha para tudo uma causa justa.
     Eduardo orava em silncio compreendendo os sentimentos do amigo. Quando serenou, Menelau disse, srio:
     -        Quero agradecer a Deus ter-me permitido conhecer a verdade. Poder compreender a causa de tantos sofrimentos.
     -        Vamos orar - disse Eduardo, comovido.
     Menelau, com os olhos cheios de lgrimas, pronunciou sentida prece agradecendo a Deus haver-lhe permitido regressar e dando-lhe outra oportunidade para cumprir 
sua tarefa. Depois, permaneceu alguns minutos pensativo; em seguida, disse:
     -        Cumprirei meu dever at o fim. Sei que Maria Jos tambm o far. Posso realmente ver Maria Antnia como filha, no consigo v-la como esposa. De hoje 
em diante me esforarei para ajud-la a ver a vida de maneira mais realista. Contudo, Eduardo, no sei bem como fazer. Ela  ftil, vaidosa, interesseira. Temo at 
que no seja fiel. No se alegrou ao ver-me. Pareceu-me contrariada.
     Eduardo sabia algumas coisas desagradveis sobre o comportamento dela, mas nada disse. Estava resolvido a ajudar e respondeu:
     -        Sugiro a voc que estude as leis espirituais que regem a vida. So verdadeiras e perfeitas. Quando no souber como resolver um assunto, entregue-o 
nas mos de Deus e espere. A inspirao vir, com certeza. O importante ser sempre o desejo de fazer o melhor e a humildade suficiente para perceber o caminho a 
seguir ainda mesmo quando ele seja diferente do que desejamos. O dever s pesa quando pretendemos impor nossa vontade  vida. Felizmente, a nossa conscincia, quando 
est acordada, sempre percebe o melhor a fazer. O orgulho atrapalha e nos desvia.  preciso ter humildade para entregar-se a Deus e perceber-lhe os desgnios.
-        Hei de aprender. Durante estes anos em que fui prisioneiro, submetido ao arbtrio e  intolerncia, perdi muitas iluses. Vejo a vida agora de forma diferente. 
Senti a fora de Deus atuando em nossos destinos. No quero ser um rebelde. Sei que tudo quanto Deus faz ou permite  bom. Quero ser humilde, ouvir-lhe as diretrizes, 
cumprir bem as tarefas que a vida me colocou nas mos. Pretendo continuar a merecer a proteo dos bons espritos. Sei que um dia, quando for possvel, estarei livre 
para amar Maria Jos e ela tambm estar. Confio no futuro.
     -        Assim se fala - disse Eduardo, comovido.
     -        Quero fazer algo de bom. Nossa ptria sofre o clima difcil das mudanas sociais. A repblica vir, tenho certeza, e os negros foram cativos durante 
tantos anos que agora necessitam reaprender a usarem a liberdade com responsabilidade. Vou trabalhar. Desejo empregar bem meu tempo. Fazer algo por eles, no sei 
ainda como, ajud-los de alguma forma.
     Eduardo abraou-o com entusiasmo.
     -        Estou tentando fazer isso mesmo. Admito que no  fcil, mas juntos havemos de melhorar este pas.
     Os dois amigos conversaram durante horas tecendo planos, trocando idias que lhes possibilitassem trabalhar em benefcio de todos. Era j noite quando Menelau 
despediu-se. Apesar de cansado, sentia que nova esperana despontara em seu corao. Agora, sua vida tinha um objetivo: educar o esprito de Maria Antnia. No sabia 
como, mas essa era sua misso e confiava que Deus o haveria de ajudar.

CAPTULO 14

     Menelau arrumava-se com apuro. Pedira uma audincia com o Imperador e ia ao Pao s 14 horas. Havia uma semana que chegara e gastara esse tempo trabalhando 
duramente. Seus negcios estavam mal e ele descobriu que o seu notrio enriquecera enquanto que ele havia empobrecido. Energicamente exigiu um acerto de contas no 
qual, a custo, conseguiu desfazer alguns "enganos" e reaver parte do seu dinheiro, tendo perdido uma boa soma. Maria Antnia contentava-se em exigir boa mesada e 
no se interessava pelos negcios.
     Com esforo e trabalho, Menelau contava poder novamente prosperar. Pretendia trabalhar com Eduardo. Tinham planos para dar trabalho aos braos dos negros, preparando-os 
para seu novo estado.
     Tendo tomado essas decises, Menelau sentira-se mais forte e desejava falar ao seu Imperador. Havia lhe dado uma misso. Sua conscincia sentia-se no dever 
de desobrigar-se dela.
       Muitas coisas haviam mudado no Rio de Janeiro. Falava-se da repblica como de um fato consumado e, apesar da figura veneranda de Dom Pedro 2, havia sede 
de progresso. O povo desejava novas diretrizes, novos caminhos. O privilgio da nobreza irritava e os mestios, dentre os quais havia grande nmero de homens cultos, 
inteligentes e atuantes nas letras e nos jornais mais lidos da cidade, lutavam pelo direito de participao na poltica e no legislativo. Por vaidade alguns, pela 
nsia de poder outros, mas a maioria desejosa de melhorar o nvel social do povo e dar-lhe oportunidades de progresso. Mesmo aqueles que idolatravam o Imperador, 
j o consideravam velho e desatualizado, sem a virilidade necessria para conduzir a nao naquela hora de transio.
     De um lado, os negros famintos e mendigando, embriagando-se e entregando-se a atos vexatrios; de outro, os escravocratas, dizendo-se lesados e protestando 
contra o Imprio.
     Foram eles quem mais tramaram contra o Imperador, muito embora apenas desejassem substitui-lo sem mudar a forma de governo. Em sua maioria, consideravam a repblica 
um caos social. Falavam do morticnio na Frana e temiam que o mesmo acontecesse no Brasil.
     Foi com respeito e deferncia que Menelau adentrou o gabinete onde Dom Pedro 2 o esperava, ladeado pelo Visconde de Graja. Menelau curvou-se, atencioso. Dom 
Pedro olhou-o com curiosidade.
     -        Meus respeitos, Majestade - disse Menelau, srio.
     Dom Pedro curvou ligeiramente a cabea, retribuindo o cumprimento.
     -        Faz muitos anos que o senhor saiu em misso para a Europa - disse ele, olhando-o fixamente nos olhos. - Tivemos notcias suas at junho de 1885. Depois, 
o senhor desapareceu. Julgamos que estivesse morto.
     -        Se me permitir, contarei o que me aconteceu.
     A um gesto do Imperador, Menelau contou tudo, embora omitisse os nomes dos brasileiros envolvidos na trama. Dom Pedro o ouvia cofiando a barba, pensativo. Ao 
trmino, disse, srio:
     -        O senhor deve saber que os inimigos do Imprio tramam a sua queda. Muitos desejam a repblica, eu sei. Esquecem-se que, durante meu Imprio, o pas 
progrediu, cresceu, aprendeu muitas coisas. Amo minha terra e gostaria ainda de poder fazer muito mais. Temo no haver tempo. No pela idade, mas porque minha gente 
no mais confia no seu Imperador.
     Seu tom era dorido e seu rosto estava triste. Menelau no soube o que dizer. Ele prosseguiu:
     -        Agora mesmo tenho planos para educar a massa de negros e prepar-los para o trabalho remunerado no comrcio e mesmo na lavoura. Terei tempo?
     -        Vossa Majestade sabe que o progresso deseja mudanas.
     Dom Pedro olhou-o firme:
     -        O senhor tambm est contra mim? Foi em busca de nomes e os omitiu. Por qu?
     Menelau no se conteve:
     -        Quando sa daqui estava decidido a lutar pela monarquia e descobrir os traidores. Contudo, na Frana, conheci melhor os ideais republicanos e reconheci 
o direito que todos os homens tm de lutar e conquistar seu lugar no meio social, fazendo valer seus dotes de honestidade, inteligncia, trabalho, sem privilgios 
de bero. Desculpe, Vossa Majestade, minha sinceridade. Apesar de perceber isso, jamais tra vossa confiana. Arrependi-me de haver aceito tal misso. Procurei permanecer 
neutro e foi por isso que fui preso, porque me recusei a participar da conspirao contra vosso governo.
     Dom Pedro olhou-o com severidade.
     -        No acha que me devia lealdade, que me tinha dado sua palavra? Que posso prend-lo como traidor?
     Menelau sustentou o olhar corajosamente.
     -        Vossa Majestade sabe que sou sincero. Podia mentir aqui, agora. Estou abrindo meu corao. Nunca fiz poltica. No entendia nada disso quando aceitei 
a misso. Pensava estar fazendo um bem e descobri que devia respeitar nossos adversrios porque eles tambm tinham suas razes. Fiquei dividido. Minha conscincia 
falou e eu no consegui desempenhar a misso com xito. Lamento. Sei que Vossa Majestade pode prender-me ou mandar matar-me. Porm, no quero mais sujeitar-me  
mentira e ao remorso.
     -        Ento agora  um republicano? - indagou ele, com doloroso acento.
     -        Acredito que a repblica vir naturalmente. Nota-se um clamor muito forte no povo. No sei se ser o melhor caminho. Confesso que tremo ao pensar no 
que acontecer para implant-la. Venero e respeito meu Imperador. Gostaria de vos servir sempre. Lamento que numa hora dessas vosso corao esteja entre um estado 
e outro, entre a monarquia e a repblica, porque pelo muito que o Brasil deve a Vossa Majestade, penso at que a Repblica deveria esperar o trmino do vosso Imprio, 
quando Deus vos chamasse.
     Menelau tinha lgrimas nos olhos e nos olhos do Imperador luziu, por alguns segundos, um brilho emotivo. Levantou-se e, estendendo a mo para Menelau, disse:
     -  um homem de coragem. Disse-me coisas que nenhum dos meus amigos teve coragem de dizer. Reconheo que me estima, desejo apertar-lhe a mo.
     Menelau no encontrou o que dizer. Apertou forte a mo daquele homem que admirava.
     -        Ao despedir-me, devo dizer a Vossa Majestade que no levantei um dedo para o advento republicano e continuarei assim.
     -        Acredito, meu amigo. Agradeo e aprecio sua solidariedade. Sei, entretanto, que me resta pouco tempo de governo. S espero que me deixem ficar em minha 
querida terra.
     -        Por certo, Majestade.
     -        O que pensa em fazer agora?
     -        Cuidar de minha esposa e dos meus negcios. Penso em ajudar a orientar os negros, ocupando-os no trabalho remunerado.
        - Isso mesmo - disse ele, srio. - Gostaria de poder fazer o mesmo.
     Menelau curvou-se e afastou-se lentamente para trs, olhando o rosto do velho Imperador e pareceu-lhe ver o brilho de uma lgrima em seus olhos.
     Apesar de haver sido uma dolorosa entrevista, Menelau sentiu-se fortalecido por ter usado de sinceridade e dito a verdade. Entristecia-se ao pensar que Dom 
Pedro seria sacrificado pela fora do progresso. Ele no merecia isso, por tudo o que fizera pelo Brasil.
     Ao mesmo tempo percebia que havia uma nova fora no ar, buscando a mudana que nada nem ningum conseguiria deter.
     Nos dias que se seguiram, Menelau procurou dar novo rumo  sua vida. Havia muito por fazer e ele estava disposto a no envolver-se com poltica, embora houvesse 
sido procurado por alguns amigos. Depois da experincia desastrosa, pretendia dedicar-se ao progresso social, ajudando de maneira efetiva e simples. No pretendia 
deixar a advocacia, mas ao mesmo tempo continuaria com sua firma de importao e comrcio, incrementando os negcios para que prosperassem como antes.
     A princpio, Maria Antnia irritou-se vendo-o instalar-se em separado, na outra ala da casa. Depois, aceitou a idia e at a achou acertada. Ela temia os comentrios 
e as ms lnguas. Sentir-se rejeitada pelo marido no satisfazia sua vaidade mas, por outro lado, essa situao deixava-a  vontade para agir como lhe aprouvesse, 
sem a importuna presena de Menelau. Acabou por gostar da idia, explicando aos amigos que era moda na Europa.
     Menelau reuniu os escravos fiis que haviam ficado na casa e agradecendo-lhes a generosidade e a confiana, participou-lhes que a partir daquele dia passariam 
a receber pelo seu trabalho e teriam toda liberdade para trabalhar em outro lugar, se assim quisessem.
     Apesar da insignificncia da quantia que se disps a pagar-lhes, comoveu-os at as lgrimas e Joana, olhos brilhantes considerou:
     - Sinh Menelau num precisa pag esta nega. Num sei o que faz cum dinhero.
     Menelau Sorriu:
     - Voc vai aprender. Sabe fazer as compras da casa muito bem. Vai usar seu dinheiro no que quiser. Todo trabalho deve ser pago.
     A negra beijou-lhe a mo com carinho.
     - Sinh Menelau num vai me mand embora...
     - Claro, Joana, eu nem saberia o que fazer sem voc.
     Com ar srio, continuou:
     - Tambm quero capricho no servio. Vou pagar e exigir mais. No pensem que vai ser fcil. Quem recebe pelo seu trabalho, deve faz-lo com amor e vontade.
     Os negros olharam para Menelau pensativos.
     - Sei que alguns deixaram a casa e por isso ns vamos arranjar mais alguns servos, a quem pagaremos tambm. Agora so livres e devem aprender a usar essa liberdade 
com responsabilidade e honestidade. Agora, vo ao trabalho.
     Eles se retiraram e Menelau sentiu-se bem ao observar que eles saram com um brilho novo no olhar e muita dignidade na postura.
     - No existe maior satisfao do que viver com dignidade -pensou, convicto.
     Maria Antnia no participava dessa opinio. Porm, no gostava de envolver-se com os afazeres e cansaos domsticos. Para ela, ver tudo voltar  antiga ordem, 
com novos empregados, era timo. Pouco lhe importava se o marido pagava ou no por esses servios. Sua mesada continuava a mesma e isso  que lhe interessava. Com 
o tempo, achou oportuno o regresso de Menelau, uma vez que ele no interferia em sua vida e at lhe poupara aborrecimentos, assumindo os deveres cansativos do lar.
     Ela continuava a freqentar os sales da moda e, apesar da volta do marido, estava sempre rodeada de admiradores. Isso lhe valia alguns comentrios maldosos 
das outras mulheres, mesmo estando sempre acompanhada por sua dama de honra, matrona de ar srio e muito respeitada. Maria Antnia jamais era vista com um admirador 
em particular. Flertava nos sales, mas jamais as ms lnguas puderam imputar-lhe algum deslize ou escndalo. Por isso, ela no se importava com essas insinuaes 
maldosas que qualificava de invejosas.
     Menelau, trabalhando muito, desejava participar mais da vida da esposa. Se quisesse despertar novos valores em seu corao, deveria aproximar-se dela, do seu 
mundo, embora ele fosse distante do seu. Preocupava-se com ela e nutria sincero desejo de v-la feliz.
As palavras de Eduardo sobre o passado calaram fundo, fazendo-o compreender o motivo pelo qual a vida os tinha unido. Se conseguisse despertar nela a conscincia 
da realidade, se pudesse faz-la perceber os verdadeiros valores da vida e abandonar as futilidades, a ambio desmedida, por certo estaria livre para escolher seu 
prprio caminho. Entendia que aquele vnculo s existiria enquanto houvesse entre eles a necessidade de aprender determinadas coisas.
     Assumira seu trabalho e movimentara os escritrios de sua firma dando emprego a dois ex-escravos, cultos e letrados. Uniram-se a Menelau e aceitaram o emprego, 
principalmente porque ele lhes adiantara seu desejo de orientar os negros libertos ajudando-os a encontrarem ocupao e conscientizando-os da necessidade do trabalho 
para o prprio sustento.
     Eduardo juntou-se a eles com entusiasmo e o escritrio de Menelau passou a ser ponto de reunio dos negros interessados em reorganizar a prpria vida.
     O curioso  que muitos deles no se consideravam com dever de trabalhar. Acreditavam que a alforria e a liberdade os isentasse dessa obrigao, desejando viver 
livremente pelas ruas, vagabundeando e tomando pela fora as coisas que desejassem. O trabalho para orient-los era rduo e havia necessidade de usar muita energia.
     Era comum ver-se pelas ruas do Rio de Janeiro os dois negros que trabalhavam para Menelau a conscientizar seus irmos de cor da necessidade do trabalho como 
meio de sobrevivncia.
     Por outro lado, havia os donos da terra, os lderes do comrcio que, revoltados pela perda de seus escravos e o prejuzo que isso lhes acarretara, ficavam satisfeitos 
com os atos desatinados dos ex-escravos, julgando com isso poder pressionar o Congresso e o Imperador a que voltassem atrs na sua resoluo.
     Enquanto isso, os abolicionistas lutavam para educar os negros fazendo-os compreender seus direitos mas tambm seus deveres como homens livres e dignos. No 
era tarefa fcil. Para os escravos instrudos e habituados ao trabalho mais intelectual, no havia problemas. Eles eram muito solicitados e logo foram bem assalariados. 
O problema maior era em relao aos mais embrutecidos e ignorantes, que haviam vivido dominados pela fora fsica e que, uma vez livres, no queriam, mesmo  custa 
de algum dinheiro do qual eles sequer conheciam o valor, voltar a trabalhar para os antigos donos ou para outros brancos.
     Essa atitude era-lhes intolervel e muitos deles, embriagados pela nsia da liberdade to desejada, queriam ficar  toa, espreguiando-se ao sol, roubando frutas 
dos pomares e comida nas cozinhas, nadando no rio ou nas ondas quentes do mar.
     O        mundo era deles! Nada de deveres, canga, trabalho duro, dependncia! A esses no havia argumento que os dobrasse e alguns j comeavam a roubar bebidas 
e a embebedarem-se, promovendo desordens, assaltando os brancos que porventura lhes cruzassem o caminho.
Comentando com Eduardo essas dificuldades, Menelau aduziu:
     -        Eles sequer nos ouvem. No sei o que fazer para mostrar-lhes a realidade. Promovendo arruaas vo acabar mortos pelos soldados ou atirados nos calabouos 
do Engenho Grande. Disseram-me que l j h centenas deles a apodrecer e a sofrer toda sorte de sevcias.
Eduardo sacudiu a cabea:
     -        Infelizmente torna-se difcil fazer alguma coisa. Eles realmente atacam as pessoas e tornam-se perigosos. A Polcia tem que manter a ordem e evitar 
os excessos. Alguns at atacaram as donzelas, que agora receiam sair  rua. A estes sei que mataram a tiros. Se a onda pega, vamos ter muitas mortes. Todos se revoltaro, 
porque um negro levantar os olhos para uma moa branca ningum suportar.
     -        Os brancos, durante anos, invadiram as senzalas e no respeitaram as negras. O nmero sempre crescente de mulatos prova isso. Agora eles sentem-se 
no direito de fazer o mesmo. Seguem o exemplo dos brancos.
     -         verdade. Em todo caso, torna-se necessrio pr cobro a essas loucuras. H sempre vtimas inocentes nessa histria.
     -        Tem razo. Estamos lutando para mudar este estado de coisas. Se pelo menos os brancos entendessem e cooperassem!
     -        Concordo. Devemos continuar com nosso esforo. s vezes, penso que esta gerao paga o preo dos anos e anos de escravido e de arbtrio. A hora  
de luta, no de cobrana.  de mudana e progresso. Tudo seria mais fcil se os homens entendessem que todos somos espritos, iguais em valor diante de Deus, no 
importa a cor da pele ou a raa a que pertenamos. Se eles pudessem perceber que as desigualdades sociais so frutos das nossas fases evolutivas e das nossas necessidades 
de amadurecimento, ento teriam como meta o auxlio uns aos outros e a compreenso seria constante, evitando os choques mais dolorosos.
     -        O que fazer para ajudar? - indagou Menelau, srio.
-        Continuar a trabalhar como der e como pudermos. Vamos procurar fazer o melhor, Deus por certo nos ajudar. Quando trabalhamos em harmonia com seus desgnios, 
ganhamos imensa fora. No devemos ser pretenciosos querendo consertar este estado de coisas. Se ele existe, ter por certo sua funo. Porm, vamos ajudar a quem 
quiser nos ouvir e por certo estaremos fazendo o mximo. Os desordeiros que esto sendo recolhidos aos calabouos do Engenho Grande escolheram essa reao, no nos 
cabe nenhuma culpa; mas aqueles que nos quiseram escutar, conduziremos ao caminho do trabalho digno e  construo de uma vida til, no aconchego do lar e na participao 
social. Tenho observado que, apesar da resistncia dos mais renitentes escravocratas, no faltam ocupaes aos mais dignos e humildes que se conformam em aprender 
o trabalho ou desempenh-lo com dedicao. Afinal, muitas casas ficaram sem braos para o trabalho e as mulheres protestam e querem ver a rotina domstica restabelecida. 
As lavouras paradas pedem braos que as conduzam. O que ns devemos fazer  que, enquanto o Antero e o Juca cuidam de esclarecer os negros, ns vamos falar aos patres. 
Sei de vrias casas que esto em crise de braos e vamos convenc-los a dar emprego aos nossos protegidos.
     - Isso mesmo - fez Menelau, com entusiasmo. - No vamos nos importar com os renitentes e ignorantes. Vamos ajudar os que podem e querem se adaptar.
     Com disposio e entusiasmo, Menelau dedicava suas horas livres a esse esforo de estabilizao social e, apesar dos problemas que surgiam onde ele e Eduardo 
eram chamados a opinar, muitos se beneficiaram. Uma vez integrados socialmente, procuravam, por sua vez, ajudar seus irmos desgarrados.
     Menelau ocupara-se tanto com essas atividades que quase no via a esposa. Saa sempre muito cedo e regressava muito tarde, quando ela j se recolhera ou encontrava-se 
em alguma atividade de salo.
     Uma tarde recebeu uma carta annima. Falava infmias sobre Maria Antnia. Havia se esquecido dessas cartas. Lendo-a, foi sacudido por grande temor. A futilidade 
dela teria chegado a esse ponto? Seria apenas uma intriga de salo?
     Ele no sabia. Mal via a mulher. Sentiu uma ponta de remorso. Abandonara-a totalmente. No se interessava por nada que lhe dissesse respeito. Sua indiferena 
no a estaria empurrando novamente para o abismo? Ficou inquieto e perturbado. Enquanto tentava ajudar os outros, no estaria deixando de lado seu dever maior? 
     Naquela tarde, resolveu ir mais cedo para casa. Pretendia dividir seu tempo para que pudesse oferecer mais ateno  mulher. s cinco horas j estava em casa. 
Maria Antnia surpreendeu-se vendo-o.
     -        Vim tomar um caf com bolinhos com voc. Joana j est preparando.
     Ela olhou-o como a querer descobrir o que ia em seu pensamento. Depois disse:
     -        Os milagres acontecem de vez em quando.
     -        Senti saudades de casa - respondeu ele, gentil.
     -        Custa-me acreditar. Ultimamente voc prefere os negros  nossa vida famliar.
     -        Tenho descuidado um pouco. Tem razo. De agora em diante estarei mais em casa, como agora.
     Ela pareceu um pouco inquieta.
     -        No o esperava. Tenho um compromisso s sete, no salo da Viscondessa de Abrantes. Sinto muito no poder ficar com voc.
     -        Nesse caso, acompanho-a. Faz muito tempo que no visito o Visconde.
     Ela apanhou o leque, abrindo-o e fechando-o com certo nervosismo.
     -        Por qu? Voc no gosta de freqentar os sales.
     -        Deu-me vontade. Quero dedicar-me mais ao lar.
     -        Parece um pouco tardia essa dedicao - fez ela, com voz fria.
     -        Tem razo para dizer isso. Estou sendo sincero. Somos marido e mulher. No desejo faltar aos meus deveres.
     -        Seu interesse  estranho. Voc comporta-se como se fssemos dois desconhecidos. No me queixo. Sei que entre ns no h amor, no estou ressentida 
com isso. S acho desnecessrio esse seu ineresse.
     -        No aprecia minha companhia?
     Ela sacudiu os ombros com indiferena.
     -        Voc no aprecia a corte, no cultiva as amizades e sequer ouve quando falo sobre os assuntos que aprecio.
     Menelau baixou a cabea, pensativo. Era verdade. Porm, como suportar as banalidades e a maledicncia social to a gosto de Maria Antnia? Nada disse sobre 
isso. Sabia que, se quisesse chegar at ela e tentar modificar-lhe a maneira de ser, teria que sujeitar-se e tentar compreender seus pontos de vista.
     -        Tambm voc no se interessa pelos meus assuntos - disse ele, srio.
     Ela olhou-o, admirada.
        - Por que uma mulher deveria interessar-se pelos escravos ou pelo mesquinho mundo dos negcios? Esses so seus assuntos prediletos. Para voc sequer existo. 
Jamais repara nos meus arranjos, nos cabelos ou nos meus trajes. Uma mulher precisa ser admirada.  como uma flor delicada. No foi feita para preocupar-se por essas 
coisas grosseiras do dia a dia. Voc sequer percebe que sou mulher.
     Menelau compreendeu. Era verdade. Ele no a amava como mulher. No a procurava como marido. No sentia por ela atrao fsica. Reconhecia que ela era uma mulher 
bonita, jovem, queria-lhe bem, mas esquecia-se dela com facilidade. No a amava. Jamais deveria ter se casado com ela. Agora, no pretendia abandon-la. Havia um 
compromisso espiritual. E esse compromisso encontrara enorme ressonncia em seu corao. No havia se impressionado pela revelao do seu passado, mas no fundo do 
seu ser sentia a grande necessidade de ficar ao lado da esposa para ajud-la a compreender melhor os valores da vida.
     Aproximou-se dela, tomou-lhe a mo com delicadeza:
     -        Maria Antnia, somos casados, precisamos conviver mais e eu desejo sinceramente compreender voc. No tenho sido um marido afetuoso. Perdoe-me. Fique 
em casa esta noite. Vamos conversar. Jantaremos juntos, passaremos as horas conversando.
     Ela olhou-o, admirada:
     -        No posso. J me comprometi. Irei ao salo da Viscondessa. No costumo faltar aos meus compromissos. Ademais, sobre o que poderamos conversar? Voc 
se aborreceria, eu tambm. Depois, poderemos conversar em outra hora.
     -        Est bem - disse ele, um tanto decepcionado. - De qualquer forma, irei com voc.
     -        No precisa. Tenho tudo combinado como sempre. A sr.a Cerqueira me acompanha.
     Menelau irritou-se um pouco, mas procurou dominar-se. Por que ela no queria que ele fosse? Decidiu srio.
     -        Mande um portador  sr.a Cerqueira. Irei com voc a esse salo. Pode dispensa-la esta noite.
     Maria Antnia irritou-se.
     - Voc no tem o direito de mandar em minha vida. No gosto que me d ordens!
     - No vim para brigar. Ao contrrio, desejo melhorar nosso relacionamento. Dediquei esta noite a voc e se no quer pass-la em casa comigo, a acompanharei 
onde for. A no ser que voc tenha outras companhias mais atraentes do que a minha.
     Menelau encarou-a firme e Maria Antnia estremeceu, desviou o olhar. Ficou pensativa durante alguns segundos, depois disse:
     - Muito bem. Voc  um excntrico. Vamos ver quanto tempo dura esse seu interesse. Iremos juntos ao salo esta noite.
     - Assim  melhor. Vamos ao nosso caf com bolinhos. J devem estar prontos.
     Menelau observou que, apesar do ar de naturalidade, as mos de Maria Antnia tremiam. Inquietou-se. O que haveria por trs daquela carta? Seria tarde demais 
para interessar-se por Maria Antnia? Estava decidido a descobrir.
     O salo da Viscondessa de Abrantes era dos mais bem freqentados do Rio de Janeiro. Mulher de fino trato, ela sempre entretinha seus convidados com jogos de 
salo, msicas bem escolhidas e danas da moda.
     A par desses relacionamentos meramente sociais, desenvolviam-se as intrigas palacianas e at polticas. O Visconde, homem ligado ao Imprio, manejava ali, atravs 
desses encontros, muitos dos seus interesses. Menelau todavia, no se interessava nem pelas intrigas e muito menos pela poltica. A amarga experincia em que ingenuamente 
se envolvera fora o bastante.
     Ele no esperava encontrar l muitos amigos nem entreter-se agradavelmente. Queria aconchegar-se  esposa. Percebia que o nervosismo dela beirava a irritao. 
Por qu? Seria verdade o que dizia a carta? Maria Antnia teria um amante?
     Fundo sentimento de raiva o acometeu. Embora no a amasse, respeitava-a. No toleraria uma traio. Seu nome deveria ser poupado.
     Chegando ao sarau, Maria Antnia, mulher habituada  vida social, imprimiu ar alegre e jovial  fisionomia e s Menelau que sabia da sua contrariedade, percebia-lhe 
esporadicamente nos olhos um brilho de rancor e, de quando em quando, pequeno tremor nas mos.
     Menelau decidiu dissimular tambm o que lhe ia no corao e a grande suspeita que o invadia. Procurou ser natural, no ver o ar de admirao das pessoas ao 
lhe serem apresentadas, deixando-o inseguro quanto ao papel que estaria representando diante delas.
Saberiam mais do que ele sobre a vida de Maria Antnia? A custo conseguiu dominar o desejo de sair correndo dali e exigir dela a verdade, fosse qual fosse.
     Assistiu ao programa musical onde a soprano cantou amadoristicamente canes, lindas e at, heroicamente, uma ria de "La Traviata" que o piano acompanhava, 
sofrvel. Quando acabou, passaram ao salo onde havia lauta mesa ricamente decorada com iguarias estrangeiras, servidas por mucamas luxuosamente adornadas com suas 
roupas de linho engomado, braos enfeitados por grossas pulseiras de ouro macio e colos cheio de correntes.
     Esta ceia, onde serviam-se iguarias leves e vinhos delicados, era coroada pelos doces muito bem preparados e servidos com champanhe, arrematada com licores 
dos mais finos, colocados em maravilhosas garrafas lavradas.
     Enquanto isso, preparava-se o salo do recital para as danas e a outra sala para as brincadeiras de salo. Nessa hora  que os homens reuniam-se em outra sala 
para saborear um charuto e conversar.
     Maria Antnia preferia danar e disse ao marido:
     -        Vou distrair-me nas danas. Voc pode optar por outra coisa, sei que no as aprecia.
Disposto a vigiar a esposa, Menelau respondeu:
     -        Esta noite farei o que voc gostar. Reserve-me uma dana.
     Ela olhou-o friamente.
     -        Por que isto?
     -        Vim disposto a agrad-la.
Ela suspirou, resignada.
     -        Vejo que no gosta de danar comigo.
     -        Gosto de danar pelo prazer que me proporciona. Prefiro danar com um cavalheiro que dance bem.
     Menelau sorriu.
        - Acha que no sei danar?
        - Pelo menos nunca o vi fazer isso.
     -        Est bem. Digamos que eu no seja exmio. Conceda-me a primeira valsa e ver.
-        Est bem - disse ela, tentando sorrir para disfarar a irritao. Tomou seu carn e anotou. Depois, decidida, passou para o salo onde os cavalheiros aproximavam-se 
das damas para reservar as danas.
     Menelau ficou indeciso. Aquele no era o seu ambiente. Sentia-se entediado, constrangido e at um pouco arrependido de ter comparecido.
     Podia ter usado de sua autoridade de marido e simplesmente impedido Maria Antnia de sair. Contudo, se queria descobrir a verdade e tentar ajud-la, teria que 
sujeitar-se. O que o irritava era
o        fato de pensar que, se a esposa o estivesse traindo, muitos dos presentes j poderiam saber e ele estaria fazendo papel de bobo. Aparecer como marido trado 
no era fcil, mesmo que no amasse sua mulher.
     Seu casamento com Maria Antnia fora errado e prematuro. Por que cometera tal tolice? Encostado a um canto, Menelau olhava o jardim que se estendia ao redor 
da grande varanda, atravs da porta por onde alguns casais entravam e saam conversando.
     -        Sr. Menelau, sinto-me honrado com sua presena nesta casa.  a primeira vez.
     Menelau olhou o Visconde, cujos cabelos brancos lhe inspiravam respeito.
     -        Tenho estado ausente do pas. Dediquei-me muito aos negcios, mas sempre  tempo, sr. Visconde.
     -        Claro. Alegro-me que tenha vindo  minha casa. Soube do seu esforo em colaborar com nosso Imperador. O Visconde de Graja teceu muitos elogios  sua 
pessoa. O amigo no pensa em dedicar-se a poltica?
     -        No, sr. Visconde. Para a poltica devem ir os homens experientes, preparados. Eu no possuo esses predicados.
     -        Mas  homem digno e goza da estima do prprio Imperador. Sua Majestade referiu-se ao senhor com muito interesse.
     -        Generosidade do nosso Imperador.
     O        Visconde sorriu e, tomando Menelau pelo brao, retrucou:
     -        A modstia  um dos belos atributos dos homens pblicos. Venha comigo. Vamos conversar um pouco.
     O        Visconde conduziu-o ao salo dos fumantes onde alguns homens mais idosos conversavam discretamente. Instalaram-se em duas poltronas onde o Visconde 
ofereceu um charuto que Menelau agradeceu delicadamente, mas no aceitou. O Visconde, tranqilamente, acendeu um, aspirou gostosamente e depois, colocando-o no cinzeiro 
de cristal sobre a mesinha, disse srio:
     -        Sr. Menelau, sua presena aqui foi providencial.
     -        Por que, sr. Visconde?
     -        Sei que  homem da confiana do nosso Imperador. Trama-se contra ele. Sei de fonte segura que nossos inimigos pretendem a queda do governo e preparam 
uma trama terrvel para o prximo ms.
     Menelau sentiu-se constrangido. No pretendia envolver-se mais com nenhum problema do governo.
     -        Lamento. Respeito e estimo a pessoa do nosso Imperador. Porm no vejo como poderia impedir semelhante acontecimento. No tenho prestgio pessoal, 
sequer sei o que tem acontecido ultimamente nesse campo.
     -        Os republicanos ganham terreno. Os jornais abertamente falam no seu afastamento. Tripudiam sobre a sua cabea branca, sua experincia de uma vida inteira 
na conduo dos destinos do nosso pas. Pretendem ignorar todos os benefcios e o progresso que este governo magnificamente ofereceu ao Brasil. Alm dessa ingratido 
imperdovel, desejam substitu-lo por um homem qualquer, sem o trato com a responsabilidade da causa pblica, favorecendo a ambio de poder e o assalto aos cofres 
pblicos.
     -        Vejo que o senhor no aceita a repblica.
     -        Ser o descalabro. Como substituir o certo pelo duvidoso? Nosso Imperador no foi colocado no poder por homem algum. Foi Deus quem o colocou l. F-lo 
nascer na casa imperial para isto.
     Menelau olhou-o, admirado. No havia pensado nisso. O Visconde prosseguiu:
     -        Tendo sido investido no cargo por Deus, teve tempo de preparar-se para governar. Aprendeu desde que nasceu. A experincia tem demonstrado que o fez 
com muita honestidade e sabedoria. Por que mudar? Por que dar ouvidos a aventureiros despreparados para o poder, que certamente abusaro dele?
     -        Contudo a repblica tem vencido em outros pases e trazido grande surto de progresso.
     O        Visconde olhou Menelau admirado e perguntou:
     -        O senhor  republicano?
     -        Pessoalmente no participo desses movimentos. Estive na Frana e l observei que eles tm progredido muito. A repblica  uma fora que ningum conseguir 
deter.
     O        Visconde fez um gesto desalentado.
     -        O senhor diz que estima o Imperador.
     -        Estimo e respeito. Penso que sua pessoa  intocvel. Qualquer modificao de governo s deveria vir depois da sua morte.
     -        Mas recusa-se a ajud-lo!
     -        No sei como o poderia fazer.
     -        O senhor obteve informaes l fora que no revelou.
     Menelau sustentou seu olhar com seriedade.
     -        Este  um ponto de honra entre sua Majestade e eu. Ele compreendeu.
     -        Eu ainda acho que suas revelaes poderiam nos fazer eliminar os focos republicanos e dizimar, de uma vez por todas, seus asseclas.
     Menelau levantou-se:
     -        Sr. Visconde, h um lamentvel engano da sua parte. As informaes que eventualmente eu pudesse dar so j do domnio pblico. Deixaram de ser secretas. 
Os jornais falam abertamente e no Parlamento conhece-se a posio de todos os seus membros. H muito no tenho mais nada a dizer.
     -        Perdoe-me a irreverncia, abordando assunto to doloroso. O senhor  meu convidado. No o fiz com inteno de ser desagradvel. Acontece que estou 
muito preocupado. Nosso Imperador est doente de tristeza. Di-me v-lo assim depois de toda uma vida dedicada  coisa pblica e ao bem-estar do nosso povo. Esta 
terrvel ingratido, fere-me os sentimentos. No quero aborrec-lo. Sente-se, por favor.
     Menelau viu o brilho de uma lgrima nos olhos do Visconde e comoveu-se profundamente. Estava diante de um homem sincero e muito dedicado ao Imperador.
     -        Lamento sinceramente o que est acontecendo. Sou admirador do nosso Imperador e reconheo que ele est sendo uma vtima nesse estado de coisas.
     -        Vai nos ajudar?
     -        Julgar-me-ia ingnuo se eu dissesse que vou rezar por ele? Acredito que, diante dos fatos que no posso mudar,  s o que me resta fazer.
     O        Visconde olhou-o de frente. Sentiu a emoo de Menelau, sua sinceridade. Por isso respondeu com voz firme:
     -        O senhor parece-me homem de f. Reze e reze muito. Por que eu talvez nem isso saiba fazer.
     Menelau sentiu-se triste. Queria ir-se dali, esquecer aquela situao que no podia modificar. Pediu licena e foi ao salo onde, ao sabor da msica, os pares 
rodopiavam alegremente. Queria ir embora. Maria Antnia volteava ao som de uma mazurca, corada e alegre. Precisava esperar que a dana acabasse. Arrependia-se de 
ter vindo. Sua tarefa com a esposa no lhe parecia fcil. Teria condies de execut-la? Inquieto, a custo dominava-se para no arrancar Maria Antnia dali e irem 
para casa.
     Quando a msica acabou, a esposa sentou-se e Menelau aproximou-se:
     -        Sua valsa ainda no tocou.
     -        Maria Antnia, gostaria de ir para casa.
     -        Agora? Sinto muito, mas meus compromissos no permitem. Tenho vrias danas marcadas.
     -        Basta, por uma noite. Vamos embora.
     -        No devia ter dispensado Adelaide. Voc no agenta o sarau. Ainda falta mais de uma hora para terminar.
     -        No vamos ficar. Sinto muito.
     -        No posso romper meus compromissos.
     A msica recomeou e Maria Antnia levantou-se e j um cavalheiro vinha ao seu encontro. Sorriu para o marido e estendeu a mo para seu par.
     Menelau no teve outro remdio seno conformar-se. No desejava um escndalo. A custo dominava a irritao. No queria brigar com Maria Antnia. Ao contrrio. 
Pretendia entender-lhe os desejos, conhec-la mais intimamente, j que mantinha o propsito de ajud-la a perceber outros aspectos da vida, mais reais e importantes.
     Aquele ambiente de futilidade poderia ser freqentado ocasionalmente, se lhe dava prazer, mas fazer dele o objetivo de sua vida era leviandade e loucura. Resignado, 
ele resolveu esperar.
     Apesar do nervosismo e da irritao, Maria Antnia em nenhum momento lhe dera motivos para desconfiana e parecia apenas divertir-se sem outras intenes. Teria 
exagerado?
     S quando a ltima dana acabou foi que Maria Antnia concordou em retirar-se, O sarau terminara. As pessoas despediam-se dos donos da casa e acomodavam-se 
em suas carruagens, que estavam  porta.
     Apesar de cansado, Menelau sentia-se aliviado. A carta annima parecia improvvel. Maria Antnia estava mais calma e contente. Sentados na carruagem, Menelau 
disse:
     -        Voc divertiu-se muito esta noite.
     Ela sacudiu os ombros com displicncia.
     -        Um sarau como os outros. Nada de novo.
     -        Estava alegre, animada.. O que mudou?
     -        Sempre me alegro quando num sarau. Parece que estou vivendo uma aventura onde tudo pode acontecer. Mas, quando acaba, tenho que voltar para este mundo 
horrvel e perceber que tudo segue igual, com as mesmas misrias e a mesma rotina. Agora s quero dormir, esquecer, e amanh preparar-me para outro sarau, para comear 
a viver de novo.
     Menelau olhou-a penalizado.
     -        A vida no  como voc a pinta. H muitas coisas que podem nos dar alegria, fora dos ambientes falsos dos sales.
     Maria Antnia balanou a cabea:
     -        No creio. Por toda parte vejo queixas e lamentos, doena e dor, crime e castigo, sofrimentos. Recuso-me a viver nesse mundo. Prefiro minha vida de 
beleza, de gente alegre e de felicidade. Jamais aceitarei as misrias do mundo.
     -        No cr em Deus?
     -        Deus! Por que falar nisso agora?
     -        Deus, sim. Que toma conta de tudo, criou a vida, a natureza e fez tudo certo.
     -        No sabia que voc se dava a religio. No gosto dos padres, que exploram a desgraa alheia como corvos sobre carnia. Depois, se existe Deus e ele 
fez este mundo, no merece confiana porque fez tudo errado.
     Menelau, impressionado, colocou os dedos nos lbios dela:
     -        No fale assim. Quando falo em Deus no me refiro a nenhuma religio. Falo de quem nos criou, dando-nos inteligncia, sensibilidade, e um corpo de 
carne to perfeito que jamais nenhum outro ser conseguiu fazer. Fez o sol, as estrelas, a luz, a cor, as flores, a beleza, o amor. Deu-nos a chance de escolhermos 
nosso prprio caminho. Desse Deus  que eu falo.
     Maria Antnia olhava-o, admirada. Depois disse:
     -        Francamente, discutir Deus a esta hora, depois de um sarau,  demais!
     -        No fuja do assunto. Por que se aturde desse jeito? No percebe que est fugindo da vida verdadeira e atirando-se ao cultivo de iluses destrutivas 
que um dia cairo por terra? Ento, o que lhe restar?
     Ela olhou-o, assustada.
     -        No quero pensar. Por que tenta acabar com minha alegria e fazer-me pensar em coisas to tristes? Tem raiva de ver-me feliz?
     Menelau colocou as mos nos ombros dela fazendo-a voltar-se para ele:
     -        Olhe-me nos olhos. Estamos casados h nove anos e somos dois desconhecidos um para o outro. Juramos amor, fidelidade, mas vivemos separados. Voc no 
aceita minhas idias e eu sequer sei das suas. Somos marido e mulher. Devemos formar um lar, uma famlia. Amparar-nos mutuamente. De minha parte, estou disposto 
a me esforar para vivermos melhor, quero ser um bom marido para voc. Gostaria tambm que me compreendesse. Que se esforasse para melhorar nossa vida em comum. 
Na vida, o que vale mesmo so os afetos sinceros, o verdadeiro amor, feito de compreenso e de amizade.
     Maria Antnia ouvia-o, admirada.
     -        A que vem isso agora? Por acaso deseja que eu me transforme em pacata mulher s voltas com crianas insuportveis e malcheirosas? - Fulminou-o com 
o olhar irritado. - Nunca, ouviu bem? Nunca!
     A carruagem parou na porta de entrada e o cocheiro abriu a porta. Menelau desceu e ajudou a esposa a descer. Uma vez no saguo, continuou com voz fria:
     -        Espero que voc no volte a este desagradvel assunto. Depois de um sarau!
     Ele tomou-lhe a mo e respondeu com emoo:
     -        Maria Antnia, gostaria que me ouvisse! Tenho tanto a dizer. Gostaria que conhecesse o outro lado da vida, as coisas do esprito eterno, a felicidade 
verdadeira! D-me um pouco de tempo para que eu possa mostrar-lhe o que j sei, para que voc desperte, saia dessas iluses e lute para conquistar a verdadeira alegria 
de viver! No  para a dor que eu a chamo,  para a felicidade, o amor, a beleza, a eternidade.
     A voz de Menelau era ardente e havia tal acento de sinceridade que ela, por alguns segundos, olhou-o tocada por essa fora. Depois, sacudiu os ombros e disse 
com voz fria:
       - Meu caro, h momentos em que no entendo o que voc diz. Estou cansada. Boa noite.
     Menelau curvou-se srio e respondeu:
-        Boa noite.
     Retirou-se para o quarto profundamente triste. Aquela alma que desejava acordar estava mergulhada muito fundo na descrena e na fantasia. Vivia muito distante 
da realidade. Apesar de tudo, sentia que, mais do que nunca, deveria prosseguir sem desanimar. Confiava em Deus e sabia que a vida o ajudaria a continuar a semear.

CAPTULO 15

     A tarde ia em meio e a brisa suave do outono balanava levemente os galhos das rvores do jardim. Maria Jos, sentada ao lado de uma arca, separava os tecidos 
que a Zefa ia tirando um a um:
     Pretendia renovar as roupas da famlia, preparando-as para as festas do fim do ano. Ana j estava pondo corpo de mocinha. Rosa era graciosa e de gosto apurado. 
Adalberto, mais descuidado, misturava-se s diabruras de Romualdo, necessitando de ateno e vigilncia para manter-se decentemente limpo e apresentvel. Haviam 
separado boa parte de tecidos quando Demerval entrou na sala. Irritado, foi logo dizendo:
     -        Sabe, dona Maria Jos, quantas horas so?
     -        A julgar pela sua presena, devemos andar pelas quatro.
     -        E ainda assim, no h caf nesta casa? Parece que o caos no se abateu s na plantao. Agora est dentro de casa.
     Maria Jos no se abalou. Calma, colocou uma pea de tecido sobre as outras, em separado, e disse a Zefa:
        - Voc vai ver o caf. Depois continuaremos. - E voltando-se para o marido, continuou:
- Num instante o lanche ser servido. Voc pode lavar-se enquanto isso.
     -        Sei o que fazer enquanto espero. Esta casa ficou desorganizada nos ltimos tempos.
     -        Os tempos mudaram. Temos que nos adaptar.
     -        No me conformo. Todos os nossos escravos se foram.
     -  um direito deles. A Zefa e o Bentinho esto aqui. Devamos contratar braos para o trabalho. Na Europa  assim.
     -        Recuso-me a pagar a esses negros ignorantes que deveriam nos agradecer por sustent-los e vesti-los. Muitos deles no valem o que comem.
     -        Se  assim, melhor que se tenham ido.
     Demerval olhou-a furioso.
     -        Voc est do lado deles.
-        No se trata disso. De nada adianta lamentar. A lei  clara e a escravido est proibida. S nos resta contratar empregados para os nossos servios ou tudo 
ficar parado e perecer. No compreende isso?
     -        Sei cuidar dos negcios muito bem. No preciso que me recorde isso.
        Calma, Demerval. Com o tempo tudo se arranjar. Se vamos pagar pelos servios, podemos exigir. Ser at melhor.
     Ele abanou a cabea desalentado.
     -        Parece mentira que voc pense assim. Contra nossos interesses. Se eu no estivesse aqui, por certo voc poria tudo a perder com sua liberalidade.
     - A lavoura parada, os celeiros se esvaziando, gado sem cuidar, o leite sem ordenha, perdendo-se, isso no conta? Colocar gente no trabalho  providncia urgente 
e inadivel. Conheo um casal que precisa de trabalho e que serviria bem para cuidar da fazenda. Contrataria alguns homens e ainda no perderamos esta safra.
     -        Voc acha tudo fcil. Como evitar que nos roubem?
     -        Sabemos a produo e o rendimento. Vamos supervisionar tudo. So gente boa e honesta. Vo trabalhar direito.
     -        So negros?
     -        Mulatos. Que importa isso? So pessoas que valem pelo seu trabalho e precisam de oportunidade.
     Demerval suspirou fundo. No gostava de ceder, mas estava preocupado com a paralisao dos seus negcios.
     -        Posso vender a fazenda - disse, com ar de desafio. - O Camargo quer comprar tudo. Vendo e pronto.
     -        E vai fazer o qu? Por que a fazenda do Camargo d lucro? Se ele quer comprar a nossa  porque quer expandir a sua. Por que ele pode e ns no?
     Demerval deu um murro na mesinha que tinha ao lado dizendo:
     -        Porque ele cedeu aos vagabundos. Contratou escravos libertos e paga-os. Cedeu a essa loucura. Eu me recuso a pagar esse preo!  aviltante.
     -        No vejo por qu. Todo trabalho merece ser pago.
     -        Voc pensa como eles. No zela pelos nossos interesses.
        - Isso  teimosia. A situao  difcil, mas precisamos aceit-la. No adianta lutar contra. O dr. Camargo fez muito bem. Ns devemos fazer o mesmo, se no 
quisermos perder tudo quanto temos.
        - O que me irrita  que voc est sempre contra mim.
     -        No diga isso. No posso ver tudo parado, como casa sem dono, no abandono. A estas horas, quem sabe at nossa fazenda abrigue malfeitores, vagabundos, 
abandonada como est. Vamos contratar esse casal para caseiros e, aos poucos, organizaremos tudo.
     -        Como vamos pagar?
     -        Com a venda da colheita haver dinheiro para todos.
     -        Voc  otimista.
     -        O que no pode  ficar como est. Hoje  tarde o Bentinho vai chamar o Joo para conversar. Amanh, podemos ir com eles bem cedo para a fazenda. Em 
trs ou quatro dias, colocaremos tudo em andamento, voc ver.
     -        Prefiro vender.
     -        No concordo. As terras so de nossos filhos,  o futuro deles. Vamos lutar, isso sim, para conserv-las.
     Demerval suspirou fundo, faltava-lhe o ar.
     -        No me sinto bem. Estas contrariedades me matam.
     -        Sente-se aqui. Vai passar logo. H coisas que precisam ser enfrentadas. No posso concordar com voc.
     Essas discusses eram comuns entre eles. Demerval no aceitara a abolio, dizia-se roubado pelo governo, espoliado em seus direitos, lesado em seu patrimnio, 
uma vez que possua muitos escravos. Contudo, havia que conformar-se. A custo Maria Jos tentava convenc-lo da inutilidade de sua atitude. Ele teimava e, como sempre 
que no conseguia fazer valer sua vontade alcanando o que queria, sentia-se mal. Sua prepotncia o sufocava, pensava a esposa, procurando socorr-lo e esclarecer-lhe 
as idias.
     Por fim concordou, contratou o Joo como capataz da fazenda e tambm sua esposa. No queria dar-lhe parte da colheita. A custo Maria Jos conseguiu estabelecer 
um acordo.
     No dia seguinte, foram-se para a fazenda. Dava pena ver o abandono, com o mato crescendo por toda parte. Maria Jos usou de pulso firme. Foi enrgica com o 
marido e ajustou alguns pees orientando o Joo sobre como conduzir-se. Trabalhou duro e, aos poucos, as coisas comearam a melhorar.
     Demerval porm, andava por toda parte, examinando tudo, criticando asperamente, exigindo o mximo dos pees. Maria Jos tentava evitar por todas as formas que 
ele interferisse na administrao da fazenda.
     -        Deixe com o Joo - dizia. - Ele sabe lidar com os empregados. Voc se desgasta e irrita os homens.
     Demerval abanava a cabea, teimoso:
     - Voc interfere nos negcios contra minha vontade. Ah! Se eu tivesse sade! Botava tudo nos eixos como antigamente. Ainda estou aqui. No permitirei que esta 
casa se desorganize. No enquanto eu viver!
     E ia ver tudo, criticar tudo, interrompendo o trabalho e dando contra-ordens, o que colocava o Joo em situao difcil.
     - Tenha pacincia, seu Joo - dizia Maria Jos tentando contemporizar. - Demerval  o patro, precisamos respeit-lo.
     - Mas ele parou a colheita do milho s para alinhar os sacos do outro lado e a tarde se foi. Temos que colher at depois de amanh para dar tempo de abrir as 
vendas antes dos concorrentes. A senhora sabe disso.
     - Sei. Pacincia. Vou tentar distra-lo hoje. Mant-lo ocupado. Assim voc poder trabalhar em paz.
     Uma das implicncias de Demerval era com os negros. No se conformava vendo-os trabalhar tendo que pag-los. Maria Jos ajustara meia dzia deles, ex-escravos 
da casa, que eram trabalhadores e lhes permitira morar nos casebres da fazenda. Ela pretendia derrubar a senzala e construir pequenas choupanas para seus empregados. 
Demerval era contra. Guardava ainda a esperana de que esses negros libertos, pressionados pela misria, voltassem a implorar ajuda e amparo para no morrerem de 
fome.
     Dar-lhes casa, trabalho, era derrubar seus sonhos de vingana. Era premi-los, depois da inaudita ofensa de terem conseguido sua liberdade.
     Havia um com o qual implicava mais do que com os outros.
O Neneu, como era chamado, negro forte e de olhos muito vivos, pele to escura que em seu rosto sobressaa o branco dos olhos e a alvura dos dentes. Beirava os vinte 
e cinco anos, fora comprado aos quinze por alto preo, pela excelente qualidade do seu fsico avantajado e de porte atltico. Trabalhador incansvel, Neneu era de 
pouca conversa e orgulhoso. No se curvava na bajulao nem se misturava com os demais. Fazia suas obrigaes e afastava-se pelo mato ou nadava no rio.
     Demerval no se conformava em pagar pelos seus servios depois de t-lo comprado mais caro do que os outros. Implicava com ele encarregando-o de pequenas tarefas 
desnecessrias, s para irrit-lo, O negro obedecia contrariado e seus olhos xispavam de quando em quando, revelando a raiva que o acometia.
     Maria Jos percebia e procurava desviar a ateno do marido, sem conseguir. Ele fazia de propsito. Tudo quanto era servicinho desagradvel em que pudesse evidenciar 
sua autoridade, Demerval mandava o Neneu.
     Agradava-lhe perceber que, apesar de contrariado, o negro obedecia a ele. Ele mandava, satisfeito por evidenciar sua supremacia.
     Foi o Bentinho que falou a Maria Jos sobre o assunto:
     -        A sinh carece tom providncia, O Neneu num  manso. Anda raivoso e descontente. Talvez seja mir mand ele embora e ajust otro.
     Maria Jos sacudiu a cabea:
     -        No  justo, O Neneu trabalha por dois e comigo sempre se mostrou atencioso.
     -        Mais o patro num gosta dele.
     -        Demerval sempre procura algum para desabafar sua irritao. Se ele se for, arranjar outro. Isso passa, voc ver.
     Mas no passou. Nos dias que se seguiram Demerval mais e mais procurava estar onde o Neneu estava, buscando pretextos para humilh-lo. Maria Jos tentava afast-lo, 
atraindo-o a outras atividades, contudo Demerval, teimosamente, continuava a perseguir o negro. Ela tentou demov-lo.
     -        Se voc no aprecia os servios do Neneu, vamos mand-lo embora. Ajustaremos outro.
     -        Esse negro me irrita. Paguei por ele alto preo e agora tenho que pagar-lhe pelos servios, alm da comida.
     -        Est decidido. Vamos despedi-lo, procurar outro.
     -        No. No antes de descontar um pouco o dinheiro que dei por ele. Vou faz-lo trabalhar at cair. Vamos mand-lo embora quando eu me considerar pago.
     -        Demerval, no  justo que o faa pagar pelas coisas que o contrariam, O Neneu no tem culpa pela lei que o favoreceu.  injusto persegui-lo dessa forma. 
Ele no  mais escravo.  um empregado e precisamos respeit-lo.
     Demerval deu um salto da cadeira, levantando-se irritado.
     -        Voc est sempre contra mim. Deixe, que dos negcios cuido eu. Sei o que estou fazendo. Ridculo! Respeitar um negro como aquele!
     -        Espero que no venha a arrepender-se dessa sua atitude.
     O        marido olhou-a com raiva. No ia ceder. E realmente no cedeu. Maria Jos, vendo suas investidas contra o negro, procurou suavizar a situao, conversando 
com o Neneu.
     -        Neneu, sei que voc anda nervoso, descontente com seu patro. Mas eu lhe peo pacincia.
     Os olhos do negro brilharam rancorosos. Maria Jos fixou-lhe o olhar srio e disse:
     -        Seu patro  homem doente. No sabe ainda compreender as coisas como so agora. Precisamos ter pacincia com ele. Eu aprecio o seu trabalho e agradeo 
sua dedicao.
     -        Sinh sabe que eu estou aqui para servir  vossa merc.
     -        Sei, Neneu. Sei que  livre e no  obrigado a suportar maus tratos e pode ir-se embora se desejar.
     -        Se a sinh quer que eu fique, eu fico.
     -        Quero que fique, mas de boa vontade. Sem raiva do patro. Que compreenda que ele  doente e muito nervoso.
     -        Sim, sinh. Eu gosto da sinh, que sempre me tratou bem. No tenho famlia. Meus pais morreram. Seu Joo  homem bom de trato. Gosto daqui, mas o patro 
no gosta de mim.
     -        Demerval anda contrariado, perdeu muito dinheiro com a libertao dos escravos. Est aborrecido. Estou falando para que tenha pacincia com ele.
     Os olhos do negro brilharam estranhamente e ele nada disse. Arrancar dele aquelas palavras j havia sido de admirar.
     Maria Jos passou a vigiar Demerval para que ele amenizasse seu trato. Era difcil, porqanto ele circulava sempre ao redor do negro, na plantao, encarregando-o 
de pequenos e desnecessrios servios para que ele se atrasasse na sua tarefa rotineira e precisasse trabalhar mais do que os outros. Neneu trincava os dentes de 
raiva, mas obedecia.
     Certa tarde, Demerval ordenou ao Neneu que limpasse o depsito de lenha ao lado da cozinha e o enchesse novamente transportando a lenha que ele deveria rachar 
caprichosamente.
     Demerval ia e vinha supervisionando o servio, criticando o negro severamente. Qual criana caprichosa, Demerval desmanchava as pilhas de lenha e o mandava 
recoloc-las novamente alinhadas como ele queria, rigorosamente certas. Em dado momento, o Neneu no se conteve e, propositadamente, deixou que uma das pilhas escorregasse 
e a lenha casse sobre os ps de Demerval que no conseguiu manter-se em p e foi ao cho vociferando enraivecido.
     Quando conseguiu levantar-se arrancou o chicote que sempre trazia ao cinto e investiu para o negro que o olhava com um brilho furioso nos olhos.
     - Negro maldito, vou ensin-lo a me respeitar! Vai ver como se castiga um bandido como voc!
     Olhos arregalados, boca crispada pelo rancor, Demerval tentou chicotear o rosto do negro que, num gesto rpido, segurou-lhe o pulso e impediu-o de consumar 
a agresso.
     Demerval, rubro de dio e pelo esforo que fazia, tentou agarrar o negro gritando sua raiva, xingando-o duramente. Vendo que no conseguia livrar os braos 
das suas mos fortes, Demerval vibrou-lhe violento pontap nos rgos genitais. Neneu ganiu de dor e num gesto firme, agarrou Demerval pelo pescoo e apertou, apertou. 
As mulheres da cozinha gritavam, o Joo correu apressado, tentando tirar o Neneu de cima de Demerval.
     - Larga, Neneu, voc mata o homem!
     Demerval parecia um boneco manejado pelos braos fortes do negro. De repente, Neneu largou e saiu correndo, sumindo no mato. Joo afrouxou as roupas de Demerval, 
tentou reanim-lo. Era tarde, porm. Demerval estava morto.
     Maria Jos, chocada com o acontecimento, mandou um portador  procura de Menelau e de Eduardo, no Rio de Janeiro. Providenciou o transporte do corpo para a 
cidade e comunicou o acontecido ao chefe de polcia. Sentia-se triste, preocupada. Arrependia-se de no haver despedido o Neneu. Agora era tarde. O negro havia sumido. 
Joo reunira os homens, procurando-o inutilmente. Foram momentos difceis para Maria Jos, entre as resolues que precisava tomar e as lgrimas dos filhos chocados 
pelo assassinato do pai.
     Contudo, ela se manteve firme; apoiada pela Zefa e pelo Bentinho, enfrentou com dignidade a situao dolorosa. J na cidade, organizou a cmara ardente na sala 
principal da casa e abriu as portas principais aos visitantes.
     Na cozinha, a Zef a providenciava cafezinho sempre novo, o ch de erva cidreira, que de tempos em tempos fazia a sinh e as crianas tomarem, os bolinhos e 
as rosquinhas para alimentar os que velariam o corpo noite a dentro.
     Mil idias passavam pela cabea agitada de Maria Jos. Apesar de tudo, estimava Demerval e lamentava seu triste fim. Por outro lado, reconhecia que o marido 
correra para aquela tragdia.
     Sua primeira providncia havia sido avisar Menelau pedindo-lhe para avisar suas irms e o sogro. No sabia quem viria para o sepultamento, mas retardaria ao 
mximo,  espera dos parentes. A distncia era grande e ela mandara o portador no olhar despesas, trocando o cavalo nas postas para no perder tempo. Ansiosa, pensava: 
iria rever Menelau?
     As horas foram passando lentas, ao som das oraes das piedosas mulheres, que ora puxavam o tero, ora entre suspiros e ais sussurravam preces, olhos tristes 
e cabeas cobertas por um vu escuro.
     Maria Jos no as conhecia bem, porm no havia velrio a que elas no comparecessem, a rezar e a chorar compungidamente pelo morto. A presena daquelas mulheres, 
rigorosamente vestidas de negro a chorar e a rezar, davam  cena aspecto lgubre e doloroso, atemorizando os filhos de Demerval, inabituados quelas cenas, tendo 
o pai no meio dos paramentos negros e roxos,  luz mortia das velas.
     Ana agarrava-se  me, Rosa, em crise, havia sido afastada da sala pela Zef a; Adalberto, plido, tambm ao lado da me, lutava contra o terror, desejoso que 
tudo acabasse o mais rpido possvel, tentando controlar-se diante dos presentes. Romualdo fora levado por uma prima de Maria Jos.
     Na copa, os presentes comentavam indignados o assassinato, revoltados diante do ocorrido, cada um colocando-se no lugar do morto, verberando a lei que havia 
libertado os escravos.
     Todos concordavam que os negros no estavam preparados para a liberdade e, por essa razo, as tragdias, os saques, os roubos, as agresses sucediam-se. A polcia 
no tinha condies de dar proteo a todos, principalmente nas fazendas ou locais afastados. Mesmo os que eram contra a escravido achavam que a maneira como ela 
fora feita havia sido errada.
     Discutiam acaloradamente e a Zefa mais de uma vez teve que pedir silncio e ateno s preces que se diziam na sala. Maria Jos parecia estar vivendo um pesadelo.
A noite se foi e o dia comeou lento e triste. Debalde a Zef a insistisse para que ela descansasse, no arredou p. S ao meio-dia concordou em ir para o quarto 
com os filhos para que estes repousassem um pouco e tomou um caldo que a Zefa lhe ofereceu.
     Estava plida e angustiada. Pobre Demerval! Que triste fim! Jamais pensara que tal pudesse acontecer. As pessoas esperavam o sepultamento. Maria Jos aguardava 
a presena dos irmos, porm ningum aparecia. O padre j tinha encomendado o corpo e havia quem j levasse o leno discretamente ao nariz como a insinuar que o 
defunto comeava a cheirar mal. Maria Jos insistia em esperar.
     O padre tentou dissuadi-la:
     - O Rio de Janeiro  muito longe! No dar tempo de chegar, ainda que seu portador tenha corrido muito.
     A noite j comeava a descer quando, finalmente, Maria Jos concordou e, por entre lgrimas e lamentaes das mulheres presentes, fecharam o caixo e o cortejo 
saiu em linda carruagem negra para o cemitrio. Tudo foi feito rapidamente para que houvesse claridade suficiente e foi preciso convencer os coveiros, que alegavam 
ter passado da hora para o enterro. Rapidamente tudo foi consumado. Demerval estava enterrado e Maria Jos, abraada aos filhos, foi para casa; s queria dormir, 
esquecer. Nenhum deles quis dormir em seus quartos. Vendo-lhes os rostos plidos e assustados, Maria Jos concordou em que ficassem as meninas com ela na cama de 
casal e os meninos no canap, que foi colocado ao lado da cama. S assim conseguiram adormecer.
     No dia seguinte, Maria Jos acordou cedo. O corpo doa-lhe como se tivesse apanhado e, ainda sonolenta, olhando as duas meninas que dormiam a seu lado, sobressaltou-se. 
Era verdade. No fora pesadelo. Demerval estava morto. Sentiu um aperto no corao. Estava viva com quatro filhos para criar. Pobres filhos. Estavam medrosos, chocados. 
Nunca haviam visto um velrio. Precisava cuidar deles, arrumar tudo para apagar os vestgios da cena dolorosa.
     Levantou-se rapidamente, lavou-se, vestiu-se e, olhando amorosamente os filhos, firmou o propsito de lutar por eles e trabalhar para fazer deles pessoas de 
bem. Haveria de conduzir os negcios com coragem e tinha a certeza de que obteria xito.
     Procurou a Zef a e teve a satisfao de verificar que na sala tudo j estava como sempre. Nada fazia lembrar a cena trgica da vspera. A negra havia providenciado 
tudo e Maria Jos endereou-lhe um olhar agradecido. A Zef a a seguia, olhos brilhantes, esperando ver a aprovao no rosto da ama.
     - Muito bem, Zefa. Graas a Deus, tudo est em ordem.
    -        Vou v o seu caf. A sinh carece de se aliment bem. Vai precis da sade, fora pra trat de tudo.
    -        No tenho fome. Tentarei comer. Voc tem razo, preciso ficar forte.
    Sentou-se  mesa, procurou comer enquanto a Zefa ia e vinha servindo a ama pessoalmente. Estava terminando seu caf quando a carruagem entrou no jardim. O Bentinho 
foi ver e, dentro em pouco, emocionado, Menelau entrou na copa.
    Maria Jos sentiu que o sangue lhe fugia das faces e suas pernas bambearam. Foi com esforo que conseguiu levantar-se. Menelau, plido, trmulo, abraou-a emocionado 
e foi a que a onda de emoo represada durante tantas horas eclodiu. Maria Jos comeou a chorar um pranto dolorido, que ela no conseguia deter. Menelau sentia 
vontade de beijar-lhe os cabelos sedosos, de acariciar-lhe as faces molhadas, de dizer-lhe que no estava s. Contudo, conteve-se. Estava ali como irmo de Demerval, 
para confortar, amparar. Seus sentimentos ntimos no deviam vir  tona.
     As emoes mais contraditrias buscavam-lhe o corao e Menelau sofria, lutando para manter a serenidade. Com voz trmula, disse, emocionado:
    -        Corri muito assim que recebi seu recado, mas s agora consegui chegar. Sequer vi Eduardo. Mandei avis-lo e parti. Como aconteceu?
    Maria Jos, aos poucos, foi se acalmando e quando conseguiu contou tudo. Finalizou:
    -        Estou consternada. Se tivesse despedido o Neneu, nada teria acontecido! Nunca pensei que a situao chegasse a esse ponto!
    -        Voc no teve culpa de nada. No deve ficar se martirizando. Foi lamentvel, mas quem poderia prever?
    -        O Joo me preveniu que o negro era nervoso, por outro lado Demerval era teimoso. Eu devia t-lo mandado embora. De certa forma, tive culpa.
    -        No diga isso. Foi um fato inesperado. No deve pensar assim. Agora,  preciso tocar a vida para frente. E as crianas, como esto?
    Havia um brilho emocionado em seu olhar. Maria Jos suspirou fundo:
    -        Assustadas. Nunca haviam visto um velrio. Ainda dormem. Esta noite quiseram ficar comigo em meu quarto.
     -        Sinh Menelau, o caf t quentinho. Vossa merc deve estar cansado e com fome.
     -         mesmo, Zefa. Venha, Menelau, sente-se e tome seu caf.
     Ele circunvagou o olhar pela copa, detendo-o na mesa bem posta e apetitosa.
     -        Tudo aqui continua igual!
     -        Por enquanto - fez Maria Jos, pensativa. - Agora, no sei como ser..
     -        Ser como sempre foi. Voc saber conduzir tudo muito bem. Tenho certeza.
     Ela olhou-o, embevecida. Menelau tinha o condo de faz-la sentir-se segura e confiante. Acreditava nela e isso fazia-lhe imenso bem.
     Depois da refeio, Maria Jos disse, com delicadeza:
     -        Se voc est cansado da viagem, vou mandar preparar seu quarto. Pode ir descansar.
     -        No. Estou ansioso por saber tudo. Estava louco de saudades de vocs. Quero ver as crianas.
     Maria Jos enrubesceu levemente.
     -        Esto dormindo.
     -        Esperaremos que acordem. Enquanto isso, poderemos conversar.
     Maria Jos conduziu-o  sala de estar e sentaram-se frente a frente. Menelau gostaria de dizer-lhe o quanto sentira sua falta, o quanto a amava e o quanto sonhara 
com aquele encontro. Porm, no ousava. A figura do irmo assassinado, infundia-lhe fundo respeito e ele no queria aproveitar-se da situao para dar vazo aos 
seus sentimentos. Era-lhe muito difcil esse controle.
     Maria Jos compreendia sua atitude e at certo ponto sentia-se grata por respeitar aquele momento difcil que atravessavam, mas, ao mesmo tempo, seu corao 
ansiava por saber se havia sido esquecida ou se ele ainda a amava como antes, se pensara nela durante esses anos todos. Havia Romualdo, estava ansiosa para apresent-lo. 
Seu corao descompassava-se, porm ela no se atrevia a perguntar.
     Conversavam sobre os negcios da famlia, quando as crianas entraram na sala. Ana e Rosa correram ao encontro do tio com os braos estendidos. Adalberto, ao 
lado, esperando para abra-lo por sua vez. S Romualdo correra para a me, abraando-a com fora.
     Menelau, comovido diante daqueles rostinhos queridos, beijara as faces das sobrinhas, abraara o sobrinho e com os olhos brilhantes fixou Romualdo, que o olhava 
curioso.
     -        Este  o Romualdo - disse, com emoo.
     -        Sim - respondeu Maria Jos, com voz trmula. V, filho, abrace o tio Menelau.
     O        menino foi, estendeu os braos e Menelau o abraou sentindo vontade de chorar. Beijou-lhe a face corada e disse-lhe, comovido:
     -        H muito desejava abra-lo.
     -        Tio Menelau - disse Ana - vai morar aqui agora que o papai se foi?
     Um lampejo de emoo passou pelos olhos de Menelau.
     -        Deus sabe que este seria meu maior desejo. Porm, no posso. Vim por alguns dias. Deverei voltar ao Rio brevemente.
     -        Ah! tio - choramingou Rosa, com ar triste. - Vamos ficar sozinhas?
     -        O que  isso? Sua me est aqui e sabe cuidar de tudo muito bem. Eu farei tudo quanto puder por vocs. Virei de vez em quando.
     -        Eu queria que o tio ficasse no lugar de papai - disse Adalberto, com seriedade.
     Maria Jos estava comovida. Menelau sentiu um n na garganta e depois de alguns segundos de reflexo respondeu:
     -        Ningum deve ocupar o lugar de seu pai. Ele os queria muito e lutou como sabia pelo futuro de vocs, pelo seu bem-estar. Vocs devem am-lo muito, 
como bons filhos que so. Eu os quero muito, talvez como se fossem meus filhos, mas sou apenas o tio. Posso ser como um segundo pai, mas no corao de vocs, o lugar 
de Demerval deve vir primeiro do que o meu.
     Maria Jos estava com lgrimas nos olhos. Era essa nobreza de sentimentos que a fazia amar Menelau. Ele prosseguiu:
     -        O pai de vocs era homem muito culto e inteligente.
     -        Mas era muito brabo - disse Ana, com ar srio.
     -        Era enrgico. Ele acreditava que ser assim era um bem. Preocupava-se com o futuro de vocs. Desejava dar-lhes boa educao, bons mestres e encaminh-los 
na vida. Devem sempre ser agradecidos a ele. Seu nome deve ser lembrado com saudades.
    Conversaram durante muito tempo. Como acontecia antigamente, os sobrinhos ouviam e acatavam as palavras do tio, abrindo-lhe seus coraes, contando-lhe seus 
anseios e esperanas.
    Romualdo, aos poucos, aproximara-se de Menelau, acabando por sentar-se em seu colo com naturalidade, ouvindo-o embevecido.
    Aquele momento foi de paz, de encantamento e de aconchego. Maria Jos sabia que ele seria breve, mas seu corao estava disposto a aproveit-lo bem, enquanto 
pudesse durar.
    Menelau, aps o almoo, retirou-se para o quarto para descansar. Seus pensamentos ainda estavam tumultuados, contudo sentia-se bem por haver conseguido controlar-se.
    A notcia da morte do irmo o apanhara de surpresa e funda tristeza invadira-lhe o corao. Apesar das divergncias, estimava-o, compreendendo-lhe as dificuldades, 
os limites. A morte trgica e dolorosa o fizera meditar longamente nos desgniOs de Deus. Qual a causa de semelhante tragdia? O que determinara semelhante prova? 
Difcil saber. Preocupava-O a famlia, os filhos.
    Se Maria Antnia fosse mais compreensiva talvez pudesse ampar-los mais de perto. Ela no estava interessada no destino dos parentes e jamais concordaria em 
aproximar-Se deles. Por outro lado, seu amor por Maria Jos era forte e avassalador. Como conviver com ela sem dar vazo ao afeto que lhe inundava o ser?
    Pensou em Romualdo. Era um belo menino. Seu filho! Sentia que o amava muito. De qualquer forma, haveria de ampara-los. Era seu dever e seu mais profundo anseio.
    Suspirou fundo. Nunca como naquela hora desejou ser livre para dedicar-se quelas crianas que to de perto falavam ao seu corao. Havia Maria Antnia, ele 
tinha o dever de ampar-la e conduzi-la na vida, procurando tir-la da fantasia, acordando seu corao para os verdadeiros valores do esprito.
    Menelau sentiu-se fraco e s. Havia aprendido a fora da orao. Decidido, elevou o pensamento a Deus e, com emoo e confiana, comeou a orar. A prece fez-lhe 
imenso bem. Acalmou-lhe os pensamentos e f-lo sentir-se mais seguro.
A vida na Terra  transitria, pensou. Os caminhos agora o afastavam do que desejava. Maria Jos, perante a famlia e os encargos que a vida lhe dera. Ele, na recuperao 
e no encaminhamento de Maria Antnia. Naquele momento, qualquer ligao amorosa com Maria Jos era impossvel. Contudo, guardava a certeza de que, se cumprissem 
seus deveres at o fim, teriam chance algum dia de pensarem na prpria felicidade.
     Enquanto isso, pensava ampar-los dominando o sentimento profundo e o desejo que sentia de entregar-se ao amor de Maria Jos.
     A lembrana daquela noite de amor que haviam vivido era constante em sua memria, acendendo-lhe no corao vivo desejo de procur-la, extravasando o sentimento 
represado.
     Por que haveria de ser assim? Por que no conseguia apagar esse amor impossvel? Esforava-se para pensar em outras coisas, nos seus deveres por Maria Antnia, 
no respeito a Demerval e continha-se, mas sentia a ferida doer no corao.
     No dia seguinte, levantou-se cedo e colocou-se  disposio de Maria Jos para examinar os papis de famlia e ajud-la nas providncias legais. Era costume 
no mexer em nada antes da missa de stimo dia, porm Menelau antecipou-se. Queria auxiliar e deixar tudo em ordem para poder retornar ao Rio.
     Entregaram-se ao trabalho com disposio e isso ajudou Maria Jos a reagir, modificando o teor de seus pensamentos abalados pela tragdia.
     Fizeram um balano da situao financeira, dos bens deixados por Demerval, um estudo dos problemas existentes nos negcios da fazenda. Menelau acatou plenamente 
as providncias que Maria Jos havia tomado na contratao de empregados e na melhoria das condies de vida dos mesmos.
     Vivendo no Rio de Janeiro, ele estava muito bem informado sobre poltica, mercado, etc. e muito a par das mudanas sociais pelas quais o Brasil passava.
     -  preciso aceitar a mudana - argumentava, convicto. - O        progresso existe. O trabalho deve ser pago. A escravido degrada e avilta. Tenho certeza de 
que a situao vai melhorar muito. Voc est certa. Podemos fazer da sua fazenda uma grande colmia de
trabalho de onde muitas famlias podero tirar o sustento e voc poder at enriquecer.
     - No sou to ambiciosa. Quero criar meus filhos, educ-los e deixar-lhes terras bem cuidadas, produtivas, para que nunca lhes falte o necessrio.
     - Por certo conseguir. Por agora, temos que esperar a missa. Depois, iremos para a fazenda e l quero ver tudo, traaremos os planos.
     Os olhos de Maria Jos marejaram.
     -        No sei o que seria de ns sem voc.
     Menelau sentiu uma onda de emoo.
     -        Farei o que puder para cooperar. Sabe que pode contar comigo.
     -        Sei. Isso me conforta e transmite segurana.
     Em seus olhos havia um brilho de adorao e Menelau deixou escapar fundo suspiro, lutando com o desejo de abra-La.
     -        H momentos na vida muito difceis de superar - disse,
pensativo. -  preciso coragem, prudncia. O dever est acima do que o corao deseja e, por mais duro que seja, necessita ser cumprido. A dignidade, o respeito 
ao sentimento que existe dentro de ns, assim o exigem.
     Maria Jos sentiu um misto de alegria e dor. Ele ainda a amava! Ao mesmo tempo, no transpunha os obstculos que os separavam. Teve vontade de chorar. Olhou 
para o rosto contrado e srio de Menelau e conteve-se. Ele sofria e no seria justo aumentar-lhe esse sofrimento. Engoliu o pranto prestes a cair e disse com suavidade:
     -        Tem razo. O dever nos ensina a lio da prudncia.
     Menelau deu outro suspiro, tomando-lhe a mo com arrebatamento.
     -        Voc sabe o que guardo no corao. Porm, a vida nos separou colocando entre ns criaturas que requisitam nossa ajuda. Falo do ponto de vista espiritual, 
que aprendi a respeitar e entender. Aceitar os desgnios de Deus  o caminho de libertao e felicidade.
     -         duro, Menelau - disse ela, apertando com fora a mo dele.
     -        Eu sei. Todavia, acredito que s poderemos conquistar a felicidade quando ela fluir para ns livremente, sem que para isto tenhamos que abandonar compromissos 
assumidos, por mais difceis que eles sejam.
     Maria Jos volveu para ele os olhos onde as lgrimas j comeavam a rolar:
     -        Meus filhos o adoram e agora eu sou livre! Seramos muito felizes em t-lo conosco para sempre.
     -        Deus sabe que essa seria minha maior alegria. No entanto, eu ainda estou comprometido com Maria Antnia. Ela precisa de mim e eu no posso abandon-la. 
No desta vez!
     Maria Jos retirou a mo que ele retinha voltando-se para esconder as lgrimas que j lhe desciam pelas faces.
     -        Voc a ama!
     -        Amo respondeu ele, com voz triste. - Amo como a uma filha que me compete amparar e conduzir, orientar e compreender. No posso esconder que a mulher 
da minha vida, meu sonho e minhas esperanas seja voc. Mas, Maria Antnia  minha esposa, a quem prometi honrar e amar. Meu corao est aqui, meu dever est l, 
ao lado dela.
     -        Lamento - tornou Maria Jos, com voz trmula.
     -        Guardemos a esperana e a certeza de que, quando merecermos a felicidade, ela vir espontaneamente ao nosso encontro. Um dia, todos os obstculos ruiro 
e ns seremos felizes!
     -        Isso  muito vago! Ns estamos aqui e precisamos um do outro.
     -        No a esse preo! No abandonando levianamente compromissos assumidos livremente e que voltaro mais tarde, com dificuldades multiplicadas.
     -        Seus sentimentos no so bastante fortes para vencer os obstculos - tornou ela, fixando-o com mgoa.
     O        rosto de Menelau contraiu-se em expresso de dor.
     -        No diga isso, no  verdade. Meus sentimentos so to grandes e to profundos que anseiam por uma felicidade eterna e verdadeira que a morte no destri. 
Maria Jos, o esprito  eterno. Temos tempo para construir nossa felicidade! Por agora, a vida nos separa. Saibamos aceitar e compreender. O que importa  que nosso 
sentimento  recproco e verdadeiro. Vamos fazer dele uma fora que nos impulsione ao bem. Deus nos ajudar!
     Ela suspirou e tentou sorrir para tranqiliz-lo.
     -        Perdoe-me, Menelau. Estou nervosa e descontrolada. Saberei conter-me e compreender.
     -        Melhor assim. Um dia, a tempestade ter passado e a felicidade nos surgir como bno de alegria e poderemos viv-la em paz.
     -        Apesar de tudo, sinto-me segura em saber que os meus sentimentos so correspondidos.
     -        Eu tambm. Nosso amor deve ser fonte inspiradora em nossas vidas, ajudando-nos no cumprimento do dever.
     -        Assim ser - respondeu ela, com seriedade.
     Nos dias que se seguiram, no voltaram ao assunto. O caso de Demerval provocara grande escndalo na provncia e os jornais noticiaram em manchetes seu assassinato. 
O quadro da viva com quatro filhos menores era motivo de revolta para os conservadores e escravocratas, considerando perigosa a liberdade dos negros. Por outro 
lado, os liberais e abolicionistas lamentavam o fato, afirmando que a explorao dos negros, vistos como animais, mantidos ignorantes e sob duros castigos, os embrutecera 
e colocara na condio de degradao em que se encontravam.
     Os primeiros clamavam pela volta da escravido, punindo com a morte os negros faltosos. Os segundos, clamavam pela educao, devolvendo quele povo sofrido 
e maltratado sua dignidade de ser humano. Todos, porm, a seu modo, interpretavam o fato lamentvel.
     Maria Jos viu-se visitada por faces diversas que a queriam consolar procurando subsdios s suas idias polticas. Queriam conhecer os fatos e os torciam 
de acordo com seus interesses. Ela contava a verdade. Se o Neneu era um negro orgulhoso e revoltado, Demerval tambm era implicante, prepotente.
     Eles, contudo, atenuavam ou acentuavam esses detalhes de acordo com seus pontos de vista. O chefe de polcia garantia que havia movimentado seus homens na captura 
do negro, sem ter ainda conseguido nenhuma pista. Ele havia sumido. Ningum o vira. Apesar disso, no desistiriam, afirmava ele. Esse negro haveria de ser preso 
e justiado como exemplo.
     Maria Jos cansara-se dessa situao. Com dificuldade suportou a missa, e o clima ostensivo de agressividade dos escravocratas revoltados com o fato, a sria 
postura dos abolicionistas chocados, porm convictos das suas idias. Ela fitava-os desconsolada. O que sabiam eles da sua dor? Sobre Demerval com seu gnio irascvel? 
Sobre o Neneu, trabalhador fiel, orgulhoso e forte? Apesar de tudo, Maria Jos no odiava o negro ignorante, embrutecido. Conhecia Demerval. Havia momentos em que 
tornava-se insuportvel e ela mesma muitas vezes o odiara. Acontecera a tragdia e ela lamentava haver subestimado essa possibilidade.
     Deu graas a Deus quando a missa acabou e puderam voltar para casa, livres dos conhecidos e parentes. Menelau providenciou tudo, fez o que pde para poup-la. 
Foi um alvio quando conseguiram desvencilhar-se de todos e cuidar dos preparativos para a viagem.
     Nessa mesma tarde, com o cunhado e os filhos, acompanhada pelo Bentinho, a Zefa e a Zita, partiu para a fazenda.

CAPTULO 16

     A carruagem rodava levando a poeira da estrada e Menelau, pensativo, no sentia o sacolejar constante nem se interessava pelas paisagens que sucediam. Seu rosto 
contrado, seu ar cansado, falavam da dor que lhe ia na alma com a separao..
     Ter que ir embora quando seu desejo era ficar. Ter de afastar-se da cunhada, das crianas era-lhe muito doloroso. Reconhecia difcil estar ao lado dela sem 
dar vazo aos sentimentos que lhe iam na alma, porm, partir representava uma dor maior e mais viva.
     Ainda sentia o calor dos bracinhos de Romualdo em torno do seu pescoo, a ternura de Rosa encostando o rostinho no seu, a delicadeza de Ana ao pedir-lhe a bno, 
beijando com respeito sua mo todas as noites e o ar srio de Adalberto, esforando-se por assumir o lugar de homem da famlia e cuidar dos seus. Amava aquelas crianas 
como se todos fossem seus filhos, e cada um, de forma particular, lhe sensibilizava o corao.
     O dever e a prudncia aconselhavam-no a partir. O rosto de Maria Jos, emotivo, seu olhar apaixonado, seu pedido mudo, no lhe saam da memria. Ele precisara 
de toda sua fora de vontade para, finalmente, retornar. Fazia um ms que Demerval se fora e ele cuidara de todas as formalidades legais, deixando tudo regularizado.
     A fazenda estava melhorando e ele acreditava que a cunhada saberia gerir seus bens com critrio e inteligncia. Se seu irmo no deixara grande fortuna, suas 
terras bem conduzidas e a casa na cidade dariam  sua famlia condies de uma vida confortvel e tranqila.
     Sua preocupao no era essa. Seu pensamento atormentado revia a cena da despedida, com as criancinhas chorando, Romualdo querendo ir junto e Maria Jos lutando 
com a emoo, abanando o leno delicado.
        - At a volta - dissera, ao estender-lhe a mo. - Que seja breve!
     Ele nada dissera. Voz embargada, beijara a mo dela com amor e afastara-se para no tom-la nos braos e esquecer tudo o mais.
     Por que havia de ser assim? Por que no podia ficar com eles agora que ela era livre?
     Uma onda de revolta o acometeu. Teve vontade de largar tudo e voltar para ficar com eles para sempre. Pensou em Maria Antnia. Por que havia de preocupar-se 
com ela, que no o amava e talvez at ficasse feliz em v-lo pelas costas?
     Sentiu um aperto no corao. Durante o tempo em que estivera fora, escrevera-lhe duas cartas, dando-lhe cincia dos acontecimentos e sequer recebera resposta.
     Suspirou fundo. Apesar de tudo, sentia-se preso a ela, sem coragem para deix-la. Maria Antnia era um esprito fraco, necessitava dele, enquanto que Maria 
Jos era mulher forte, decidida, possua filhos. Sua esposa estava s. Menelau, apesar da dor e da revolta, reconhecia que devia voltar ao lar.
     Foi cansado, empoeirado que Menelau chegou a casa. Entardecia. Maria Antnia ocupava-se em folhear descuidada um mostrurio de tapearia que pretendia encomendar 
da Europa. Vendo o marido, no se surpreendeu.
     Ele aproximou-se com delicadeza, beijando-lhe a mo.
     - Como vai?
     - Bem - respondeu ela, calma. - Finalmente voc resolveu voltar. Pensei que ficasse por l de uma vez.
     Ele no respondeu logo; olhou-a srio, depois disse:
     - Vou tomar um banho, depois conversaremos.
     Curvou-se ligeiramente e afastou-se enquanto que a esposa olhava-o pensativa. Por que ele teria voltado? Sentia que ele no a amava. Nunca observara nele aquela 
chama que ela to bem conhecia. Por que ele teimava em ficar a seu lado? Dever? Preconceito? No sabia. Deu de ombros. Pagava-lhe com a mesma moeda. No lhe tinha 
amor. Gostava da sua proteo, afinal, um marido respeitado dava-lhe importncia. Era bom, desde que ele no interferisse demais em sua vida. Ela era jovem, tinha 
o direito de amar, viver e ser feliz.
Sabia conduzir as coisas muito bem. Suas ligaes amorosas eram discretas e ningum suspeitava. O amor era maravilhoso, pensava, enquanto durasse. Em seu corao 
ele chegava e passava sem deixar marcas ou cicatrizes. No acreditava em amor eterno, sincero. Tudo era um jogo de interesses, no qual cada um procurava tirar mais 
do parceiro na sua satisfao pessoal.
     Quando Menelau voltou  sala, encontrou-a ainda no mesmo lugar e sentou-se ao seu lado, no sof.
        - Como esto as coisas por aqui? - indagou atencioso.
     -        Muito bem. Tudo em seus devidos lugares.
     -        E voc?
     -        Estou bem.
     Ele olhou-a, dizendo em tom carinhoso:
     -        Agora que estou de volta, desejo ser mais atencioso com voc. Tenho me ausentado muito.  meu desejo arranjar os negcios de modo que possa dispor 
de mais tempo para acompanh-la, fazer companhia.
     Maria Antnia fitou-o, um pouco preocupada.
     -        No se incomode. Tenho Adelaide,  suficiente. Voc no aprecia meus passeios. Somos diferentes. Adoro vida social, saraus, festas, danas. Voc foge 
de tudo isso. Para mim est bem como est.
     Ele no se deu por achado:
     -        Gostaria que tentasse tambm conhecer minhas preferncias. Talvez aprendesse a apreci-las.
     -        No sou dada a assistir concertos nem a apreciar a natureza. Fico triste, deprimida. S estou bem no bulcio dos sales.
     -        O que proponho  nos conhecermos melhor. Melhorar nossa convivncia, j que somos casados.
     -        Tudo est bem, desde que me deixe viver a meu modo. De minha parte tambm no interferirei em suas preferncias. Para que mais?
     Menelau tomou a mo dela dizendo, atencioso:
     -        Maria Antnia! Gostaria que conhecesse um pouco mais da vida, do mundo. No dessa vida social de aturdimento que a afasta da realidade, que jamais 
d felicidade e alegria ao corao. Falo da verdadeira vida, que alimenta o esprito, acordando-o para os valores reais e eternos. Gostaria que voc conhecesse esse 
lado, que eu j percebi.
     Ela olhou-o admirada. Menelau nunca lhe falara assim. Assustada, retirou a mo que ele segurava.
     -        Estou bem como sou. No quero ver a realidade. Ela triste e dolorosa, prefiro no encontr-la. Sou jovem, tenho tempo. Quero aproveitar a vida sem 
pensar em coisas srias.
     - O tempo passa, Maria Antnia, e um dia voc ter a verdade face a face.  inevitvel. Por que no busc-la j, encar-la de frente, aprender?
     - No falemos de coisas tristes. No quero envolver-me com esses assuntos. Ajude-me a escolher essas tapearias que vou encomendar.
     - Muito bem - respondeu ele, com suavidade - no desejo for-la. Quando sentir vontade de falar sobre isso, estarei disposto, esperando.
     Ela riu displicente, como querendo espantar as idias desagradveis.
     - No ser to cedo, pode crer.
     Menelau sentiu-se preocupado. Que recursos a vida usaria para faz-la enxergar? No insistiu. Pacientemente ajudou-a a escolher a tapearia. Pretendia aproximar-se 
dela e, para isso, necessitava compreend-la.
     Maria Antnia observava-o admirada. Menelau mudara. Isso deixava-a em guarda. Se no a amava, que interesse teria? At que ponto poderia confiar? Talvez ele 
tambm valorizasse as aparncias. Nesse ponto concordava, mas para isso no precisava fingir, estavam sozinhos. Em todo caso, melhor t-lo como amigo interessado 
em aceitar suas idias do que uma separao ou desentendimentos que a aborreciam. Se ele se mantivesse no papel de marido, socialmente, ela seria feliz. Nada mais 
desejava dele alm de discrio e aparncia.
     Menelau tentou, pacientemente, interessar-se pelos seus assuntos, o que lhe era difcil. Maria Antnia dava-lhe as novidades da corte, os mexericos, as intrigas, 
os boatos e ele ouvia sem entusiasmo, procurando no mostrar irritao pela leviandade com que ela discorria sobre os problemas alheios, maliciosamente, prendendo-se 
a futilidades.
     Olhando-a, percebia que ia ser difcil faz-la entender, despertar para a realidade; estava disposto a tentar. Deus o ajudaria. Sentia brotar no corao um 
sentimento de piedade, de proteo. Maria Antnia era como uma criana que ele deveria ajudar a crescer.

* * *
     
     A tarde ia em meio e o sol filtrava-se pelas grades da varanda formando desenhos no piso vermelho. Maria Jos, sentada em uma cadeira, perdida em seus pensamentos 
nem prestava ateno ao alarido das crianas que brincavam ruidosas no terreiro da fazenda. Sentia-se particularmente triste nesse dia.
     Fazia dois anos que Demerval morrera e ela sentia-se muito s. Os negcios da fazenda iam bem, mas ela amargava a viuvez. H muito que no amava Demerval, mas 
sentia amizade por ele e at um certo sentimento maternal. O que a entristecia era o amor de Menelau. Sofria sua ausncia.
     Talvez ele no a amasse como dizia, pensava angustiada. Nesses momentos a revolta sobrevinha. No seu entender, se ele a amasse de verdade, deixaria Maria Antnia 
e passaria a viver com ela. Estava livre agora e ele no possua filhos com a esposa. Romualdo precisava de pai. Os outros o amavam mais do que a Demerval. Era toda 
uma famlia que o amava, precisava dele. Por que ele no vinha?
     Sentia-se infeliz, no pde evitar as lgrimas. Essa separao
no era justa, nem a atitude de Menelau. Por certo, ele no deixara
a esposa porque a amava! Sim, era isso. Ele amava Maria Antnia
e era essa a razo que o retinha ao lado dela.
     Sentiu um aperto no corao. Deveria esquecer. No pensar nele. Porm, no conseguia. A recordao dos seus beijos perseguia-a e sonhava que ele regressaria 
para reviver aqueles momentos.
     Ele no vinha e ela, amargurada, sentia-se esquecida e s. Se Demerval estivesse vivo, pensou ela, haveria pelo menos a desculpa do amor impossvel. Mas ele 
estava morto e ela via-se forada a reconhecer que Menelau no a amava.
     Fechou os olhos agoniada, peito cheio de inquietao. No percebeu que, naquele momento, um vulto chegou, entrou na varanda, olhando-a admirado.
     Estava com as vestes rotas, olhos arregalados, cabelos em desalinho, pescoo inchado e cheio de manchas escuras que espalhavam-se sobre o peito que ele procurava 
resguardar e esconder, puxando de quando em vez os pedaos da camisa sobre elas.
     - Enfim em casa! - pensou ele, comovido. Estava de volta, poderia tratar-se, melhorar. Depois, a vingana! Haveria de pegar aquele negro insolente e dar-lhe 
o merecido castigo.
A esse pensamento enorme fraqueza o acometeu e ele procurou escorar-se para no cair. Toda vez que pensava no Neneu sentia-se mal. Era de raiva, acreditava ele. 
Tentou acalmar-se. Estava atordoado, sofrido. De h muito procurava a casa sem conseguir encontr-la. Lembrava-se da briga com o negro, do desmaio. Acordara em um 
lugar estranho e escuro. O dio ainda estava em seu corao. Seu primeiro pensamento foi de raiva. Onde estava o Neneu? Queria castig-lo. Coloc-lo no tronco e 
deix-lo morrer  mngua. Sentia-se tonto, muito fraco, mas a raiva o alimentava. Desejava pegar o negro. Uma mo pousou em seu brao e ele parou.
     -        Quem me pega? - disse, com voz fraca.
     -        Um amigo. Voc precisa de socorro mdico, est ferido. Deixe esses pensamentos de vingana que o enfraquecem e envenenam. Venha. Vamos em busca de 
socorro.
     -        Desejo ir para casa - disse ele, determinado. - Preciso pegar o Neneu. Ele me paga, aquele maldito!
     -        No faa isso. Vai ficar pior. Deixe que a vida se encarregar de dar-lhe a lio adequada. Deus no falha.
     -        No creio. Deus est longe e o Neneu vai pagar. Servir de exemplo para todos!
     -        Deixe-o em paz, vamos embora. Voc est doente, precisa tratar-se!
     Demerval arrancou o brao violentamente da mo que o segurava.
     -        Deixe-me em paz. Vou para casa! L, ficarei bom. Maria Jos cuidar de mim.
     -        Venha comigo - pediu ainda aquela voz, que ele no conseguia identificar.
     Demerval reagiu com violncia e afastou-se raivoso. Queria ir para casa e iria. Parecia estar vivendo um pesadelo, no conseguia chegar. Sentia frio, fome, 
sede, perambulava por lugares desconhecidos e escuros, dormia no cho duro, sentindo doer o pescoo e o peito.
     Algumas vezes, sentia saudades da mulher, dos filhos e chorava. Nesses momentos conseguia certo alvio, mas logo o dio o acometia e ele pensava no Neneu, continuando 
a procur-lo sem xito.
     Naquela tarde, finalmente, conseguira ver a luz do sol e encontrar a casa da fazenda. Demerval havia se transformado em um mendigo, roubando um pouco de comida 
quando a fome ficava insuportvel e a sede o atormentava. Para isso, abraava as pessoas que estavam comendo e saboreava suas energias com satisfao. Para ele era 
sempre noite e, buscando encontrar o Neneu, pensando nele obstinadamente, via-se normalmente no meio dos negros. Era atravs deles que saciava a fome e a sede. Agora 
seus sofrimentos teriam fim. Estava de volta ao lar. 
     Viu Maria Jos e emocionou-se. Abraou-a com fora enquanto dizia:
     - Maria Jos, sou eu! Estou de volta.
     Ela estremeceu e sentiu um arrepio desagradvel pelo corpo.
     - No estou bem - pensou, com tristeza. - Esta solido  dolorosa!
     - Eu estou aqui - disse ele, com alegria. - Voltei, voc no est mais s.
     Ela parecia no ouvi-lo e Demerval inquietou-se. Por que ela no respondia?
     - Se ao menos Menelau viesse - pensava ela.
     - Por que chama por meu irmo? Eu estou aqui. Voltei!
     Ele a abraava tentando chamar sua ateno, mas ela no o sentia. Demerval apavorou-se. O que estava acontecendo? Por que ela no o ouvia? Foi em vo que ele 
tentou. Cansado, postou-se ao lado dela, sem entender o que se passava. Olhou para ela e viu que chorava. Por qu? Tentou perceber o que ela sentia.  solido, pensou 
comovido, sente falta de mim. Mas, eu estou aqui! Por que ela no responde? Esforou-se para perceber novamente o que ela sentia.
     -  injusto - pensava ela. - Se Demerval morreu, eu estou livre. Tenho direito a felicidade!
     Ele agarrou-a, assustado.
     - Eu no morri! Estou vivo. Olhe para mim. Estou doente, mas estou vivo! Voltei.
     Ela porm no o ouvia. Demerval sentiu-se desesperado. O que fazer para que ela o notasse? Olhou e viu as crianas brincando no ptio, foi at elas e procurou 
conversar, mais uma vez nada conseguiu.
     S podia ser um pesadelo. Apalpava-se e sentia a rigidez do seu corpo, a dor na garganta e no pescoo, a fome, a sede. Ele estava vivo!
     Voltou ao lado de Maria Jos. Precisava descobrir o que estava acontecendo. Colou-se a ela, que sentiu sua inquietao aumentar. Um forte mal-estar a acometeu. 
Sentia a cabea rodar e uma enorme fraqueza.
     - Preciso alimentar-me melhor. Hoje mal toquei nos alimentos - pensou.
     Procurou levantar-se, apesar da tontura. Dominou-a e entrou em casa.
     -        Zefa, quero um lanche. No me sinto bem.
     -        A sinh t branca. Precisa de se aliment.
     -         isso.
     Num instante a negra colocou a mesa com caf, leite, bolinhos de fub. Maria Jos sentou-se, serviu-se e comeou a comer.
     -        No tem broa de milho? - indagou, sria.
     A negra olhou-a admirada.
     -        Tem. Mas a sinh num gosta delas!
     -        Quem disse isso? Estes bolinhos esto sem gosto. V buscar as broas.
     A Zefa estranhou, mas foi a cozinha e voltou com algumas broinhas no prato que colocou sobre a mesa.
     Maria Jos pegou uma, cheirou-a dizendo:
     -        Est murcha, mas pacincia. Quando vocs vo aprender a fazer uma broa decente?
     A Zefa olhou-a, assustada. Por um instante pensou ver Demerval  mesa. Era assim que ele fazia quando ela o servia. Ele cheirava, apertava a broa e nunca estava 
do seu gosto, mas comia sempre grande nmero delas. Maria Jos comeu trs, bebeu caf sem leite, depois disse sria:
     -        Vou descansr um pouco. Uma meia hora. No deixe as crianas me acordarem.
     Levantou-se e saiu. A Zef a ficou preocupada. Maria Jos nunca dormia de dia. Talvez fosse s impresso. Estaria doente? Ela estava plida. No tomou leite 
nem comeu bolinhos de fub. Ela gostava de leite no qual s pingava o caf e dos bolinhos. Havia tomado caf puro e com broinhas. Que estranho! Quem gostava disso 
era Demerval. Bobagem, pensou ela. Foi s impresso. Isso passa.
     Mas no passou. A partir daquele dia, Maria Jos foi mudando de atitudes. Andava nervosa, sentia dores de garganta, dores no peito, irritava-se com facilidade, 
reclamava da comida, de tudo. Ela percebia que no estava em seu natural e lutava para dominar-se, o que nem sempre conseguia.
     Os pratos de sua predileo pareciam-lhe sem gosto. Sentia vontade de comer outras coisas, que solicitava da cozinha para espanto da Zef a, que conhecia bem 
as preferncias da sinh.
     -        No sei o que se passa comigo - pensava ela. A solido, a tristeza, seriam a causa de tudo?
     Uma noite deitou-se, pensativa. Nunca se sentiu to triste. Demerval a seu lado, vendo-a despir-se e colocar a camisola para dormir, ficou emocionado. Ela era 
linda e ele seu marido. Decidiu. Naquela noite ela teria tantas carcias que haveria de v-lo, sentir seu amor, seu desejo. Estendeu-se no leito, ao lado dela e 
abraou-a com fora, acariciando-a, colando seus lbios aos dela.
     Maria Jos, de repente, sentiu um calor envolver-lhe o corpo e um desejo muito grande de amor. Seu sangue latejava e ela sentia-se desfalecer de desejo. Demerval, 
entusiasmado de paixo, colava-se a ela envolvendo-a mais, numa troca de energias alucinante. Ela sentiu-se amada, beijada, abraada, como se estivesse ali algum 
de carne e osso, vivendo o momento de amor.
     Quando tudo serenou, Demerval, estendido ao lado dela no Leito, estava mais calmo. Aquela troca de energias o deixara relaxado. Maria Jos, porm, sentia-se 
assustada, preocupada.
     O        que teria acontecido? Teria sido uma fantasia de sua parte? Ela seria to escrava do desejo de sexo que a viuvez a estaria atormentando? Aquela experincia 
no a deixara bem. Sentia-se fraca, inquieta, envergonhada. Era uma mulher venal e desequilibrada. Ficou arrasada.
     Foi em vo que Demerval a abraou e explicou que nada havia de errado. Eles eram casados e podiam manter relaes sexuais. Ela, contudo, no aceitava aquela 
experincia como natural. Sentir desejos sexuais era para ela imprprio de uma mulher de boa moral. Assustada, preocupada, no contou a ningum seu segredo.
     Demerval, no entanto, apesar de no ser percebido, comeava a sentir-se  vontade na casa. Tinha tudo quanto precisava. Comia, bebia, dava ordens, atravs de 
Maria Jos e quando desejava mantinha relaes com ela. Maria Jos no queria, jurava para si mesma que no permitiria acontecer, mas a sensao vinha to de repente, 
to forte, to real, que ela na hora, envolvida e sentindo tambm a fora do desejo, entregava-se  experincia at com prazer. Quando tudo passava, o horror, a 
vergonha, a autocrtica, a sensao de culpa.
     Desta forma Maria Jos transformou-se radicalmente. Engordou um pouco porque comia mais do que antes, mas empalideceu, seus olhos tinham um brilho diferente. 
Estava alheia aos filhos, no resolvia mais os negcios e tudo comeou a ir mal.
     A Zefa e o Bentinho procuraram ajud-la.
       -  o sinh Demerval que tomou ela - disse o negro, preocupado.
     -        Oc num sabe afast ele?
     -        Tenho feito minhas reza, mais ela tambm se agarra nele. Fica difcil.
     -        Num  verdade. A sinh num gostava dele. Cruz credo. Num havia de quer ele perto.
     Foram falar com ela. Maria Jos ouviu-os surpreendida.
     -         ele sinh - disse o Bentinho. - Voltou pra casa.
     Maria Jos franziu o cenho, pensativa.
     -        Como pode? Demerval morreu.
     -        A sinh sabe que os esprito vem. Sinhozinho voltou pra casa. Num sabe que t morto.
     Maria Jos arrepiou-se:
     -        Como sabe?
     -        Ele t a do lado da sinh.  preciso fal cum ele, explic pra ele que agora  do outro mundo.
     Demerval, ouvindo Bentinho, irritou-se: ele no estava morto! No acreditava nisso. Estava bem vivo. Era muito atrevimento do negro dizer isso. Abraou Maria 
Jos e disse com raiva:
     -        No acredito nisso. Se eu estivesse morto, no estaria aqui.
     Maria Jos disse quase ao mesmo tempo:
     -        No acredito nisso. Quem morre no volta!
     -        Sinh - tornou a Zefa, preocupada. - Vosmic mudou muito. T nervosa implicante, come coisas que o sinhozinho gostava, fala como ele. Num t bem. O 
Bentinho viu que o esprito do sinh Demerval t aqui.
     Demerval, agarrado a Maria Jos, disse-lhe ao ouvido:
     -        Bobagens! Coisas de negros. No acredite.
     -        No acredito, Zef a. Vocs com estas bobagens querem me amedrontar. Deixem-me em paz.
     A Zefa no se conformou. Pelo contrrio, ficou mais preocupada.
     -        Oc precisa faz alguma coisa - disse ao Bentinho.
     -        Vamo rez. V tent fal cum o esprito dele.
     Foi em vo que o Bentinho tentou. Demerval no queria ouvi-lo. O negro, em preces, o evocava. Apesar de perceber o chamado, ele no o atendia. No queria ir. 
Tudo estava bem como estava.
        Ele no vem - disse o Bentinho. - Zef a, precisamo faz alguma coisa antes que seja tarde.
        A sinh t enfeitiada. Cruz credo, at fala como se fosse ele!
     -        Necessito de ajuda. Vamos cham sinh Eduardo. Ele pode nos ajud.
     -        Isso mesmo. S que ele vai demor, t to longe!
     -        As coisas vo mal. Eu mesmo v procur ele.
     -        T bom. Eu d um jeito aqui se a sinh perguntar de oc.
     No dia seguinte, muito cedo, o Bentinho partiu. O negro amava muito sua sinh. Queria ajud-la. Empoeirado, cansado, chegou ao Rio de Janeiro dois dias depois. 
De indagao em indagao, chegou  casa de Eduardo na tarde do terceiro dia. Vendo-o, Eduardo assustou-se. O Bentinho era para ele o homem de confiana de Maria 
Jos.
     -        Bentinho! O que aconteceu?
     -        Vim busc ajuda, sinh Eduardo.
     Fazendo-o entrar, Eduardo inteirou-se das novidades.
     -        Eu tentei convers cum ele, sinhozinho, mas no consegui. Mandei meus amigos, espritos que sempre me ajudam, fal cum ele, mas no conseguiram nada. 
Ele num qu entend que t morto e fica agarrado na sinh. Faz pena! Ela num tem gosto de faz nada! Nem cuida dos negcio, nem brinca com as criana. T diferente. 
Vim ped socorro a vosmec.
     Eduardo ficou pensativo, depois disse:
     -        Vou tomar algumas providncias e irei at l com voc. Juntos veremos o que fazer. Por agora, voc precisa comer, descansar.
     -        Quero volt o mais depressa que pud - respondeu ele, srio.
     -        Voc volta comigo. Amanh dou um arranjo nos meus negcios e depois de amanh partiremos de madrugada.
     Chamando uma criada, Eduardo mandou que hospedasse o Bentinho, cuidando do seu conforto.  noite, foi com ele  casa de Menelau. Vendo-os, ele assustou-se.
     -        O que aconteceu? - indagou ao Bentinho.
     -        Calma - respondeu Eduardo - precisamos conversar.
     Menelau convidou-os a entrar ante os olhos curiosos e desaprovadores de Maria Antnia vendo o negro de aparncia humilde entrar pela sala como uma visita. Olhou 
irritada para Menelau e mal respondeu  saudao respeitosa de Eduardo.
     -        Vamos ao meu gabinete - props ele, preocupado.
     Uma vez l, o Bentinho relatou o que estava acontecendo. Menelau afligiu-se:
     -        O que faremos? - perguntou a Eduardo.         
     -        Vou at l. Parto depois de amanh de madrugada. Tentarei esclarecer Demerval.
     -        Eu j tentei, ele num atende - tornou o Bentinho.
     -        Ele  teimoso e determinado. Quando quer uma coisa, no cede - recordou Menelau.
     -        Ter que ceder.  para seu prprio bem. Esto vivendo uma situao irregular. Deus nos ajudar. Devemos confiar - respondeu Eduardo, firme.
     -        Gostaria de ir com vocs - props Menelau, com voz triste.
     -        Seria bom. Maria Jos no tem se interessado pelos negcios da fazenda, tudo l vai mal - respondeu Eduardo.
     -        Verei o que posso fazer. Vocs partem depois de amanh. Precisarei de mais alguns dias, irei depois, assim que puder.
     -        Est certo.
     -        Gostaria que no sasse de l antes de eu chegar. Pode fazer isso?
     -        Posso - prometeu Eduardo.
     -        Dois ou trs dias  do que preciso. Estarei l o quanto antes.
     Despediram-se. No dia imediato Eduardo preparou o que precisava e, conforme havia previsto, partiram de madrugada, no dia combinado. No trajeto, o Bentinho 
pediu:
     -        Por fav, sinh Eduardo, a sinh num sabe que eu fui cham o sinh. Vai zang comigo se soub.
     -        Ela no percebeu sua ausncia?
     -        A Zefa ia cuid disso. Acho que ela num sabe.
     -        Nesse caso, no falo nada.
     -        Obrigado sinh. Nis tamo quase chegando. Eu v na frente pra v como esto as coisa. Espero o sinh na porteira da entrada. Deus lhe pague por tudo.
     -        V, Bentinho. Deus o acompanhe.
     Eduardo olhou o negro afastar-se com emoo. O afeto do Bentinho pela sinh era comovedor. Maria Jos conquistara aquele corao para sempre.
     O        Bentinho entrou de manso sem ser visto. Procurou a Zef a que, vendo-o, disse com certa euforia:
     -        Graas a Deus que volt. E sinh Eduardo?
     -        T no caminho, chegando.
-        Oc contou tudo?
     -        Contei. Ele vem disposto a ajud.
     -        Graas a Deus!
     -        E a sinh?
     -        Na mesma. Eu disse que oc tava doente. Ela nem se interessou.
     -        T bem. Ele num vai diz que eu fui at l. A sinh num vai sab. Agora v na portera. Sinh Eduardo deve de t chegando.
     Maria Jos estava na varanda quando Eduardo chegou. Agradavelmente surpreendida, foi abra-lo.
     -        Sr. Eduardo! Que surpresa!
     -        Como vai dona Maria Jos?
     -        Triste, senhor Eduardo. Muito s.
     Eduardo beijou a mo de Maria Jos com delicadeza.
     -        E as crianas, como esto?
     -        Bem. Vamos entrar. Deve estar cansado da viagem, talvez deseje descansar.
     -        Viemos com calma. Sinto-me bem. Preferia conversar um pouco.
     -        Conversaremos enquanto a Zefa cuida da bagagem.
     Instalados na sala, Eduardo observava Maria Jos. Ela estava um pouco diferente. Mais inquieta, embora aparentasse calma, no conseguia ficar parada durante 
muito tempo. Parecia no aprofundar-se muito nas coisas.
     Eduardo olhou-a nos olhos quando perguntou:
     -        A senhora est bem, dona Maria Jos?
     -        Estou.
     -        Parece-me um tanto inquieta.
     -        Impresso sua. Tenho vivido muito s. A tristeza tem me acompanhado. Perdi o gosto de viver!
     -        A senhora tem seus filhos, sua casa,  uma mulher feliz!
     Maria Jos sacudiu a cabea.
     -        No. No sou. Vivo s e amargurada. No sinto vontade de viver!
     -        No diga isso - respondeu Eduardo, com energia. - A senhora sempre foi mulher de coragem. Enfrentou problemas graves, ajudou seu marido a superar grandes 
dificuldades. No vai desistir agora. Seus filhos precisam da senhora e muito.
     Um lampejo de emoo passou pelos olhos de Maria Jos.
     -        Tenho pena deles. Pelo que vo sofrer neste mundo.
     Eduardo tornou com voz firme:
     -        Dona Maria Jos que eu conheci nunca foi covarde! Era valente, corajosa!
     - O senhor me ofende.
     - No tenho inteno.  preciso acordar, dona Maria Jos.  preciso reagir. No pode entregar-se ao desnimo.
     Maria Jos olhou-o com certo rancor:
     - Se veio para ofender-me, no precisava. Nesta casa eu mando e todos obedecem. Eu sou a dona! Fao o que quero. No adianta insistir. Aqui, mando eu!
     Eduardo fitou-a, penalizado:
     - Naturalmente - disse, calmo.
     Maria Jos acalmou-se tambm.
     - Quando se est s e todos esto contra ns,  preciso no facilitar.
     Eduardo buscou contornar a situao:
     - Ningum est s. Tem seus filhos, tem servos fiis que a estimam, tem amigos e tem Deus, que jamais abandona ningum.
     Ela fez um gesto evasivo.
     - Parece. Essa  uma teoria que os outros pensam porque no sabem o que  solido. A tristeza de no ter ningum e sentir que todos esto contra ns, querendo 
levar-nos para longe, sem importar-se com nossos sentimentos.
     Eduardo compreendeu que o Bentinho tinha razo. Quem seno Demerval podia estar dizendo aquelas palavras?
     Percebia que seu esprito estava ali, sofrido, assustado, porm instalado sem vontade de sair. Deveria ser cauteloso. Ele dominava Maria Jos, que no se dava 
conta da situao. Estava fascinada. Sentia todas as emoes do marido e acreditava que fossem dela.
     Maria Jos era mulher forte. Conhecia a interferncia dos espritos desencarnados. Sabia que era mdium. Ele explicara a ela essa sensibilidade que era uma 
condio de sua personalidade. Ela compreendera. Os acontecimentos que haviam vivido juntos representavam evidncias, fatos mais do que suficientes para faz-la 
compreender a verdade.
     Por que Demerval conseguira envolv-la, domin-la daquela forma?
     Esse era o ponto que ele precisava descobrir. Sabia que havia um ponto fraco em Maria Jos que permitira o domnio de Demerval, sem o qual ele, por certo, no 
teria conseguido.
     Tentou conversar com ela sobre outros assuntos, mas ela no dava muita chance. Estava pessimista, desanimada, triste e at descrente.
      noite, Eduardo convidou:
     -        Vamos nos reunir para uma prece em benefcio desta casa. Vamos orar por Demerval. O Bentinho e a Zefa estaro conosco como antigamente.
     Maria Jos abanou a cabea:
     -        No vou participar. Sinto-me cansada, com sono. O senhor chegou hoje, est cansado. Deixe para outro dia.
     -        Estou muito bem - respondeu Eduardo. - Muito feliz por estar aqui. Fao questo de fazer uma prece de agradecimento, junto com o Bentinho e a Zef a. 
Fique conosco, no vai demorar.
     -        No posso. Fica para outro dia. Estou com muito sono -tornou ela, inquieta. - Vou retirar-me. Espero que tenha uma boa noite.
     E antes que Eduardo respondesse, ela afastou-se rapidamente. Mesmo assim, Eduardo reuniu-se com Bentinho e a Zefa para orar.
     -        Voc tinha razo - disse Eduardo, preocupado. - Demerval est com ela.
     -        Ela num qu nem rez - disse a Zef a.
     -         verdade. Mas ns vamos rezar. Precisamos de socorro.
     -        Tenho tentado convenc ele de deix a sinh - tornou o Bentinho - mas ele num atende. O pior  que ela tambm chama quando ele se afasta um pouco. 
 por isso que num consigo nada.
     -        Sinh Eduardo, num acredito nisso. A sinh num se dava bem com sinh Demerval. Como pode quer segur ele, quer que ele fique perto, agora que t 
morto? - indagou a Zef a, inconformada.
     -        Ela no faz isso consciente. Isto , ela no percebe que est se agarrando a ele. Necessitamos formar um ambiente favorvel onde os bons espritos 
possam atuar com as providncias de ajuda. Vamos confiar em Deus.
     Os trs sentaram-se na sala e Eduardo murmurou sentida prece pedindo por aquelas pessoas, por aquele lar e pelos espritos sofredores. Quando terminou, sentiam-se 
melhor, mais calmos, e o Bentinho esclareceu:
     -        Meu santo me disse que devemos confiar em Deus.  pra faz orao todas as noite, nesta mesma hora e convid a sinh toda vez. Se ela num aceit, pra 
no insist. Nis fazemo as oraes como hoje. Eles to do nosso lado e haveremos de venc.
     -        A sinh vai fic boa? - indagou a Zef a, agoniada.
     -        Se ele pediu para confiar  porque esto trabalhando -esclareceu Eduardo. - Vamos aguardar. Estamos sendo assistidos pelos bons espritos, que faro 
o melhor.
     -        Deus vai ajud minha sinh - disse a Zefa, com emoo.
     -        E tambm o senhor Demerval, que  o mais necessitado.
     A negra fez um muxoxo:
     -        Ele pode bem  atorment em outro lug. J num chega o que fez a vida inteira? Atorment a sinh, os filhos, os negro, at d no que deu. O que acunteceu 
foi culpa dele. Num tinha o direito de vir aqui preturb a sinh.
     Eduardo olhou-a, srio.
     -        Se quer ajudar dona Maria Jos, precisa ajudar Demerval. Todos cometemos erros neste mundo e no vamos julgar os atos dele. Est pagando caro pelos 
seus enganos. Se quer ajudar, expulse o ressentimento do seu corao.  preciso no s perdoar Demerval como olh-lo como um ser humano, procurando envolv-lo com 
bons pensamentos. Nossos pensamentos so como chicotes atirados sobre ele. Se forem duros vo revolt-lo ainda mais. Se forem amenos, compreensivos, amigos podero 
ajud-lo a entender a verdade.
     A Zefa sentiu medo. No gostava de Demerval e era comum pensar nele com raiva e ressentimento, tomando as dores de Maria Jos.
     -        Quando eu penso nele, ele sabe? - perguntou, arregalando os olhos.
     -        Ele sente, percebe sua mgoa. Sente-se atacado e reage.
     -        Mas eu num ataco ele. S num acho justo ele atorment a sinh!
     -        Compreendo o que voc sente, porm, deve deixar de lado esse ressentimento. Ele precisa de compreenso e de paz. Voc deve orar por ele com respeito, 
j que no pode ser com amor. O importante  no julgar. Cada pensamento de raiva ou de ressentimento, agride seu objetivo rudemente. Apenas agrava o problema, jamais 
soluciona.
     -         difcil pens bem dele depois do que t fazendo a minha sinh.
     -         preciso - insistiu Eduardo, firme. - Para ajudar precisamos sempre deixar de lado as crticas, as mgoas e evitar de tomar partido. Apesar de dona 
Maria Jos estar aparentemente sendo a vtima, no devemos nos esquecer que, se ele permanece junto dela e se Deus permitiu,  porque h uma ligao entre eles que 
no podemos ainda compreender.
     Por isso a melhor forma de ajuda sempre ser a de evitar o julgamento, pensar apenas no bem, manter pensamentos otimistas e desejar que ambos sejam beneficiados.
       Voc precisa esquecer as queixas que tem do sinh Demerval e orar por ele com respeito e sinceridade.
    A negra abanou a cabea, preocupada.
    Num vai s fcil!
    -         preciso. Sem isso vai ser mais difcil acalm-Lo.  necessrio fazer com que ele no nos veja como inimigos interessados em escorra-lo da casa que 
acredita ser a sua.
    -        Mas ele morreu! As almas devem  pro seu lug, num fic perburbando os vivo.
    -        Ele deve compreender isso. No adianta afast-Lo pela fora, e mesmo que nossos amigos espirituais o fizessem, o que no lhes seria difcil, ele continuaria 
revoltado ainda mais. Acreditar-se-ia lesado em seus direitos e atingiria dona Maria Jos mesmo  distancia, com seus pensamentos de rancor. Tudo ser diferente 
se ele compreender a verdade, se perceber e aceitar as mudanas que ocorreram em sua vida, se, ao invs de sentir-se rejeitado, indesejado, souber que  respeitado 
e s no pode ficar aqui porque a vida o chamou para outro campo de ao. Que no houve nenhuma "injustia" com o que lhe aconteceu. Tudo tem uma causa justa, por 
mais dolorosa que seja a situao. Que ele desista da vingana e deixe o Neneu ajustar contas com as leis divinas porque s elas sabem dar o que  devido a cada 
um.  isso que precisamos mostrar-lhe. Quando entender e aceitar, tudo estar definitivamente resolvido.
    A Zefa abanou a cabea, com tristeza:
    -        Ele num vai aceit isso, sinh Eduardo. Era teimoso. Quando queria uma coisa, num havia quem tirasse da sua cabea.
    -        Agora  diferente. No podemos esquecer que Demerval tem sofrido muito. Com a ajuda de Deus, conseguiremos convenc-lo. Para isso  preciso orar por 
ele com sinceridade e boa vontade. Voc dever esquecer as mgoas e compreender. Como desejar que ele entenda sem que ns, que nos julgamos mais esclarecidos, demos 
o exemplo? Como exigir dele o que ns ainda no fazemos?
    A negra baixou a cabea, pensativa. Sempre alimentara averso contra Demerval. Por amor a sua sinh, colocava nele a culpa de tudo quanto ocorria de ruim, e 
agora sentia o quanto lhe era difcil reformular suas idias. Tentou orar por Demerval com mais tolerncia, mas ao recordar sua figura, brotava em seu ntimo forte 
sentimento de rancor. Suspirou fundo e em seus olhos brilhavam algumas lgrimas, quando disse:
     -        Ah! Sinh Eduardo! Num consigo. Quando me alembro do sinh Demerval me sobe uma coisa no peito, uma raiva.
     Eduardo olhou-a com bondade; porm, sua voz estava firme ao dizer:
     -        Por isso mesmo voc no deve julgar Demerval. Como exige que ele abandone seu lar, sua esposa, seus filhos e parta sozinho, deixe os bens, tudo e aceite 
a nova vida, perdoe quem lhe tirou tudo isso, se voc no consegue sequer esquecer seus ressentimentos por coisas muito menores que julga ter contra ele?
     A negra lutava contra as lgrimas, acabrunhada.
     -        Eu s uma negra ignorante, sinh Eduardo. Num havia pensado nisso...
     -        Para esperarmos que os outros faam isto ou aquilo, ns precisamos ser capazes de fazer primeiro. Se estivesse no lugar de Demerval, teria conseguido 
perdoar?
     -        Acho que no - respondeu ela, chorando. - Eu num presto tambm, num posso ajud minha sinh...
     -        Ao contrrio, Zefa. Voc agora pode ajudar muito. Sabe que no deve exigir nada de ningum, mas pode pedir a Deus pela felicidade de Demerval e de 
dona Maria Jos. Deixe sua compreenso envolver o corao sofrido de Demerval e estar cooperando na cura de ambos.
     O        Bentinho ouvia quieto, atencioso. Sabia que Eduardo estava certo. No era bom atirar pensamentos de rancor sobre um esprito to revoltado como de 
Demerval. Se ele compreendesse suas verdadeiras necessidades, tudo ficaria resolvido.
     -        Agora, vamos  nossa prece - pediu Eduardo. - Vamos orar com muito carinho para o esprito de Demerval.
     Comovido, fez sentida prece durante a qual a Zefa esforou-se para acompanhar de corao, lutando para vencer os ressentimentos h longo tempo alimentados contra 
Demerval.
     Combinaram que se reuniriam todas as noites e tentariam convencer Maria Jos a participar.
     S o conseguiram dois dias depois. Maria Jos sentou-se ao lado deles, um pouco inquieta e Eduardo, calmo, orou pedindo ajuda em favor de todos, principalmente 
de Demerval. Lgrimas caram dos olhos de Maria Jos, que nada disse.
     Eduardo colocou a mo direita espalmada sobre sua cabea e orou pedindo proteo para ela que, aos poucos, foi se acalmando. Quando terminaram, Eduardo perguntou-lhe 
com naturalidade:
     - Tem dormido bem, dona Maria Jos?
     Ela corou um pouco embaraada. Teria Eduardo percebido o que lhe acontecia em algumas noites? Preferia morrer a que algum soubesse.
     - Sim - mentiu. - Tenho.
     Eduardo no respondeu. Sabia que precisava agir com pacincia e delicadeza. Considerava uma vitria a presena dela. No disse mais nada.
     Maria Jos comeou a participar todas as noites da reunio. Eduardo orava por todos da casa e pediu para que as crianas tambm participassem, pelo menos da 
prece inicial, orando em favor do pai.
     O Bentinho, calado, humilde, depois que todos se retiravam, explicava como Demerval havia se comportado. O negro conseguira v-lo e informara que ele, a princpio, 
demonstrara estar assustado e temeroso, desconfiado, permanecendo  distncia, sem aproximar-se da sala, embora continuasse com o pensamento ligado a Maria Jos.
     Depois que as crianas se retiravam, Eduardo fazia ligeira preleo explicando sobre a morte, a sobrevivncia do esprito, a necessidade de desligar-se da famlia 
depois da morte do corpo.
     Falava tentando esclarecer o esprito de Demerval, que sabia presente, tentando mostrar-lhe a situao real, a necessidade de perdoar e aceitar a mudana inevitvel.
     Maria Jos estava mais calma, seus olhos j estavam mais expressivos e ela comeava a interessar-se pelos problemas do dia-a-dia.
     Eduardo prosseguia com firmeza e dedicao. Realmente, Demerval sentia-se mais calmo. Sabia que vivenciava uma situao nova, diferente da que possua em vida. 
Podia at admitir que havia morrido, pensava nisso de vez em quando, mas a verdade  que se sentia vivo, em sua casa e com sua famlia. No podia aceitar que, de 
repente, algum lhe dissesse que deveria abandonar tudo e partir para um lugar desconhecido.
     Aquela era sua esposa, seu lar, seus filhos. Ele tinha todo o direito de estar ali. A casa era mantida com seu dinheiro. Alm do mais, ele no sabia para onde 
ir. No podia abandonar a famlia. Eles precisavam de sua proteo e da sua presena.
     Sentia-se triste, apreensivo. Era obrigado a aceitar as irregularidades dos negcios e o descaso dos empregados, sem poder intervir diretamente. Sentia-se impotente. 
Sua atuao era limitada e Maria Jos, que a princpio o obedecia cegamente, j agora interferia tentando modificar o rumo de seus desejos.
     Fazia uma semana que Eduardo estava na fazenda e as coisas nesse p, quando Menelau chegou, muito preocupado com Maria Jos. Tratara de arranjar os negcios 
para partir.
     Durante aquela semana tivera terrveis pesadelos, o que aumentara sua preocupao.
     Sua chegada provocou intensa movimentao. Maria Jos emocionada, as crianas felizes, rodeando o tio com alegria e afeto.
     -        Vim matar as saudades - justificou-se ele abraado por Rosa e Ana, depois de apertar a mo de Eduardo e beijar delicadamente a mo da cunhada.
     -        Tio Menelau trouxe presente para mim? - inquiriu Romualdo, alegre, o que fez Maria Jos repreend-lo enquanto os demais riam-se da falta de discrio 
do menino.
     -        Vamos ver... no sei - respondeu Menelau, fingindo seriedade.
     Demerval, observando a alegria reinante, sentiu-se enciumado. Nunca seus filhos tiveram essas manifestaes com ele. Um tio pode ser condescendente, pensou 
ele tentando justificar a diferena, mas um pai precisa ser severo. No pode permitir certas intimidades.
     Maria Jos, apesar de emocionada no podia deixar de sentir certa mgoa contra o cunhado. Por que ele preferira ficar com a mulher j que dizia amar sua famlia?
     Demerval, de repente, experimentou um sentimento de mgoa contra o irmo, sem preocupar-se porque.
     -        Como vo as coisas por aqui? - indagou Menelau.
     -        Bem - disse Maria Jos, procurando dar  sua voz um tom indiferente.
     Menelau sentiu que ela no o recebera como das outras vezes. Havia como que uma barreira entre eles. Procurando esconder a preocupao, brincou com as crianas, 
deu-lhes os presentes que trouxera, conversou sobre os assuntos da fazenda e quando se viu a ss com Eduardo, pde perguntar o que estava acontecendo.
     -        Maria Jos est diferente - disse. - Trata-me com frieza, esquiva-se de falar, est mudada.
     -        Tem razo. Ela est sob ao de Demerval. Seu esprito encontra-se ao lado dela, influenciando-a.
     -        Trata-se de obsesso?
     -        Trata-se de uma ligao que poderia vir a tornar-se obsesso.
     -        Ele no a est envolvendo a certo tempo?
     -        Est, mas  diferente. Na obsesso, o esprito desencarnado age deliberadamente, geralmente movido pela vingana, procurando subjugar a sua presa para 
conduzi-la ao desequilbrio. Demerval no. Despreparado para compreender a verdade, no quer aceit-la.
     Ele foi arrancado do corpo de forma violenta. No possua nenhuma noo de espiritualidade.
     -        Apesar de seu temperamento rgido, ele no era mau.
     -         verdade. Porm, muito teimoso, metdico, conservador, no quis afastar-se daqui. No est preocupado em perturbar Maria Jos, nem a ningum. Ao contrrio. 
Acredita que est protegendo a famlia. Afinal, esta era sua casa, seu lar e ele simplesmente acredita-se dono de tudo. Acomodou-se e no deseja sair. Foge da realidade, 
recusa-se a v-la para no ter que tomar nenhuma atitude.
     -        E Maria Jos, sabe a verdade?
     -        No claramente. Ela estava habituada a conviver com ele. A ligao energtica estabelecida em anos de convivncia no havia se esgotado.
     -        Ela no se afinava com ele. Eram muito diferentes.
Eduardo balanou a cabea, concordando.
     -        Sim. Apesar dessas divergncias, conviveram influenciando-se mutuamente, permutando energias s quais se habituaram. A convivncia, o relacionamento 
sexual, at os desentendimentos estabelecem padres de permuta energtica especficos entre os casais durante os anos de vida em comum. Com a separao, com a morte 
arrancando fisicamente a criatura do seu ambiente de tanto tempo, essas energias deixam de ser alimentadas e ento ambos sentem essa carncia.
     -        Quer dizer que, se amanh eu morresse, ou Maria Antnia, eu sentiria falta, apesar de no termos nenhuma afinidade?
     -        Nos casamentos de reajuste, quando o amor no  a motivao maior, ao haver essa mudana poder at dar uma sensao de alvio e de liberdade. Porm, 
isso no impede o deslocamento energtico e uma certa sensao de perda, ou insegurana, medo ou mesmo desorganizao de seu prprio equilbrio.
     -        No era uma ligao dolorosa, indesejada, difcil?
     -         Mesmo assim a troca energtica foi inevitvel e as pessoas aprendem a viver com essas energias, embora nem sempre elas sejam agradveis.  comum num 
casal que a vida inteira divergiu, brigou, no se entendeu, porm no se separou, depois da morte de um deles o outro lastimar-se, esquecer-se dos defeitos e at 
sofrer muito com a separao.  que estabeleceram ligaes, padres de troca, durante largo tempo e isso sempre  doloroso quando se desloca.
     Menelau permaneceu pensativo durante alguns segundos, depois considerou:
     -         difcil acreditar. Quer dizer que Maria Jos sentiu falta de Demerval e sofre por esse desligamento?
     -        Claro. Por a voc v como  fcil continuar a manter uma ligao depois da morte. Quando Demerval voltou para casa, aproximou-se dela, havia ainda 
essa ligao entre eles. Eram energias s quais ambos estavam acostumados. Foi natural. Embora a situao tenha se modificado fisicamente, no campo psquico, energtico, 
tudo estava como sempre. Maria Jos sequer se deu conta da influncia de Demerval, que acomodou-se, utilizando o corpo dela para satisfazer suas necessidades relativas 
 vida fsica, como se tudo fosse muito adequado.
     Menelau preocupou-se.
     -        Isso no  bom. Ela vai enfraquecer, ele tira energias dela.
     -        No se esquea que  uma troca. Ele tira mas d. Ele no um agente interessado em prejudic-la. Ele a ama, quer proteg-la.
     -        Mas prejudica. Repugna nossa razo essa influncia invadindo o livre arbtrio da pessoa, sem respeito  sua integridade ou  sua individualidade.
     -        Concordo. Infelizmente esses casos so comuns entre os casais, depois de anos de vida juntos. Quando um deles parte,  preciso muito esforo e esclarecimento 
para que esse desligamento se processe normalmente. Quando o esprito que parte  mais esclarecido, aceita ausentar-se do lar e procura refazer-se devidamente, reintegrando-se 
na verdadeira vida;  mais fcil ao que ficou na Terra conseguir tambm seu refazimento.  uma ferida aberta na aura, que s vezes at um vidente consegue perceber 
o que precisa cicatrizar.
     -        E quando no h essa compreenso?
     -        Fica difcil para ambos. Essa ligao  muito forte. Embora esteja mais perceptvel no campo energtico, ela  muito material e tem, para as criaturas, 
um apelo muito intenso. Se no houver esclarecimento e um deles entregar-se  lamentao,  rebeldia em aceitar os desgnios de Deus, ser preciso muito esforo 
para evitar que se unam e continuem trocando energias s quais se habituaram, prejudicando-se mutuamente.
     -        O que faremos para ajudar Maria Jos?
     -        Estamos pedindo ajuda aos amigos espirituais, todas as noites fazemos oraes em conjunto. Maria Jos, a princpio, recusava-se a vir. Agora j est 
participando. Temos procurado esclarecer Demerval, prepar-lo para aceitar a verdade e favorecer o desligamento.
     -        Pensei que fosse mais fcil. Nunca imaginei que esses laos pudessem ser to profundos.
     -         natural. Fazemos uma idia da morte muito diferente da realidade. Imaginamos que, depois de mortos, tudo se modifica e nos tornamos completamente 
livres dos apelos fsicos. Puro engano. Samos do corpo, mas continuamos os mesmos. As paixes, os vcios, os anseios, os problemas, so caractersticas do nosso 
esprito. A carne  apenas um instrumento adequado para nossa atuao no mundo.  como uma roupa adequada que nos materializa na Terra durante certo tempo e que, 
ao nos despojarmos dela, impede de sermos vistos e participarmos da sociedade terrena. Quanto ao resto, continua igual.
     -        Podemos ter fome, sede, dor, tudo?
     -        Sim. Isso depender do nosso esclarecimento em relao vida espiritual e da importncia que dermos a essas coisas. O desprendimento, a pacincia, 
a tolerncia e a ausncia de pieguismo sempre facilitaro as coisas, ajudando nossa libertao.
Menelau admirou-se:
     -        Por que pieguismo?
     -        Porque o pieguismo  o sentimento descontrolado.  a auto-piedade, que deturpa a realidade e enfraquece o esprito, fazendo-o julgar-se mais infeliz, 
fraco e incapaz do que . No fundo,  uma manifestao do orgulho procurando fugir  responsabilidade de seus prprios atos, preferindo colocar-se como vtima a 
aceitar que errou.  uma situao de fantasia em que a vida vai trabalhar para faz-lo enxergar, mas que concorre para mant-lo enganado, prisioneiro. Poderia usufruir 
de novas alegrias na verdadeira vida, rever velhos afetos, renovar-se, ter maiores condies de equilbrio e lucidez, podendo melhor ajudar os que ficaram. No entanto, 
continuam prisioneiros dos problemas que viveram no mundo, sofrendo seus achaques, perturbando os que amam, permanecendo assim por longo tempo.
Menelau suspirou fundo.
     -         lamentvel - disse. - Custo a crer que isso seja possvel.
Eduardo sorriu levemente.
     -        Concordo. Porm os fatos esto a para quem quiser observlos, O caso de Demerval  tpico.
     Naquela noite, aps o jantar, reuniram-se para a prece. Eduardo, aps pedir a proteo a Deus, falou sobre as alegrias da vida espiritual, para aqueles que 
morrem. Dos mundos iluminados que se abrem a todos que trabalharam pelo seu progresso, lutando para aprimorar-se.
     Demerval, a um canto, ouvia comovido. Olhava a famlia reunida e pensava em sua prpria situao. Seria mesmo verdade que ele havia morrido? Sentia seu corpo 
rijo como sempre e as dores na garganta e no pescoo ainda incomodavam-no. Quando se recordava do Neneu e procurava encontr-lo, elas aumentavam, o peito tambm 
lhe doa. Bem que ele gostaria de conhecer esses lugares que Eduardo falava, onde todos viviam felizes e no havia tanto sofrimento, mas sentia-se responsvel pela 
famlia. Quem cuidaria deles se ele os abandonasse? No seria egosmo deixar os seus sem proteo para cuidar de seu bem-estar? S de pensar em afastar-se, Demerval 
sentia medo. Sua casa era sua segurana. Como deix-la?
     Aproximou-se de Maria Jos, abraando-a. Foi nessa hora que viu uma enfermeira aproximar-se. Animou-se. Ela olhava-o sria, dizendo:
     -        Vim busc-lo.
     Surpreendido Demerval respondeu:
     -        No vou. No posso. Tenho que cuidar da minha famlia.
     -        Voc est doente. Precisa tratar-se. Sua sade requer cuidados.
     -        Trato-me aqui mesmo. No quero ir.
     -        No tema - tornou ela, conciliadora.
     -        Sabe que no posso ausentar-me.
     -        Viemos busc-lo para tratamento. Quando estiver curado, poder regressar.
     Demerval olhou-a assustado.
     -        No quero. No vou. Deixe-me em paz. No chamei por ajuda. Sei cuidar de mim. Afaste-se. No poder tirar-me daqui.
     -        Nada faremos contra sua vontade. Todavia, precisa saber que sua sade  precria. Se no se tratar, poder ficar pior.
     Ele agarrou-se a Maria Jos dizendo, obstinado:
     -        No preciso de nada. Estou muito bem. Deixem-me em paz.
     Maria Jos sentiu-se aflita, angustiada. Remexia-se na cadeira, suava frio e enorme pavor acometeu-a.
     Eduardo colocou sua mo sobre a dela dizendo, com voz calma:
     -        No tenha medo, dona Maria Jos. Acalme-se. Vamos orar.
     Maria Jos chorava aflita, sem poder conter-se. Demerval, agarrado a ela, olhou contrariado para a enfermeira que os observava silenciosa e disse, nervoso:
     -        Viu o que voc fez? Assustou-a. Ela sofre e no pode ficar s. Precisa de mim. V embora. Deixe-nos em paz.
     A enfermeira olhou-o, triste, dizendo com voz firme:
     -        Demerval, se viesse conosco agora, seria melhor para todos.
     -        No vou. No quero. Ningum me arrancar daqui.
     -        Se viesse, se pouparia de muitos sofrimentos. Porm, se no quer, no vamos for-lo. Lembre-se de que foi voc quem escolheu. Que Deus o abene.
     Apesar de aliviado ao v-la desaparecer, Demerval no pde furtar-se a certo desconforto. Inquietou-se mais. O que ainda lhe poderia acontecer? Acariciou a 
cabea de Maria Jos e abraou-a com carinho. Aos poucos, ela foi se acalmando.
     Eduardo fez uma prece de agradecimento e encerrou a reunio.
     O Bentinho, a um canto, conversou com Eduardo em voz baixa, enquanto Menelau, preocupado, dirigia-se a Maria Jos para saber se estava melhor.
     -        Hoje fizeram uma tentativa para lev-lo - disse Eduardo, em voz baixa.
     -         verdade sinh - informou o Rentinho. - Eu vi uma mulher de branco que conversou cum ele, mas ele num quis, num foi. Ficou agarrado na sinh. Ainda 
t a.
     -        Eu percebi - respondeu Eduardo. - Continuaremos at conseguir. No podemos deixar dona Maria Jos assim.
     -        Louvado seja Deus, sinh Eduardo. Vamo consegu.
     As crianas j se tinham recolhido, Maria Jos estava mais calma. A preocupao de Menelau confortava-a. A Zef a serviu um caf com biscoitos e todos se recolheram.
     Maria Jos, contudo, no conseguiu dormir. Debalde, Demerval tentou acalm-la. Quase sempre quando ele a abraava e tentava proteg-la dizendo-lhe palavras 
de conforto ao ouvido, ela se aquietava. Naquela noite, por mais que ele tentasse, nada conseguiu. Ela no obedecia ao seu controle. Pensava em Menelau. Por qu? 
Sentia-se ressentida com ele.
     Acompanhou-a quando ela, insone, nervosa, vestiu o penhoar e dirigiu-se a cozinha. Pegou uma caneca de gua e bebeu devagar. Ia voltar para o quarto, quando 
Menelau apareceu. Maria Jos estremeceu.
     - Tambm no pde dormir? - indagou ele, srio.
     - . No consegui. Sinto-me angustiada, com medo. No sei explicar o que me vai na alma.
     Menelau olhou-a, lutando contra o desejo de abra-la, confortla, dizer-Lhe o quanto ainda a amava. Conteve-se.
     H momentos em que tudo se torna difcil - tornou ele.
     Maria Jos sentiu que toda a mgoa contida durante tanto tempo vinha  tona.
     - Talvez seja mais fcil para voc do que para mim. Afinal, voc escolheu seu caminho livremente. Naturalmente j esqueceu. Eu tive que aceitar o que a vida 
me deu.
     Demerval olhava-os sem compreender. Menelau olhou-a, triste. Vendo-a ali, olhos magoados, rosto sofrido, foi-lhe difcil conter-se.
     - No seja injusta comigo. Deus sabe como eu gostaria de ter esquecido, mas no esqueci. A recordao daquela noite segue comigo, como o momento mais belo da 
minha vida.
     Maria Jos no se conteve. Abraou-o com fora, dizendo com a voz que a emoo sufocava:
     - Menelau, voc ainda me ama! Voc ainda me quer...
     Menelau no mais resistiu. Abraou-a forte, apertou-a nos braos beijando seus lbios com o ardor de um amor tanto tempo represado. Maria Jos, exultante, dava 
vazo ao que lhe ia na alma, entregando-se sem pensar em mais nada.
     Demerval estava estupefato! A um canto, olhava estarrecido. Desejava atirar-se sobre eles, separ-los, gritar que estava ali, mas no conseguia sair do lugar. 
Maria Jos, naquela hora, escapara do seu domnio e ele no mais conseguia envolv-la. Da surpresa passou a revolta, da revolta ao desespero, ao dio.
     - Traidores! - pensou, colrico. Como ousavam beijar-se dentro de sua prpria casa? Como seu prprio irmo pudera ser to vil? E Maria Jos, como o atraioava 
assim, com o prprio cunhado? Desde quando eles o traam? Precisava saber! Sentia uma dor funda penetrarlhe o peito, em desespero. Tentou separ-los, mas no conseguia 
aproximar-se deles que, enlaados, beijavam-se ardorosamente.
     Ficou ali, sofrendo em desespero, sem poder ser visto nem gritar sua dor ou arrancar Maria Jos dos braos de Menelau. Que fora era essa que o retinha, que 
o impedia de atirar-se sobre os dois separ-los?
     Menelau, atordoado, abraado a Maria Jos, murmurou-lhe ao ouvido:  
     -        Eu a amo! Nunca esqueci. Sempre a amarei.
     -        Ento, por que no fica comigo? Por qu? As crianas o amam mais que ao pai. Depois, h Romualdo. Ele  nosso filho! Como pde deixar tudo para ficar 
ao lado de uma mulher com a qual no se afina?  essa minha mgoa. Voc prefere ficar com ela do que ficar ao nosso lado.
     -        No diga isso - respondeu Menelau, angustiado. - Deus sabe como amo todos vocs. Romualdo  meu filho, gostaria muito de ficar a seu lado, eu seria 
o mais feliz dos homens. Mas o dever e o compromisso indicam-me outro caminho. Voc sabe porque. Maria Antnia precisa de mim. Jurei am-la, defend-la, ampar-la. 
No posso desertar agora.
     -        Ela no o ama, enquanto que ns todos o queremos muito. Eu estou s. Como educar os filhos sem pai? Como conduzir os negcios sem uma mo firme que 
me ajude?
     Menelau procurou controlar as emoes. Respirou fundo. Tomou-lhe a mo com delicadeza, conduzindo-a a uma cadeira. Depois acomodou-se, por sua vez. Lgrimas 
corriam pelas faces de Maria Jos enquanto ele lutava contra o desejo de tom-la nos braos e ceder a esse amor que, mais forte do que nunca, lhe banhava o corao.
     -        Maria Jos, eu a amo! Amo voc e as crianas. Estar aqui para sempre  o maior desejo de minha vida, e se eu pudesse dar vazo ao que me vai na alma, 
jamais sairia daqui. Entretanto, sei do nosso passado. Juntos ns erramos muito e por esse amor deixamos de lado o dever, srios compromissos, ocasionando a outras 
pessoas problemas e dificuldades, lutas e dor. Eduardo contou-lhe tudo isso.
     -        No sei se isso  mesmo verdade. Tudo pode ser iluso nossa. Ser mesmo que j vivemos outras vidas? Podemos estar enganados e por isso deixar de lado 
nossa felicidade.
     Menelau abanou a cabea dizendo:
        - No adianta querer iludir-se. Sei que tudo isso  verdade. Sinto que  real. Nosso amor no comeou naquela noite ao acaso.  um sentimento forte, profundo, 
irresistvel. Fraquejamos por isso. Mas mesmo que no houvssemos vivido outras vidas, nesta fomos colocados em caminhos diferentes. Voc, casada com seu irmo; 
eu, casado com Maria Antnia. Nossa dignidade nos indica o caminho que precisamos seguir. Como apareceremos diante dos nossos filhos sem termos cumprido nosso dever? 
Como ensinar-lhes o caminho da honra e da sinceridade, os valores eternos da alma, sem termos conseguido segui-los? Como explicar-lhes a situao dbia em que nos 
colocaramos se eu viesse viver aqui, ao seu lado, sem poder casar, desempenhando funes de pai? Que moral eu teria para aconselh-los ou orient-los?
     -        Eles o amam e respeitam. Compreenderiam.
     Menelau concordou com a cabea.
     -        Sim.  verdade. Mas no podemos esquecer que eles amam e respeitam o tio que os ama e visita de vez em quando. O irmo do pai que sempre foi compreensivo 
com eles. Como receberiam o amante de sua me? Como o colocariam no lugar do pai?
     Maria Jos ficou chocada. Dito assim, cruamente, sentiu-se envergonhada.
     -        Pensei em casar com voc. Sou viva.
     -        Eu no sou. Em nosso pas o casamento  indissolvel! Enquanto Maria Antnia viver, no poderei me casar outra vez.
     Maria Jos baixou a cabea, confundida. Devia encarar a realidade. Menelau no podia casar-se.
     -        Eu poderia deixar Maria Antnia, vir morar aqui e mantermos nosso amor em segredo. No suportaramos essa situao por muito tempo. Nosso amor seria 
amesquinhado, diminudo, aviltado. No, Maria Jos. Eu gostaria de poder assumir nossa unio. Se eu fosse livre, poderamos nos casar, e ento sim, a felicidade 
seria nossa.
     Maria Jos soluava. Sabia que ele tinha razo.
     -        No chore - disse ele, apertando-lhe a mo com fora. - Reconheo que  difcil. Eu estou lutando para no fraquejar. Todavia, eu acredito na eternidade. 
A vida j a liberou do compromisso com Demerval. Voc foi boa esposa para ele. Mas eu ainda no acabei meu compromisso com Maria Antnia. Quando eu j tiver feito 
minha parte, a vida me libertar. A sim, poderei correr para voc e seremos felizes. Livremente poderemos gritar nosso amor, assumir nossos sentimentos, estaremos 
juntos para sempre. At l, ajude-me a fazer por voc e pelos que amamos, tudo quanto puder sem que tenhamos de nos envergonhar diante deles. Um dia ainda seremos 
felizes, voc ver!
     Maria Jos olhou-o mais calma.
     -        Voc  mais digno e mais forte do que eu. Obrigada por haver me mostrado o caminho certo. Eu o amo muito. Estarei esperando, at o dia em que for possvel 
nosso amor.
     A certeza de que me ama d-me coragem e fora para esperar. Saberei conter-me.
     A um canto, Demerval dava vazo  estupefao e revolta. A mulher em que sempre confiara, o tinha enganado. Seu irmo, a pretexto de ajud-lo, o trara! Uma 
onda de dio o acometeu. Precisava vingar-se! Haveria de mostrar-lhes o quanto haviam errado e reduzi-los ao que mereciam. Pretendia separ-los. Jamais permitiria 
que se unissem. Todos aqueles planos jamais seriam concretizados. Ele no deixaria!
     Seus olhos brilhavam de rancor. Se pudesse, teria se atirado sobre Menelau, agredindo-o. Contudo, no conseguia aproximar-se dele. Havia como que uma fora 
que o repelia e, por mais que tentasse, ficava sempre a certa distncia. Por qu? Quem o defendia? Ele era um traidor, culpado, devia pagar. Por que no conseguia 
dar-lhe o merecido corretivo?
     Aps inmeras tentativas, Demerval postou-se a um canto, consciente da inutilidade de suas investidas, limitando-se a olh-los enraivecido. Nem de Maria Jos 
conseguia agora aproximar-se. Uma barreira havia se formado entre eles. Queria afastar Menelau da casa. Se ele fosse embora, conseguiria domin-la novamente.
     Maria Jos sentia-se melhor. Menelau dizia, com a voz que a emoo pausava:
     -        Foi Deus quem nos colocou em caminhos diferentes. Confio que, quando merecermos, ele nos reunir.
     -        Sinto-me muito s! - respondeu ela, com voz triste.
     -        Voc tem as crianas. Eu, nem isso tenho.
     Ela baixou a cabea pensativa. Apesar de tudo, acalmara-se. A certeza do amor de Menelau enchia seu corao de novas foras.
     -        No fique triste - continuou ele. - A tristeza tira nossas energias e abre campo s influncias inferiores.
     -        No posso evitar...
     -        Pode sim. Pense nisso. Somos espritos eternos. Um dia estaremos unidos para sempre.  questo de tempo. Tudo visa nosso progresso e nossa felicidade. 
Deus  bom e justo! Aproveite a alegria de viver, aprenda a apreciar as coisas boas que a cercam. Valorize o amor das crianas que Deus colocou em seu caminho. So 
almas que esto sob seus cuidados. Eles a amam, admiram, confiam em seu carinho. Apesar do problema que nos aflige, somos felizes. Temos nas mos a oportunidade 
de esquecer um pouco nossos desejos pessoais para nos dedicarmos  felicidade dos que amamos.
     Maria Jos levantou os olhos, fixando-o com amor.
     -        Voc  um forte. Admiro-o. Essa delicadeza de alma, essa bondade me comove e aumenta o sentimento que me emociona. Amo-o, Menelau, e esse amor dar-me- 
foras para esperar.
     Demerval fechou os punhos ameaadoramente. Se pudesse, teria saltado sobre eles agredindo-os. Sentia-se trado, esquecido, aviltado. Que estranha fora o impedia 
de aproximar-se deles?
     Foi quando ele viu uma mulher aproximar-se. Trazia o semblante sombrio, olhos fuzilando de revolta e disse-lhe:
     -        Veja-os. Esto juntos! Prometeram e agora no esto querendo cumprir. Mas eu estou aqui! Vigilante. Se eles nos atraioarem de novo, juro que pagaro!
     Demerval olhou-a surpreendido. Seu rosto era-lhe familiar, apesar de despertar-lhe sensaes penosas, desagradveis. Curioso perguntou:
     -        Quem  voc? Por que invade minha casa?
     Ela fixou-o, firme:
     -        No se recorda de mim?
     Demerval sustentou o olhar.
     -        Conheo-a, porm no me lembro de onde.
     -        Sou eu, Ulisses, Eleonora. Lembra-se? Eles nos traram.
     A emoo de Demerval cresceu. Algumas cenas acudiam-lhe memria e ele sentia a onda de rancor crescer no corao.
     -        Eleonora! - disse, tentando lembrar-se, concatenar as idias.
     -        Sim, Ulisses, sou eu! A sua cunhada, trada, abandonada, infeliz.
     Demerval parecia viver um pesadelo. Queria lembrar-se. Que passado era esse que agora lhe buscava o esprito angustiado? Eleonora continuava:
        - Eles se amam ainda! Prometeram cuidar dos meus filhos e agora falam do futuro juntos. E ns? E o nosso amor? Raul  meu! Isabel  sua mulher! Vai permitir 
que ele a roube de novo?
        Demerval sentiu-se sacudido por essas palavras que ganhavam fora em sua mente na rememorao de fatos passados. Sim, aos poucos ele comeou a lembrar-se! 
Isabel era linda! Amava-a muito. Ela era muito jovem. Seu irmo Raul j era casado e possua cinco filhos quando ele, Ulisses, conhecera Isabel, apaixonara-se e 
casara-se com ela. Residindo em outra cidade com os pais, Isabel, ao casar-se, sentira-se muito s na nova vida e passara a conviver muito com a cunhada Eleonora, 
freqentando-lhe a casa diariamente, afeioando-se s crianas, com as quais se afinava muito.
       Sua beleza, sua alegria, sua vivacidade, encantavam a todos e davam-se muito bem.
       Ulisses era srio e, apesar de mais novo do que o irmo, raramente sorria, reprovando na jovem esposa sua forma de ser, alegre e descontrada. Procedia como 
um pai severo e exigia obedincia, acatamento. Era em casa de Eleonora com as crianas que Isabel sentia-se livre, dando vazo  sua alegria natural.
    O tempo foi passando at que a tragdia aconteceu. Uma tarde, Eleonora surpreendeu Raul com Isabel nos braos. Sua reao foi terrvel. Mandou chamar Ulisses, 
colocando-o a par da verdade. De nada valeram as lgrimas de Isabel, pedindo-lhe para perdoar, dizendo que nunca mais voltaria quela casa.
     Ulisses, enraivecido, atirou-se sobre o irmo s no consumando uma tragdia porque alguns vizinhos o impediram. Arrastou a mulher para casa ameaando seu irmo 
de morte, caso a encontrasse com ele novamente e prendeu-a no quarto, rancoroso.
     Durante um ms, conservou-a prisioneira. Um dia, entretanto, ao chegar em casa, ela havia desaparecido. Eleonora o procurou para, entre lgrimas de revolta, 
contar que Raul a abandonara. Dissera que no a amava e que iria libertar Isabel. Ela era a mulher de sua vida; juntos seriam felizes.
     Ulisses deu vazo ao seu dio e procurou-os por toda parte para vingar-se. Inutilmente.
     Demerval, recordando o passado, sofria. Nunca mais pudera perdoar. Amava Isabel e no se conformava em perd-la. Durante toda sua vida procurara pelos dois. 
Abandonara a casa, os negcios, tornara-se um viajante, sempre procurando pelos traidores, vivendo de pequenos servios e at da caridade pblica, obececado pelo 
desejo de vingana. Perdeu de vista Eleonora e seus filhos. Desencarnou como indigente sem o aconchego do lar ou o carinho da famlia.
     Demerval no conseguia recordar-se o que aconteceu depois, s sentia o dio e o desejo de vingana.
     - Lembro-me agora - disse, com amargura. - Nunca conseguiu encontr-los?
     - S muito tempo depois. Sofri muito. Sem recursos para criar meus filhos, no abandono. Antonieta nunca se conformou com a pobreza e atirou-se a ambio, prostituindo-se 
para subir na vida. Os outros sofreram privaes, trabalhando nas mais humildes profisses para subsistir. Quando adoeci, chegaram a esmolar para socorrer-me. Quando 
parti do mundo, minha dor foi enorme por deix-los na orfandade. Jurei vingana! No descansei at que, um dia, ajudada por alguns amigos, encontrei um chefe que 
me acolheu. Vivia em uma cidade onde os que se sentiam injustiados uniam-se para trabalhar pela vingana. Acolheu-me, ajudou-me. Enfim consegui descobrir onde se 
escondiam. Vi-os juntos. Apesar das saudades das crianas, do remorso que os acometia por vezes, amavam-se, eram felizes.
     Quando estavam juntos, nos braos um do outro, esqueciam de tudo o mais!
     Demerval olhava-a, bebendo-lhe as palavras.
   -        Eu queria t-los encontrado!
     -        Eu sei - respondeu ela, com fisionomia que o rancor escurecia. - Mas eu os encontrei. Atirei-me sobre ela, cobrando-lhe as atitudes, derramando meu 
dio. Consegui atingi-la. Aos poucos, tive-a sob meu controle. Colei-me a ela. Queria destru-la, mas ao mesmo tempo, gostei da situao.
     -        No os separou? No acabou com aquela situao de adultrio?
     Eleonora refletiu grande tristeza no olhar:
     -        No pude! Apesar de tudo eu o amava muito. Colada a ela, saboreava seus beijos, suas carcias, e isso me alimentava.
     Demerval Encolerizou-se:
     -        Como pde? Como aceitou essa humilhao?
     -        Eu no podia toc-lo, ela era meu instrumento. Atravs dela eu podia tudo! Dava vazo ao meu amor, sentia todas as emoes. Era como um licor que me 
embriagava e eu no podia deixar.
     -        Tornou-se amiga dela por isso! - fez ele, com desprezo na voz.
     -        Isso nunca. Eu a odiava. Tornei sua vida um inferno. Arrancava-lhe as foras. Ela vivia debilitada, sonolenta, s ficava bem na hora de amar. A, eu 
a alimentava!
     -        Ela no percebia sua presena!
     - Percebia, mas tinha conscincia de sua culpa. Sentia remorsos e medo de mim. No lhe dei sossego at a morte. Porm, quando eu a esperava para dar vazo  
minha vingana, no sei explicar como, ela foi protegida. Esses filhos da luz so imprevisveis. No pude encontr-la. Fiquei com Raul. Restava-me ele. Porm ele 
estava triste. Lembrava dos filhos com preocupao e saudades. Chegou a procur-los sem encontrar. Foi um tempo muito penoso. Depois, ele tambm, se foi. No consegui 
mais encontr-lo. Meu chefe pedia pacincia e eu tive que trabalhar para ele enquanto esperava para contar com sua proteo. Intil dizer que ajudei outros cobrarem 
o que lhes era devido. At que um dia descobri o paradeiro de Isabel. Um amigo contou-me que a vira em uma colnia de recuperao, a fingida. No sei como conquistou 
as simpatias do administrador e l trabalhava, sendo at estimada. Naturalmente ela enganava bem. Fazia-se de santa e levava at vida boa, enquanto eu, apesar da 
proteo do chefe, levava uma vida dura, de privaes, em meio a outras criaturas como eu, que sofriam e clamavam por vingana. No era justo. Eu fora a vtima, 
ela a culpada. Que justia era essa que punia a mim ao invs de castigar a culpada? Revoltada, reuni-me aos companheiros e arquitetei um plano.
     Demerval bebia-lhe as palavras entre a dor e a esperana. Ela continuou:
     -        L, ela estava protegida. Nenhum de ns podia entrar naquela colnia, que tinha at guardas armados. Mas ns possuamos outros recursos. Nos reunimos 
para atingi-la  distncia. Eu mentalizava sua figura enquanto os demais mandavam-lhe pensamentos, recordando-lhe seu erro, acusando-a impiedosamente, chamando-a 
ao ajuste de contas. Fazamos isto sem um minuto de interrupo, revezando-nos nesse trabalho. Depois de alguns dias ela prpria nos veio ver para pedir perdo, 
dizer-se arrependida e ns a manietamos. Eu queria saber onde estava Raul ela garantia que no sabia. Foi nossa prisioneira. Eu no a deixava descansar, fazendo-a 
pagar pelo que me fizera. At que um dia senti o pensamento de Raul chamando. No resisti. Fui v-lo. Finalmente o encontrei em uma ampla sala, onde senti-me constrangida. 
Encolhi-me a um canto e ele aproximou-se, em Lgrimas, reconhecendo seu erro, pedindo perdo. Apesar da minha revolta, lgrimas desceram pelo meu rosto, ouvindo-lhe 
a voz to querida a falar-me carinhosamente.
     -        Enganou-a, com certeza - rugiu Demerval, rancoroso.
     -        No. Sua sinceridade era visvel e me emocionei. Desejei no haver feito as coisas odiosas que fizera ultimamente para poder sentar-me diante dele 
mais limpa e mais bonita. Eu tinha conscincia de que estava feia e quase andrajosa enquanto que ele parecia remoado e, claro, bem vestido e belo. Chorei, mas apesar 
da emoo lancei-lhe em rosto minha dor, meu amor ferido, minha mgoa. Choramos juntos.
     "- Estou arrependido - disse-me ele. - Quero refazer meu caminho, ajudar nossos filhos, ajudar voc.
     -        Antonieta encontra-se escravizada por entidades viciadas e traz o corao fechado para no sofrer, preferindo que os outros sofram e chorem. Os outros 
filhos tm sofrido privaes de toda ordem. Voc agora est morto, eu tambm, como ajud-los?
     -        Farei o possvel, trabalharei por eles, com a ajuda de Deus hei de conseguir.
     -        No desejo seno ajud-los - respondi-lhe, com sinceridade.
     -        Para isso  preciso perdoar. A mim e a Isabel. Deixe-a ir. Liberte-a e ns conseguiremos o que almejamos."
     -        As palavras de Raul tiveram o efeito de uma bofetada.
     "- Ento  isso?  por ela que voc vem a mim? Com certeza deseja enganar-me para fugir com ela de novo. Isso nunca, eu juro, nunca acontecer!
     -        Engana-se. Ningum pode desejar o bem e a assistncia de Deus para seus projetos se guardar dio e vingana no corao.  preciso que sabia, Eleonora, 
que enquanto no perdoar, ns nada poderemos fazer para ajudar nossos filhos. Lembre-se de que eu a estimo muito e gostaria que viesse comigo viver onde eu vivo, 
aprender a conquistar a prpria felicidade!  um lugar lindo, cheio de rvores frondosas, de pessoas amigas que querem nos ajudar a superarmos nossas dificuldades."
     -        Senti vontade de segui-lo. Estar a seu lado era tudo o que eu queria, mas o preo era muito alto, o perdo ainda no estava em minhas cogitaes.
     "- Gostaria de ir com voc, mas no posso. Tenho compromissos que me impedem de aceitar."
     -        Ele olhou-me, muito triste, e eu senti uma dor fina penetrar-me o peito.
     "- Lamento - disse ele. - Voltaremos a nos ver. Pense no que eu lhe disse."
     -        Sem que eu pudesse dizer nada, vi-me de novo no lugar de sempre, no cmodo infecto e triste em que morava. Isabel l estava, olhando-me, entre o receio 
e a angstia.
     "- Estive com Raul - disse, emocionada. - Ele sequer perguntou por voc. Quer que eu v morar com ele de novo deseja voltar para os meus braos, ajudar nossos 
filhos."
     -        Vi que ela se emocionou. "- Compreendo - disse, com voz sumida.  o mais acertado. Desejo que sejam felizes.
     -        No aceitei - respondi com voz fria. - Ele tambm vai pagar."
Eleonora calou-se, pensativa. Demerval perguntou:
     -        E depois, voc o viu?
     - Sim. Algumas vezes, fui irredutvel. No cedi. At que recebi a triste notcia. Antonieta regressava da Terra vtima de uma trama assassina. Fora envenenada. 
Fiquei desorientada. Eu amava meus filhos. Procurei socorr-la, juntei meus amigos, pedi ajuda do chefe, mas nada pudemos fazer. Ela encontrava-se muito mal, mergulhada 
nas trevas do pantanal, sem atender a nada. Foi durante esse tempo que Isabel conseguiu fugir, ajudada por seus amigos. Meu sofrimento de me era maior e eu no 
a persegui de novo, interessada em socorrer minha filha. Ah! Ulisses, como sofri! Tudo por causa daqueles dois patifes!
     -        E depois? - indagou Demerval, mais interessado nos acontecimentos que lhe diziam respeito do que nos sofrimentos de Eleonora.
     -        Depois o tempo foi passando e, um a um, todos os meus filhos desencarnaram. Contudo, s Antonieta permanecia dementada, subjugada por criaturas cruis 
e viciadas, com as quais se acumpliciara. Eu me esquecera de todos os outros, s tinha olhos para ela. Desejava arranc-la de onde se encontrava e subtra-la das 
companhias com as quais se envolvera, mas no possua meios para isso. Nem eu nem meu chefe, que recusara-se a ajudar-me porque dizia que ela havia escolhido esse 
caminho e ele nada poderia fazer. Foi ento que pensei em Raul. Ele poderia ajudar-me! Esperei ansiosa que ele me procurasse e pedi-lhe que socorresse nossa filha. 
Ele chorou comigo e respondeu-me que havia muito tempo trabalhava para isto e que s agora conseguira os meios para faz-lo. Chorei muito e at concordei em orar 
com ele. Afinal, Deus podia ajudar-nos. Concordei com tudo. Estava sofrida, triste, consciente da minha incapacidade para resolver o problema de Antonieta.
     Compareci quela sala onde o encontrara pela primeira vez e havia l alguns assistentes iluminados. Senti-me envergonhada, estava desfeita, feia, suja, mas 
a esperana me alimentava. Tomaram assento nas poltronas que estavam de frente para as outras cadeiras e um deles me disse:
     "- Sente-se." Obedeci. A um gesto do mesmo assistente, Raul sentou-se a meu lado. O assistente tomou a palavra proferindo ligeira prece, suplicando a Deus pelos 
nossos destinos. Em seguida, disse:
     "- Estamos aqui para estudarmos juntos o caso de Antonieta."
     -        Senti forte emoo, no me contive: - "Por favor" - disse, com voz que a dor modificava. - "Ela sofre muito. Quero ajud-la.
     -        Sabemos de tudo. Acalme-se" - respondeu ele, com voz firme. Calei-me. Ele prosseguiu:
     "- Como sabem ela esteve certo tempo nas zonas do pantanal para eliminar energias prejudiciais. Conseguimos recolh-la em um posto de socorro, onde lentamente 
vai se recuperando.
     -        Graas a Deus" - disse eu, aliviada. - Ele prosseguiu:
     "- Graas a Deus e ao esforo de Raul que tudo tem feito com a finalidade de ajud-la.
     -        Nada mais justo - disse eu, sria. - Foi por causa dele que ela caiu no vcio e no erro. Se ele no houvesse feito o que fez, tudo teria sido diferente."
     -        O assistente olhou-me srio e respondeu: "- Pode ser. Contudo, quando Antonieta reencarnou entre vocs, j vinha de outras existncias onde mergulhara 
na ambio, no luxo e nos amores fceis. Se puderem recordar-se, entendero que ela teria que enfrentar muitas lutas e que suas tendncias naturais se manifestariam 
mesmo que Raul permanecesse no lar.  claro que ele poderia t-la ajudado estando ali, fazendo-a compreender melhor a vida, ensinando-lhe os valores reais que ela 
ainda no conseguia perceber. Essa  a funo dos pais.
     -        Ele no foi capaz! Ao invs disso, fugiu com aquela desavergonhada!" O assistente olhou-me com energia:
     "- No estamos aqui para julgar ningum. Se quer ajudar sua filha, aprenda a compreender e a perdoar. Antonieta perdeu a vida na Terra por causa de algum que 
no perdoou, que revidou a ofensa, que foi ao crime por isso.
        - Senti-me muito mal. Era verdade, O mal que eu desejava a Isabel, algum havia feito a Antonieta. No pude evitar o pavor que senti. "Deus me castigou - 
bradei, inconformada.
- Eu me vinguei de Isabel e ele deixou que matassem Antonieta!
     -        Deus no castiga ningum - disse Raul, humilde. - No confunda as coisas. Eu errei, fracassei como pai, tenho me esforado para refazer meu erro. Mas 
voc, com seu dio, vontade de vingana, tem dificultado a ajuda  Antonieta."
     -        No pude evitar. Chorei muito. Amava minha filha e sempre atenuava suas atitudes. Ela no podia ser comparada a Isabel, traidora e m. O assistente 
aproximou-se, alisando-me a cabea afetuosamente.
     "- Compreendo sua dor - disse, srio. - Antonieta envolveu-se em problemas muito srios. Desuniu casais, arruinou famlias e acabou sendo vtima de seus prprios 
enganos.
     Nem todos os que so injuriados conseguem abster-se da vingana.
     -        Ela era muito jovem, tinha iluses, o pai nos tinha deixado. Desejava possuir jias, coisas bonitas para enfeitar-se. Era querida pelos homens. No 
tinha culpa se eles a envolviam.
     -        Reconheo que era imatura. Porm Isabel tambm o era. Casou-se sem amor, muito jovem, por imposio da famlia e apaixonou-se por Raul!
-        Voc a defende!
     - No. Quero apenas que veja a verdade. Que perceba que tanto Isabel quanto Antonieta tm sofrido bastante e amadurecido na experincia. Se compreender isso, 
poderemos dar bom atendimento ao caso de sua filha."
        - Eu estava cansada. Desejava fazer alguma coisa em favor dela. "- Est bem - concordei, por fim. - No vou mais perseguir Isabel." Raul suspirou aliviado. 
Combinamos ento uma reunio para o dia seguinte com Isabel e Ulisses. Voc no se recorda disso? - Indagou Eleonora.
     -        Estou confuso. Tenho vaga idia. Lembro-me de que estava em um hospital, doente e chamava por Isabel. Era minha obsesso. Eu a procurara toda minha 
vida. Queria reprovar-lhe o procedimento que ferira fundo meu corao. Porm, eu a amava e desejava v-la. Tanto pedi, tanto roguei, afirmei que no a maltrataria, 
que ela foi ver-me. Choramos juntos. Pediu-me perdo. Eu a amava!
     -        Foi isso mesmo - concordou Eleonora. - Voc compareceu  reunio. L, diante dos assistentes, ficamos os quatro. Eu havia conseguido permisso para 
ver Antonieta e estava arrasada. Ela mal podia falar, cheia de ulceraes na garganta por causa do veneno que lhe causara a morte. A enfermeira garantiu-me que dentro 
de mais alguns dias ela estaria completamente restabelecida. Antonieta, humilde e chorosa, pediu-me ajuda. Beijei-a muito e jurei fazer tudo por ela.
     -        E a reunio? - indagou Demerval, ansioso.
     -        No se recorda?
     -        Vagamente.
        - Eles haviam feito um plano para ajudar-nos. Todos ns precisvamos cooperar. Voc voltaria  Terra novamente e desta vez seria o irmo mais velho de Raul. 
Vocs ainda estavam ligados por compromissos passados. Isabel iria mais tarde e de novo se casariam. Antonieta renasceria e se casaria com Raul para que ele pudesse 
trabalhar ajudando-a, orientando-a. Restavam nossos quatro filhos que tambm precisavam ajuda. Antonieta no possua condies de arcar com a maternidade. Isabel 
ofereceu-se para receb-los como filhos, dando-lhes amor e carinho. Voc concordou. Queria t-la novamente a seu lado. Eu procuraria ajudar Antonieta e no reencarnaria 
por algum tempo. Para isso, necessitava desligar-me daquele grupo ao qual me havia ligado e aprender a melhorar-me, com a ajuda daqueles assistentes. Todos estvamos 
sofridos, porm, esperanosos. Raul ficaria longe de Isabel e eu o queria ao lado de Antonieta. Na sada da reunio eu lhes disse, sria:
     "- Vou ajudar Antonieta e por ela perdo o que vocs me fizeram. Porm, ficarei vigilante. Se esquecerem os compromissos, hei de os fazer recordar.
     -        No esquecerei - disse Isabel. - Chega de sofrimentos. Desta vez cumprirei meu dever at o fim.
     -        Eu tambm - tornou Raul.
     -        Assim espero. Na Terra vocs esquecero o passado. Se fraquejarem, agirei com rigor."
     -        Voc disse isso mas eles esto l, amam-se. Tiveram um filho! Enganaram-me. Aproveitaram-se da minha doena. Esto juntos!
     -        Eu sei. J os separei uma vez, O nosso orientador garantiu que os ajudaria a recordar o compromisso.
     -        Eles se amam!
     -        Ficaremos vigilantes. Se fraquejarem, agiremos com rigor.
     -        Quero separ-los agora. No estou disposto a esperar -retrucou Demerval, com insistncia.
     -        Ele disse que no vai ficar com ela. No saio daqui at que ele volte para Antonieta. Verei o que faro.
     Demerval calou-se, pensativo.
     -        Quero que saiba que sempre a amarei - disse Menelau, olhando Maria Jos com doura.
     Ela respirou fundo.
     -        Apesar do meu sofrimento - disse - nossa conversa fez-me bem. Deu-me calma. Desejo, com sinceridade, que consiga ajudar Maria Antnia. De certo modo, 
invejo-a.
     -        No diga isso. Voc  muito mais feliz do que ela. Tenho tentado faz-la entender certos valores da vida, contudo at agora no consegui nada. Temo 
pelo seu futuro. Vive de iluses e enganos. A vida, por certo, vai mostrar-lhe a verdade.
     -        Se  assim, no precisa preocupar-se. Um dia ela entender.
     -        O que me preocupa  o preo que ela ter que pagar! Se me escutasse, seu aprendizado seria menos penoso. A dor sempre  mais forte quando o endurecimento 
 maior! De qualquer forma, estarei a seu lado para ampar-la nos momentos difceis. Quero que compreenda e no veja em Maria Antnia uma rival. Antes, veja nela 
a filha necessitada e doente que precisamos socorrer, amparar. Peo ao seu corao de me que a coloque em suas oraes como Rosa ou Ana. Para mim, todos so meus 
filhos, inclusive Maria Antnia.
     Maria Jos enterneceu-se.
     -        Tem razo. Vou orar por ela.
     Menelau olhou-a com olhos brilhantes, onde as lgrimas pontilhavam, tomou sua mo e beijou-a com carinho.
     -        Deus a abene. Agora, v descansar. Amanh  outro dia.
     -        Boa noite, Menelau.
     Eleonora olhou Demerval, sria.
     -        Melhor assim. Parece que no vo ficar juntos.
        - Voc contenta-se com pouco - disse Demerval, rancoroso.
        - No ficaram hoje, mas amanh, quem garante? Depois, eles nos traram de novo.
       Enganaram-me. Romualdo no  meu filho. Fui trado! Que me importa o que faro agora? Fui enganado. No aceitarei isso nunca. Hei de vingar-me deles e daquele 
negro fedido que me tirou a vida. Voc vai ajudar-me nisso.
     Eleonora olhou-o, firme:
     -        J tenho muitos problemas. No vou meter-me no que no me diz respeito.
     -        Como no? Por acaso Menelau no traiu a sua confiana? O que adiantou haverem prometido cumprir seu dever se fizeram tudo outra vez?
     -        No me envolverei em seu caso com o Neneu. Chega de confuses comigo. Agora, s quero ajudar Antonieta.
     -        No di ouvi-los dizer que se amam?
     -        Di. Mas tudo quanto fiz contra Isabel no fez Raul gostar mais de mim. Ao contrrio. Fui ficando cada vez mais feia, mais pobre, mais infeliz enquanto 
ela est cada vez mais linda e, s vezes, at tem alguma luz. Perdi muito tempo querendo vingar-me e no cuidei de mim mesma. Sou mulher! Sinto-me humilhada quando 
me vejo to plida, mal-vestida, magra, envelhecida.
     -        Bobagens - fez Demerval, irritado.
     -        Preciso melhorar, evoluir. Sinto-me cansada.
     -        Pois eu, no. Hei de vigi-los dia e noite. Vo me pagar.
     Eleonora deu de ombros.
     -        Faa como quiser. Eu s vou interferir se ele largar Antonieta para ficar com Isabel. Ele prometeu ajud-la e eu pretendo vigi-lo. Antonieta no est 
bem e, a cada dia, envolve-se em novas aventuras. Quando ir entender?
     -        Eu no saio daqui. Maria Jos  minha mulher. Esta  minha casa. Vou morar aqui e tomar conta de tudo.
     -        Cuidado - tornou Eleonora. - Maria Jos tem amigos que a protegem. Podem expuls-lo.
Demerval cerrou os punhos, com fora.
     -        Ningum me tira daqui. Bem que eles rezam e esse tal Eduardo sempre interfere em meu caminho. Ainda vou preparar uma boa armadilha para ele. Voc vai 
ver! Depois, tem aqueles negros. Odeio negros! A Zefa no perde por esperar. O Bentinho tem parte com o diabo, mas um dia ainda acerto as contas com ele. Se eles 
sassem daqui, tudo seria mais fcil para mim.
Eleonora sacudiu a cabea:
     -        No sei no. Tenho visto muitas coisas na vida. Nem tudo o que queremos fazer, ns conseguimos. Os filhos da luz aparecem quando menos esperamos e 
mudam tudo. No sei como eles fazem isso. So poderes que desconhecemos. Se eles aparecerem, voc no vai resistir.
     -        No  justo que eles apaream aqui. Estou cheio de razes. Tenho meus direitos. Eles so sagrados!
Eleonora sacudiu a cabea:
     -        No pretendo desanim-lo, mas eles tm suas prprias leis. So diferentes das nossas. E o pior  que eles provam que ns  que estamos errados!
     -         inacreditvel!
     -        De qualquer forma, tenho aprendido que no  de bom alvitre contrari-los. Eles so sempre os mais fortes.
     -        Podem nos agredir? - indagou Demerval, admirado.
     -        No. Isso eles no fazem. No d para explicar. Eles sabem tudo que se passa dentro de ns, melhor do que ns prprios. Conhecem nossas vidas passadas 
e tudo o mais. No sei o que acontece quando eles nos aparecem. Eu fico envergonhada, sinto-me insegura, tenho vontade de chorar, arrependo-me de muitas coisas, 
e tudo se modifica a meus olhos. Tenho vontade de ser melhor, de fazer coisas boas.
     -        Eles tiram sua fora. Voc fica fraca.  penoso.
     -        No. Sinto-me sem foras no primeiro instante, mas depois, parece que tenho mais alegria e que a vida ainda poder ser melhor. Eles sempre dizem isto.
     -        Claro. Pretendem nos convencer.
     -        Isso eu no sei. Mas eles sabem mais, tenho certeza. Os conselhos que me deram tm me ajudado muito. J moro em um lugar mais limpo e vivo melhor. 
     -        Parece que j conseguiram tudo com voc. Comigo ser diferente, ver.
Eleonora abanou a cabea enquanto dizia:
     -        No creio. Seria melhor se voc no se envolvesse tanto. Ficasse como eu, na observao dos fatos. S agindo se for preciso.
     -        Esperar o qu? Eles se amam e fazem planos para ficar juntos quando Maria Antnia morrer. E ns? Como ficaremos? Somos casados! No posso ser jogado 
fora como se nunca mais fssemos nos encontrar! Estou vivo e sinto por Maria Jos o mesmo amor de sempre.
Eleonora suspirou, triste:
     -        Isso pensava eu! Porm, aqui onde estamos agora, os costumes so outros.  bom que saiba que o casamento, que valorizamos tanto na Terra, aqui, no 
significa nada. As autoridades no nos do razo. Dizem que a unio na Terra s continuar aqui se os dois quiserem. Que a morte libera do compromisso. Que aqui 
s se unem os que tm amor. E precisa haver reciprocidade.
     -        Que injustia! Maria Jos casou-se porque quis. No a obriguei. Fui sempre um bom marido. Embora reconhea que meu corpo tenha morrido, eu estou vivo! 
Sou o mesmo.
     -        , meu caro. Vai ter que ter pacincia porque as coisas so como so e no podemos mud-las.
     -        Isto  uma mentira, uma iluso! Na Terra eles esto todos enganados.  preciso dizer-lhes a verdade. Algum precisa gritar que estamos vivos e que 
a morte  s uma mudana insignificante. Quero ver se ela, sabendo que estou aqui, vai ter o descaramento de dizer que ama outro homem!
     -        Quando estamos no corpo e na Terra, vemos as coisas de modo diverso. Eu mesma nunca acreditei que algum pudesse viver depois da morte do corpo. Essa 
iluso custou-me anos de lutas e sofrimentos. No adianta querer mostrar-lhes a verdade. Poucos acreditaro.  perda de tempo. Se quer mesmo saber, o melhor que 
tem a fazer  procurar cuidar da sua vida como puder. Pense em voc, na sua felicidade e deixe os que esto na Terra. Vai sentir-se melhor.
Demerval riu, olhando-a com desconfiana. Depois disse:
     -        Voc diz mas no faz. Fica atrs do Menelau.
     - Fico. Temos um compromisso. Mas no estou mais o tempo todo ao lado dele. Tenho procurado j algum trabalho para fazer. Embora no tenha conseguido ainda, 
procuro aprender o que posso. Desejo melhorar um dia, quando tudo passar, e ser feliz!
-        Pois eu no saio daqui. Estou resolvido.
     Eleonora sacudiu a cabea e no insistiu. Saiu do aposento, foi-se embora. Demerval, decidido, dirigiu-se ao quarto da esposa que se preparava para deitar-se 
e acomodou-se na poltrona ao lado da cama.
     Vendo Maria Jos deitar-se, sentiu vontade de estender-se no leito a seu lado, mas naquela noite, embora tentasse, no conseguiu. Havia como que uma barreira 
entre ele e a cama, e, por mais que insistisse, no pde ultrapass-la. Contrariado, acomodou-se na poltrona, disposto a ficar.

CAPTULO 17

     Maria Jos levantou-se da cama cedo, abriu as janelas deixando o ar fresco da manh penetrar no aposento. Sentia-se melhor, mais calma. A conversa que tivera 
com Menelau fora muito proveitosa. Saber que ele a amava dava-lhe sensao de segurana e paz.
     Apesar da tristeza de no poder realizar seus desejos de uma vida em comum, saber que era amada com tanto ardor aquecia-lhe o corao. Enquanto se vestia, pensava: 
Menelau era homem de f. Ah! se ela pudesse ter a mesma certeza do futuro! Se ela pudesse acreditar que tudo que ele dissera sobre o passado fosse verdade!
     s vezes parecia-lhe sentir dentro do corao que realmente as coisas no poderiam ter sido diferentes. Sua ligao com Menelau era muito profunda e, mesmo 
antes de apaixonar-se pelo cunhado, Maria Jos sentia-se culpada por no amar Demerval.
     Momentos havia em que uma sensao de adultrio incomodava-a, como se j houvesse acontecido. Era difcil explicar sentimentos to contraditrios que a envolviam 
fazendo-a sentir-se inferiorizada diante do marido, aceitando, por isso, suas imposies.
     Se a histria de Menelau fosse verdadeira, se ela houvesse mesmo desfeito o lar dele, tudo se explicava, o amor de seus filhos pelo tio e at a perseguio 
da ex-esposa de Menelau.
     Havia momentos em que se sentia esperanosa. Quando tudo passasse, ela e Menelau poderiam ficar juntos para sempre. Quando cada um dos interessados entendesse 
que ningum  dono de ningum e que s o amor estabelece os laos da unio entre as criaturas, ento seriam livres para seguir o prprio caminho. Em outras ocasies, 
a incerteza atormentava-a. E se tudo no passasse de uma iluso? E se estivessem jogando fora a oportunidade de serem felizes por uma mulher que no o amava nem 
se preocupava em viver a seu lado? E se Maria Antnia desejasse a separao?
     Como descobrir a verdade? Demerval, que a observava, aproximou-se dizendo-lhe aos ouvidos:
        - Estou aqui! A morte  iluso. Estou vivo. No aceito sua traio. Se viver com ele, farei sua vida um inferno!
     Maria Jos no ouviu, porm desagradvel sensao de culpa a invadiu. Ao mesmo tempo, Demerval sentiu que a barreira entre os dois diminuiu.
     Apesar da indisposio, Maria Jos reagiu. "- No quero pensar nisso - decidiu. - Menelau me ama, sabe o que faz. Se ele tem certeza de que  assim,  porque 
teve provas.  inteligente, srio. No acreditaria nessa histria com facilidade. Eduardo tambm. Depois, que existem foras do outro mundo,  verdade."
     Pela cabea de Maria Jos desfilaram rapidamente as cenas passadas, da doena de Demerval, das provas que tivera da atuao dos espritos. Acalmou-se novamente. 
Se a vida era eterna, ela teria todo o tempo para esperar. Sentiu-se mais tranqila.
     Demerval, irritado, sentiu aumentar de novo a barreira que o separava da esposa. Viu-se empurrado a certa distncia e no conseguiu chegar muito perto dela 
novamente.
     Decidida, Maria Jos foi  cozinha iniciar as providncias do dia. Menelau tambm sentiu-se mais calmo. Percebia que uma situao colocada claramente numa conversa 
sincera e honesta, tinha o poder de diminuir as fantasias e facilitar a escolha do melhor caminho. Ele no tinha nenhuma dvida quanto ao passado e dentro do seu 
corao firmara o propsito de cumprir o dever at o fim, fazendo o melhor que pudesse.
     Sentia por Maria Antnia um amor profundo e sofrido. Desejava proteg-la para que no sofresse. Reconhecia que ela, como mulher, no o atraa. Ela era para 
ele mais uma filha, uma irm do que uma esposa. Era Maria Jos quem fazia pulsar seu corao com mais fora, cujo sorriso encantava-o, cuja proximidade possua o 
poder de faz-lo estremecer. Era-lhe extremamente difcil resistir ao desejo de tom-la nos braos, acariciar seus cabelos, beijar-lhe os lbios com amor.
     Por isso, decidiu vistoriar os negcios para retornar ao Rio de Janeiro o mais breve possvel. Confidenciou com Eduardo:
     - Assim que deixar tudo em ordem, volto para o Rio.
     - Faz bem. Mas deve ficar pelo menos at conseguirmos melhorar o problema espiritual.
     - Parece difcil.
     - Ontem quase conseguimos.
     - Devo ir embora, Eduardo. Meu amor por Maria Jos muito forte. Vendo-a, tendo-a ao lado olhando-me com amor, temo no conseguir dominar-me.
    -        Agora, mais do que nunca,  preciso discrio e seriedade. No se esquea de que Demerval est ao lado dela, vendo tudo, observando o que se passa.
Menelau fez um gesto de contrariedade.
    -        No havia pensado nisso. Acha que ele j sabe a verdade?
    -        No sei. Tudo leva crer que sim.
      - Ontem tivemos uma conversa franca...
      - Ento no tenho dvidas. Ele deve ter ouvido. Tem estado sempre ao lado dela. Isso poder irrit-lo ainda mais.
      Menelau segurou o brao de Eduardo com fora quando disse:
      - Sinto muito.  meu irmo e eu no gostaria de dar-lhe esse desgosto. Deus sabe que o que aconteceu no foi premeditado.
      - Sobre o que conversaram?
      - Sobre a nossa situao. Confessamos nosso amor, mas fiz ver a Maria Jos que precisamos respeitar nossos compromissos de famlia. Combinamos esperar e s 
nos unirmos quando formos livres.
     -        Sbia deciso. Isso deve t-lo acalmado.
     -        No sei. Demerval era muito teimoso. Deve ter-me odiado pelo que aconteceu.
     -        Um dia ele iria conhecer a verdade. Lembrar-se do passado, se  que j no aconteceu. Hoje  noite vamos fazer a prece de sempre. Veremos como as coisas 
esto.
      noite, reuniram-se na casa com Maria Jos, Zef a e Bentinho. Eduardo fez a prece pedindo por aquele lar e, em especial, pelo esprito de Demerval. Ele, no 
entanto, no sara do quarto do casal. Estava resolvido a no se aproximar da reunio. De onde estava, podia v-los, uma vez que as paredes da casa no representavam 
obstculo  sua viso. De quando em vez, olhava-os, desconfiado. Considerava-os inimigos. Sabia que queriam afast-lo dali.
     Bentinho aproximou-se de Eduardo, dizendo em voz baixa:
     -        Ele t no quarto, hoje num qus se cheg. T temeroso, disconfiado. Sinto seus pensamentos de raiva. Num sei o que aconteceu.
         - Vamos continuar em orao - decidiu Eduardo, em voz alta.
alta.
    Demerval no ouvia o que eles diziam, sentiu-se inquieto. O que estariam tramando? Funda curiosidade o acometeu. Talvez fosse melhor aproximar-se um pouco, s 
para saber o que se passava.
    Lentamente foi se aproximando. Eduardo dizia:
     - Senhor, todos ns erramos muito. No temos condies de aconselhar ningum, entretanto, sabemos que Demerval sofre e pedimos por ele, por sua felicidade!
     Demerval surpreendeu-se.
     - Fingidos - pensou ele. - So fingidos. O que eles querem  afastar-me daqui, roubar-me o lar que  meu, minha famlia, meus bens.
     Eduardo prosseguia:
     - Que ele possa compreender as belezas da nova vida, longe das acanhadas barreiras do mundo terreno e sinta despertar em seu corao a alegria de poder viver 
em um mundo mais belo e mais feliz. Ele  livre, Senhor! Pode conquistar a felicidade, a paz, a alegria, o conhecimento. Pode renovar seus valores, alcanar uma 
riqueza que os ladres no roubam nem o tempo destri. Pode deixar o passado triste e doloroso para obter um lugar melhor onde possa entender mais o que  para si, 
para que no venha a sofrer novos desenganos. Demerval - continuou Eduardo com voz comovida - sabemos que est aqui agora. Sentimos sua revolta, avaliamos sua dor, 
estamos tentando compreender suas reaes. No  fcil enfrentar a verdade, nem ser afastado do corpo de carne inesperadamente e com violncia. Ningum aqui poderia 
prever o que aconteceu. Todos estamos tristes, preocupados, sofridos, chocados com os acontecimentos que enlutaram esta casa.
     Demerval aproximara-se e colocara-se ao lado de Maria Jos. As palavras de Eduardo fizeram-no recordar sua morte trgica e as lgrimas desceram-lhe pelo rosto, 
enquanto que uma dor profunda lhe invadia o corao. Por que havia lhe acontecido tal tragdia? pensava, triste. Por que fora arrancado do corpo de forma to brutal? 
Falavam em Deus! Como acreditar que Deus existisse e pudesse permitir que um negro imundo levantasse o brao contra ele?
     Eduardo continuava:
     - Embora estejamos tristes, acreditamos em Deus. Ele est na direo de tudo e se permitiu que isso nos acontecesse, foi para nos ensinar a enxergar os verdadeiros 
valores da vida, O sofrimento desperta nosso corao, arranca as barreiras da nossa indiferena.
     Demerval, magoado, abraou Maria Jos dizendo, triste:
     - No me mande embora de nossa casa. Deixe-me ficar com voc!
Maria Jos sentiu-se angustiada, triste. O peito oprimido, apertado e ela comeou a chorar dando vazo a imensa amargura e ao desencanto que lhe iam na alma. Um 
sentimento de pena, misturado a certo remorso, faziam-na recordar-se de Demerval na juventude, quando o conhecera, e nos momentos melhores que haviam desfrutado 
juntos. O que poderia fazer em favor dele?
     Eduardo prosseguiu:
     -        Demerval, ns no somos seus inimigos. Desejamos que sinta nossa amizade e o desejo de ajud-lo de verdade.
     Sem poder conter-se mais, Demerval, abraado  Maria Jos, gritou:
     -        Como pode dizer isso? Vocs querem me ver longe daqui. Querem ver-se livres de mim para fazerem o que desejam de suas vidas!
     Maria Jos pronunciara essas palavras com a fora que a revolta aumentava. Apesar de perceber que suas palavras saam pela garganta de Maria Jos, Demerval 
exultou. No se deteve para pensar o que estava ocorrendo. Agarrou-se  chance de ser ouvido pelos presentes com todas as foras do seu pensamento. Poder conversar 
de novo com os vivos era uma oportunidade que ele no desejava perder.
     -        Traidores! - gritou, sentindo recrudescer toda fora do seu dio. - Como puderam ser to vis? Como puderam me trair to vergonhosamente? Pensaram que 
eu no fosse descobrir? Pois se enganaram. Sei de tudo, entenderam? De tudo!... Estou aqui para vingar-me. Esta casa  minha, tudo aqui  meu. Ningum vai roubar-me 
os direitos. Sou o dono de tudo.
     Menelau, emocionado, pedia em pensamento ao irmo que o perdoasse. Orava por ele com sinceridade. Eduardo esperou que ele desabafasse falando do seu inconformismo, 
da sua revolta, da sua dor. Quando o viu mais calmo, disse, com voz firme:
     -        Reconheo que tem razo em muitas coisas.
     -        Tenho - retrucou Maria Jos, com convico.
     -        Porm - prosseguiu Eduardo - o que aconteceu  passado, no tem remdio. Por mais que tentemos, no vamos poder modificar os fatos. De que adianta 
agora continuar sofrendo por um mal sem remdio?
-        Sem remdio? Eu j tenho a melhor soluo. Agora que todos aqui sabem que eu no morri, que continuo vivo, devem concordar que o chefe desta casa ainda 
sou eu. Estou conformado com a mudana, reconheo que no posso reaver meu corpo, que j foi todo destrudo. Posso continuar dirigindo meus negcios, morando nesta 
casa, e tudo voltar a ficar na mais perfeita ordem. Basta fazerem o que eu quero.
     -        Sinto, Demerval, mas  impossvel. Precisamos itender a vontade de Deus. Cada um deve viver onde a vida o coloca. Se voc devesse continuar aqui, comandando 
tudo, estaria com seu corpo de carne. O que voc pretende no est certo para dona Maria Jos. Ela tem o direito de viver em liberdade sem ser forada a fazer coisas 
que no deseja.
     -        Ela  minha mulher, precisa ser submissa ao marido.
     -        Ela foi sua mulher - disse Eduardo, com energia. - O casamento acabou quando seu corpo morreu. Voc foi chamado por Deus para viver em um outro mundo, 
para o qual todos ns iremos um dia.
     -        O casamento  indissolvel. A Igreja diz isso.
     -        At que a morte os separe. No foi isso que o padre disse na hora do casamento? Lembre-se bem, at que a morte os separe. Voc j morreu para a Terra, 
deve conformar-se e enfrentar a verdade.
     Demerval sentiu um aperto no corao. Era verdade, O casamento fora realizado "at que a morte os separe", dissera o padre. No era justo, pensava, no era.
     -        Eu amo Maria Jos - tornou, com voz triste.
     -        Ela tambm o quer bem. Mas o amor deve saber esperar, colocar o bem-estar e a felicidade do ser amado acima da sua prpria.
     -        No posso ir embora - disse Maria Jos, entre lgrimas.
        - Ela no vai saber fazer tudo sozinha. Vai perder tudo.
     -        No  verdade. Ela tem condies de cumprir seu dever at o fim e muito bem.
     -        No quero que aquele traidor a ajude. Preciso defend-la.
     -        No precisa. Voc morreu para a Terra. Deve aprender a viver melhor no mundo para onde foi chamado. Cada coisa deve estar no seu lugar.
     -        No vou - disse Demerval. - Meu lar  aqui. Para onde iria? No conheo nada nem ningum.
     -        No ser para sempre. Voc no est bem de sade, precisa tratar-se.
-        No quero, estou muito bem - tornou Maria Jos, aflita, sentindo uma dor aguda no peito e grande falta de ar. Demerval levou a mo ao pescoo que inchara 
novamente e comeara a arroxear:
     - Voc est doente - disse Eduardo, com suavidade. Precisa tratar-se. O mdico j veio para ajud-lo.  s por algum tempo, quando estiver melhor, poder voltar 
e conversaremos.
     Demerval, sentindo fraqueza, receando perder os sentidos, disse, nervoso:
     - Prometa que durante esse tempo ele ir embora! Prometa que ele no estar aqui.
     - Prometo - disse Eduardo. - V em paz. Ele ir embora o quanto antes.
     - Est bem - disse Maria Jos, num sopro. - Eu vou. Mas eu volto assim que puder.
     Eduardo continuou orando mais alguns minutos. A cabea de Maria Jos pendeu sobre a mesa e fundo suspiro saiu-lhe do peito.
     Demerval foi acometido de grande fraqueza. Percebeu que alguns braos o sustinham enquanto uma voz de mulher lhe dizia:
        No  nada. Deite-se aqui. Vamos cuidar de voc. Tudo vai passar.
     Acomodaram-no em uma maca enquanto um mdico de fisionomia serena colocava a mo sobre seu pescoo.
     - Vamos orar com eles - pediu aos dois assistentes e enfermeira que os acompanhava.
     Eduardo tomou a mo de Maria Jos e pediu a Zefa que segurasse a outra.
     - Vamos fazer uma corrente para refazer as energias dela. Vai precisar.
     Todos deram as mos enquanto Eduardo, comovido, fez sentida prece agradecendo a Deus a ajuda recebida. Uma brisa leve e delicada desceu sobre eles enquanto 
Maria Jos, cabea pendida sobre a mesa, continuava adormecida.
     Menelau, lgrimas descendo pelas faces, orava pensando na angstia do irmo, sua dor, seu desespero. Sentiu vergonha de t-lo trado. Ele tinha toda razo em 
odi-lo. Fora trado duas vezes. Agora, porm, seria forte o bastante para cumprir seu dever at o fim. No daria mais motivos para Demerval sofrer. Seu amor, sua 
felicidade, poderiam esperar.
     Eduardo encerrou a prece e, antes que acendessem os castiais, o grupo de espritos, a uma ordem de seu chefe, levantou a maca onde Demerval jazia adormecido 
e saram. Maria Jos suspirou, remexendo-se na cadeira. Levantou a cabea passando a mo pela testa e em seguida colocando-a sobre o peito.
     O        Bentinho acendera as velas e Eduardo pediu:
     -        Zefa, faa um caf para dona Maria Jos. Ela precisa.
     A negra saiu, rpida. Maria Jos, preocupada, disse:
     -        No estou bem. Sinto-me fraca, angustiada. Tenho medo.
     -        De qu? - perguntou Eduardo.
     -        No sei. Sinto-me aflita.
     -         natural - esclareceu Eduardo. - Demerval estava a com a senhora.
     -        Ele foi se embora - garantiu o Bentinho. - Eu vi. Veio o dot e lev ele deitado no lenol. Os assistente dele ajudaram. Ele estava dormindo.
     -        Muita dor no peito e na garganta - disse ela.
     -        Ainda sente? - perguntou Eduardo.
     -        Melhorou, agora passou.
     -        Deve compreender. Quem sentia tudo isso era Demerval.
     -        Mas eu senti em mim. Eu me senti como se fosse ele. castigo de Deus pelos meus erros. Sinto-me culpada pelos seus sofrimentos. Estou arrependida. 
Fui muito fraca.
     Menelau ouvia sem dizer nada. Foi Eduardo quem respondeu:
     -        Reconhecer os erros sempre  til, porm, no cultive a culpa nem faa dela motivo para punir-se pelo que aconteceu. Todos ns temos momentos em que 
nos deixamos envolver pelos sentimentos. Quando isso acontece, no estamos pensando em prejudicar ningum. Entretanto, quando passa o momento, percebemos que ferimos 
os outros e nos arrependemos. Por outro lado, os outros tambm nos cobram coisas que ainda no temos condies de dar. Assumimos compromissos afetivos com muita 
facilidade e, quando descobrimos que nos enganamos, estamos envolvidos, sendo por vezes difcil colocar as coisas nos devidos lugares.
     Maria Jos ouvia pensativa e triste. A um gesto de Eduardo, Bentinho saiu da sala. Eduardo continuou:
     -        Apesar de tudo, a senhora gosta de Demerval.
     Maria Jos corou um pouco quando disse:
        -  verdade. Ele era implicante, teimoso, exigente, mas sempre me respeitou.  o pai dos meus filhos e a forma como morreu me chocou muito. Depois, tivemos 
momentos bons. Sinto por ele amizade e desejo que ele esteja bem.  por isso que me sinto culpada pelos meus erros. Fui spera com ele, fiz coisas das quais me arrependo.
Eduardo olhou-a, srio, dizendo com voz firme:
    -        Dona Maria Jos, no se culpe de nada. No  fcil resistir ao amor, principalmente quando represado durante tanto tempo.
    -        Eu fui o culpado - retrucou Menelau. - Eu tinha o dever de conter-me. Afinal, meu irmo estava doente e indefeso.
    -        Agora vocs pensam assim. Porm, vocs se amam h longo tempo. Um amor que venceu as convenes e que vocs colocaram acima de tudo, e que, ainda hoje, 
apesar de estarem separados, ainda foi forte o bastante para faz-los esquecer de tudo o mais. No invalidem esse amor que sentem um pelo outro porque ele  vida, 
fora, luz e beleza. No o reduzam a um sentimento pequeno, de culpa e de arrependimento.
    -        Mas ns erramos. Fracassamos por causa desse amor... -disse Maria Jos, olhando para Eduardo com olhos magoados.
-        Voc no perceberam que podiam machucar os sentimentos dos outros. No se entregaram ao amor pretendendo a infelicidade alheia. Esperavam que, tanto Demerval, 
que naquela existncia passada fora seu marido, quanto a esposa de Menelau, que sabemos chamar-se Eleonora, esquecessem e reconstrussem suas vidas. Porm, eles 
no aceitaram e o sofrimento deles, dos filhos, fizeram vocs comprenderem que  preciso libertar-se dos compromissos com dignidade e responsabilidade, antes de 
procurar a prpria felicidade. Ns nunca seremos felizes deixando de lado as ligaes e os deveres que assumimos.  por isso que  prudente, antes de iniciarmos 
novos relacionamentos, de assumirmos novos encargos, de empenharmos nossa palavra ou prometermos isto ou aquilo aos outros, refletirmos bastante, procurando perceber 
nossos verdadeiros sentimentos, nossas reais possibilidades. Quando estamos na Terra reencarnados, a facilidade com que nos envolvemos em unies ou casamentos errados 
tem nos custado muitas encarnaes de lutas, sofrimentos perfeitamente dispensveis. As pessoas casam-se iludidas por muitas coisas, inclusive para no ficarem ss 
e acabam por no encontrar o afeto de que precisam e simplesmente descobrem a incompatibilidade, a infelicidade. No se sentem felizes juntas, ao contrrio, a unio 
torna-se um suplcio a que voluntariamente se impem. A, entram depois o preconceito, o orgulho, os filhos, os costumes, tudo, fazendo-s continuar juntos, sem 
coragem para resolverem seus problemas. Eis que ento o amor pode aparecer, e quando isso acontece, o        homem procura no perder a oportunidade, quase sempre 
sem deixar o compromisso anterior perante a sociedade e leva vida dupla. A mulher, mais reprimida, contm-se mais, sofrendo o resto da vida; isso quando no comete 
adultrio, sentindo-se culpada e infeliz.
     Maria Jos e Menelau ouviam atenciosos e pensativos, cabea baixa, cada um procurando analisar seus sentimentos.
     -        O amor no  isso - continuou Eduardo. - O amor fora, beleza, traz felicidade, plenitude, paz.
     -        Para mim s trouxe a dor - murmurou Maria Jos.
     -        Voc preferiu assim. Se buscarmos o passado, pelo que sabemos, Menelau era Raul, possua quatro filhos e era casado com Eleonora. Por que o teria feito? 
No sabemos. Teria sido por amor? Voc era Isabel e casou-se com Ulisses (Demerval). Ficou claro que voc casou-se muito jovem. Teria sido por amor? No teria havido 
leviandade, pressa, convenincia ou at curiosidade? Infelizmente grande parte dos casamentos se realizam assim ou so decididos pelas famlias.
     -        O meu casamento com Demerval foi assim - esclareceu Maria Jos. - As famlias decidiram.
     -        Seu casamento com Demerval foi uma escolha sua antes de nascer na Terra. Voc arrependeu-se de t-lo abandonado em outra vida e agora estava interessada 
em resolver seu problema com ele. Contudo, em vidas anteriores, no incio do seu relacionamento com ele, quando o encontrou pela primeira vez, como teria sido sua 
ligao com ele? Como teria sido seu envolvimento?
     -        s vezes, pensamos amar uma pessoa e nos enganamos. Com o tempo, deixamos de amar. Mesmo assim, nosso compromisso com ela continua? - indagou Menelau, 
pensativo.
     -        As pessoas conhecem-se, envolvem-se, trocam promessas, cobram-se mutuamente e, para que essa situao se modifique naturalmente,  preciso que ambas 
desejem desligar-se e juntas concordem com a separao. S assim cada um ser livre para seguir adiante.
     -        E quando um no concorda? E quando s um deseja a separao? - inquiriu Maria Jos.
     -        O outro se sentir infeliz, sofrer e o orgulho ferido  perigoso instrumento de perseguio e de vingana.
     -        Como continuar a viver juntos quando acaba o amor? - retrucou ela.  
     -        O amor no acaba nunca. Podemos senti-lo de diversas formas e a vida, a reencarnao favorecem a que ele cresa sempre rumo ao seu objetivo maior, 
que  o amor sincero e fraterno entre todas as criaturas. O que costuma acabar so as nossas iluses, nossos enganos. A verdade acaba aparecendo, mostrando que o 
sentimento a que demos o nome de amor no passa de interesse, convenincia, vontade de amar, imaturidade, falta de pacincia para esperar as coisas acontecerem. 
A prudncia nos faz tentar compreender nossos verdadeiros sentimentos para que a leviandade no nos coloque em problemas desnecessrios.
     -        Quando jovens, somos to inexperientes! As iluses, os sonhos! - tornou Maria Jos.
     -         verdade. Ser jovem na Terra,  uma situao que todos recapitulamos em cada encarnao.  o momento em que assumimos a direo de uma nova existncia, 
de novas oportunidades de progresso e amadurecimento. Colocamos nisso toda nossa fora. Nosso esprito sabe que pode vencer, conquistar a felicidade e, para isso, 
dever aproveitar cada minuto. Contudo, sem orientao espiritual, sem comprender bem os valores da vida, muitas vezes colocamos essa fora na satisfao dos sentidos 
fsicos, na busca de emoes desordenadas. Nos iludimos querendo "aproveitar" essa fase, que sabemos passageira, deixando de lado o bom senso, a ponderao e nos 
envolvemos em compromissos e promessas que, por certo, nos sero cobradas na hora certa. H quem mencione esses atos como loucuras da mocidade, como se isso fosse 
suficiente para justific-los. A vida, no entanto, no deixar nenhum gesto, nenhuma ao sem resposta, e o far de forma objetiva, para ensinar as lies que se 
deve aprender.
     -        Se pudssemos nos lembrar de tudo das outras vidas, seria melhor. Teramos mais chance de entender - considerou Maria Jos.
     -         primeira vista, parece ser assim mesmo. Todavia, como Demerval iria conviver com Menelau, lembrando-se da traio de outros tempos? Como voc iria 
conviver com seus filhos se eles se recordassem de Eleonora e que Raul os havia abandonado por sua causa?
-        Deus nos livre! Eu no saberia como educ-los. Maria Jos estremeceu horrorizada.
     -        Deus  to bom que nos permite esquecer os erros passados e nos oferece a chance de refazer nossos caminhos - concluiu Eduardo, emocionado.
     -        S nos resta aceitar nosso destino e procurarmos cumprir nosso dever at o fim - ajuntou Menelau, com sinceridade.
     -        O tempo tudo transforma. Se vocs se amam de verdade, sabero esperar, trabalhando para a conquista de melhores dias.
     -        Tenho receio de no conseguir - declarou Maria Jos. -Sinto-me to s! Depois, como orientar meus filhos em meio a tantas dvidas que ainda tenho? 
Como conduzir os negcios sem a mo forte de um homem a meu lado?
Foi Menelau quem respondeu com voz firme:
     -        Confio em voc. Sabe bem como tratar os negcios da famlia. Quanto s crianas, o amor, a dedicao, o bom exemplo sero suficientes.
     -        Concordo - disse Eduardo. - Voc sempre soube conduzir-se. Seu corao de me saber inspir-la nos momentos de deciso.  preciso, contudo, no se 
deixar envolver pela dvida que minar sua fora, tolhendo seus passos. Voc pode vencer todos esses encargos que a vida colocou em suas mos. Deus no exige de 
seus filhos nada que esteja fora de seu alcance fazer. Lembre-se disto. Se a vida solicita de voc essa coragem, essa posio,  porque voc tem condies de sair-se 
bem. Acredite nisso e vencera.
     -        Est certo. Vou esforar-me - prometeu ela.
     -        Melhor assim. Nesse caso, creio que tudo estar em paz -afirmou Eduardo. - Amanh mesmo voltarei ao Rio. Voc volta comigo?
     -        Pode dar-me mais um dia? - indagou Menelau. - o tempo de que preciso para ajudar Maria Jos a encaminhar alguns negcios. Gostaria muito de regressar 
com voc.
     -        Est certo. Partiremos depois de amanh. Sinto-me feliz por havermos conseguido auxiliar Demerval. Vocs contriburam muito para o xito alcanado. 
Compreendendo e aceitando a verdade e tomando a resoluo de cumprir com o compromisso, as coisas se acomodaram. Um dia, tanto Eleonora como Demerval entendero 
que no podem exigir o amor de ningum, procuraro novos caminhos de felicidade verdadeira e vocs estaro livres para seguir juntos sempre.
-        Estarei esperando por esse dia - disse Menelau, olhando firme o rosto emocionado de Maria Jos. - Quero que se lembre disso quando eu partir. Embora meu 
desejo seja estar aqui, no voltarei, a no ser que minha presena seja absolutamente necessria, em benefcio de todos. H de convir que seria muito doloroso e 
difcil vir aqui sem poder extravasar o que me vai no corao. Temo no suportar e fracassar em minha resoluo. O que eu peo  que, apesar de eu no vir aqui, 
voc no se esquea de que a amo muito e que sonho com o dia em que finalmente poderemos estar juntos para sempre.
     Maria Jos sentiu as lgrimas correrem pelas faces, enquanto a dor da separao brotava em seu corao.
     - Farei o possvel para no esquecer - tornou ela. - Quando o tempo passa e a saudade  muita, sinto vontade de saber se nada mudou em seu corao. Preciso 
saber que voc ainda me ama. E esse amor que me d foras para enfrentar as lutas de cada dia. De tempos em tempos, mande-me alguma notcia, para que eu sinta que 
nada mudou entre ns.
     Menelau tomou as mos dela e beijou-as com doura.
     -        Farei o possvel. Escreverei. Quero notcias das crianas, de tudo.
     - Agora, vamos ao caf, todos precisamos de um. Onde est a Zefa que ainda no veio? - indagou Eduardo.
     Imediatamente a serva abriu a porta trazendo a bandeja arrumada com capricho e o cheiro gostoso do caf encheu o ar.
     Naquela noite, apesar dos assuntos tratados, todos sentiam-se mais serenos e confiantes. Havia uma brisa leve e agradvel no ar, tornando o ambiente ameno e 
reconfortante.

CAPTULO 18

     Menelau chegou em casa cansado, abatido, porm sereno. Maria Jos era mulher inteligente, forte, corajosa, iria conduzir a famlia e os negcios muito bem. 
Estava certo disso. Embora desejasse loucamente ficar com eles, aceitara e compreendera que seu lugar era ao lado de Maria Antnia. Seu amor por Maria Jos poderia 
esperar.
     Durante a viagem de volta, conversara longamente com Eduardo e mais do que nunca desejava ajudar a esposa a sair da indiferena e das futilidades em que vivia, 
despertando-lhe o esprito para os valores mais nobres da vida. Confiava no futuro e na eternidade do esprito.
     Gostava de Maria Antnia, sentia por ela ternura e carinho. Desejava proteg-la, faz-la feliz.
     Procurou pela esposa que estava no quarto. A tarde findava e no era dos hbitos dela descansar nessas horas. Bateu  porta discretamente. A serva abriu e Menelau 
indagou:
     -        Onde est Maria Antnia?
     -        Descansando, senhor.
     -        A estas horas! Est doente?
     -        No senhor - respondeu a serva, atenciosa. - Apenas dorme.
     -        Est bem. Quando ela acordar, diga que cheguei. Vou descansar um pouco, nos veremos ao jantar.
     A ama concordou com a cabea e Menelau retirou-se. Mandou preparar um banho e depois, mais refeito, estendeu-se no leito para repousar.
     Quando mais tarde dirigiu-se ao salo, Maria Antnia j estava l. Olhou-o com certa indiferena. Menelau aproximou-se beijando-lhe a face.
     -        Espero que esteja bem.
     -        Estou. No sabia que havia chegado.
     -        No houve como avisar. No fui para demorar. Resolvi os negcios e voltei. No me d as boas-vindas?
     Maria Antnia olhou-o um pouco contrariada.
     -        No concordo com suas viagens para ajudar aquela antiptica. Voc cansa-se inutilmente. Melhor faria cuidando dos nossos negcios.
     Menelau olhou-a com naturalidade quando respondeu:
     -        Nossos negcios esto bem.
     Aproximou-se dela e, tomando sua mo com delicadeza, continuou:
     -        Eles so nossos parentes e esto precisando de apoio. Gostaria que voc me ajudasse.
     Ela deu de ombros.
     -        No me envolva nesses problemas. So aborrecidos. Ademais, Maria Jos sabe defender-se muito bem. No vejo porque apoi-la. Nunca nos demos bem. Seu 
irmo sempre foi um excntrico que jamais moveria uma pena se, ao invs dele, fosse voc quem tivesse morrido.
     -        O que ele teria feito, no sei. O que sei  que eu estou aqui e devo proceder conforme minha conscincia. Depois, h as crianas. Precisam de afeto. 
No temos filhos. No gostaria de receb-los aqui de vez em quando?
     -        Deus me livre! No suporto crianas. No quero nem os meus, quanto mais os dos outros. Que idia!
     Menelau mudou de assunto. Todavia, em seu corao havia muita tristeza. Maria Antnia ainda estava muito distanciada dos princpios de amor e de fraternidade 
para os quais ele desejava despert-la. Necessitava de pacincia. Para interess-la, perguntou sobre as novidades da corte e viu seu rosto modificar-se enquanto 
descrevia as ltimas recepes, os saraus, as intrigas palacianas e at as novidades da moda.
     Procurando esconder seu desgosto, Menelau mostrou-se atencioso. Sentia que, para chegar at ela, deveria compreender sua maneira de ser. Mais tarde, meditando 
em seu quarto, interessado em melhorar seu relacionamento com a esposa, comeou a questionar se ele, por sua vez, no estaria sendo muito austero. No gostava de 
danar, nem das festas palacianas. Talvez sua companhia fosse pesada demais para Maria Antnia. Se desejava que ela o aceitasse, deveria conquistar-lhe a estima, 
a amizade. Ela no o amava. Ao contrrio, parecia aliviada quando ele a deixava s. No se magoava por isso. Ele tambm no a amava como mulher. Acreditava sinceramente 
que ela houvesse sido sua filha em encarnao anterior.
     Podia am-la como pai. Ela, talvez, nem isso pudesse sentir. Ele fora um mau pai, era justo que ela no sentisse afeto por ele. Menelau desejava ardentemente 
conquistar esse afeto.
     Comovido, sentindo-se impotente, recorreu  prece, pedindo a Deus que o ajudasse a vencer a resistncia daquele corao. Era reconfortante conhecer o passado 
e agradecia  Providncia Divina por isso. Aliviado, adormeceu.
     Nos dias que se seguiram, Menelau procurou dedicar-se mais  esposa, esforando-se para interessar-se pelos seus gostos e desejos. Maria Antnia estaVa contrariada. 
Preferia que o marido continuasse indiferente como sempre fora. Desejava liberdade. Sua presena a aborrecia. Achava-o antiquado e sem graa. Logo agora, que ela 
tinha encontrado o amor!
     Maria Antnia amava e era correspondida. Exultava ao recordar-se dos encontros secretos onde podia extravasar tudo quanto lhes ia na alma.
     Infelizmente, ela no era livre. Apesar de guardar as aparncias, muitos homens haviam passado por sua vida. Bonitos, elegantes, apaixonados e ela mergulhara 
na aventura, desejosa de tirar da vida as sensaes, sentindo-se requestada, amada, desejada, sem pensar em sair da cmoda posio de esposa de um homem srio e 
respeitado por todos.
     Fora sempre muito discreta. Seus casos comeavam e acabavam secretamente, sem que ela manifestasse o desejo de um lao mais profundo. Com o Alberto era diferente. 
A seu lado, sentia-se apaixonada e trmula. Quando em seus braos, esquecia de tudo e, pela primeira vez, um cime ardente e descontrolado enchia seu corao de 
inquietude.
     Alberto lvares de Camargo, era filho do Visconde de Abaet, homem muito rico e respeitado na corte. Alto, louro, olhos cor de mel, lbios bem torneados e um 
sorriso cativante. Era disputado pelas mulheres que ele sabia bem conquistar. Exmio danarino, palavra fcil, galanteador, contavam-se as dezenas suas apaixonadas. 
Tinha j vinte e seis anos e conservava-se solteiro, apesar de ser timo partido, pela sua posio e pela sua fortuna.
     Maria Antnia, a princpio, aproximara-se dele envaidecida pelo seu interesse. Mas, desta vez no ficou imune. A paixo irrompeu dentro do seu peito e ela rendeu-se 
ao amor,  emoo, sem pensar em mais nada.
     H dois meses que eles encontravam-se secretamente em uma casa discreta de uma dama distinta, amiga dele. Maria Antnia apaixonara-se perdidamente. Se ele quisesse, 
ela o teria esquecido, abandonado o marido, sua posio social, tudo. Alberto, porm, no gostava de escndalo. Suas aventuras no podiam prejudicar seu bom nome 
e o de sua famlia. Queria divertir-se, mas no envolver-se. Gostava de ser respeitado e guardava ainda no ntimo a idia de um dia, quando julgasse oportuno, encontrar 
uma moa boa, pura, e constituir famlia, como seu pai fizera. Maria Antnia era mais uma aventura em sua vida.
     Ela, contudo, desejava mais. Ele, com sinceridade, dizia-lhe que no era possvel. Sentindo-o dono de si, percebendo que ele no a amava tanto quanto ela, um 
cime doentio a dominara. Entretanto, temerosa de perder seu amor, tornara-se submissa. Pela primeira vez em sua vida no era ela quem ditava as normas.
     Movida pelo cime, Maria Antnia comparecia s festas e comemoraes onde Alberto estava, procurando dissimular seu interesse, sofrendo ao v-lo cortejar outras 
mulheres, como sempre fizera, e, por sua vez, ocultando sua ligao com ela.
     A presena de Menelau querendo ir com ela, saber de sua vida, participar dos seus interesses, irritava-a. Por que ele no a deixava em paz? Por que intrometia-se 
tanto? No o amava e sabia que ele tambm no. Por que insistia?
     O que ela desejava mesmo era pensar no Alberto, estar com ele, enfeitar-se para ele. Contava os dias e as horas que faltavam para ir ao encontro dele. Quando 
estavam a ss, corria para seus braos, trmula e esquecia do mundo.
     Alberto entregava-se a esses encontros com prazer: sentia-se atrado por ela, mulher ardente e caprichosa, que ele conseguia dobrar com facilidade. Ela despertava 
suas emoes, seus desejos e ele mergulhava em seus braos com ardor. Saindo dali, esquecia-se rapidamente e, voltando s suas ocupaes habituais, era como se ela 
no existisse.
     No acontecia o mesmo com ela, que passava o resto do tempo recordando aqueles momentos, sentindo sua paixo aumentar e a vontade de estar com ele de novo.
Menelau sentia que seu esforo de aproximao com a esposa no era bem recebido. Ao contrrio. Ela mostrava-se irritada e distante. Quando insistia em acompanh-la, 
era ainda pior. Evitava-o. Parecia at sentir-se mal. Suas tentativas de nada lhe valiam, sentia-se deslocado e infeliz, notando que ela cada vez se afastava mais.
    Aborrecido, sem saber como proceder, Menelau desabafou com Eduardo. Ele continuava a freqentar as sesses espritas realizadas na casa do Sampaio, onde estudavam 
os fenmenos e ouviam mensagens dos espritos atravs de uma jovem mdium que justamente com o marido l comparecia.
    Foi depois de uma dessas reunies, quando se viu a ss com Eduardo, que ele abriu o corao. Descreveu seu esforo para aproximar-se de Maria Antnia sem obter 
xito. Concluiu:
        No sei como agir. Noto que ela est ansiosa, agitada. Nos ltimos tempos no me parece bem. Eu diria at que est descontrolada. Contudo, at agora, no 
consegui nada com ela. Tudo o que fao s tem piorado nosso relacionamento. O que fazer?
    Eduardo permaneceu calado durante alguns instantes, depois respondeu:
     -        Nada. No momento, nada.
    Menelau olhou-o admirado:
    - Nada? Sinto que ela no est bem, quero ajud-la, despert-la para o bem, evitar que continue a sofrer, a destruir-se e voc me aconselha a no fazer nada?
    Em seu tom havia certa decepo. Eduardo, com um brilho vivo nos olhos, fixou o amigo, dizendo com firmeza:
     -        No momento o melhor ser no fazer nada. Voc tem tanto para dar, conhece j os problemas do passado, despertou para a responsabilidade da vida, descobriu 
as leis morais que regem nossos atos. Preocupa-se, notando que ela ainda desconhece essas coisas; sabe que ela vai sofrer, quer evitar esse sofrimento. Entretanto,
dona Maria Antnia ainda no est pronta para receber tudo isso. No amadureceu o bastante para enxergar. No possui "olhos de ver".
     -        Eu estou ao lado dela para mostrar-lhe a verdade. Deve haver um jeito.
     -        Certamente. A vida colocou-o a seu lado e vai ajud-lo quando chegar o momento oportuno. O que no pode  querer apressar as coisas. Dona Maria Antnia 
necessita ser trabalhada pela vida. S ela tem recursos para amadurecer seu esprito.
     -        No posso fazer nada?
     -        Pode. Esperar, com pacincia, a hora de agir. Confiar em Deus e saber aproveitar quando a oportunidade chegar.
    -        Parece-me pouco - retrucou Menelau, pensativo.
    -        Engana-se. Voc acredita estar preparado para ajudar. Veremos isso quando a hora chegar.
    -        Por que diz isso? - indagou Menelau, curioso.
    -        Porque ns somos assim. Passamos a vida inteira querendo corrigir os outros, faz-los perceber seus enganos, tentando evitar que sofram. Todavia, quando 
essas pessoas erram, mergulham na desiluso, na revolta, na vingana e no dio nos afastamos delas, as abandonamos a pretexto de reconhecer a inutilidade dos nossos 
esforos.
    -        O que fazer se tudo o que tentamos foi intil?
    -        A cincia de ajudar est na percepo exata da oportunidade. O sofrimento abre as portas da compreenso. O momento em que abandonamos a esperana pode 
ser exatamente aquele em que poderamos alcanar nosso objetivo.
    -        Como saber?
    -        Observando. Entregando a Deus, com confiana, nossa esperana; aguardando a oportunidade para que os acontecimentos, os fatos, nos solicitem compreenso 
e ajuda.
    -         penoso assistir  derrocada moral de algum a quem estamos interessados em levantar sem podermos fazer nada.
    -         verdade. Porm, quando algum escolheu seu caminho mergulhando nos vcios, nos erros e at no crime, est envolvido pelos seus objetivos, apaixonado 
pelos seus prprios projetos de felicidade, jamais ouvir a voz de algum que pretende exatamente que ele renuncie a eles.  preciso que ele experimente suas idias, 
seus desejos e acabe por descobrir o quanto estava enganado. Isso, em certos casos, leva tempo e, s vezes, mais do que uma encarnao, como  o caso de dona Maria 
Antnia. No o ouvir s porque voc deseja. Nesses casos, muitos s se libertam da iluso descendo ao fundo do poo, indo at as ltimas conseqncias.
    -        De que me adiantar haver casado com ela, renunciado aos meus projetos de felicidade pessoal, se no puder fazer nada?
Quando se props a ajud-la, voc sabia das dificuldades. Tinha problemas de conscincia. Ficar ao lado dela, apesar de tudo, vai pelo menos resolver os seus problemas. 
Poder faz-lo perceber exatamente o que teria conseguido como pai, se no houvesse abandonado o lar em sua encarnao anterior. Poder estreitar os laos afetivos 
que os une, fazendo-a modificar sua postura para com voc, pelo abandono que sofreu, pelas dificuldades por que passou. Sempre haver benefcios.
     -        Eu esperava mais. Gostaria que ela enxergasse, que aprendesse.
     -        Isso no depende de voc. Se quer alcanar o mximo, preciso ter pacincia e saber esperar. Embora seja difcil, no deve desanimar. Quem pode saber 
o que vai no ntimo dela? Quem pode julgar? Quem pode garantir que o momento de ajud-la com mais eficincia ainda esteja distante? As coisas se modificam todos 
os dias.
     -        Tenho tentado aproximar-me dela, procurando acompanh-la aos passeios, falar sua linguagem, entender como ela pensa. No est dando certo. Nosso relacionamento 
fica cada dia pior.
     -        Sua inteno  louvvel mas no produzir os resultados que deseja. Est forando uma situao deliberadamente. Voc sacrifica-se para acompanh-la 
e ela sente-se tolhida em sua liberdade. Sente que voc no est sendo sincero fazendo o que ela gosta. Deve estar se perguntando por que voc est fazendo isso. 
Acredite, Menelau, s funciona o que  verdadeiro. S toca o corao o que  autntico, sincero.
     -        Sou sincero. Desejo entend-la, agrad-la, mostrar-lhe o que ela precisa ver.
     -        Imagino como estar seu rosto, num sarau, danando valsas e minuetos, ouvindo as frivolidades e as intrigas de salo ou esperando dona Maria Antnia 
esgotar seu cotelho. No estar vibrando de alegria, por certo.
     Menelau suspirou:
     -        Esses saraus horrveis so interminveis! Fao um esforo enorme para conter-me e no arrancar Maria Antnia de l, irmos embora. Ela  incontentvel. 
Sempre fica at o fim. Promete todas as danas logo na chegada. Parece que faz de propsito, para ter pretexto de no sair antes do final.
     -        Deve detestar sua companhia nesses lugares.
     -        Irrita-se sempre quando eu desejo ir.
     -        Claro. Quem pode divertir-se tendo ao lado algum que no se sente satisfeito e s pensa em ir embora?
     -         mais forte do que eu. Venho me esforando. Suportar essas festas j  difcil, fingir alegria eu no consigo.
     -        Eis o que no funciona. Voc tem outros gostos, outros interesses. No deve forar uma situao. Fica pior. D efeito contrrio.
     -        No devo acompanh-la?  
     -        Se no gosta, se no sente alegria, no deve ir.
-        Nesse caso, como aproximar-me dela? Como compreend-la?
     -        Procure conhec-la melhor, mesmo em casa. Perceber outras coisas que poderiam interess-la alm da vida social. Coisas verdadeiras, naturais. Plantas, 
animais, msica, arte, poesia, pintura, objetos de adorno. Desenvolver o senso natural do esprito sempre ajuda.
     -        . Maria Antnia gosta de luxo e beleza dentro de casa. Vive as voltas com tapeceiros, costureiras, compra bibels e objetos de arte.
     -        Voc no compartilha com a decorao da casa?
     -        No. No entendo disso. Ela sempre sabe como cuidar dessas coisas.
     -        Eis a um ponto positivo. Por que no aprender com ela? Interessar-se pelas peas que ela comprou, pelos mveis, pelas cortinas e almofadas. No aprecia 
uma casa bem arrumada?
     -        Por certo. Gosto dos meus livros, dos quadros de arte, do piano que ela nunca toca.
     -        Por a  que voc deve chegar. Converse com ela sobre o assunto, aprenda a conhec-la melhor em seus lados positivos, incentive-a a desenvolver e at 
perceber aspectos novos da sua personalidade. Ningum pode pretender ajudar, desenvolver, melhorar uma pessoa, conhecendo-a apenas em seus aspectos negativos. Ao 
contrrio,  procurando ver os aspectos positivos, apoiando-se neles que ns conseguiremos promover a criatura, fazendo-a progredir, amadurecer.
     Menelau permaneceu calado durante alguns segundos, meditando. Depois disse:
     -        Tem razo. Entendi o que quer dizer. Tentarei conhec-la melhor. Pensando bem, temos vivido como dois estranhos. Nunca me detive em analisar suas preferncias 
ou qualidades. Foi bom termos conversado.
     -        Lembre-se. Seja verdadeiro. Para ajudar as pessoas no precisamos forar situaes. A simplicidade, a naturalidade, a boa vontade, a sinceridade produzem 
maiores resultados. Voc gosta de dona Maria Antnia. A demonstrao desse afeto  real e poder dar mais frutos do que todas as teorias juntas. Experimente. Deixe 
falar mais o corao, expresse seu interesse por ela em todos os momentos.
     -        Ela  ferina. Tenho medo que me julgue apaixonado, o que no  verdade. Gosto dela como de uma filha.
-        Seu orgulho coloca vendas em seus olhos. Diz que pretende ajud-la, coloca-se em situao de superioridade, querendo ensinar-lhe coisas, porm, prende-se 
a preconceitos, no demonstra seus verdadeiros sentimentos. Julga-se obrigado a representar o papel de marido, sente que ela no o aceita como tal e receia aparecer 
diante dela como o pai, enfrentando o passado frente a frente.
     - Est sendo duro comigo.
     - Sou seu amigo. Digo a verdade. Voc se coloca na posio de pai mas ainda no conseguiu ser um pai verdadeiro, que d todo seu afeto, seu apoio, sem nada 
exigir em troca, s pelo desejo de v-la feliz. J que est nessa posio, seja um pai de verdade, no perca sua oportunidade. Isto far mais por ela do que tudo 
quanto pudesse fazer ou dizer.
     Menelau saiu da casa de Eduardo pensativo. Suas palavras haviam sido duras, mas reconhecia que ele estava certo. Sentiu-se pretencioso querendo obrigar Maria 
Antnia a mudar de acordo com o que ele queria. Por que tinha tanta pressa? Para cuidar de seus prprios interesses, para correr ao encontro de Maria Jos, apert-la 
em seus braos e ficar a seu lado para sempre.
     Pretendia aplacar sua conscincia apagando os erros passados. Era egosta, s pensava em si. Compreendia que, se quisesse ajudar Maria Antnia, precisava aceitar 
as determinaes de Deus que, mais sbio do que ele mesmo, colocaria em seu caminho a oportunidade de agir com proveito.
     Quando ele, ao rencarnar, aceitara o casamento com ela, o fizera agradecido a Deus por ter durante alguns anos de convivncia em comum a oportunidade de conquistar-lhe 
o afeto. Por que agora impacientava-se? No seria mais justo aproveitar a chance to duramente conseguida?
     Seu orgulho o fazia colocar-se numa posio de superioridade. Afinal, quem era ele que pretendia ensinar o caminho a Maria Antnia? Um homem que atraioara 
indignamente o prprio irmo, abandonara a esposa, os filhos, todos os deveres e compromissos para fugir com a cunhada, sem nenhum respeito  famlia ou aos sentimentos 
dos outros.
     Fizera tantos votos de melhoria, mas mesmo assim, havia novamente errado, atraioado de novo seu irmo que estava doente e sem condies at de defender-se.
     Menelau passou a mo pela testa como para afastar esses pensamentos dolorosos. Ele  que precisava aprender a viver melhor, a enxergar as necessidades alheias, 
a respeitar a dignidade dos outros.
     Foi naquele instante que ele compreendeu: no era Maria Antnia quem precisava mudar, era ele! Devia deixar de lado a idia de conduzir os outros. No possuia 
habilidade nem condies para fazer isso. Do que ele necessitava era aprender a conhecer-se melhor e a cuidar de suas prprias necessidades de progresso, a encontrar 
o seu prprio caminho, o que fosse melhor para ele. Deus, a vida cuidariam do resto. Mostraria a verdade no s a ele como a Maria Antnia e a todos os outros.
     Depois disso, sentiu-se melhor. Sua inquietao desapareceu. Estava aliviado. Chegou em casa ainda pensativo. Recolheu-se e dirigiu comovida prece a Deus, agradecendo 
por haver conseguido compreender algumas coisas.
     Daquele dia em diante, tudo seria diferente. Trabalharia para melhorar seu esprito. Sabia que se ele fizesse a parte que lhe cabia, Deus faria o resto. Com 
o corao em paz, adormeceu.
     No dia imediato, modificou suas atitudes. J ao almoo disse com naturalidade:
     - No vou ao sarau dos Albuquerque. Voc pode ir com a senhora Cerqueira, se desejar.
     Maria Antnia olhou-o um tanto aliviada:
     - Ainda bem que desistiu - disse. - Voc no aprecia os saraus. Fica impaciente, incomoda-me com sua pressa.
     Menelau no gostou da resposta, porm, controlou-se.
     Respondeu, calmo:
     - Tem razo. No os aprecio mesmo. Pretendi apenas ser-lhe agradvel. Como v, consegui exatamente o contrrio.
     Maria Antnia modificou o tom da voz, dizendo com certa cortesia:
     - Voc no consegue dissimular seu desagrado. Vou para divertir-me. Gosto da msica, das danas, aprecio a moda, as novidades. Quero ver o mundo, ver gente, 
no gosto de ficar encerrada nesta casa.
     - No vejo razo para privar-se desse prazer. Pode ir sempre que quiser. Com a senhora Cerqueira, estar sempre em boa companhia.
     Maria Antnia concordou. Finalmente Menelau voltava ao normal. Sentiu-se livre, bem disposta.
     A partir daquele dia Menelau notou que a tenso entre eles diminuiu. Aproveitou para tentar aproximar-se dela de outra forma. Interessou-se pelos objetos de 
arte dos quais ela tanto gostava, tentando conversar amistosamente, o que, apesar de tudo, no era fcil.
     Maria Antnia dormia durante quase toda a manh e,  tarde, recebia o joalheiro, a modista, o cabeleiro, ou saa para um ch elegante. Era durante o almoo 
que se encontravam e em algumas noites em que ela permanecia em casa. No demonstrava prazer em conversar com ele e pretextava tratamentos de beleza ou necessidade 
de repouso para recolher-se cedo.
     Entretanto, Menelau sentia que j no havia tanto antagonismo. Com calma, pacincia e naturalidade, ele foi aproveitando os momentos oportunos para mostrar 
a esposa seu interesse em v-la feliz e bem disposta.
     Ignorava seus momentos de mau humor, quando ela se mostrava ferina e descontente, procurando com calma, seriedade e respeito, traz-la a pensamentos mais felizes, 
conversando sobre coisas teis, agradveis, recordando algum fato positivo, relatando algum caso interessante.
     A princpio, Maria Antnia no prestava ateno ao que ele dizia. No aceitava sua forma de ser, de pensar. Achava-o desinteressante, antiquado. Porm, aos 
poucos, comeou a pensar que Menelau estava diferente. No a criticava nem a chamava de ftil, s porque ela gostava da vida e da sociedade. Chegava at a elogiar 
suas tapearias, trouxera-lhe lindos livros franceses sobre o assunto e demonstrara prazer em ver os desenhos, estud-los com ela. Afinal, ele comeava a humanizar-se, 
no era mais o homem to ignorante que sempre fora, sem sensibilidade diante de um vaso de Murano, uma porcelana de Svres ou um quadro de Rembrandt.
     De certa forma, sentia-se aliviada. Sua presena no mais a oprimia, ao contrrio. Sentindo-se livre, comeou at a apreciar sua presena, descobrindo nele 
qualidades que antes no via, aceitando melhor seu convvio.
     Com o decorrer dos dias, o relacionamento deles foi se modificando. No havia mais discusses, o ambiente do lar tornou-se melhor, at o mau humor de Maria 
Antnia foi diminuindo.
     Afinal, pensava ela satisfeita, era melhor que Menelau houvesse se modificado. J que estavam casados e que ela no queria abdicar da posio de esposa respeitada 
e honesta, j que precisava suportar seu convvio, era melhor que ele no a incomodasse como antes. H muito ele no exercia seus direitos de marido e ela sentia-se 
aliviada. Depois de conhecer Alberto, seria difcil tolerar a intimidade de Menelau.
     H muito eles haviam percebido que no se amavam. A atitude de Menelau, portando-se como um bom amigo, sem cobrar nada, nem impor-se em seu papel era-lhe muito 
conveniente. Vendo-lhe as atenes, a cortesia, o interesse sincero, a amizade, sentiu-se  vontade e feliz.
     Amava e era amada. Quando o Alberto resolvesse assumir a vida a seu lado, eles iriam para bem longe e Menelau acabaria por compreender.
     Maria Antnia entregou-se inteiramente ao amor que lhe inundava o corao.

CAPTULO 19

     Maria Antnia olhou para o Alberto sem compreender. Ele, com voz pausada e tranqila, informava-lhe que entre eles estava tudo acabado.
     -        Est brincando! - tornou ela, sorrindo.
     -        No, minha cara, no estou. Nossas relaes precisam acabar. Este  o nosso ltimo encontro.
     -        Por que quer me preocupar? Nosso amor  eterno. Jamais nos separaremos. Voc jurou que me amava!
     Ele fez um gesto largo.
     -        , jurei e a amava mesmo. Mas agora, acabou. Voc deve aceitar com calma minha deciso. No nos veremos mais.
     Maria Antnia sentiu um aperto no corao. Agarrou o brao dele com fora:
     -        Por qu? Eu vivo para voc!
     -        Isso passar. J teve muitos homens em sua vida. Depois, h seu marido, um homem srio, honesto, que no merece esta traio!
     Maria Antnia enfureceu-se:
     -        Voc nunca se importou com ele! O que aconteceu? Por que quer acabar com tudo?
     O        Alberto olhou-a friamente:
     -        No pretendia contar, mas j que insiste, saiba que pretendo casar. Preciso constituir um lar. H deveres de famlia.
     -         mentira. Nunca se importou com eles. Arranjou outra mulher! Quem  ela? Hei de destru-la com minhas prprias mos. Traidor!
     Alberto fixou-a com irritao e, num gesto firme, arrancou a mo dela que lhe apertava o brao.
     -        Odeio cenas - disse. - No pretendia chegar a esse ponto. Pensei que soubesse aceitar a derrota.
     Maria Antnia passou do dio ao desespero. Lgrimas fluram em seus olhos.
     -        Eu o amo, Alberto. No posso crer que no me amasse tambm! Voc jurou que me amava.
     Ele deu de ombros:
     -        Juramentos de amor passam como o vento! Quem pode comandar o corao?
-        Quer dizer que no me ama mais?
     -         isso - tornou ele, srio. - No a amo mais. Depois, pretendo casar-me brevemente. A famlia de minha noiva  muito austera. No admite ligaes extraconjugais. 
Vou mudar de vida. Estou acabando com todas as minhas ligaes amorosas.
Maria Antnia irritou-se:
     - Existiam outras alm de mim? Sempre me traiu?
     Ele sorriu com ar incrdulo:
     - Pensou que fosse a nica? Nunca lhe disse tal coisa. Agora, preciso ir. Desejo-lhe felicidades. No vai me desejar o mesmo?
     - Desejo que morra! - respondeu ela, com o semblante cheio de dio.
     - Isso vai passar. Vai refletir e ver que foi melhor assim. Adeus.
     Ele saiu e Maria Antnia no conseguiu falar. Seu mundo havia desabado. Jamais pensara que isso pudesse ocorrer. Alberto, ao dizer todas essas coisas horrveis, 
parecera-lhe um outro homem. Recusava-se a crer na realidade.
     Deixou as lgrimas correrem livremente. Depois, comeou a pensar que ele voltaria atrs, arrepender-se-ia e tudo seria como antes. Acalmou-se um pouco a esse 
pensamento, enxugou as lgrimas e foi para casa.
     Contudo, suas esperanas ruram uma a uma nos dias subseqentes. Alberto evitava-a ostensivamente e parecia sequer hav-la conhecido. Seu noivado, anunciado 
oficialmente e o casamento marcado para dali a um ms abalaram Maria Antnia profundamente.
     A noiva, moa lindssima e pertencente a conceituada famlia em evidncia na corte, despertou-lhe violento cime. No suportava ver Alberto ao redor dela, apaixonado 
e solcito. Ela tinha que fazer alguma coisa. No podia ser posta de lado assim, sem mais nem menos. E o seu amor? E os seus sentimentos?
     Nunca havia amado, agora que isso ocorria, no iria perder a parada. Tentou de todas as formas ver Alberto, at que o ameaou de procurar a noiva e contar-lhe 
sobre seu romance. Irritado, ele concordou em v-la de novo. Maria Antnia exultou. Preparou-se cheia de esperanas, mas ele estava frio e colrico. Fez-lhe at 
ameaas.
     -        Vim para dizer-lhe que me esquea. No v que amo minha noiva?  a nica mulher para mim. Saia do meu caminho definitivamente se no quer que eu a 
odeie.
     -        E eu? Como ficarei? Eu o amo. No consigo esquecer!
     Alberto fulminou-a com um olhar misto de incredulidade e ironia:
     -        Em amor  preciso que os dois queiram. No a amo mais, estou apaixonado por outra mulher. Deixe-me em paz.
     Voltou as costas e saiu. Maria Antnia sentiu-se desfalecer. Estava consumado. Tudo acabado! Como suportar a vida sem ele? Como viver depois disso? Teve mpetos 
de matar-se. Foi para casa, trancou-se no quarto. Estava desesperada. Pretextando mal-estar, no saiu de l.
     Menelau quis saber se estava doente, porm ela recusou-se a receb-lo. No dia seguinte, guardou o leito sem querer ver ningum. Foi a criada que, j  noite, 
procurou o patro, preocupada:
     -        Senhor, dona Maria Antnia no est bem.
     -        O que aconteceu?
     -        Ela no quer que ningum entre no quarto, porm, no sai da cama, h dois dias recusa qualquer alimento. Est agitada, penso que tem febre, fala coisas 
estranhas, chora, briga. Deus que me perdoe, mas parece endemoniada!
     -        Fez bem em avisar-me. Vamos v-la.
     Menelau entrou no quarto e acendeu o lampio. Maria Antnia, plida, abatida, olhou-o irritada.
     -        O que quer aqui? Fora. Deixe-me em paz!
     Ele aproximou-se tentando ocultar a preocupao.
     -        Voc est doente. O que aconteceu?
     -        Nada que seja da sua conta. Quero ficar s.
     Menelau respondeu, srio:
     -        No seja criana. Voc tem um problema e eu estou aqui. Quero-a bem. Por que est to nervosa?
     Ela olhou-o e no se conteve, caiu em pranto. Menelau fez sinal para que a criada sasse e segurou a mo da esposa com carinho.
     -        Seja o que for, eu estou aqui. Quero ajud-la. Gosto de voc. Farei tudo pela sua felicidade. Conte-me o que aconteceu.
Naquele instante em que se sentia rejeitada e ferida, era-lhe agradvel a dedicao e o afeto de Menelau. Porm, como contar-lhe a verdade? Como dizer-lhe que o 
trara, que amava outro homem, que era por esse amor que sofria? Se ele soubesse a verdade, a desprezaria. Era um homem de princpios. Engoliu as lgrimas e disse, 
entre soluos:
       Eu quero morrer! Esta vida no vale nada. Sou infeliz. No desejo mais viver!
     Menelau afagou-lhe os cabelos empapados de suor. Estava penalizado. Jamais a vira chorar. Maria Antnia sempre fora forte, corajosa e at dura diante dos problemas. 
O que teria acontecido para t-la sensibilizado a tal ponto?
     -        No diga isso - tornou ele. - A vida  bela, voc  jovem, seja o que for que a tenha desgostado h de passar. O tempo cicatriza todas as feridas.
     Mas, Maria Antnia no saiu da depresso nem do leito. Recusava qualquer alimento. No dia seguinte, Menelau chamou o mdico. Contou-lhe o estado depressivo 
de Maria Antnia e ele fechou-se no quarto dela, para examin-la. Ao sair, o mdico disse a Menelau, com um sorriso:
     -        Felizmente, nada srio. Muitas mulheres ficam chorosas e sensveis no incio da gravidez.
     Menelau empalideceu.
     -        Gravidez?
     -        . Acho que dona Maria Antnia est grvida. Porm, pelo que conversamos, ela ainda no sabe. Achei prudente no lhe contar por agora. Sei que ela 
no aceita ser me.  preciso primeiro faz-la acostumar-se com a idia, O senhor ajudar. Afinal, a notcia  boa. O senhor vai ser pai, senhor Menelau.
     Menelau sentiu um aperto no corao. Ento era verdade! Maria Antnia o traa!
     -        Vejo que est emocionado - continuou o mdico com satisfao. - Depois de tantos anos de casados,  mesmo emocionante. Parabns!
     Menelau fez enorme esforo para controlar-se.
     -        Obrigado - disse com voz sumida.
        - Agora, precisamos cuidar de dona Maria Antnia. Vou receitar-lhe chs calmantes. Alguns fortificantes, alimentos adequados. Quando ela melhorar, o senhor 
lhe contar a verdade.
        - Menelau olhava o mdico sem saber o que dizer. Sentia-se revoltado, ferido. H muito tempo que no tinha relaes sexuais com sua mulher. Estava certo 
de que o filho no era seu. Mesmo assim, procurou esconder o que sentia. Quando o mdico saiu, fechou-se no quarto com o corao oprimido. Apesar de vida social 
que Maria Antnia levava, ele no suspeitava que ela realmente mantivesse aventuras extraconjugais. Imaginava que, apesar de no am-lo, ela no chegasse ao adultrio. 
Agora esse filho indesejado provava o contrrio. Sentiu-se aviltado.
     Afinal, ela usava seu nome, viviam na mesma casa, todos sabiam que ela era sua esposa. Em que situao ficava ele diante da sociedade? Lembrou-se das cartas 
annimas. Outros conheciam essa traio. Ele era ridicularizado, seu nome arrastado na lama pela leviandade dela.
     Teve mpetos de ir at ela, exigir-lhe contas, saber quem era ele, tomar satisfaes. Sua cabea doa e ele achava que precisava tomar uma atitude para provar 
sua honestidade, limpar seu nome, lavar sua honra. Sentia vontade de agredir Maria Antnia.
     Ficou no quarto durante muito tempo, lutando com sua angstia e revolta. Depois, no suportou, foi v-la. Estendida no leito, plida, ela parecia morta. A custo 
a criada a fizera ingerir uma xcara de ch calmante e ela agora entregara-se  depresso sem disposio para falar ou reagir.
     Menelau, rosto frio, insensvel ao estado de abatimento dela, ordenou  criada que sasse. Depois aproximou-se do leito e chamou:
     -        Maria Antnia.
     Ela abriu os olhos, fitando-o.
     -        Sei de tudo - disse ele com voz dura.
     -        Como? - perguntou ela, sem entender bem o que ele dizia.
     -        Sei de tudo - repetiu ele, lutando contra o desejo de sacudi-la.
Tudo o qu? - inquiriu ela com desnimo.
     -        Tudo. Sei que tem um amante, que me traiu. Que manchou meu nome honesto. Que conspurcou este lar que nos agasalha. Sinto vontade de mat-la!
     Ela animou-se subitamente. Seu rosto coloriu-se de um vivo rubor e gritou:
     -        Pois mate-me. Faa-me este favor. No quero mesmo viver!
     -        Quem  ele? Por quem me traiu?
     -        O que importa isso? De que vale saber se nada mais h entre ns, se ele no me quer e se vai se casar com outra?
     -        Tem coragem de dizer-me essas coisas? Eu, seu marido?
     Ela olhou-o e sentou-se no leito. Olhos muito abertos, disse, com raiva:
     - Marido? Desde quando voc se considera meu marido? S porque me deu o nome e me sustenta? Eu preciso de amor! Eu sou mulher! Queria amar, ser amada, viver! 
Voc nunca me deu esse amor e eu jamais vibrei em seus braos. Gosto de voc como de um irmo, mas eu preciso de mais, eu preciso de amor, sem o qual a vida no 
vale nada.
     Menelau baixou a cabea, confundido. Jamais pensara que Maria Antnia pudesse ser to apaixonada. Nunca a vira como mulher. Ela tambm no lhe despertava amor, 
s amizade.
     - Eu amei - disse ela, com voz emocionada. - Eu amo! No me importaram os preconceitos nem as convenes sociais. Tudo o que eu queria era estar junto dele, 
em seus braos. Agora ele no me quer, se me matar, ser um favor. Esta vida no tem mesmo nenhuma importncia!
     Menelau deixou-se cair em uma poltrona e colocou a cabea entre as mos. Emoes desencontradas tomavam conta de seu ser e ele lutava para acalmar-se e domin-las. 
Era uma loucura, no podia ser verdade! No estava acontecendo com ele! Sentia um misto de piedade e rancor, de mgoa e apreenso.
     - Apesar do nosso casamento no ser o ideal, de no me amar, eu esperava que mantivesse a honra de nossa casa.
     Ela agitou-se um pouco e respondeu:
     - Que honra? Jamais pensei nisso. Nunca havia amado antes. Voc no sabe o que  o amor, conforma-se com uma vida apagada!  incapaz de um sentimento desses! 
No pode compreender o que seja isso. Como pode saber o que  sentir que a alma se vai num beijo e tudo o mais desaparece ao encontro da pessoa amada? Quem vai se 
lembrar de convenes, preconceitos, formalidades num momento desses?
     Menelau olhou-a, estupefato. Jamais a imaginara capaz de tanta veemncia, de tanta paixo. As idias confundiam-se em sua cabea. Ele levantou-se, saiu. Precisava 
acalmar-se, ordenar os pensamentos.
     Na rua, foi caminhando indiferente, imerso em suas preocupaes. A vontade de mat-la havia passado. Comeava a pensar que a separao seria inevitvel. No 
suportaria mais viver com ela depois disso. No agentaria sair a seu lado, pensar que as pessoas pudessem saber que ele fora trado.
     Menelau andou durante muito tempo, perdido em seus pensamentos ntimos, ruminando amargurado. No sentia nimo de voltar para casa. Ainda estava descontrolado. 
A noite j havia descido e ele no resolvera como agir. S sabia que queria a separao, nada mais. Sua cabea doa, sentia-se mal. De repente, Lembrou-se de Eduardo. 
Ficaria na casa do amigo aquela noite e, quando se sentisse mais calmo, tomaria as providncias para a separao. No queria escndalo. Faria tudo discretamente.
     Ao abrir a porta, Eduardo olhou admirado o rosto do amigo, mas nada disse. F-lo entrar e sentar-se no sof da sala. Sua fisionomia plida, contrada, refletia 
angstia, preocupao, amargura. Acomodou-se a seu lado e esperou que ele falasse.
     Fundo suspiro escapou do peito de Menelau.
     -        Vim pedir abrigo. Vou me separar de Maria Antnia. Preciso de alguns dias para resolver minha vida. Quero saber se posso ficar aqui.
     Eduardo olhou-o srio por alguns segundos, depois disse:
     -        Claro. Pode ficar o tempo que quiser.
     -        Obrigado. Sabia que podia contar com voc.
     -        Agora, relaxe. Voc est tenso. Nada pior para a sade.
     -        No consigo. Tentei, mas foi intil. Andei bastante, tentando acalmar-me, porm sinto-me ainda muito nervoso. Di-me a cabea e tenho a boca amarga.
     -        Voc alimentou-se?
     -        No consigo. Meu estmago est enjoado.
     -        Vamos para o quarto.
     Menelau acompanhou-o ao quarto e Eduardo abriu uma cmoda apanhando uma camisa de dormir.
     -        Vista isso e deite-se. Vou preparar um ch para voc. Procure no pensar em nada. Acalme-se. Lembre-se de que Deus est no leme de tudo e que em nenhum 
momento esqueceu de voc. Voltarei em seguida.
     Eduardo saiu e Menelau trocou de roupa e deitou-se. Apesar de sua cabea estar pesada e latejar, das nuseas e do gosto amargo na boca, sentiu certo conforto. 
A discrio do amigo, suas atenes e solicitude eram como blsamo em sua ferida.
     Eduardo voltou com a xcara de ch:
     -        Vamos, beba isto.
     Menelau obedeceu.
     -        Agora deite-se de novo.
     Colocou uma cadeira ao lado da cama e sentou-se, Depois disse:
-        Agora voc vai dormir. Sua crise j passou. Amanh ser outro dia e tudo poder ser melhor. Vamos pensar em Deus que conhece nossas dores e prov todas 
as nossas necessidades. Ele tem remdio para todos os males, a medida certa para cada caso.
     Eduardo estendeu a mo direita sobre a testa de Menelau e fez sentida prece. Menelau sentiu um brando calor envolver-lhe o corpo. Fechou os olhos e, quase sem 
perceber, adormeceu.
     Acordou assustado. Olhou para o quarto diferente do seu, tentando compreender porque estava ali. De repente, lembrou-se. Que vergonha! Maria Antnia tinha um 
amante! Ele estava fazendo um triste papel. Era o marido trado.
     Levantou-se de um salto. Vestiu-se. Precisava tomar providncias. Procurou Eduardo. Devia-lhe uma explicao. Sentia-se grato pela sua discrio, mas no poderia 
esconder a verdade. Considerava-se j separado de Maria Antnia. Todos iriam saber.
     Eduardo, na varanda, lia o jornal do dia e, vendo-o chegar, dobrou-o e colocou-o sobre a mesinha dizendo:
     -        Bom dia! Dormiu muitas horas, estava cansado. Sente-se melhor?
        Sim. Precisamos conversar. Desejo contar-lhe o que aconteceu.
     Eduardo levantou-se.
     -        Depois do caf. Vamos  cozinha.
     Vendo a mesa posta e sentindo o cheiro gostoso do caf que Jacira, a criada de Eduardo, coara na hora, Menelau sentiu fome. Aceitou a caneca fumegante de caf 
com leite que a serva colocou em sua frente e comeu uma grossa fatia de po com manteiga. Sentiu-se bem melhor. Quando terminaram, Eduardo convidou-o a ir  sala 
e quando se acomodaram esclareceu:
     -        Fale se tiver vontade. No  obrigado a contar-me nada se no quiser.
     Menelau sacudiu a cabea.
     -        Quero falar. Preciso desabafar. S voc poder me compreender.
     Eduardo concordou:
     -        Est bem. Pode falar.
     Menelau desabafou toda sua revolta com a triste descoberta. Contou tudo e finalizou:
     -        Apesar de no nos amarmos, no esperava que ela chegasse a esse ponto.
     -        O que pensa fazer?
     -        Tomar o nico caminho possvel: a separao. Nunca mais quero v-la. Se voc permitir, ficarei aqui por alguns dias. Poucos. O bastante para procurar 
uma casa e transportar meus pertences. No suportaria ficar l, ainda que por alguns dias.
     Eduardo olhou-o srio, dizendo:
     -        E ela, o que acha que far quando descobrir que vai ser me? Sempre foi contra a maternidade.
     Menelau contraiu o rosto dolorosamente. Fundo suspiro escapou-se-lhe do peito.
     -        No sei.
     -        Vai contar-lhe? Ela precisa saber. Naturalmente vai conversar com ela, acertar os detalhes da separao.
     Menelau olhou o amigo interdito.
     -        No sei... No gostaria de v-la novamente. Pretendo ajustar um advogado.
     -        Certos assuntos necessitam ser enfrentados pessoalmente. A fuga no vai ajudar. Se acha que deve separar-se de sua mulher,  um direito seu. Mas, faa-o 
com dignidade. Converse com ela, discuta suas razes, enfrente o problema. Sentir-se- melhor depois disso.
     Menelau baixou a cabea, pensativo. No fundo sabia que Eduardo tinha razo, contudo tentou argumentar:
     -        Recebi vrias cartas annimas, outras pessoas sabem que ela me traa.  um triste papel que no gosto de fazer. Quando penso nisso, sinto vontade de 
mat-la.
     -        O orgulho  mau conselheiro, sempre distorce nossa viso.
     Menelau ofendeu-se:
     -        Orgulho? Voc acha que no tenho razo? Meu nome enxovalhado, motivo de chacota, arrastado na boca dos maledicentes e voc acha que estou sendo movido 
pelo orgulho?
     -        Pelo orgulho e por excesso de imaginao. Os maledicentes no so dignos da nossa preocupao. Eles sempre encontram o que dizer quando olham a vida 
das pessoas. No merecem nossa ateno. Depois, como sabe que o ato de Maria Antnia  do domnio pblico? Ao que me consta ela sempre foi muito discreta e seu nome 
nunca foi envolvido em nenhum escndalo.
     -        Voc a defende! - exclamou ele irritado. - Eu sou o orgulhoso, o errado! Por acaso ela estar certa?
     Eduardo olhou-o nos olhos com seriedade.
     -        No se trata de quem est certo ou errado, mas de perceber a verdade.
     -        A verdade  que ela me traiu.
     -        Da mesma forma que voc.
     Menelau olhou-o assustado. Esquecera-se por completo desse fato. No se deu por achado:
     -        Ela est grvida de outro homem.
-        E voc tem um filho com outra mulher.
     Menelau sentiu um abalo no corao. Preferia no lembrar esse assunto.
     -        Isso foi h muito tempo. Depois, ningum soube de nada. Nem Maria Antnia. Eu renunciei ao amor por caso dos deveres de famlia. Ela disse-me que ele 
no a quer, caso contrrio o a companharia para sempre.
     -        Ento ela tambm encontrou o amor.
     -        Ela  mulher. A mulher jamais poder ser infiel.
     -        Ela  um esprito igual ao meu, ao seu, temporariamente num corpo de mulher. As leis de Deus no discriminam ningum. Todos os espritos so iguais 
diante dela. A vida responde aos nossos atos pautando-se por essas leis, nunca pela nossa forma fsica.
     -        Voc quer justificar os atos de Maria Antnia!
     -        No justifico nada. Quero enxergar a verdade, longe dos preconceitos sociais do mundo, procurando perceber o que se passa no esprito angustiado de 
Maria Antnia. Ela est em crise, precisa de ajuda.
     -        Ela est enfrentando as conseqncias dos seus erros.
     -        Todos estamos. A vida no deixa nada sem resposta. Pense nisto antes de decidir o que vai fazer. O esprito de Maria Antnia reencarnou depois de uma 
vida desregrada em existncia anterior. Pelo que conhecemos a seu respeito, ela destruiu lares, despertou paixes, mas nunca havia amado ou sofrido por amor. Era 
indiferente, fria. Agora ela ama. Talvez seja uma paixo apenas, mas  um comeo de sensibilizao. Ela comea a gostar de algum, a sair do seu egocentrismo, a 
aprender a dar. No sabe perder, foi rejeitada. Sofre pela primeira vez o que causou aos outros. Est em crise. A maternidade poderia despertar novos valores em 
seu esprito. Seria bom que ela aceitasse esse filho.
     Menelau emocionou-se. Lgrimas desciam-lhe pelas faces. Era-lhe difcil aceitar e perceber o que Eduardo dizia e, por isso, respondeu entre soluos:
     -        E eu? Como aceitar esse castigo? Como admitir a vergonha, a traio?
     -        Se escorraar o orgulho, vai descobrir que a vida est lhe colocando nas mos tudo quanto lhe tem pedido com insistncia.
     -        Eu? Como assim?
     -        Pense. Medite. Lembre-se da finalidade de sua encarnao atual. Sempre desejou ajudar o esprito de Maria Antnia, esclareclo, elev-lo.
     -        Ela fez exatamente o contrrio, desceu.
     -        Ela humanizou-se. Foi tocada pelo amor, pela paixo. Est sofrendo. Que oportunidade melhor do que essa para ajudar? Durante anos esperou essa chance, 
pretende agora desperdi-la?
     Menelau remexeu-se no sof:
     -        O preo  alto demais. No creio que eu tenha condies de fazer isso.
     Eduardo sacudiu a cabea e disse com voz calma:
     -         pena. Quer dizer que seu amor de pai no  bastante forte para vencer o preconceito e ampar-la de fato? Talvez voc no estivesse sendo sincero 
quando afirmou que seu objetivo nesta vida seria elevar esse esprito.  um direito seu. No o estou criticando. Peo-lhe apenas que pense um pouco mais antes de 
decidir o que fazer.
     -        No quero pensar! Quero livrar-me deste peso.
     -        A fuga no o libertar dele.
     Menelau, inquieto, passou a mo pelos cabelos.
     -        Preciso fazer alguma coisa. No posso ficar aqui, parado, pensando.
     -        Por que no? Afinal, toda sua vida est em jogo. Depois, tomar decises importantes sob forte tenso emocional, no  aconselhvel. Pode vir a arrepender-se. 
Procure acalmar-se. Para que tanta pressa?
     -        J tomei a deciso. Devo procurar uma casa, mudar. No posso incomod-lo por muito tempo.
     Eduardo sorriu.
     -        No me incomoda. Ao contrrio. Faz-me companhia. Fique aqui quanto tempo desejar, s me dar prazer. Voc  meu amigo! Agradeo a prova de confiana, 
procurando-me em um momento desses. Orgulho-me da nossa amizade. No tenha pressa. Descanse, medite, pense. No tome nenhuma deciso agora, peo-lhe. Deixe passar 
pelo menos mais vinte e quatro horas. Depois, faa o que quiser.
     Menelau suspirou. No lhe agradava ficar ali, ruminando sua angstia.
     -        Vou pelo menos andar um pouco, procurar uma casa para morar.
     -        Est certo. Mas, depois volte para c. Estarei esperando.
     -        Voltarei. Mesmo porque no me sinto com foras para voltar  minha casa.
     -        Prometa-me no tomar nenhuma atitude antes de vinte e quatro horas.
     Menelau respirou fundo. Depois concordou.
     -        Est bem. Prometo.
     No ntimo guardava a certeza de que no voltaria atrs de sua deciso. Eduardo era seu amigo, o acolhera com carinho e compreenso. No podia recusar-lhe o 
pedido.
     -         melhor assim - disse ele. -  noite, vamos orar juntos. Deus o acalmar. Tranqilo, ter chance de encontrar a melhor soluo.
     -        Agradeo-lhe de corao. Aqui encontrei apoio, compreenso. Eu estava transtornado.
     Conversaram durante algum tempo e Eduardo procurou falar de outros assuntos mais amenos, de seus negcios, seus problemas e interesses. Menelau, apesar de preocupado 
com seu drama, no quis ser indelicado e esforou-se por interessar-se pelo que ele dizia. Sem perceber, foi saindo de sua prpria preocupao. Esqueceu-se de que 
pretendia sair. Foi ficando, conversando.
     No almoo, comeu com mais apetite. Eduardo no o deixou retomar o assunto que o levara ali. Inteligentemente, conduziu a conversa de tal forma que Menelau, 
a pretexto de ajud-lo, interessou-se realmente pelos assuntos que ele trazia. Aps o almoo, Menelau estava mais relaxado e  vontade.
     Eduardo aproveitou para sugerir:
   -        Voc est cansado. V dormir um pouco. Refazer suas energias. Lembre-se de que no precisar tomar nenhuma deciso antes das vinte e quatro horas. Necessito 
sair, no vou demorar. Aproveite para descansar.
     Menelau concordou. Sentiu-se aliviado por no ter que decidir nada nas prximas horas. Foi para o quarto. Deitou-se. Branda sonolncia o invadiu e ele adormeceu.
     Ao acordar, olhou o quarto e imediatamente recordou-se de tudo.
     -        Parece um pesadelo - pensou.
Enganara-se com Maria Antnia. Julgara-a mulher fria e sem capacidade para amar. Subestimara-a. No lhe dera o amor que ela deveria desejar. Sequer a via como uma 
mulher. A seu lado, no sentia desejo algum. Gostava dela, porm, no a cobiava. Seria mesmo verdade tudo quanto Eduardo lhe dissera? Os espritos estavam certos? 
Ela teria realmente sido sua filha em outra encarnao? Mesmo aceitando a idia como possvel, havia sempre uma dvida. Teria sido assim mesmo?
     Por outro lado, como explicar seu afeto por ela, a falta de atrao fsica que havia entre eles? Como entender por que eles haviam se casado?
     A explicao dos espritos era a nica que respondia a todas as indagaes. Se Maria Antnia houvesse sido sua filha abandonada e se tornado uma mulher devassa 
como eles afirmavam, por certo no teria ainda condies morais para entender certos valores da vida. Eduardo teria razo? Esse amor para ela significaria uma sensibilizao?
     Menelau remexeu-se na cama, inquieto. Era-lhe muito difcil aceitar isso.
     De repente lembrou-se: ele havia feito a mesma coisa. Entregara-se ao amor de Maria Jos sem pensar na honra de ningum. Do irmo doente, da esposa, dos sobrinhos. 
Esse amor era para ele sagrado, puro. O que sentia pela cunhada, era um amor verdadeiro, por certo diferente das aventuras da corte onde Maria Antnia se perdera.
     As palavras dela vieram-lhe  mente:
     - Eu amei! Eu amo! No me importam os preconceitos e as convenes sociais, tudo o que eu queria era estar junto dele!"
     Ela no tivera pejo em dizer o que sentia. Estaria amando de verdade? Seria seu amor to grande quanto o dele por Maria Jos?
     Levantou-se e, inquieto, deu alguns passos pelo quarto de um lado a Outro, depois sentou-se em uma poltrona passando a mo pelos cabelos, como a afastar a preocupao.
     No se julgava culpado por amar Maria Jos, ele renunciara e isso dignificava seus sentimentos. Ela, porm, fora abandonada, queria segui-lo de qualquer jeito.
     Fora-lhe difcil renunciar ao amor de Maria Jos. Maria Antnia no possua foras para isso. Deveria culp-la? Para ela, seu drama, sua paixo, sua dor eram 
mais importantes do que sua posio, seu nome, sua condio de mulher casada e honesta. Se ele quisesse, ela o acompanharia. Como sempre, ela s pensava em si mesma, 
em satisfazer seus desejos, sem importar-se com o resto.  
     Menelau pensou em Maria Jos. No fora egosmo de sua parte am-la, entregar-se a esse amor, a satisfao dos seus sentimentos sem importar-se com o irmo doente 
e indefeso?
     - Meu Deus - pensou ele, aflito - teria isso sido o meu castigo? Teria a vida me justiado, fazendo-me sentir a mesma dor que causei?
     Pensou em Demerval. Ele no soube em vida mas descobrira depois de morto. Por certo o teria odiado. Pela primeira vez pensou no irmo enganado, tendo entre 
os filhos um que no era seu. O que ele teria sentido no lugar do irmo?
     Sentiu-se arrasado. Demerval precisava perdo-lo, compreender que ele no fizera nada proposital. Acontecera. Eles no encontraram foras para evitar. Arrependera-se, 
renunciara. Era-lhe muito difcil essa renncia. Amava Maria Jos: esse sentimento era independente da sua vontade, no conseguia domin-lo, impedi-lo de manifestar-se. 
Estaria sendo punido por esse crime?
     Suspirou fundo. Como exigir contas a Maria Antnia? Com que moral? Seu casamento com ela havia sido um erro pelo qual ambos estavam pagando um preo muito alto. 
Se ele realmente houvesse sido seu pai em vida passada, se a tivesse abandonado pelo amor de Maria Jos, por que se propusera a fazer agora a recuperao desse esprito 
se no possua condies de cumprir? Se ele mesmo ainda precisava de apoio, perdo, ajuda? No fora muita pretenso de sua parte pensar que pudesse ajudar a elevar 
aquela alma? Que ele j possusse condies para ampar-la quando, ele mesmo, ainda se sentia derrotado, fracassado, sem moral, sem dignidade?
     No fundo reconhecia que era to necessitado de perdo e de amparo quanto Maria Antnia e que no valia mais do que ela. Como fora pretencioso, desejando ensinar-lhe 
os valores espirituais da vida sem ainda hav-los aprendido.
     Eduardo tinha razo. Ele era muito orgulhoso. Era o orgulho que o inspirava e o fazia julgar Maria Antnia com tanta severidade. Ele era to culpado quanto 
ela. Sua misso de pai tambm fracassara. No se sentia com foras para ampar-la agora. Teve vontade de desaparecer. De ir embora para sempre, de afastar-se tanto 
de Maria Antnia quanto de Maria Jos, na tentativa de apagar do seu esprito a sensao de culpa.
     Talvez fosse melhor partir para o estrangeiro. Longe, poderia esquecer. Sim. Queria esquecer, partir. Nunca mais voltaria.
     Quando Eduardo voltou, encontrou o amigo resolvido a viajar, mudar-se para o exterior. Com serena pacincia deixou-o falar sobre o assunto, sem opinar. Mandou 
um criado  sua casa buscar uma valise com algumas roupas.
     Aps o jantar, Eduardo convidou-o  prece. Procurou falar sobre outros assuntos, mais amenos. Menelau apreciava uma boa conversa inteligente, interessava-se 
muito pelos assuntos espritas. Com delicadeza, Eduardo procurou falar sobre temas que no o fizesse recordar-se de suas preocupaes. Quando Menelau mostrava desejo 
de abordlos, com habilidade Eduardo lembrava um outro assunto interessante, desviando-lhe a ateno.
     Falou dos mundos habitados, da vida depois da morte, dos estudos da cincia na Itlia, na Inglaterra e nos Estados Unidos.
     Quando se recolheu, Menelau estava bem, no teve dificuldade para dormir.
     No dia seguinte, ao almoo, comunicou ao amigo sua deciso. Iria mesmo embora do Brasil para sempre. Procuraria viver sua vida solitria em outro pas. No 
se sentia em condies de ensinar ningum, muito menos Maria Antnia. Ela procurara uma situao da qual por certo encontraria o jeito de sair. Ele no era bom o 
bastante para ajud-la.
     Eduardo olhou-o e nada disse. Menelau, contrafeito, indagou:
     -        No  a melhor soluo?
     -        Fugir nunca foi soluo.
     -        No estou fugindo. Simplesmente no sei o que fazer aqui, sozinho. Assim, Maria Antnia ficar livre para fazer de sua vida o que quiser. No me aborrecerei 
com suas aventuras.
     -        Voc  quem sabe.
     -        Vou tratar dos meus negcios e dentro de duas ou trs semanas deixarei o Brasil.
     -        No se precipite. A pressa  inimiga dos bons negcios. Tenha calma.
     -        Terei.
        Devo sair agora. Hoje  dia da sesso em casa do dr. Sampaio. Iremos juntos?
     Menelau hesitou um pouco depois respondeu:
     -        Iremos. s sete.
     -        Sim, s sete.
Menelau recolheu-se ao quarto e estendeu-se no leito, pensativo. Iria embora para sempre. Em Paris no gostaria de viver, talvez a Itlia ou a Espanha lhe oferecessem 
nova opo de vida. Deixaria Maria Antnia amparada financeiramente e livre para viver como bem entendesse. Era o mximo que poderia fazer.
     Funda amargura tomou conta do seu corao. Apesar da sujeira de suas ruas, do atraso dos costumes e da desorganizao por toda parte, Menelau amava o Rio de 
Janeiro. Adorava suas praias, seu cu azul, seu povo alegre e dono de um humor todo prprio. Amava o Brasil e deix-lo para sempre era-lhe penoso. No havia outro 
jeito. Estava decidido.
     Ao sair com Eduardo para a casa do dr. Sampaio, comps a fisionomia. No queria que ningum percebesse seu abatimento e a dor que lhe ia na alma.
     Recebidos com deferncia pelo dono da casa, sentaram-se ao redor da mesa, juntamente com a esposa do Sampaio e um casal jovem. Menelau j os conhecia de outras 
reunies.
     Apagada as luzes, na penumbra da sala, Sampaio proferiu emocionada prece. Sua esposa, envolvida por um esprito familiar, transmitiu uma mensagem sobre a compreenso 
e o amor, a necessidade de no julgar a ningum mostrando a nossa precariedade de perceber a verdade quase sempre distorcida pelos padres sociais.
     Menelau comoveu-se profundamente. Cada palavra tocou-o, fazendo-o sentir o quanto estava sendo pressionado pelo medo da opinio dos outros e pelo orgulho. As 
lgrimas rolaram em suas faces. Ele no era capacitado para ajudar ningum. Era fraco, necessitado. Havia escorregado na tentao, no amor proibido, no adultrio, 
como julgar Maria Antnia?
     Na sala, o silncio se fizera e todos oravam com sinceridade. Foi quando a jovem senhora, sentindo grande emoo, disse com voz diferenciada da sua:
     - Raul! No abandone Antonieta de novo! Estou aqui para pedir-lhe isso. Por favor! Ela precisa de voc.
     Menelau sobressaltou-se. Ningum ali conhecia os acontecimentos da fazenda, onde esse passado fora rememorado.
     Emocionada, a jovem senhora prosseguiu:
- Por que se deixa levar pelo orgulho? Por que se sente agora incapaz de realizar sua parte no acordo que fizemos? Voc prometeume que a ajudaria! Esperei todos 
esses anos com f que chegasse a hora e agora voc se rebela, quer desistir? No tem vergonha, depois do que fez, de julg-la com tanta dureza de alma? O que pensa 
da vida? Por acaso s voc pode amar, ferir os outros, ficar impune, ser perdoado? Ela no tem o mesmo direito? Ela, que no foi amada por voc o quanto deveria, 
comea agora a despertar para a vida. Ela  a nossa Antonieta, sofrida, enganada, cheia de iluses, criana que comea a perceber o amor. Como deix-la no momento 
mesmo em que pensa em matar-se, em matar o filho que lhe levaria mais amor no corao? Estou aflita. No tenho conseguido faz-la perceber a verdade. Mas, voc pode! 
Ela precisa de apoio, amor, compreenso. Por que se nega?
     Sacudido pela emoo, Menelau soluava, dando largas ao que lhe ia no corao. Sentia vergonha. Percebia seu egosmo. Seu orgulho, sua vontade de fugir para 
no enfrentar a verdade que lhe doa.
     Diante do esprito de Eleonora, falando de problemas que s ele e Eduardo conheciam, no podia ter dvidas quanto ao passado. Ela cobrava-lhe o amparo  filha 
que adorava. Era-lhe difcil atender esse pedido. Prometera essa ajuda sem saber como ela seria e o quanto lhe custaria. Sentia medo de no conseguir, seus recursos 
eram precrios. Entretanto, precisava tentar. Mentalmente pediu ajuda. Eleonora prosseguiu:
     -        Eu o ajudarei. Tenho amigos bondosos que nos sustentaro nos momentos difceis. Se voc quiser, tudo dar certo. Ns conseguiremos.
     Menelau sentiu uma nova esperana desabrochar em seu corao. Seria esse o seu caminho? Deveria devotar-se  Maria Antnia para que ela superasse a crise e 
pudesse compreender? Teria foras para enfrentar a sociedade sem titubear?
     Fundo suspiro escapou do peito da jovem senhora de quem Eleonora se servia para falar.
     -        Raul, atenda meu pedido. Antonieta corre srio perigo. Est muito deprimida. Seria muito bom que seu filho nascesse. Peo-lhe! Ajude-a por favor!
     -        No sei se serei capaz - balbuciou Menelau, agoniado.
        - Por que se faz de fraco? Conheo sua fora. Ningum o vence quando realmente deseja uma coisa. Seu sofrimento de pai teria sido fingido? Por que no percebe 
que errou muito mais do que ela? Por que exagera sua dor, sua vergonha? O que aconteceu no  do domnio pblico. Se souber agir, ningum saber de nada. Por que 
recusa essa criana que precisa de sua ajuda, do seu afeto? No v como est sendo cruel? Se voc pudesse lembrar-se quem ela , por certo a receberia de braos 
abertos.
     Menelau escutava preso de funda emoo. Eleonora estava certa. Ele precisava apoiar Maria Antnia, ampar-la.
        Est bem - disse por fim - tentarei. Se ela deixar. Sabe que ela no me aceita.
     -        Aceitar. Ela est apavorada, deprimida.  a primeira vez que sofre de verdade. Tenho estado l, tentando erguer seu nimo, mas ela no acolhe meus 
pensamentos otimistas. Prefere sentir-se desprezada, sem futuro, sem remdio. Minha esperana  voc. Afinal, voc est a ao lado dela e pode tentar coisas que 
eu no posso. Agora tenho que ir. Prometa-me que voltar para casa ainda hoje.
     -        Est bem - concordou Menelau - Irei. Por certo voc me ajudar.
     -        Naturalmente. Tenho amigos interessados em cooperar. Haveremos de conseguir. Obrigada a todos por terem permitido minha presena. Deus lhes pague. 
Adeus.
     Eleonora calou-se e aps alguns segundos de silncio, Sampaio proferiu uma prece de agradecimento e encerrou a reunio.
     Quando acenderam o lampio, Menelau, olhos ainda molhados pelas lgrimas, tomou comovido:
     -        Nesta noite tive uma das provas mais fortes da existncia dos espritos e da mediunidade.
     -        Todos sentimos que estvamos vivendo momentos muito importantes. Contudo, senhor Menelau, no h necessidade de nos contar nada. So problemas de famlia.
     -        Obrigado, sr. Sampaio. Sinto-me emocionado, agradecido. Quero esclarecer o que se passou aqui. Se Deus confiou nos amigos presentes e permitiu essa 
graa atravs desta reunio, desejo que compartilhem da minha esperana e me ajudem na misso a que estou incumbido.
     -        Sinto-me honrado - respondeu Sampaio.
     Menelau, ali mesmo, com voz emocionada, relatou tudo quanto lhe acontecera sem omitir nada. Os presentes ouviam em respeitoso silncio.  medida que falava, 
Menelau foi sentindo-se mais calmo. Quando terminou, toda mgoa, toda revolta haviam desaparecido.
     -        Com tantos problemas, naturalmente dona Maria Antnia deve estar sendo mal assessorada espiritualmente. Em todas as reunies que fizermos vamos orar 
por ela. Quando ela aceitar, poderemos visit-la, aplicar-lhe enregias calmantes.
     -        Obrigado. Tenho certeza que essa ajuda nos ser de grande valia.
     Quando se retiraram, meia hora depois, Menelau percebeu que ganhara mais amigos. O que era antes uma amizade comum, transformara-se em um sentimento mais profundo 
e verdadeiro, que fazia Menelau sentir-se encorajado e sereno. De volta  casa de Eduardo disse, calmo:
     -        Vou arrumar meus pertences. Volto para casa agora mesmo.
     Na despedida, Eduardo o abraou com carinho.
     -        Ainda bem que compreendeu. Foi uma sbia resoluo. Ningum pode ser livre sem solver as pendncias que ficaram para trs. Tenho certeza que voc vai 
vencer.
     -        Obrigado, Eduardo. Se no fosse voc, com sua pacincia, seu tato, eu teria cometido muitas asneiras. Ter em mim sempre um amigo reconhecido. Que 
Deus o abene.
     Quando Menelau se afastou sobraando sua valise, Eduardo seguiu-o com o olhar onde o brilho de uma lgrima colocava neles uma luz muito particular.
 

CAPTULO 20

       Menelau entrou em casa com ar preocupado. Colocou a valise na saleta e dirigiu-se para o quarto da esposa. A criada com certeza se recolhera, mas pela fresta 
da porta percebia que havia luz. Girou a maaneta e a porta abriu. Menelau entrou.
       Vestindo uma camisola branca, cabelos soltos, encolhida no leito, Maria Antnia soluava. Ele aproximou-se e ela no se deu conta.
       - Maria Antnia - chamou.
       Ela abriu os olhos. Suas plpebras estavam inchadas, vermelhas. Fixou-o, mas nada disse. Assustado, ele prosseguiu:
       - Estou aqui. Vim para ficar. Estarei do seu lado. Voc vai vencer esta fase, tudo vai passar, ver.
       - Quero morrer! No tenho coragem. Por que no me matou quando descobriu tudo? Teria sido um favor!
       Ele segurou a mo dela que estava gelada.
       - No diga isso. A vida  preciosa. Logo voc, com tanta vontade de viver!
       Ela apertou a mo dele com fora dizendo nervosa:
       - Quero morrer mas tenho medo da morte! Quero acabar com tudo, mas no ltimo momento recuo, apavorada.
       Maria Antnia tremia como se tivesse febre. Menelau aproximou-se mais, dizendo com voz firme:
       - Voc precisa descansar. Acalme-se. Est se atormentando inutilmente. No vai resolver seus problemas desta forma.
       Maria Antnia arregalou os olhos e fixou-o.
       - Por que no me mata e acaba logo com tudo? Porque no sou um assassino. No acredito que a morte possa solucionar nossos desacertos. Depois, pensei bem 
durante o tempo que estive fora. Alm de voc e de mim, h uma vida preciosa em jogo. O seu filho.
       - Eu o odeio! Ele pertence ao homem que me traiu, que me desprezou.
       Menelau alisou-lhe os cabelos em desalinho.
       - Ele pertence a Deus.  um esprito que volta e precisa nascer. Escolheu voc como me. Vai ser gerado em sua carne, espera apoio, amor, compreenso. Pretende 
dar-lhe tudo isso. Aceite-o com alegria. A vida  beno de Deus!
     -        No posso! No quero! Enquanto eu deformo meu corpo, sofro o desprezo da sociedade, carrego o peso desse filho que no quero, ele, o homem pelo qual 
eu fiz tudo, desfila pelos sales com sua amada, casa-se em grande estilo e ignora meus sofrimentos.
     -        No exagere os fatos. A corte ignora o que lhe aconteceu. Voc  casada. Pode ter quantos filhos quiser sem expor-se ao desprezo pblico.
     Ela franziu o cenho admirada:
     -        Voc foi o primeiro a repudiar-me. Logo, todos sabero. Nenhuma famlia honrada me receber mais! Oh! Meu Deus, por que no tenho coragem de acabar 
com a vida?
     Menelau estava condodo. A sociedade nunca perdoa o deslize da mulher. Disse, com sinceridade:
     -        Maria Antnia, eu voltei. Vim para ficar. Ningum saber a verdade. Pensei muito. Reconheo que tenho cometido muitos enganos em minha vida. Posso 
compreender como voc se envolveu. No pretendo julg-la. Sei que o nosso casamento no tem sido dos mais felizes. No culpo ningum por isso. Somos pessoas diferentes. 
No temos as mesmas preferncias. Penso at que no sentimos atrao fsica um pelo outro. Apesar de tudo isso, nos casamos. Gosto de voc. Gostaria que estivesse 
bem, que fosse feliz. Lamento o que lhe aconteceu.
     Maria Antnia olhava-o, tentando compreender o que ele dizia. Apesar do seu descontrole, podia perceber que o marido falava com sinceridade. Fundo suspiro escapou-se-lhe 
do peito. As palavras dele, inesperadas, tiveram o dom de cortar por alguns momentos o crculo vicioso dos seus pensamentos desesperados. Ele prosseguiu:
     -        Voltei porque acredito honestamente que podemos enfrentar esses problemas juntos.
     -        Depois do que aconteceu, no desejo viver. Minha felicidade acabou.
     -        No acredite nisso. Tudo passa neste mundo. Todas as coisas se modificam. Voc vai esquecer quem no valorizou seu amor. O tempo a far esquecer. Um 
desengano amoroso, uma separao, um amor impossvel dem muito, mas com o tempo a ferida cicatriza, a dor desaparece.  preciso acreditar nisso e manter a esperana.
     Maria Antnia havia parado de chorar.
     -        Fala assim porque nunca passou por isso.
    -        No se apresse em julgar. Nos conhecemos muito pouco, Maria Antnia.
    Mais uma vez ela olhou-o admirada. Ele falava com se houvesse tido essa experincia.
    -        Voc tambm passou por isso? Amou outra mulher?
    -        Isso no importa agora. O que sei  que  muito fcil envolver-se, apaixonar-se. O corao, s vezes, nos prega esta pea. Pode acontecer e o mundo 
no acaba por isso.
    -        Para mim acabou. Nunca havia passado por isso antes. O desprezo di. Amar uma pessoa, sentir que tudo far por ela, qualquer sacrifcio, e ela mostrar-se 
indiferente, fria, distante. No posso conformar-me. Hei de vingar-me!
    Ela agitou-se de novo torcendo as mos nervosamente. Menelau sacudiu a cabea negativamente dizendo, calmo:
    -        No far nada disso. A vingana  faca de dois gumes. Fere sempre quem a pratica. Depois, vingar-se de qu?
    -        Ele me trocou por outra.
    -        No pode obrig-lo a corresponder ao seu afeto. As pessoas so livres para escolher seu caminho. Quando duas pessoas se amam,  bom. Mas quando uma 
s ama, precisa conformar-se em no ser correspondida. No jogo do amor,  um risco natural. Ningum  culpado por no amar ou por amar esta ou aquela pessoa.
    -        Ele me enganou. Disse que me amava. Eu confiei. Menelau suspirou.
    -        Talvez ele no tenha tido essa inteno. s vezes confundimos nossos sentimentos. Ele pode ter-se enganado.
    -        Vocs homens so todos iguais. Voc o defende. Talvez at goste por eu haver sido abandonada. Assim, voc est vingado da minha traio!  isto. Voc 
quer ver-me sofrer e pagar pelo que fiz.
    -        Est enganada. No lhe desejo mal. No primeiro instante, meu orgulho ferido julgou-a severamente. Pensei em mat-la, em abandon-la para sempre. Depois, 
pensando em nossas vidas, em nosso relacionamento onde no havia amor de marido e mulher, refleti melhor e pude compreender como voc havia chegado a esse ponto. 
 jovem, gosta da corte, eu prefiro outros divertimentos. Nosso casamento foi um erro. Apesar disso, resolvi ficar a seu lado, ajud-la a enfrentar essa situao.
    -        De que me adianta? Preciso livrar-me desse filho esprio! Menelau segurou-lhe a mo, apertando-a com fora.
     -        No diga isso!  seu filho. Nascer de suas entranhas e voc o amar muito!
     -        Eu o odeio! Como odeio o pai que o gerou. Quero destrui-lo. Vai ajudar-me a encontrar algum que o arranque daqui. Se quer realmente fazer algo por 
mim, j sabe o qu. Se fizer isso, ser-lhe-ei eternamente grata.
     -        No o farei!  uma vida que Deus colocou em suas mos.
     -        Eu no quero! Se no me ajudar, procurarei outra pessoa. Quero ficar livre deste peso!
     Menelau colocou a mo nos lbios de Maria Antnia.
     -        No diga isso! Por que ir contra a vontade de Deus? Uma vida  preciosa. Ningum tem o direito de destrui-la! Alm do mais perigoso para a sade. 
Voc pode morrer!
     -        No me importo. Isso seria at bom. Viver para qu?
     -        Para criar seu filho, aprender que a vida  bela quando sabemos viv-la.
     -         intil. No concordarei nunca.
     Menelau desconversou.
     -        Chega desse assunto. Precisa descansar, refazer-se, acalmar-se, pensar melhor.
     -        No posso, enquanto no me livrar deste fardo.
     -        Tambm no  assim. Amanh  outro dia. Ningum pode resolver as coisas desta forma. Descanse. H tempo para decidir. Deite-se, vamos.
     Menelau apelou mentalmente para a orao, pedindo a Deus que o ajudasse. Maria Antnia pareceu mais calma e deixou-se cair no leito.
     -        Estou muito cansada - disse.
     -        Descanse. Ficarei aqui a seu lado. O importante, agora,  recuperar as energias.
     Menelau cobriu-a com o lenol e alisou-lhe a testa com carinho enquanto continuava orando mentalmente. Ela fechou os olhos soltando fundo suspiro. Ele continuou 
passando a mo em sua cabea e orando, at que, por fim, ela adormeceu.
     Observando seu rosto plido e emagrecido foi tocado de compaixo. Rendeu graas a Deus por haver tomado a resoluo de auxili-la. Lutaria com todas as suas 
foras para salvar aquelas vidas.
     Maria Antnia dormiu durante a noite inteira. Menelau ficou ali, estendido em uma poltrona, colocando os ps sobre a cama. Depois de algum tempo, vencido pelo 
cansao, adormeceu.
     Despertou sobressaltado. Olhou Maria Antnia. Ela ainda dormia. Levantou-se, sentindo o corpo dolorido. Foi at a janela e levantou a ponta do reposteiro. O 
dia estava claro. Mandou a serva preparar um banho para ele e um bom caf para Maria Antnia.
     Depois do banho, voltou ao quarto da esposa, que ouvindo-o entrar abriu os olhos, um pouco assustada. Menelau aproximou-se dela dizendo com voz firme:
-        Precisa alimentar-se. Trouxe um delicioso caf.
     Fingindo no perceber o gesto de recusa ele foi at a mesa onde em rica bandeja de prata j se encontrava tudo disposto para servir. Encheu a xcara com caf, 
leite, adoou e colocou algumas torradas, po, bolo, manteiga, gelia. Depois aproximou-se de Maria Antnia dizendo com firmeza:
-        Sente-se.
-        No posso. Estou tonta.
-        Vai passar. Eu a ajudarei. Vamos.
     Abraou-a ajudando-a a sentar-se no leito, depois colocou um travesseiro em suas costas. Pegou a bandeja e colocou-a sobre os joelhos dela, continuando a segur-la.
-        Vamos. Beba esse caf com leite. Est como voc gosta.
-        Estou enjoada - resmungou ela.
       Coma que passa. Experimente uma torrada. Vamos.
     Ela estava fraca para discutir, obedeceu. Bebeu alguns goles do caf com leite, comeu uma torrada e de repente percebeu que sentia muita fome.
-        No devo comer - disse. - Eu quero  morrer.
-        Est bem. Mas morra de barriga cheia.
-        Que horror! - disse ela, irritada.
     Mas comeu as torradas, tomou todo caf com leite e grossa fatia de po com manteiga. Menelau ficou satisfeito. O pior havia passado. Apesar disso, percebeu 
que no podia descuidar-se.
     Nos dias subseqentes, apesar de sentir-se melhor, Maria Antnia continuou dando trabalho. Livrar-se da gravidez era para ela idia fixa. Ele precisou usar 
de toda sua habilidade para que ela no consumasse esse desejo.
     Mandou um portador com uma carta para Eduardo, contando como as coisas estavam e pedindo ajuda do sr. Sampaio nas sesses espritas a que se sentia impossibilitado 
de comparecer, temeroso que Maria Antnia aproveitasse sua ausncia para atentar contra a vida do beb.
     Sentia que a vigilncia deveria ser severa, apesar dos protestos dela, irritada com sua constante presena.
     -        Voc cismou comigo agora - dizia, nervosa. - Por que no vai cuidar dos seus negcios?
     -        Os negcios esto bem cuidados. Decidi cuidar de voc.
     -        Muito tarde. O que pretende? Quer irritar-me ainda mais? Sei cuidar de mim. No preciso de ama-seca.
        No seja maldosa. Posso fazer voc esquecer as tristezas, distrair-se.
     -        Sei o que quer. Isso no vou concordar. No quero esse filho e pronto.  coisa decidida.
     -        Maria Antnia! No recuse a ddiva de ser me. Muitas mulheres sonham com essa alegria e no conseguem. Deus lhe concedeu o poder de gerar um corpo, 
de receber uma alma que precisa nascer neste mundo. Por que quer ir contra a vida, destruindo-a? Aceite a maternidade, eu cuidarei da criana como meu prprio filho 
e voc no se arrepender.
     Maria Antnia olhou-o, pensativa. Menelau era diferente dos homens que conhecia. No compreendia como ele aceitava a idia de criar um filho de outro, prova 
da sua traio. Certa vez disse-lhe. sria:
     -        No compreendo. Voc deveria ser o primeiro a desejar a morte desse filho que no  seu. Como pode aceit-lo?
     -        Ele no tem culpa de nada. Vem para a vida na Terra por determinao de Deus. Recus-lo  ir contra a vontade divina.
     -        No sabia que voc era religioso! - fez ela, irnica.
     -        Sou homem de f. isso tem me ajudado muito nos momentos difceis por que j passei na vida. Sei que no cai uma folha da rvore sem a vontade de Deus.
     -        No sou passiva como voc. Deus deveria saber que eu no queria filhos, quanto mais daquele traidor!
     -        Deus age sempre pelo que  melhor para ns. Somos to cegos que, em muitas oportunidades, ele precisa agir contra a nossa vontade. Somos capazes de 
fazer muito mal a ns mesmos e nos tornannos muito infelizes. Deus interfere, modificando as coisas para nos fazer encontrar a felicidade. Nunca ouviu dizer que 
Ele escreve direito por linhas tortas?
     -        Conversa de gente ingnua. Esse filho s vai me deformar e fazer sofrer. Tenho horror do parto.
     -        Desde que o mundo  mundo, crianas nascem a todos os instantes.  da natureza. E tudo que  natural  bom.
     -        No adianta conversar com voc. Quero que me deixe em paz. Vou resolver meu caso  minha maneira.
     Menelau desconversava e procurava outros assuntos mais amenos. Apesar de irritada, nervosa e obstinada, Maria Antnia comeou a melhorar.
     Certa tarde, Menelau sentado em frente  sua escrivaninha em seu gabinete, preocupado, segurava uma carta entre as mos. Acabava de receb-la atravs de um 
portador que viera especialmente de So Paulo. Nela, sua irm Manuela contava-lhe que a sade de seu pai havia piorado e pedia-lhe que fosse imediatamente.
     O        que fazer? Maria Antnia exigia toda a sua ateno, mas por outro lado no podia deixar de atender a esse angustioso chamado. Iria e lev-la-ia junto. 
A custo conseguira cont-la durante aqueles seis meses. A cada dia, vendo sua forma modificar-se, por vezes era rude com o marido, a quem culpava por continuar naquela 
situao.
     Tomando uma deciso, Menelau levantou-se e procurou por ela. Encontrou-a em uma poltrona, rosto fechado, inquieta:
     -        Maria Antnia - disse - prepare-se, vamos para So Paulo.
     Ela olhou-o admirada e no respondeu.
     -        Meu pai est mal. Precisamos v-lo. Recebi carta de Manuela.
     -        V voc. Eu no saio daqui deste jeito.
     -        Voc vai. No desejo deix-la s.
     -        No vou. Como apresentar-me em So Paulo, onde temos tantos conhecidos, horrvel deste jeito?
     Menelau suspirou.
     -        A maternidade no  horrvel,  natural e todos sabem disso.
     -        Pois eu no vou.
     Menelau insistiu inutilmente. Ela recusou-se. Ele, contudo, precisava ir. Sua irm Helena estava na Europa com o marido. Depois, ele amava o pai, queria estar 
junto dele. Iria naquele mesmo dia. Procurou a senhora Cerqueira, sempre to amiga de Maria Antnia e pediu-lhe ajuda. Queria que ela ficasse em sua casa at seu 
regresso. Confidenciou-lhe que desejava muito esse filho e que a esposa no aceitava a idia de ser me.
     Adelaide Cerqueira prontificou-se a atend-lo, prometendo empenhar-se para que nada acontecesse com Maria Antnia.
     Apesar de no julgar necessrio, Maria Antnia foi forada a aceitar as condies que o marido estabeleceu para viajar sem ela. Naquela tarde mesmo, depois 
de ter pedido a Eduardo que o auxiliasse com preces, tomou o trem para So Paulo.
     Chegando na solarenga casa da famlia, em So Paulo, Menelau encontrou Manuela muito aflita. O pai tivera uma crise e o mdico encontrava-se em sua cabeceira 
tentando reanim-lo, sem xito. Abraou a irm chorosa e aproximou-se do leito. Teria chegado tarde?
     O        rosto de seu pai estava magro e plido, sem dar sinais de vida. Com ar preocupado, o mdico colocou o ouvido no peito do enfermo, permanecendo assim 
por alguns momentos; depois tomou-lhe o pulso segurando seu relgio com a mo esquerda.
     -        Ento, doutor? - perguntou Menelau.
     -        Est muito fraco.
     -        Doutor, no o deixe morrer - pediu Manuela apavorada. Seu rosto bonito estava transfigurado pela emoo.
     -        Estou fazendo o possvel - respondeu o mdico com voz triste. - Se sabem rezar, chegou a hora.
     -        Est to mal assim? - indagou Menelau, preocupado.
     -        No posso afirmar nada. Ele est em um estado intermedirio. Tanto pode melhorar e recuperar-se como no. Contudo, esperamos que ele reaja.  forte, 
tem gosto de viver. Ficarei aqui at a crise passar.
     -        Venha, Manuela. Vamos sair. Este clima de preocupao no  bom para papai. Ele precisa de calma e serenidade para recuperar-se.
     Menelau foi saindo, puxando a irm para fora do quarto. Ela obedeceu e, na sala, Menelau f-la sentar-se no sof. Sentou-se a seu lado, segurando carinhosamente 
sua mo.
     -        Precisa acalmar-se. No adianta desesperar-se. S agravar seus problemas.
     Um soluo sacudiu o corpo de Manuela.
     -        No me conformo. Ele  tudo de mais querido que eu tenho neste mundo. Sempre nos demos bem. Mesmo antes da morte de mame, ele era sempre quem me compreendia 
e apoiava. No saberia fazer nada sem ele.
        No diga isso. Voc no  criana. Tem condies de conduzir sua vida. Contudo, ele ainda pode recuperar-se. Acalme-se.
     -        Se ele morrer, o que ser de mim?
     Menelau alisou-lhe os belos cabelos castanhos com suavidade.
     -        Voc no est s. Se acontecer o pior, eu no a deixarei. Depois voc  moa, bela, cheia de qualidades. Por certo encontrar um homem a quem amar 
e ser feliz.
     -        No quero casar-me. Desejo ficar com papai.
     -        Manuela, voc no est sendo razovel. Ele est vivo e pode recuperar-se. Mas, se tal no se der, se ele morrer,  preciso aceitar a vontade de Deus. 
Ele faz tudo certo e se achar que  a hora de papai ir para o outro mundo,  porque  melhor para todos. Deus nunca erra.
     Ela ouvia pensativa. Menelau prosseguiu:
     -        S se desespera quem  materialista. Quem acha que a morte  o fim de tudo. Que nunca mais encontraremos nossos entes queridos. Voc cr em Deus. Deve 
saber que a vida continua em outro mundo depois que o corpo morre.
     -        Voc diz coisas estranhas. Eu creio em Deus, mas ele agora parece-me to distante!
       No deixe que a dvida mate suas esperanas. O esprito eterno, nunca morre. A morte  como uma viagem, um dia nos encontraremos em algum lugar.
     -        Voc cr mesmo nisso?
     -        Creio. J tive provas do que afirmo. Posso contar-lhe alguns fatos que presenciei. Papai no vai acabar. Um dia ele ter que partir. Todos ns o faremos. 
Mas  apenas uma mudana, sempre para melhor, ainda mesmo quando o sofrimento se faz presente. Deus  bom e justo. Sempre faz tudo certo e modifica as coisas para 
melhor!
     Manuela suspirou:
     -        Foi bom voc ter vindo. Estou mais calma agora.
     O        sr. Coutinho voltou da crise cardaca que o acometera, mas no se recuperou. A cada dia foi ficando mais fraco e o mdico dissera reservadamente para 
Menelau que a vida de seu pai estava por um fio que, a qualquer momento, poderia romper-se.
     Menelau estava preocupado com Maria Antnia, todavia no podia regressar ao Rio deixando o pai naquela situao. Orava pedindo a Deus inspirao para agir da 
maneira mais adequada. Impossibilitado de cuidar pessoalmente da esposa, entregou o caso a Deus, confiando.
     Aproveitava o tempo junto da irm para despertar-lhe o conhecimento das coisas espirituais, falando-lhe de suas experincias, das sesses na casa do sr. Sampaio, 
de seu amigo Eduardo e da mediunidade de Maria Jos. No falou de seus problemas ntimos, mas dos fatos que no o envolvesse como a doena de Demerval, sua aventura 
como prisioneiro e sua libertao depois da sesso que Eduardo fizera com Maria Jos para ajud-lo.
     Manuela interessou-se. Lembrava-se que, quando criana, logo aps o falecimento da me, por duas vezes a vira sentada em seu banco favorito no jardim. Como 
ningum a levara a srio e ela nunca mais a vira, acabou se esquecendo. Agora recordava o fato. Seria mesmo a alma da me que viera sentar-se ali?
     - Por que no? - respondeu Menelau. - Creia, Manuela, a morte no  o que muitos pensam. No  o fim de tudo.
     Manuela foi ficando mais calma e aceitando com mais coragem a doena do pai.
     Foi no quinto dia depois da chegada de Menelau que o sr. Coutinho partiu. Menelau foi incansvel. Cuidou de tudo. Mandou avisar Beatriz no convento e Maria 
Jos em Itu. Quanto a Helena, escreveria depois avisando-a. Estava longe demais. Mandou uma carta para avisar Maria Antnia e Eduardo.
     A noite comeava quando Maria Jos chegou, acompanhada pelos filhos. Beijou Manuela, estendeu a mo para Menelau. Foi com emoo que ele a fixou. Pde ler em 
seus olhos brilhantes a mensagem de amor e de saudade. Beijou os sobrinhos e uma lgrima luziu em seus olhos quando pousou os lbios na testa de Romualdo. Era um 
belo menino. Providenciou acomodaes para eles, com carinho.
     - Lamento encontr-lo em to triste circunstncia - disse Maria Jos quando se viu a ss com ele.
     - Apesar disso, sinto-me feliz por v-los - respondeu Menelau.
     - Eu tambm.
     O velrio estendeu-se durante toda a noite e o enterro seria s
10 horas do outro dia. A casa, aberta  visitao, recebia todos e
Menelau procurava conversar atencioso. Sua famlia era conhecida e
seu pai respeitado.
     Maria Jos cuidava de Manuela, preocupada com sua palidez e abatimento. Conseguiu faz-la descansar um pouco depois de haver ingerido um ch calmante.
     Menelau ansiava para conversar com Maria Jos, mas s de madrugada conseguiu. A maior parte das pessoas se retirara, Manuela dormia, os sobrinhos tambm. Alguns 
poucos amigos cochilavam na cmara-ardente. Maria Jos foi  cozinha tomar um caf. Menelau a acompanhou. Serviram-se no bule do fogo e depois Menelau disse:
     -        Venha. Preciso falar-lhe.
     Maria Jos o seguiu a uma sala de estar vazia. Sentaram-se frente a frente.
     -        Voc est bem - disse ele, olhando-a com amor.
     -        Voc est abatido - respondeu ela. -  natural.
     Ele fixou-a, srio.
     -        No  por causa de papai que estou assim. Apesar do afeto que lhe tenho, voc sabe como eu encaro a morte. Tudo  natural, as pessoas tm que partir 
um dia.
     -        Se no  por isso, por que  ento?
     -        Tenho enfrentado muitos problemas, mas o mais grave enfrentar a mim mesmo.
     -        No compreendo. Voc tem sido mais forte do que eu.
     -        Preciso ser forte. S fazendo o que  direito e justo encontraremos a felicidade. Tenho certeza disso.
     Maria Jos sacudiu a cabea negativamente.
     -        No sei. Posso aceitar certas coisas quando voc as diz, porm, quando estou s e as saudades me dilaceram, tudo fica diferente.
     -        Maria Jos! Compreendo muito bem o que  isso. Nessas horas  que preciso lutar contra meus impulsos egostas. Mas a vida nos coloca  prova a cada 
dia e eu tenho sido sacudido por ela para poder enxergar meu verdadeiro caminho. Devo contar-lhe a verdade.
     Em voz baixa e emocionada, Menelau contou tudo quanto lhe acontecera desde que deixara a fazenda.  medida que ouvia, Maria Jos era presa de grande emoo. 
As lgrimas rolavam-lhe pelas faces e ela deixava-as correr livremente.
     Quando ele se calou, Maria Jos percebeu que, ao amor que sentia por ele, juntaram-se admirao e respeito. Foi com sinceridade que disse:
     -        Admiro-o. Poucos teriam a sua coragem.
     -        No se trata de coragem. Estou realmente interessado em cumprir minha misso neste mundo. Por felicidade, estou tendo a ajuda dos espritos, recordando-me 
os compromissos que eu assumi no passado. Fazendo isso, acredito estar construindo nossa felicidade.
     Maria Jos suspirou.
     -        Ela parece-me muito distante.
     -        No deve pensar assim, olhar as coisas do ponto de vista da Terra. Ns no estamos limitados a esta vida. Temos todo tempo necessrio para resolver 
adequadamente nossas ligaes passadas e depois a prpria vida nos unir para sempre. Estou certo de que a amo de verdade e esse amor transcende ao tempo e a tudo 
o mais.
     Maria Jos sentiu uma onda de alegria invadir-lhe o corao. A plenitude daquele amor, naquele instante, apagava de sua lembrana todas as dvidas e tristezas 
que cultivara.
     -        Quero ser digna de voc. Aprender a esperar. Estar pronta quando soar a nossa hora.
     Menelau passou-lhe a mo, tocando levemente os cabelos dela.
     -        Isso, Maria Jos. Sinto-me aliviado. Este desabafo fez-me bem.
     Conversaram durante algum tempo sobre a fazenda, os sobrinhos, at a hora que Manuela entrou na sala procurando-os para conversar.
     Aps o enterro do pai, Menelau ficou mais uma semana para
a missa e as providncias legais necessrias. Estava preocupado com
a esposa. Maria Jos ofereceu-se para ficar algum tempo com Manuela at que decidissem o que fazer.
     Assim, Menelau voltou para o Rio. Encontrou a situao tumultuada. Adelaide nervosa. Maria Antnia passando mal. O mdico presente. Foi Adelaide quem colocou-o 
a par do acontecido.
     A princpio, Maria Antnia fora cordata e comportada. Tanto que ela ficara tranqila. Mas um dia surpreendera-a pronta para sair, sem que ela visse. Atendendo 
ao que lhe fora recomendado, Adelaide prontificou-se a ir junto o que lhe valeu uma cena violenta. Sem importar-se, Adelaide seguiu-a at uma modista onde ela encomendou 
alguns trajes para depois que o filho nascesse. Mas, Adelaide percebeu que ela ficara nervosa e passou a vigi-la melhor.
     -        No sei como foi, senhor Menelau, ontem ela comeou a passar mal, mas no quis o mdico. Disse que no era nada. Hoje percebi que ela estava pior, 
com dores, suores e mesmo contra sua vontade mandei buscar o mdico. Ela no queria que ele a examinasse. Deu um trabalho. Foi bom o sr. ter chegado. No sabia 
o que fazer!
     -        O mdico j disse o que est acontecendo?
     -        Ainda no. Est l, tentando fazer o exame.
     -        Vou at l.
     Menelau, a passos rpidos, foi ao quarto da esposa. Bateu porta e a criada abriu. A voz de Maria Antnia soava irritada:
     -        Deixe-me em paz. No preciso dos seus servios.
     -        A senhora no est bem. Precisa de atendimento. Minha conscincia no permite que lhe d ateno. - Sua voz tornou-se suplicante. - Por favor, deixe-me 
examin-la!
     Menelau aproximou-se:
     -        O que se passa aqui?
     Foi o mdico quem respondeu:
     -        Vem em boa hora, sr. Menelau. Dona Maria Antnia est mal e no quer que a examine.
     Apesar de plida, Maria Antnia tentou dissimular.
     -        No tenho nada. E impresso deles.
     -        Voc no me parece bem - tomou Menelau. - Vai ficar quieta e o dr. vai examin-la.
     -        Bobagem, eu... - seu rosto contraiu-se e ela levou a mo  barriga.
     -        A senhora est com dores. Estava tudo bem. Aconteceu alguma coisa?
     -        No - disse ela, retendo o ar, fisionomia contrada.
     Menelau segurou-a pelos braos sacudindo-a.
     -        Fale a verdade, O que fez? Sabe que pode morrer?
     -        No fiz nada.
     O        mdico colocou o ouvido na barriga e pediu silncio. Depois colocou o termmetro em sua axila e segurou o pulso contando as batidas com o relgio na 
mo.
     -        Tem sangramento? - indagou, srio.
     -        Um pouco - respondeu ela.
     A dor havia passado, mas ela estava com medo. Iria morrer? Aquele filho esprio iria lev-la  morte?
     -        Dona Maria Antnia, a senhora no quer esse filho? - indagou
o        mdico.
     -        No quero. Ele est me deformando. Estou cansada de ficar encerrada nestas paredes.
     -        O que fez? Desejou expuls-lo? No sabia o risco que estava correndo? A esta altura da gravidez! Que insensatez!
     -        Doutor - gemeu ela - acha que posso morrer?
     -        Est brincando com a vida. Vai contar-me j o que  que fez para ficar deste jeito.
     -        Tomei um remdio que uma aparadeira me deu.
     -        Deixe-me ver o frasco.
     Ela abriu a gaveta da mesa de cabeceira e tirou um vidro com uma poo escura. No havia rtulo. O mdico tomou o vidro , tirou a rolha e levou-o ao nariz.
     -        Hum - resmungou. -  caso de polcia. Vou mandar prender essa assassina.
     -        E ento, doutor? - indagou Menelau angustiado.
     -        Vou escrever uma receita. Mande trazer com urgncia. Ficarei esperando.
     Menelau obedeceu prontamente. A dor voltara e o mdico temia que ela tivesse contrao. Procurou acalm-la.
     -        Acalme-se agora. No contraia os msculos. Relaxe. Tudo vai ficar bem. Beba isto, por agora.
     Deu-lhe um clice com o remdio que preparara. Ela sorveu o contedo fazendo ligeira careta.
     -        Procure repousar.
     Apanhou uma cadeira, sentou-se ao lado da cama. Menelau fora pessoalmente buscar o remdio e entregou-o ao doutor. Este preparou e deu uma poo  Maria Antnia. 
As dores reapareciam de quando em quando e o mdico no ocultava a preocupao.
     O        medicamento f-la descansar melhor e Menelau, chamando o mdico a um canto do quarto, indagou:
     -        E ento?
     -        Nada posso afirmar por enquanto. Ela tomou um abortivo muito forte. Provoca clicas violentas. No sei se o feto vai suportar.
     Menelau passou a mo pelos cabelos em um gesto nervoso:
     -        E se isso acontecer?
     -        Ser expulso. Infelizmente no ter chance de viver. Ela no completou os sete meses de gestao.
     Menelau sentiu-se triste. Seus esforos teriam sido inteis? Alm dos problemas que ela possua, dos erros que cometera, juntar-se-ia mais este?
     Em silncio apanhou uma cadeira e sentou-se ao lado do leito. Lembrou-se de Deus. Se ele no podia solucionar aquela situao, por certo Deus o faria da melhor 
forma.
     Tomou a mo da esposa e comeou a orar com sinceridade e confiana. Sentiu-se mais calmo. Estava fazendo a sua parte. Aceitara os desgnios de Deus com coragem 
e serenidade. Sabia que Deus detinha o poder da vida e da morte, por isso orou com amor para esse esprito que tentava nascer e por certo sofria naquele instante 
o choque doloroso da rejeio.
     Aos poucos, Maria Antnia foi melhorando. As dores espaaram e ela adormeceu. O dia estava amanhecendo quando o mdico levantou-se da poltrona na qual se recostara.
     -        Sr. Menelau - disse baixinho - agora j posso ir.
     -        Acompanho-o - respondeu ele, levantando-se.
     Ambos haviam passado a noite ao lado da cama. O mdico lanou breve olhar sobre Maria Antnia, que ainda dormia e, pegando sua valise, saiu acompanhado por 
Menelau. Enquanto se dirigiam  sada foi dizendo:
     -        Ela agora est bem. Acredito que o perigo maior j passou. Contudo,  preciso vigi-la. No est aceitando a maternidade. Pode cometer um desatino.
     -        Ficarei a seu lado.
     -        Joguei fora aquele veneno. Podia t-la matado! Um aborto aos seis meses pode ser fatal.
     -        Eu sei. No a deixarei s. Acha que no vai prejudicar a criana?
     -        Quanto a isso, no se preocupe, ela est bem guardada. A natureza sabe proteger a vida. Contudo, as contraes poderiam expuls-la. Nesse caso, nada 
se poderia fazer, no sobreviveria.
     -        Deus nos ajudar, no acontecer de novo.
     O        mdico retirou-se e Menelau sentiu o cheiro gostoso do caf sendo coado. Foi  cozinha, tomou uma xcara e, mais animado, voltou para perto da esposa. 
A senhora Cerqueira apareceu diligente.
     -        O senhor passou toda a noite aqui sentado. Depois da viagem que fez e dos problemas que passou em So Paulo... Precisa descansar. Pode ir, eu ficarei 
aqui, velando pela nossa enferma.
     -        Obrigado dona Adelaide. Vou esperar que ela melhore mais. Terei tempo para descansar.
     -.        Ela tomou muito remdio para dormir. No acordar to cedo. Aproveite para refazer-se. O senhor precisa. Depois, no arredarei p daqui, qualquer 
coisa que acontea irei cham-lo. O senhor est muito abatido. No poder cuidar dela se adoecer agora.
     Ele concordou. Ela estava com a razo. Foi para o quarto e a percebeu que estava exausto. Olhando a cama pronta, convidativa, trocou de roupa e deixou-se cair 
nela.
     Nos dias que se seguiram, Maria Antnia foi melhorando. Contudo, o mdico no lhe permitia deixar a cama porqanto quando ela se levantava as dores reapareciam.
     Inconformada, reclamando muito, ela obedeceu. Embora falasse que queria morrer, o medo fazia com que ela no contrariasse o mdico.
     Menelau foi incansvel. No a deixava s. Quando precisava sair, Adelaide ficava.
     Em uma noite de setembro as dores reapareceram. O mdico foi chamado prontamente.
        O dia estava amanhecendo quando o menino nasceu. Quando seu choro forte ecoou no quarto, Menelau no conteve as lgrimas. E enquanto o mdico e Adelaide 
cuidavam do pequenino, Menelau, a um canto, orou agradecendo a Deus o milagre da vida que acabara de presenciar.

CAPTULO 21

       Maria Antnia olhou assustada para aquele pequeno ser que Menelau lhe colocou nos braos.
     -        Veja o seu filho, como  belo!
     Ela fixou aquele rostinho vermelho, que envolto em ls e rendas dormia. Nada disse, porm em seu rosto havia estupefao. Menelau prosseguiu:
-  o milagre da vida! Ele chegou para trazer alegria, amor!
     -         pequeno demais - disse por fim.
     -        No  dos maiores, mas o mdico disse que ele est bem.  um belo menino.
     -        Parece to fraco.
     -        Engana-se, ele  muito forte. Conseguiu nascer. Veja.
     Menelau procurou a mozinha do beb e colocou o dedo dentro dela e ele imediatamente o segurou com firmeza, depois abriu os olhinhos, fixando-os. Maria Antnia 
riu excitada.
     -        Ele segurou seu dedo!
     -        Firme. Experimente.
     Ela colocou o dedo e ele pegou-o: ele riu admirada. Seu rosto humanizou-se.
     -        To pequeno! Como pode segurar to forte?
     -        Tem garra e vontade de viver.
     Ela fez um muxoxo.
     -        No sei para qu. Esta vida no vale nada.
     -        Ele no pensa assim. Lutou para chegar a esse mundo.
     -        Bobagem. Criana deste tamanho no pensa. Voc, s vezes, foge da realidade.
     -        Cada um v a vida como pode. Para mim, viver no mundo  uma felicidade. Acredito na vida.
     -        No sei por qu. Afinal, a voc tambm no coube grande
coisa.
     -        Vejo diferente, Deus tem me dado muito. Com a chegada dele somos uma verdadeira famlia. Como vamos cham-lo?
     Ela olhou-o um pouco irnica. Como ele podia aceitar uma situao dessas e achar bom?
Um filho de outro homem! Qualquer marido a teria repudiado ou at matado. Menelau era diferente. Seria to aptico? Talvez no a amasse, mas ainda assim, onde estava 
seu orgulho?
     -        Voc fala como se o filho fosse seu - disse.
     -        Ele  - respondeu Menelau srio.
     Ela olhou-o admirada e ele prosseguiu:
     -        Se no fosse por mim ele no estaria aqui agora. Sou tambm pai porque preservei sua vida. Vou dar-lhe o meu nome, cri-lo como meu filho. Am-lo e 
proteg-lo sempre.
     -        Como pode? No iria odi-lo por ter sido gerado por outro homem? Por eu t-lo trado?
     Menelau fitou-a firme, respondendo com voz clara:
     -        J falamos sobre este assunto. Se voltei e resolvi ficar a seu lado, ampar-la, proteg-la, aceitar seu filho foi porque compreendi o que aconteceu. 
Nosso casamento no foi dos mais felizes. Voc gostaria que eu fosse diferente do que sou e eu confesso a mesma coisa. Mas, se voc no  a mulher dos meus sonhos 
nem eu o seu prncipe encantado, gosto de voc. No desejo que nada de mal lhe acontea. Podemos ser bons amigos, viver bem. A criana  inocente. No tem culpa 
de nada. Precisa de amor e carinho para crescer forte e feliz.
     De repente o rosto de Maria Antnia endureceu:
     -        Ele  filho daquele canalha. Leve-o daqui!
     Menelau respondeu enrgico:
     -        No repita isso. Ele  seu filho. Carne de sua carne. No tem culpa da leviandade de vocs.
     Fundo suspiro saiu do peito de Maria Antnia.
     -        Estou cansada - disse. - Quero dormir.
     Menelau entregou o menino  serva e disse, calmo:
     -        Descanse, durma. Mas antes, agradea a Deus ter-lhe dado a chance de ser me e de ter tido um filho sadio.
     Ela no respondeu. Recostando-se nos travesseiros fechou os olhos para dormir.
     Nos dias que se seguiram, Maria Antnia demonstrou descontrole emocional. Irritava-se com o choro do menino e mandava a ama tir-lo do quarto. Negou-se a amament-lo 
e Menelau contratou uma ama de leite.
     Havia momentos, contudo, que parecia aceitar o filho, olhando-o e segurando sua mozinha. Quase sempre, depois que isso acontecia, caa em depresso fechando-se 
no quarto sem comer ou vestir-se.
     Menelau procurava ajud-la de alguma forma, mas ela no ouvia. Ele voltara a freqentar as sesses na casa do sr. Sampaio, de onde regressava mais calmo e encorajado.
     Um dia, Maria Antnia acordou mais animada. Resolveu assumir de novo sua vida e voltar ao convvio social. Freneticamente foi modista, comprou roupas, jias 
e preparou-se para voltar aos sales.
     Foi com tristeza que Menelau a viu envolver-se com futilidades, deixando o filho totalmente aos cuidados da ama. Ele procurava dar ao menino o mximo carinho, 
tentava falar com Maria Antnia sem que ela o ouvisse.
     A senhora Cerqueira a acompanhava com pacincia e Menelau agradecia sua cooperao valiosa.
-        Tome conta dela - pedia. - No a deixe abusar da sade.
     Adelaide o admirava muito. Menelau nunca lhe falara sobre seu relacionamento com a esposa, mas ela percebia a indiferena de Maria Antnia, seu comportamento 
ftil e leviano.
     Se aceitara o posto de fazer-lhe companhia era porque precisava do dinheiro que Maria Antnia a princpio, Menelau depois, lhe pagavam. Fazia-o tambm por ele 
e pela criana. Emocionara-se vendo a dedicao e interesse que demonstrava por uma mulher que nada fazia por merecer. Tinha srias suspeitas de que o filho no 
fosse dele.  sua sagacidade no escapavam os flertes e as manhas de sua companheira.
     Ela nunca lhe fizera confidncias, mostrando-se muito discreta, fazendo crer que tudo no passava do gosto de sentir-se admirada, lisonjeada. Apesar disso, 
ela tinha percebido muitas coisas que preferia guardar para si.
     s vezes perguntava-se se Menelau era to ingnuo e crdulo quanto parecia ser. Teria desconfiado do comportamento da esposa? Era provvel, chegara at a sair 
de casa. Todavia, voltara e era todo atenes e cuidados com Maria Antnia e com a criana. Por certo no desconfiava de nada. Era homem bom como poucos. Respeitava-o.
     Vendo-lhe o devotamento para com a criana, tentava ajud-lo procurando convencer Maria Antnia a interessar-se mais pelo filho.
     Seu esforo era intil. Depois do nascimento do menino, ela parecia-lhe pior.. No parava em casa e, quando estava, ou dormia para recuperar as energias ou 
atendia assuntos da moda e da sociedade. E, se antes ela era discreta e pouco dada a amizades, agora rodeava-se de pessoas desocupadas to volveis e fteis quanto 
ela, que formavam uma pequena corte em seu redor, freqentando-lhe a casa, acompanhando-a em suas noites de festa. Estavam em dia com todos os mexericos e maledicncias 
do dia e ela divertia-se muito em sua companhia. Adelaide preocupava-se e, uma tarde, tomou coragem para dizer-lhe o que sentia:
    -        Maria Antnia, estou preocupada com suas relaes.
    -        Por qu? - indagou com indiferena.
    -        No me parecem pessoas sensatas. Levam vida ociosa e vivem de mexericos. No gozam de boa reputao.
    Ela deu de ombros:
    -        Bobagem. Freqentam todos os sales, so recebidos em toda parte. Depois, gosto deles, divertem-me. No h nada de mal nisso.
    -        Pense bem. Voc mal tem visto seu filho. No acha que est exagerando um pouco? Ele precisa do seu amor, do seu carinho.
    Ela voltou-se, saindo da frente do espelho onde acabara de olhar os brincos novos que comprara. Aproximou-se de Adelaide dizendo com voz fria:
    -        Minha vida diz respeito somente a mim. Vivo como quero e ningum tem nada com isso. Voc est se envolvendo demais em meus assuntos. No gosto disso. 
De hoje em diante, dispenso sua companhia. Alis, nem sei por que ainda a tolerava. Tenho amigos dispostos a acompanhar-me por toda parte. So mais agradveis do 
que voc. Falam a mesma linguagem que eu.
    -        Voc me despede?
    -        Sim. Estou farta de v-la sempre ao meu lado como se eu fosse uma criana. Pode ir e passe muito bem.
    -        Est jogando sua felicidade no lixo - disse, com voz firme.
       - No se queixe quando o tempo destruir suas iluses.
    -        No adianta rogar pragas. Em mim no pega. Passe muito bem.
    -        Adeus - respondeu Adelaide, lanando-lhe um olhar triste. Por que ela era to cega? Menelau ficou muito contrariado quando soube. Procurou Maria Antnia 
tentando conter a irritao.
    -        Eu a despedi sim.  verdade. No preciso dela. Tenho um bom crculo de relaes, saio com eles, que so mais agradveis do que ela. No suportava mais 
v-la como uma sombra, sempre a meu lado.
     -        No conheo bem seus amigos - disse ele.
     -        So pessoas inatacveis. Dois casais, alguns primos e primas, enfim, um grupo jovial, bem disposto. So alegres, despreocupados, divertem-me.
     -        A senhora Cerqueira  pessoa ponderada e bondosa. Foi sempre dedicada e sua amiga.
     -        Antiquada e piegas. No a suporto. Quer comandar meus atos, criticar meus amigos, meter-se em minha vida. No posso tolerar isso.
     Menelau abanou a cabea, pensativo.
     -        Maria Antnia, voc sabe que eu sou tolerante. Mais tolerante do que qualquer marido. Mas, agora est se excedendo. No pra em casa, no se interessa 
por Diomedes, age como uma cortes que no tem nenhum compromisso de famlia.
     Ela riu com ironia.
     -        Voc me ofende. Mas eu, realmente, sou livre. Voc no age como marido, no se deita comigo, sequer me ama. Quanto ao filho, eu nunca o quis. Voc 
 o culpado por ele estar no mundo. No me sinto responsvel por ele. Sou mesmo livre. No sou cortes porque no estou me deitando com homem nenhum, ainda... - 
completou ferina.
     Menelau sentiu a onda de irritao crescer. Lutou para dominar-se. Ele realmente no cumpria seu papel de marido. Estaria ela lhe cobrando isso?
     -        Sei que no me ama - disse ele por fim. - Acha que deveramos tentar de novo um relacionamento ntimo?
     Menelau esforava-se para compreend-la, perceber onde ela pretendia chegar.
     -        Voc gostaria? - indagou ela, com certa curiosidade.
     -        Se isso a tornasse feliz, eu gostaria. Se pudesse faz-la desistir dessa busca frentica a que tem se entregado ultimamente. Eu gostaria tambm de 
mostrar-lhe o outro lado da vida, com outros valores que voc ainda no consegue ver. Eu seria muito feliz com isso.
     Ela riu mordaz, depois disse:
     - Pois eu no gostaria. Nunca nos amamos. Dei graas a Deus por ter-me deixado em paz. S que, s vezes, me pergunto onde voc vai derramar seu desapontamento 
de um casamento montono. Em que braos de mulher vai se abrigar, O homem  mais venal do que a mulher. Enquanto eu me contento em brilhar nos sales, o que voc 
faz?
     -        No me parece que esteja realmente interessada na minha felicidade ou na minha vida ntima. Propus a voc uma vida em comum, baseada na amizade, no 
respeito e na convivncia harmoniosa. Contudo, parece-lhe difcil levar isso a srio. Previno-a, porm, que no estou disposto a ser motivo de chacota ou ver minha 
dignidade ameaada pela sua leviandade. No vou tolerar mais exageros. De hoje em diante vai moderar suas sadas, disciplinar suas noitadas. dividir seu tempo com 
suas atividades do lar.
     -        Voc est louco. Agora que estou conseguindo esquecer, distrair-me, reencontrar o prazer de viver, quer impedir-me?
     -        No se trata disso - volveu Menelau tentando conciliar as coisas. - Voc pode ir aos seus saraus, ver seus amigos, s que mais moderadamente. Dever 
ficar mais em casa com seu filho.
     -        E se eu no quiser? - indagou ela, desafiadora.
     -        Obrig-la-ei. Ter que obedecer-me.
     -        Por que no vai embora? - gritou ela, furiosa. - Por que no me deixa em paz?
     -        Porque gosto de voc e quero evitar que se destrua.
     Ela abanou a cabea com raiva.
     -        No preciso. No estou me destruindo. Que mal h em querer divertir-me um pouco? Sou jovem e cheia de vida. Voc parece um pai velho e atrasado.
     -        Voc parece uma filha malcriada que precisa de umas palmadas.
     -        No se atreva! - gritou ela, assustada.
     -        Ento obedea. Quando sair, quero saber aonde vai e com quem.
     -        No sou sua prisioneira.
     -        No . Ainda assim, quero saber. Sou seu marido, deve-me obedincia. S sair quando eu permitir.
     Maria Antnia trincou os dentes com raiva. Menelau estava seriamente preocupado.
     Percebia que ela no estava bem. Continuava desatinada. Estava tentando ser enrgico para impedi-la de prosseguir naquela corrida desregrada. Entretanto, ela 
no era dcil. No aceitaria ordens com facilidade.
     -        Saia do meu caminho - disse ela. - No preciso de voc para nada. Por que no vai embora? Tudo seria mais fcil. E pode levar o menino.  seu.
    Menelau teve mpetos de esbofete-la. Conteve-se, porm. Ela ainda no tinha condies de entender.
        Um dia ainda se arrepender dessas atitudes - disse. Ver que eu apenas desejo o seu bem.
    -        Sei o que  bom para mim. Deixe-me em paz.
    Foi para o quarto, fechou a porta com fora. Menelau sentiu-se inquieto e triste.
    Recostou-se em uma poltrona pensativo. Como agir? Ela era difcil e por certo persistia em suas atitudes. Segurou a cabea entre as mos angustiado. Pensou em 
Deus. S ele poderia ajudar. Compreendia que seus recursos eram pobres para mostrar a Maria Antnia onde ela poderia encontrar a alegria, a felicidade que procurava. 
Mas, tinha f, com Deus ele encontraria o caminho acertado. No podia desanimar. Devia entregar a Deus aquele problema, pedindo-lhe que o inspirasse naquilo que 
ele tambm pudesse fazer.
    Pensou nisso com determinao e, aos poucos, foi se acalmando. Sentiu-se melhor e saiu.
    Procurou Eduardo. Confiou-lhe seus receios. Ouviu do amigo palavras de compreenso e de encorajamento.
    Quando voltou ao lar, era j noite. Procurou por Maria Antnia. A criada disse-lhe que ela sara com os amigos. Ela no fizera caso das suas advertncias. Precisava 
fazer valer sua autoridade, caso contrrio ela nunca mais o respeitaria.
    Mandou servir o jantar. Depois de comer, chamou a criada e perguntou:
    -        Sabe onde dona Maria Antnia foi?
    -        A um sarau, pelo que ouvi - respondeu ela.
    -        Onde?
    -        No salo dos Camargo.
    -        Viu com quem?
    -        Com os amigos de sempre, senhor.
    -        Voc os conhece?
    -        Um pouco. Estavam o sr. Miranda e senhora. O sr. Monteiro, dona Amlia e a senhorita Rosinha.
    -        Obrigado. Pode ir.
    Menelau trocou de roupa, mandou preparar a carruagem e saiu. Chegou na casa dos Camargo e pediu para no ser anunciado.
    -        Minha esposa j est a - disse.
Entrou, entregou o chapu ao criado e foi para o salo. As danas estavam animadas e ele procurou pela esposa. Ela estava sentada em gracioso sof, rodeada por algumas 
pessoas. S havia outra mulher, os demais eram todos homens. Sem ser visto, Menelau observava-a. Um moo falava-lhe baixinho e ela sorria encantada. Achou oportuno 
aproximar-se.
     -        Maria Antnia - disse.
     Ela, vendo-o, susteve a respirao. Tentou dissimular a contrariedade.
     -        No vai apresentar-me? - indagou ele, com voz firme.
     Ela estendeu a mo designando-o e dizendo:
     -        Esse  Menelau.
     -        Seu marido - completou ele.
     Percebeu que o grupo olhava-o com curiosidade.
     -        No ouvi seu nome - disse Menelau ao moo que estava falando com ela.
     -        Eu ainda no disse - retrucou Maria Antnia. - Esse  o sr. Castela, essa  dona Amlia, o sr. Medeiros, o sr. Coutinho, sr. Guimares e sr. Moreira.
     Menelau percebeu que eles esperavam por uma cena desagradvel. Leu a curiosidade em seus olhos. Embora desejasse disciplinar Maria Antnia, no quis dar-lhes 
esse prazer. Curvou-se cortesmente. Depois dirigiu-se a esposa.
     -        Arrependi-me de ter recusado seu convite. Aqui estou. Espero que no tenha concedido todas as danas.
     -        Quando chega o marido, todas as marcas so canceladas -disse um deles. - i o senhor absoluto.
     -        Espero que todos tenham a mesma compreenso.
     Maria Antnia estava preocupada. Tinha acintosamente desafiado Menelau, desobedecendo-lhe as determinaes. Temia que ele a humilhasse publicamente. Vendo-o 
agir educadamente, achou de bom alvitre no irrit-lo mais.
     -        Certamente - disse ela, com um sorriso. - Sabero compreender.
     -        Continuem o assunto - disse Menelau. - Pareciam to interessados!
     -        Falvamos do que anda de boca em boca - disse um deles, com um gesto evasivo.
     -  - esclareceu outro. - O escndalo do professor que foi encontrado altas horas no quarto de certa dama da sociedade.
     -        Ele teve que correr  rua de cuecas para fugir das balas do marido - completou um terceiro, rindo divertido.
     -        Mudemos de assunto - pediu Maria Antnia. Sabia que o marido no gostava de mexericos.  
     -        Do que falaremos? - indagou dona Amlia, curiosa.
     -        Da comdia do Recreio. Nessa companhia que l est, h uma cantora que ganhou as boas graas de um poltico importante. Ele est louco por ela. Dizem 
que j lhe deu um colar de diamantes que faria inveja a uma rainha!
     A conversa prosseguiu nesse tom e Menelau ouvia sem dizer nada, tentando conhecer melhor os amigos de Maria Antnia. Depois de meia hora, durante a qual fingiu 
apreciar os assuntos, deixando-os  vontade, sentiu-se realmente preocupado. Eram pessoas fteis, interessadas na vida alheia, que invadiam sem reservas atravs 
de comentrios levianos e desairosos. Pelas suas palavras, Menelau percebeu a estreiteza das idias e dos ideais.
     Maria Antnia tentava encobrir a inquietao. Por que Menelau os ouvia calado? Ela sabia que ele no aprovava nada do que eles estavam dizendo. No conseguiu 
conter-se.
     -        Esse sarau est aborrecido. Estou com dor de cabea.
     -        Voc parecia to bem! - considerou Amlia, com um sorriso malicioso.
     -        Disse bem - respondeu ela, friamente. - Parecia. Quero ir embora. Vocs esto gostando, estejam  vontade. Menelau me acompanha.
     -        Certamente - concordou ele, percebendo claramente os motivos da sbita irritao dela.
     Ela despediu-se de cada um e Menelau apenas curvou a cabea ligeiramente, percebendo a troca de olhares que disfaradamente trocavam entre si.
     Assim que se viram na rua Maria Antnia no ocultou mais a raiva.
     -        Conseguiu estragar minha noite.
     -        Disse-lhe que quero saber onde e com quem voc anda. Saiu sem meu consentimento!
     Ela lanou-lhe um olhar irritado.
     -        Pretendeu envergonhar-me diante dos meus amigos.
     -        Se quisesse fazer isso, no teria sido educado com eles.
     -        O que estaro pensando? Que anda me vigiando.
     -        Certamente falaro mal de ns com a mesma facilidade com que falaram das outras pessoas.
     -        Eu sabia que iria critic-los!
     -        Vejo-os como so. Por que nos poupariam? Ali no escapa nem Jesus Cristo.
     -        No gosto que fale deles. So meus amigos. S porque so divertidos?
       - Maria Antnia, olhe as coisas como so! Por que pretende iludir-se? Sabe tanto quanto eu que so pessoas fteis e desprovidas de dignidade. No hesitaro 
em virar-lhe as costas assim que sua amizade deixar de interess-los.
     Durante o trajeto, Menelau tentou mostrar-lhe os verdadeiros valores da vida, a necessidade que o filho tinha do seu amor, mas ela, agastada e indiferente, 
teimava em no enxergar.
     Deixando-a no quarto, Menelau frisou com voz firme:
     -        Pense muito bem antes de agir. Se quiser continuar a usar meu nome e viver nesta casa, deve respeitar-me. No consentirei que continue a agir como 
at agora.
     Ela olhou-o enraivecida.
     -        Est me ameaando? Quer tornar-me uma prisioneira? Sabe muito bem que no agento viver reclusa como voc. Exige-me o impossvel!
     -        No  verdade e voc sabe muito bem. Poder sair, avisando-me onde ir. Claro que vamos pedir desculpas a Adelaide e ela voltar a acompanh-la. Quanto 
aos seus "amigos", prefiro no v-los por perto.
     -        E se eu no quiser?
     -        No viveremos mais juntos.
     -        Deixe-me em paz! - gritou ela, furiosa.
     -        Pense nisso. Se quiser permanecer aqui, ter que ser assim.
     Menelau saiu fechando a porta. Tinha sido duro, era preciso por cobro quela situao. Sabia que a loucura de Maria Antnia no iria ao ponto de perder sua 
posio de senhora casada e respeitvel. Gostava de freqentar as casas mais conceituadas. Orgulhava-se de suas amizades com famlias importantes e de posio. Se 
ela se separasse, muitas portas se fechariam. O preconceito era muito forte e pesado. Muitos no mais a receberiam. Depois, sem o marido, como ostentar a posio 
e o luxo?
     Menelau estava certo. No dia imediato ela o procurou para dizer que reconhecia-lhe certa razo. Ele no precisava preocupar-se. Ela no estava fazendo nada 
que pudesse despertar qualquer comentrio. Prezava seu nome e sua posio. Mesmo quando se apaixonara, sofrera em silncio, preservando as aparncias.
     - Muito bem - respondeu ele. - Deve compreender que tenho minha dignidade. Se quer ficar comigo, precisa respeitar-me. Entretanto, reconheo que no aprecio 
vida social e no pretendo priv-la desse prazer. Assim sendo, pode procurar Adelaide e no farei objees quando desejar sair com ela.
     Maria Antnia mordeu os lbios, contrariada.
     - No basta eu pedir-lhe permisso para sair? Quer humilhar-me diante dela? J a mandei embora, no fica bem cham-la de novo.
     Menelau sacudiu a cabea.
     - Dir que mudou de idia e resolveu no sair mais com aqueles amigos. Ela voltar de boa vontade, tenho certeza.
     Maria Antnia no disse mais nada. Durante trs dias ficou em casa amuada e sem alimentar-se devidamente. Menelau fingiu no perceber e, com naturalidade, procedeu 
como de costume. No fim do quarto dia, ao chegar em casa ele encontrou Adelaide. Ficou feliz.
     Apesar de saber que Maria Antnia enganara-a quando encontrava-se com Alberto , confiava nela, sentia-se mais calmo tendo-a por perto. Ela era muito carinhosa 
com o menino e, quando chegava, zelava pelo seu conforto e bem-estar.
     Depois disso Maria Antnia pareceu acomodar-se. Continuava levando vida social intensa mas, com uma ponta de ironia, cada vez que tinha um sarau consultava 
o marido.
     Continuava encontrando-se com os amigos fora de casa e entretinha-se com eles todo o tempo, mas Adelaide, sempre por perto, dava a Menelau a certeza de que 
ela no cometeria nenhuma leviandade.
     O tempo foi passando e Menelau no perdia a esperana de fazer Maria Antnia modificar-se. O que mais o incomodava era a falta de amor pelo filho. Diomedes 
era uma criana nervosa e introspectiva. Vivia pelos cantos da casa e Menelau procurava despertar-lhe o interesse pelas coisas sem muito xito.
     Diomedes, desde a mais tenra idade, mostrara-se apaixonado pela me, que mal lhe dava ateno. Menelau tentava compensar esse desamor de Maria Antnia e o menino 
o estimava muito, mas era pela me que demonstrava verdadeira adorao. Vrias vezes Menelau chamara a ateno dela para que desse mais amor ao filho, ao que ela 
respondera, irritada:
     - No tenho tempo para pieguices. Voc sabe que odeio crianas.
     Quando Diomedes via a me, seu rosto iluminava-se. Estendia os bracinhos, chamava-a.
     Chorava muito quando ela o afastava com irritao, ordenando a ama que o levasse.
     Quando cresceu um pouco mais, procurava-a com os olhinhos apaixonados e quando ela, ocupada com outros interesses, o repelia, ficava triste, pensativo, sem 
que nada o alegrasse. Menelau condoa-se vendo-o assim e voltava a falar com a esposa. Mas ela no aceitava seus argumentos. Desgostoso, falou com Eduardo, pedindo-lhe 
uma opinio.
     -        Aguardemos com pacincia - respondeu ele.
     -        Maria Antnia continua a mesma, durante esse tempo todo. Estou desanimado de v-la modificar-se. O que faz com o filho doloroso e imperdovel.
     Eduardo sacudiu a cabea negativamente.
     -        No vamos julgar. Quando no podemos conseguir alguma coisa, entregamos a Deus. Ele pode e far melhor. Pediremos ajuda dos espritos amigos na sesso 
do Sampaio.
     -        Boa idia - concordou Menelau satisfeito. - Tenho recebido muito desses amigos espirituais.
     E de fato, nesse ambiente de preces e de estudos, onde se falava de Deus e onde os coraes se abriam para receber a assistncia espiritual, Menelau realmente 
sempre encontrava novas energias e esperana para continuar.

CAPTULO 22

     Menelau chegou em casa apressado, sobraando pesado volume. Colocou-o sobre a mesa em seu gabinete. Depois, percorreu o resto da casa, perguntando por Diomedes.
     -        Est no quarto - respondeu a criada, atenciosa.
     -        Chame-o - pediu ele.
     Estava alegre e bem disposto. Diomedes completava quatorze anos naquele dia. Parecia-lhe incrvel que tanto tempo houvesse decorrido depois daquela madrugada 
em que ouvira seu choro pela primeira vez. Durante aqueles anos, afeioara-se ao menino, querendo-o como a um filho, esquecendo-se at das circunstncias desagradveis 
do seu nascimento. A indiferena de Maria Antnia em relao ao filho tocava-o fundo, principalmente pela afeio exagerada que o menino sentia pela me sem que 
ela retribusse.
     Diomedes tinha um gnio reservado que s se expandia em relao  me, mas, ainda assim, Menelau apegara-se a ele. Sentia-se muito s. Longe da mulher amada, 
impossibilitado de conviver com Romualdo e com os sobrinhos a quem muito queria, encontrara na carncia afetiva de Diomedes ocasio para suprir tambm sua necessidade 
de amar. Dedicara-se a ele de corpo e alma. Cuidara de sua sade, de sua educao e tudo fazia para v-lo feliz.
     O        menino tratava-o com respeito, acatava suas determinaes e conselhos mas no tinha para com ele os mesmos arroubos do que para com a me.
     Diomedes aproximou-se, srio. Vendo-o, Menelau sentiu que ele continuava a ser o menino triste. Difcilmente sorria. Tudo fazia para alegr-lo, mas era intil. 
Se lhe perguntassem, ele responderia que no se sentia triste. Simplesmente no encontrava motivos para sorrir.
     -        Boa tarde, papai - disse. - Mandou chamar-me?
     -        Sim. Hoje  um dia muito feliz.  o seu aniversrio. Completa quatorze anos. J  um homem. Por isso, quero dar-lhe um presente. Venha comigo.
     Foram at o gabinete. Menelau apontou o pacote sobre a escrivaninha dizendo:
     -         para voc. Abra-o.
     Diomedes aproximou-se e, tomando o pacote, abriu-o. Tratava-se de belssima coleo de livros, ricamente encadernados, com as letras em ouro. Os olhos de Diomedes 
brilharam.
     Tinha gosto acentuado pela leitura.
     -        So obras de grandes pensadores, cujas idias e sabedoria revolucionaram o mundo.
     -        Obrigado, papai, apreciarei muito l-los.
     -        Estou certo que sim.
     Diomedes apanhou um deles e leu: "O Livro dos Espritos", Allan Kardec.
     -        Especialmente esse - disse Menelau com satisfao. -Mudou minha vida quando eu o li pela primeira vez.
     -        Por qu?
     -        Porque mudou minha viso do mundo. Eu fazia da vida um conceito muito pequeno. Lendo-o, compreendi que ela  muito mais sbia do que podemos imaginar.
     -        A vida para mim no parece assim to boa. As pessoas so levianas, ignorantes e gostam de futilidades.
     -        Uma questo de tempo, meu filho, de evoluo. Alguns j podem perceber melhor os verdadeiros valores da vida, outros no.
     Menelau pensou em Maria Antnia. Diomedes estaria pensando na me ao dizer isso?
     -        Nesse livro explica isso? - indagou ele, com certa ansiedade.
     -        Sim. Lendo-o, conseguir enxergar melhor o mundo que nos rodeia.
     -        Obrigado, papai. Vou comear lendo este.
     Menelau estava satisfeito. Falara algumas vezes ao filho sobre a sobrevivncia da alma, a reencarnao, mas de forma ligeira e de passagem. Achava-o ainda criana 
para tocar no assunto. Contudo, agora, julgara oportuno colocar-lhe nas mos esses conhecimentos. Vendo-o interessar-se, sentia-se feliz. Sabia que Diomedes encontraria 
justificativas e esclarecimentos sobre a conduta da me.
     Enquanto o filho levava os livros para seu quarto, Menelau foi  cozinha. Naquela noite, queria um jantar especial. Iriam comemorar o aniversrio de Diomedes 
condignamente.
     Abriria seu melhor vinho.
     A criada deu-lhe a notcia:
     -        Dona Maria Antnia no ficar para o jantar. Tem um convite para esta noite.
     Menelau irritou-se. Era demais. Maria Antnia continuava mantendo intensa vida social, mas aquela noite, ele a faria ficar. No era justo para com Diomedes. 
Foi procur-la.
     A criada interceptou-lhe a passagem dizendo que Maria Antnia fizera um tratamento de beleza e estava repousando. Dera ordens expressas para no ser aborrecida. 
Menelau nem respondeu, entrou no quarto da esposa disposto a falar-lhe. Estendida no leito, ela tinha o rosto coberto por uma fina toalha de linho umedecida, recendendo 
a malva. Menelau aproximou-se:
     -        Maria Antnia, preciso falar-lhe.
         No agora - respondeu ela. - No posso interromper esse tratamento.
     -        Seja como for, hoje voc deve ficar em casa.  aniversrio de Diomedes. Jantaremos juntos.
     Ela levantou-se rpida, tirando a toalha do rosto, colocando-a na pequena bacia sobre o criado-mudo.
     -        Impossvel! Hoje no posso ficar. Que idia!
     Menelau retrucou com voz firme:
     -        Hoje sim. Voc tem um filho e deveres com ele.
     -        Jantaremos outro dia. Hoje  o grande sarau dos Albuquerque. Importantes personagens estaro l. Talvez o Marechal Hermes em pessoa! Estou me preparando. 
No posso deixar.
     -        Ter centenas de outras festas, seu filho  mais importante. Lembrou-se de que  seu aniversrio?
    -        Tenho mais o que fazer. Depois, para que recordar-me a minha desgraa?
    -        Nem o abraou pelo dia de hoje.
Ela deu de ombros.
    -        No me lembrei. Que importncia tem isso?
Menelau segurou-a pelos braos sacudindo-a com fora.
    -        Ele a adora!  seu filho. Como pode ser to indiferente? Hoje jantar em casa e dir a Diomedes que sente-se muito feliz por isso.
    -        Se eu ficar, estarei mal-humorada e no terei como mostrarme alegre.
    -        Vai mostrar-se alegre sim. No quero que ele perceba que foi forada a ficar.
    -        E se eu me recusar?
     -        No se atrever.  o mnimo que pode fazer por ele. Colocar um belo vestido, jias, tudo. Estar alegre e bem-humorada.
     -        Pois eu no farei isso. Se obrigar-me a ficar em casa, ficarei fechada aqui.  melhor no se intrometer em minha vida.
     Menelau franziu o cenho.
     -        At agora tenho sido condescendente com voc. Tem gozado de liberdade excessiva. Nenhuma senhora de classe circula pelos sales sem o marido. No sei 
de nenhuma. Se recusar-se a atender-me nesse pedido justo e to simples, mudarei de atitude.
     -        Est me ameaando?
     -        No. Estou avisando. Olhe-se no espelho. Est plida, magra, desgastada. Vive Inquieta e pensando s em futilidades. Nada faz de bom ou de til. Est 
abusando da vida, poder arrepender-se disso.
     -        Est me rogando praga?
     -        Voc sabe muito bem a que me refiro.
     Ela sacudiu a cabea dizendo, com voz conciliadora:
     -        Talvez eu faa isso. Mas hoje,  impossvel. Estou muito interessada em ir a essa festa. Ser um acontecimento.
     -        No ir - disse Menelau, irritado.
     -        Se tentar impedir-me, vai arrepender-se.
     -        No me desafie - retrucou ele, plido.
     -        Est sendo injusto. Ainda se tivesse um bom motivo! Ter que ficar em casa por causa de Diomedes!  um absurdo. Nunca me Convencer.
     Maria Antnia alterara seu tom de voz e Menelau tentava controlar-se para no esbofete-la. Ela precisava de um corretivo. Aproximou-se dele furiosa, com os 
olhos faiscando de raiva.
     -        Voc  o culpado. Eu no queria esse filho e j fiz meu sacrifcio suportando-o. Chega. Saia daqui. Deixe-me em paz!
     Menelau sentiu crescer sua revolta, ia revidar quando bateram porta com insistncia. Respirou fundo e foi abri-la.
     Olhos assustados, Diomedes estava diante dele.
     -        Pai, por favor! Deixe-a ir. No faz mal.
     Sua voz estava embargada, aflita. Menelau sentiu-se arrasado. Maria Antnia gritara, ele teria ouvido tudo? Quisera dar-lhe momentos alegres e acabara de fazer 
exatamente o contrrio. Fechou a porta por fora e, passando o brao pelos ombros do menino, disse com emoo:
     -        Perdoe-me. No desejava perturb-lo. Ao contrrio.
     -        Ela no quer ficar - tornou o menino com voz triste. - No precisa. Ela gosta das festas, sente-se feliz. No quero que ela se prive disso por minha 
causa.
     -        Meu filho,  nobre de sua parte dizer isso. Eu preferia que ela moderasse sua vida social. Tenho notado que est abatida, no parece bem.
     -        Isso . Emagreceu.
     -        Tambm notou?
     -        Notei.
     -        Ento, meu filho. Pedi-lhe para ficar, cuidar mais da sade.
     -        Sei que foi por causa do meu aniversrio. No me importo. Ela pode ir. Vou ler. No faz mal.
     -        Hoje ela ficar, ainda que seja no quarto.
     Diomedes levantou para ele os olhos suplicantes.
     -        Por favor! Se quer alegrar-me, no a deixe triste. No suporto v-la aborrecida. D-me esse presente. Deixe-a ir.
     Menelau no soube o que responder.
     -        Vou pensar - disse por fim.
     -        Creia que eu no me importo mesmo. Posso dar-lhe a notcia?
     -        Voc mesmo?
     -        . Eu gostaria muito. Quero devolver-lhe o sorriso.
     Menelau sentiu-se desarmado. Diomedes era mais nobre do que ele prprio.
     -        Est bem - disse, por fim. - Pode ir. Mas diga-lhe que s consenti atendendo a um pedido seu.
     O        rosto dele distendeu-se em um sorriso.
     -        Eu vou l.
     Saiu rpido e bateu no quarto da me.
     -        Entre - disse ela, com voz seca.
     Diomedes entrou; vendo-o, Maria Antnia fechou ainda mais a fisionomia.
     -        O que quer? - indagou.
     -        Papai pensou melhor e mudou de idia. No precisa ficar em casa hoje  noite. No perder seu sarau.
     O        rosto dela desanuviou-se.
     -        Ele disse isso mesmo?
     -        Disse. Pensou melhor e compreendeu ter agido impulsivamente. A senhora pode preparar-se e ir  sua festa.
     - Ainda bem. Menelau, s vezes, exagera as coisas. Agora que j deu o recado, pode ir.
     - Est bem. Gosto de v-la contente.
     - V saindo que ainda tenho muito o que fazer. Perdi todo o tratamento que estava indo to bem! Onde est a Joana?
     Vendo a criada, ela prosseguiu:
     - Prepare tudo de novo. Vamos ver se ainda d tempo. O que est fazendo ainda a? Preciso preparar-me.
     Uma onda de emoo passou pelo rosto de Diomedes, contudo nada disse. Voltou-se e saiu.
     Menelau estava profundamente aborrecido. Depois de tantos anos, de tantas tentativas para que Maria Antnia percebesse alguns valores importantes da vida sem 
obter resultados, comeava a questionar se ficar a seu lado teria sido til. Poderia haver se separado dela, levado Diomedes e t-lo poupado. Longe dela, desde o 
nascimento, no a tendo conhecido, no sofreria.
     No tinha dvidas de que se houvesse feito isso ela no s aceitaria como nunca teria procurado ver o filho. Era triste, mas via-se forado a reconhecer que 
no corao da esposa no havia amor de me. Encontrava-se desanimado. Em matria de ajuda, achava difcil perceber o que teria sido o melhor.
     De tudo isso, o nico bem fora ter preservado a vida de Diomedes. Gostaria de v-lo alegre, bem disposto. Contudo, seu temperamento introvertido e s vezes 
apaixonado tornava difcil conseguir isso. Culpava Maria Antnia por isso. Eduardo, com quem conversara, observara que Diomedes por certo trouxera da experincia 
de vidas passadas emoes e problemas justificativos do seu comportamento atual. Esse fato no impossibilitava que, com o tempo, ele pudesse vir a modificar-se. 
Assim, Menelau compreendia que alm de Maria Antnia, Diomedes tambm precisava do seu carinho e apoio.
     Agora Diomedes no aceitaria deixar a me, sofreria muito com isso. Restava-lhe a esperana de ajudar Diomedes, uma vez que Maria Antnia mostrava-se endurecida.
     Retirou-se para seu quarto e quando ouviu o rudo da carruagem saindo, pensando em Maria Antnia sentiu um aperto no corao.
     Nos meses que se seguiram procurou consolo nas sesses espirituais, agora realizadas em casa de Eduardo, que dedicara-se mais s pesquisas dos fenmenos espritas. 
Era l, na orao e nas mensagens que recebia dos espritos bons, que encontrava apoio, conforto, orientao e f. 
     Quando desanimava e referia-se a Maria Antnia mencionando sua dureza de corao, eles incentivavam-no  pacincia esclarecendo que  preciso amadurecer para 
compreender.
     Diomedes interessara-se vivamente pela leitura de "O Livro dos Espritos". Era com prazer que Menelau respondia a suas indagaes e via que ele as assimilava 
com facilidade.
     Uma tarde, conversando na sala, Diomedes disse, olhando-o pensativo:
     -        Lendo esse livro, comecei a entender porque mame no gosta de mim.
     Menelau sentiu um abalo.
     -        Quem lhe disse isso? Sua me  desatenta, mas  claro que ela o ama.
     Diomedes sacudiu a cabea negatvamente.
     -        No conseguir convencer-me. Voc sabe que ela no me aprecia. No adianta querer encobrir isso. At agora, eu no entendia. Todas as mes amam seus 
filhos. Muitas vezes tenho me perguntado o que teria feito para que ela no me aceitasse. Nunca fiz nada que a magoasse. Agora entendo que devo ter-lhe feito algum 
mal em vidas passadas. Alguma coisa to forte que nem o fato de haver nascido dela conseguiu suavizar.
     Menelau ficou embargado. No sabia o que responder. Diomedes podia estar com a razo. Permaneceu silencioso durante alguns instantes, depois disse:
     -        H muitas coisas que se escondem no passado em nossas encarnaes anteriores. Embora isso seja possvel, no poderia afirmar que tenha sido assim.
     -        No tenho dvidas quanto a isso. Sinto que foi assim. Sei que ela  boa e eu  que sou culpado. Agora, preciso dedicar-me, mostrar-lhe que a amo e 
desejo o bem.
     - No carregue o peso de uma culpa que sequer sabe se houve. Mesmo que seja verdade, que tenha tido atitudes inadequadas em suas vidas passadas, hoje as coisas 
so diferentes.  preciso ter bom senso. Se os problemas de outras vidas interferem em nosso relacionamento de agora, h que haver compreenso para solucion-los. 
Voc no pode colocar sua me como vtima e voc como ru. No sabe o que e como aconteceram os fatos. Maria Antnia  sua me. Deve-lhe amor, carinho e respeito. 
Se h alguma sensao desagradvel do passado, ela deveria lutar para venc-la, no entregar-se sem reservas. Voc, como filho, deve-lhe respeito, amor dedicao, 
procurando dar-lhe ateno e carinhos sem exageros nem apego excessivo. Mesmo sentindo esse clima adverso em seu relacionamento com ela, continuar sereno, fazendo 
a sua parte, sem preocupar-se. Porqanto um dia, quando for oportuno, o caso se esclarecer. Deus cuida de tudo.
     Diomedes colocou a mo sobre o brao do pai e disse com certa ansiedade:
     -        Eu sinto tristeza. Sei que carrego uma grande culpa. Sinto isso desde criana, no compreendia, mas agora comeo a entender.
     -        Meu filho,  bom que voc compreenda a vida como ela , em toda sua grandiosidade. A eternidade, a reencarnao, a necessidade do amadurecimento do 
esprito, as iluses que ainda carregamos. Mas, lembre-se que ao nos oferecer uma nova encarnao na Terra. um corpo novo, nova oportunidade, Deus, colocando-nos 
no esquecimento, por certo deseja que apaguemos da lembrana os enganos passados e aprendamos a abenoar a vida, valorizar o amor, aprender a felicidade. O passado 
est morto. Jamais conseguiremos modific-lo. Realmente voc  um menino triste. Tenho observado que guarda momentos de funda tristeza. Mesmo que ela prenda-se a 
problemas do passado, no me parece justo permanecer ligado a eles sem perceber as alegrias da vida presente que a generosidade da Providncia Divina nos ofereceu. 
No ser muita ingratido? Por que guardar tristeza se possui a chance de construir agora sua felicidade? No ama sua me'?
     -        Amo - respondeu ele, srio.
        No gosta de mim, da bela casa onde mora, do conforto que possui, da bonita aparncia, da juventude, da inteligncia e da sade de que desfruta?
     -        Claro, meu pai.
     -        Ento, meu filho. No  hora de agradecer a Deus e perceber o quanto  feliz? Por que deixa o passado atingi-lo? Esquea-se dele. Deus quer assim. 
Caso contrrio, nos teria permitido record-lo.
     Diomedes estava admirado. Reconhecia que o pai estava certo. Menelau prosseguiu:
     -        Depois, no ser com a cara triste que conquistar as atenes de sua me. Ela adora a alegria.
     -        No havia pensado nisso. Acha que se eu for mais alegre, ela me aceitar?
     -        No force nada. Seja natural. Procure descobrir sua alegria interior. No tem nenhum motivo para tristezas.
     -        Vou tentar, pai. Sei que tem razo.
     -        Faa isso, de minha parte procurarei fazer o mesmo.  
     Muitas vezes Menelau conversava com Diomedes sobre esses assuntos e percebia que o menino estava realmente tentando mudar. Entretanto, Menelau preocupava-se 
com Maria Antnia. Estava abatida e sua voz rouca. Vivia fazendo gargarejos, sem apresentar melhoras.
     Tentava convenc-la a chamar o mdico. Ela recusava-se.
     -        Isso no  nada. Apenas uma irritao na garganta.
     -        Devia tratar-se corretamente.
     -        Est exagerando. Vai passar.
     Mas no passou. E Menelau, preocupado, finalmente chamou o mdico. Este examinou-a cuidadosamente. Por fim considerou:
     -        Sua garganta est muito irritada. Tenho que fazer uma embrocao. Depois veremos. No tem febre.
     -        No tenho nada. Vai enfiar isso na minha garganta? - disse ela, irritada.
     -        Um pouco de pacincia, dona Maria Antnia.  preciso.
     -        Eu no quero. Deixe-me em paz.
     Foi intil. Ela no escutou argumentos, ponderaes. O mdico retirou-se com Menelau.
     Vendo-se a ss, ponderou:
     -        Seria bom fazermos a embrocao. O caso no parece simples. A ausncia de febre preocupa-me. Se fosse simples infeco, ela j teria aparecido.
     Menelau assustou-se:
     -        O que acha que pode ser?
     -        No sei ainda. Afiano-lhe que sua esposa tem necessidade de ser bem cuidada. Se me permitisse fazer o que  preciso, talvez eu pudesse diagnosticar 
melhor. No gosto da sua rouquido.
     -        Podemos segur-la para fazer o que  preciso.
     -        No hoje. Deixe-a repousar. Vou receitar, vamos ver se conseguimos resultados.
     Escreveu a receita e entregou-a a Menelau dizendo:
     -        Mande aviar agora mesmo. Depois de amanh cedo voltarei para ver como est. Trarei um aparelho moderno para fazer um exame mais detalhado. Passe bem, 
sr. Menelau.
     O        mdico se foi e Menelau mandou buscar o remdio imediatamente. Cuidou pessoalmente de Maria Antnia, obrigando-a a tomar o remdio, mas ela no melhorou.
     Quando o mdico retornou, dois dias depois, encontrou-a na sala de estar. Depois dos cumprimentos, ela disse:
     -        Seu remdio no valeu nada. Pura perda de tempo.
     -        A senhora recusou-se a ser devidamente tratada. Receitei, tentei. Como se sente?
     -        Sinto-me muito bem.  s este resfriado, esta irritao na garganta.
     -        Tem dores nas costas?
     -        J lhe disse que no tenho nada. Nem dor na garganta.
     -        Preciso examin-la. Vamos para seu quarto, por favor.
     Maria Antnia ia retrucar mas mudou de idia vendo Menelau chegar e cumprimentar o mdico. Pensou melhor e resolveu obedecer. Fazia dias que aquela irritao 
a incomodava e ela estava cansada de ficar em casa. Queria melhorar rapidamente para voltar s atividades sociais das quais tanto gostava.
     No quarto, sentada na poltrona perto da janela, submeteu-se ao exame meticuloso. O mdico estava srio e muito atento ao que fazia. Guardou seus instrumentos 
e colocou gua na bacia, lavando as mos cuidadosamente. Enxugava-as na alva toalha que a criada lhe oferecera, quando Maria Antnia perguntou:
     -        E ento, doutor? Vai fazer a embrocao? Mudei de idia. Tenho pressa em melhorar.
     O        mdico devolveu a toalha  criada escolhendo as palavras devagar:
     -        Vamos ver. Eu tambm tenho vontade de cur-la, dona Maria Antnia. Seu caso no parece uma infeco comum. Sim, farei uma embrocao.
     Ele escolheu cuidadosamente um frasco em valise e preparou tudo com ateno.
     No dia seguinte a voz de Maria Antnia estava um pouco melhor e Menelau sentiu desvanecer seus receios. As reticncias do mdico o haviam preocupado. Entretanto, 
embora houvesse melhorado um pouco, sua roquido no desaparecia. Procuraram outro mdico sem obter resultado. Maria Antnia andava inquieta, irritada.
     -        Voc v problema onde no h nada de mais. Uma simples rouquido. Sinto-me muito bem e no vejo motivos para viver prisioneira. Preciso distrair-me. 
Tudo passar, ver.
     Menelau, cansado de ponderar, cedeu. Permitiu sua sada duas ou trs vezes por semana.
     Contudo, com o correr dos dias, sua rouquido aumentou e o que era pior, seu hlito tornou-se ftido e desagradvel.
     Maria Antnia comprara pastilhas e as colocava constantemente na boca, sem muitos resultados. De irritada, ficou assustada. Por que no melhorava?
     Menelau buscou acalm-la. Juntos percorreram os melhores mdicos do Rio de Janeiro. Ningum encontrava remdio que a curasse. Ela estava apavorada.
     - Foi praga - dizia, no auge da revolta. - Tinham inveja da minha vida. Aquelas matronas inteis! S porque eu no me tornei uma delas, fiz sempre tudo quanto 
elas gostariam de ter feito. Malditas! Elas  que deveriam pegar esta porcaria.
     A criada tentava confort-la, mas desistia ante seus sbitos ataques de fria, saindo para no ser atingida pelos objetos que ela lhe atirava.
     Menelau procurava acalm-la, dizendo-lhe que aquela irritao s agravaria seu estado.
     Ento ela atirava-se ao leito e chorava diante da prpria impotncia.
     Diomedes sofria, observando-a, mas por mais que desejasse confort-la, dar-lhe seu afeto, no era sequer notado.
     Nos meses seguintes, seu estado, longe de melhorar, agravou-se ainda mais. Sua voz saa com dificuldade e j agora ela queixava-se de dores ao engolir. Sua 
lngua estava inchada e vermelha.
     Quando chegou uma sumidade mdica da Europa, em visita ao Rio de Janeiro, Menelau, a custo, conseguiu uma consulta para a esposa. Depois de examin-la detidamente, 
o mdico pediu que Menelau conduzisse a esposa para casa e voltasse duas horas mais tarde. Ele desejava estudar o caso.
     Menelau sentiu o corao oprimido quando retornou no tempo pedido. O facultativo recebeu-o com delicadeza, f-lo sentar-se e sentou-se por sua vez, fixando-o 
com seriedade.
     - Sr. Menelau, sinto dizer-lhe que no tenho recursos para curar sua esposa.
     Infelizmente essa doena vem desafiando nossos conhecimentos. Sinto muito.
     - O senhor no pode cur-la? - perguntou ele, triste.
     - S Deus, meu caro senhor. Para Ele nada  impossvel. Confesso que a cura para esse mal ainda no foi encontrada. Conquanto a nossa medicina esteja adiantada, 
no caso dela nada poderemos fazer.
     - E a dor - perguntou ele - h como alivi-la?
     - Certamente. Vou receitar-lhe um analgsico. No a deixe abusar deles porque perdem a eficcia.
     Menelau apanhou a receita com mos trmulas. Foi procurar Eduardo. Estava arrasado,
     O amigo abraou-o, procurando confortlo. Menelau sentia-se cansado, abatido. Eduardo fez o possvel para anim-lo.
     -        No se deixe abater agora - disse. - Onde est sua f? Acha que Deus errou?
     Menelau fixou o amigo, lutando para erguer-se. Ficou pensativo durante alguns minutos; depois disse:
     -        Deus nunca erra!
     -        Ele usa seus prprios meios. Voc sabe. Ns sempre enxergamos os fatos  moda limitada da Terra. Vemos a doena, a morte do corpo, a separao, a tragdia 
e no percebemos as mudanas espirituais, o amadurecimento, a sensibilizao que isso traz. No  fcil passar pela dor, pela dificuldade, mas a f nos ensina a 
confiar em Deus que  bom, justo, tudo sabe e tudo v.
     Menelau respirou fundo, tentando reagir.
     -        Voc est certo, meu amigo. Depois, se eu me abater, que apoio oferecerei  Maria Antnia? O pior  Diomedes. No sei como ajud-lo. Anda desesperado, 
no tenho nenhuma boa notcia para dar-lhe.
     -        Voc j lhe deu esclarecimento e amor. Deus o ajudar a encontrar seu caminho.
     -        Tem razo. Obrigado por ter me ouvido.
     No caminho de volta foi pensando no assunto. Confiava em Deus. Se eles no precisassem passar por essa prova rude, ela seria afastada. Maria Antnia se restabeleceria 
e tudo voltaria a ser como antes. No entanto, se esse fosse o remdio para eles, a provao que temia aconteceria. Era a mo de Deus restabelecendo o equilbrio 
de todas as coisas. Seria intil atirar-se ao desnimo,  revolta,  tristeza.
     Diomedes necessitava do seu apoio, da sua serenidade. Deveria cultivar a prece, a f, buscar a paz e at a alegria para anim-los.
     Chegou em casa disposto a mudar sua aparncia preocupada. Olhou para a sala na penumbra e pareceu-lhe triste. Abriu a janela para o ar entrar. Mandou a criada 
comprar flores. Queria o ambiente bonito, agradvel.
     Diomedes procurou-o aflito, plido, rosto contrado pela ansiedade.
     -        Pai, mame no est bem. Teve dores. Tomou o remdio, melhorou, mas est desesperada, deprimida.
     -        Vamos v-la - props Menelau.
     Passou o brao nos ombros do filho e juntos foram ver Maria Antnia. Estirada no leito, vestida, rosto plido e emagrecido. ela chorava. Diomedes correu para 
ela ajoelhando-se ao lado da cama e tomando-lhe a mo com carinho.
     - Me, por favor! No chore. Voc vai melhorar, ver. Tudo vai passar.
     Ela fitou-o em meio s lgrimas e nada disse. Menelau sentou-se na beira da cama.
     - Calma - pediu. - Sei que no est sendo fcil para voc. Mas a revolta s piora seu estado.
     - Menelau - disse ela subitamente. - Por que eles no conseguem curar-me? Qual  o meu mal?
     Menelau alisou-lhe os cabelos como faria a uma criana.
     - Desesperar-se no ajudar. Precisa ser paciente. H de aparecer um mdico que acerte com o seu caso.
     - Ser?
     - Certamente.
     - Voc ficar boa - tornou Diomedes, confiante.
     Ela fixou-lhe os olhos emocionados e no respondeu. Desde que adoecera, o menino no saa do seu lado. Precisava expuls-lo quando desejava ficar s. Por que 
ele fazia isso?
     No incio, irritava-se com sua presena como uma sombra a seu lado, dando o remdio quando estava com dor, insistindo para que se alimentasse, vigiando seu 
sono. Com o correr dos dias, temia ficar s.
     Ela dormia mal, tinha pesadelos. E se ningum conseguisse curla? E se fosse morrer?
     Sentia pavor da morte. Isso no podia estar acontecendo com ela. Esse medo foi se tornando constante, por isso a presena de Diomedes passou at a ser solicitada.
     Menelau procurava fazer-lhe companhia ao mximo, mas tinha negcios, necessitava sair. Ento ela chamava Diomedes, que corria para seu lado, olhando-a com adorao.
     Menelau fazia tudo para melhorar o ambiente triste da casa. Enchia-a de flores, procurava distrair Maria Antnia. Temendo que sua doena se agravasse, ela tentava 
reagir.
     Havia dias em que se arrumava como se fosse a uma festa e Menelau organizava um jantar. A princpio ela concordara em convidar alguns amigos, mas no pudera 
suportar seus olhares assustados e temerosos diante da sua doena. nem as desculpas para no comparecer.
     Dos amigos e conhecidos dos bons tempos, ningum a visitava. S Adelaide, fiel e dedicada, comparecia de vez em quando.
     Entre uma dor e outra, Maria Antnia desesperada, aflita, retornava a depresso ou a revolta.
     Uma noite, ela no leito chorava abatida queixando-se de dor. Diomedes a seu lado, olhos midos, no sabia o que fazer.
     -        D-me o remdio - pediu ela.
     Ele obedeceu prontamente. Ela esperou, gemendo baixinho.
     -        Passou? - indagou Menelau.
     -        No - respondeu Maria Antnia. - Esse remdio parece gua. Antes passava logo, agora no faz efeito.
     Menelau sentiu um aperto no corao. Quando o remdio no aliviasse mais a dor, o que faria? Diomedes ajoelhou-se ao lado da cama, segurou a mo da me dizendo:
     -        Me, Deus vai ajudar. Vamos rezar. Sua dor vai passar.
     Menelau comoveu-se.
     -        Sim, filho. Vamos orar.
     Maria Antnia no protestou como de hbito. Fechou os olhos e esperou. Diomedes pronunciou sentida prece, pedindo a Deus que aliviasse o sofrimento da me.
     Quando ele calou-se, ficaram em silncio. A doente permanecia de olhos fechados.
     -        Vamos continuar em prece silenciosa - disse Menelau, baixinho.
     Maria Antnia adormecera. Durante duas horas, eles ficaram ali velando seu sono. Ela abriu os olhos, vendo-os acalmou-se:
     -        E ento? - indagou Menelau.
     -        Passou - respondeu ela. - Agora est apenas dolorido.
     -        Graas a Deus, me.
     Ela fitou o rosto comovido do filho, nada disse. Coincidncia ou no, a orao dele fizera-lhe bem.
     -        Que horas so? - perguntou.
     -        Dez. Voc dormiu duas horas.
     A partir daquela noite, Maria Antnia sempre que sentia dor pedia ao filho para orar, e embora nem sempre a dor cedesse de pronto, ela sentia-se mais calma 
e encorajada.
     Eduardo sempre os visitava e quando ele sugeriu a ajuda espiritual, ela aceitou. Foi com muita emoo que Menelau acompanhou a leitura que Eduardo fez de uma 
pgina do "Evangelho Segundo o Espiritismo". Depois de uma prece, ele imps as mos sobre a cabea de Maria Antnia, que no se conteve e desatou em pranto.  
     Os trs continuaram orando. Por fim, Maria Antnia disse, com voz rouca:
     -        O senhor diz que Deus  bom! Como aceitar sua bondade que nos condena  doena,  dor e  morte? Como esperar ajuda desse Deus que se mostra to impiedoso 
para com suas criaturas?
     -        Sua revolta no vai ajud-la a compreender os mecanismos da vida.  melhor acalmar-se para tentar perceber quais foram as suas atitudes que atraram 
essa doena para a senhora.
       - Minhas atitudes? O que tem isso a ver com meu mal fsico? uma doena que contra
de algum com certeza. Nesta cidade a imundcie anda pelas ruas.
     -        Todos ns andamos pelas ruas do Rio de Janeiro. Por que no estamos doentes?
     -        Pura sorte - argumentou ela.
     -        No, dona Maria Antnia. Porque temos uma defesa que no est no fsico, mas no esprito.  a maneira como pensamos, vemos as coisas, acreditamos.
     -        O senhor d demasiada importncia a simples pensamentos.  ridculo!
     -        Tem alguma explicao melhor?
     Ela olhou-o sem encontrar nada para dizer. Ao cabo de alguns instantes, tornou:
     -        No tenho explicao e  isto o que me irrita. Por que sofrer tanto neste mundo?
     -        Talvez as explicaes no lhe paream satisfatrias porque esteja observando de uma premissa imprpria. Contudo, talvez seja mais importante ao invs 
do por que, perguntar como. Como sofrerei menos neste mundo? O que fazer j para modificar o quadro doloroso de minha vida?
     -        E o senhor pensa que no tenho feito? Corremos os melhores mdicos do Rio de Janeiro e nenhum conseguiu curar-me.
     -        O que prova que no ser por a.
     -        No compreendo...
     -        Compreender. Se os mdicos no puderam ainda cur-la, deve apelar para outros meios. Onde os homens so impotentes, Deus pode. Ele  o dono da vida 
e o distribuidor de bens a todos ns.
     -        Pensa que Ele poder curar-me? No me est iludindo?
     - Sei que Ele pode cur-la, uma vez que  sua vontade e sua fora que alimenta e comanda o universo. Mas a senhora precisar encontrar o caminho para isso dentro 
de si mesma. Jamais vir de fora. Tudo que vem de fora  apenas reflexo do que emitimos dentro de ns,  sintoma,  resposta, no  a causa. Ela se encontra em nossa 
maneira de ser. Para haver cura, dever haver mudana. Enquanto se mantiverem os elementos que ocasionaram a doena, ela permanecer.
     -        O senhor diz coisas estranhas. Difceis de entender. Tenho uma doena fsica e o senhor vem-me com metforas.
     -        A senhora tem uma doena no corpo, cuja causa est em sua alma. Se no procurar cur-la em seu mundo interior, nunca a eliminar do corpo.
     Maria Antnia passou a mo pela testa, num gesto cansado.
     -        Como Deus pode ajudar-me?
        - Confie nele. Criou tudo, inclusive a vida. Pea-lhe, com sinceridade, que lhe mostre o que precisa perceber sobre isso. Abra seu corao a ele, mostre-se 
com vontade de cooperar, de enxergar a verdade onde estiver. Livre-se dos preconceitos. Converse com ele com sincero interesse de aprender.
- Pensa que conseguirei?
     -        Por certo.
     -        Dar resultado?
     -        Tente.
     -        O senhor diz coisas diferentes. Por que deveria ouvi-lo?
     -        Fez-me perguntas e eu as respondi conforme penso. No obrigada a fazer nada do que eu sugeri. Contudo, se no tem uma alternativa melhor, o que lhe 
custaria experimentar?
     A partir daquela noite, Maria Antnia interessou-se em conversar com Eduardo. Fazia-lhe perguntas capciosas, provocava-o, tentava irrit-lo. Mas em meio a suas 
indagaes, percebia-se que ela pensara nos assuntos e havia uma dissimulada tentativa de busca.
     Eduardo ia  casa do amigo duas ou trs vezes por semana. Assim, teve oportunidade de falar-lhe sobre a sobrevivncia da alma aps a morte, da reencarnao, 
da mediunidade.
     Quando ele falara sobre reencarnao, ela ouvira sria. Por fim dissera:
     -        No creio em nada disso. No me lembro de haver tido outras vidas... contudo, h uma coisa curiosa...
     -        O qu? indagou Eduardo.
     - s vezes tenho a impresso ntida de j ter estado doente como agora. Vejo-me em um quarto de paredes brancas e sinto a boca, a garganta, at o estmago, 
todo em ferida, ardendo como se eu os houvesse queimado.  uma sensao breve e sempre tem uma mulher segurando minhas mos, dando-me coragem.
     Menelau sentiu lgrimas virem-lhe aos olhos. Maria Antnia tinha reminiscncias de sua passagem no mundo espiritual.
     -  uma lembrana de alguma fase de sua vida, anterior, -explicou Eduardo. 
     Embora no esteja consciente agora, as impresses aparecem.
     Ela ficou pensativa por alguns instantes, depois disse, pausadamente:
     -        Doente duas vezes. Como pode ser isso? Uma fatalidade?
     -        A doena  o sintoma de uma necessidade espiritual. Quando perceber e sanar a causa, ela ir embora.
     -        No acredito.  muito fantasioso. O que eu preciso mesmo  de um bom mdico que saiba curar realmente. Talvez na Europa eu encontre alvio. Eu quero 
ir  Europa! L, por certo sabero curar-me.
     Eduardo calou-se. Menelau olhou para ele suplicante. Por fim, ele respondeu:
     -        Faa o que seu corao pedir,  um direito seu. A vida  sua.
     A partir desse dia, ela apegou-se a idia de ir tratar-se na Europa. Apesar disso, continuava pedindo ajuda espiritual sempre que sentia dor. Menelau, angustiado, 
no sabia como proceder.
     -        O pior - confidenciava a Eduardo -  que nenhum mdico d esperanas. Dizem que a viagem ser intil. Alm de no cur-la, poder apressar o desenlace. 
Tenho medo!
     Entretanto, Diomedes pede, ela tambm, o que farei?
     -        Nesse caso, procure ouvir seu corao.  difcil algum dicidir pelo outro. Faa o que sentir melhor.
     -        Apressarei os negcios e vou lev-los  Europa. Na Sua h grandes especialistas.
     -        Faa isso. Se quiser, posso cuidar dos seus negcios enquanto estiver fora.
     -  um grande amigo. Obrigado.
     Providenciou tudo e dois dias depois estavam de partida. Eduardo acompanhou-os ao embarque e, vendo-os acenar do convs do navio, sentiu um aperto no corao.
     Maria Antnia, rosto plido, magro, tinha nos olhos um brilho de esperana. Envolta em um xale, no se assemelhava em nada com a jovem de outros tempos, e, 
apesar dos tristes pressgios ou at por causa deles, Eduardo procurou envolv-los com um pensamento de otimismo e de amor e ps-se a orar.

CAPTULO 23

       O dia estava lindo naquela manh de dezembro e o sol quente. Eduardo tirou o relgio do bolso, e olhou: eram nove e meia. Fazia meia hora que esperava o desembarque 
dos amigos.
       O navio atracara  noite, mas os passageiros ainda no haviam comeado a descer.
       Havia seis meses que eles tinham partido e durante aquele tempo recebera apenas uma carta contando que Maria Antnia piorava e que ela no suportaria a longa 
viagem de volta.
       Naquela manh, recebera um recado de uma pessoa da tripulao que saltara em terra e, a pedido de Menelau, o avisara da sua chegada. Apressara-se em ir ao 
cais e ansiosamente aguardava os amigos.
       Eram quase dez horas quando os passageiros comearam a descer. Eduardo, ansioso, viu o amigo, Diomedes, mas no viu Maria Antnia. Em poucos minutos estavam 
abraados.
       - Sejam bem-vindos - disse. - H quanto tempo!
       -  verdade - respondeu Menelau, um tanto embargado. - Quando partimos no espervamos ficar tanto tempo! Infelizmente, no adiantou. Amanh faz um ms que 
Maria Antnia partiu.
       - Sinto muito - tornou Eduardo, comovido. - Meus sentimentos. - Apertou a mo dos dois. Os olhos de Diomedes estavam cheios de lgrimas.
       - Temos que esperar a bagagem - explicou Menelau.
       - Vamos embora. Um empregado meu far isso e levar tudo  sua casa.  s dar-lhe os comprovantes.
       - Est bem. Obrigado por mais este favor.  bom chegar em casa, apesar de tudo.
       Foi com emoo que chegaram em casa, onde cada coisa recordava a presena de Maria Antnia. Apesar do seu desespero, Diomedes compreendia que no devia lamentar-se. 
Seu maior desejo era que o esprito de sua me pudesse estar bem e no queria entristec-la com sua dor.
       - Gostaria de ter notcias dela, sr. Eduardo. Poder perguntar na sesso?
     -        Claro. Podemos nos informar sobre seu estado. No entanto, meu filho, o melhor auxlio para ela ser a nossa alegria, nossa compreenso, e nossos pensamentos 
de harmonia e de paz.
     -        Farei o que puder. Confio em Deus. Sei que seus sofrimentos acabaram.
     -        Isso, Diomedes. Otimismo e confiana a ajudaro, com certeza.
     Menelau levou Eduardo a seu gabinete e, uma vez a ss, relatou ao amigo aqueles meses de tristeza e de luta contra a doena. Consultaram vrios especialistas 
e todos foram unnimes em afirmar que nada podiam fazer para cur-la. Cada um trocava o analgsico e nada mais.
     A boca, muito inflamada, a garganta tambm impediam-na de alimentar-se. Enfraqueceu tanto que no suportaria a viagem de volta. Quando o inverno comeou eles 
viajaram para o sul em busca de um clima mais ameno. Foi na Espanha que Maria Antnia precisou ser hospitalizada. Nenhum hotel aceitava sua presena. Em Madri ela 
faleceu. Seus ltimos dias haviam sido de dor e de drogas que lhe tiraram a conscincia at a morte.
     Menelau estava arrasado. Cansado emocionalmente, tentando conter-se diante de Diomedes, frente ao amigo deu livre curso s suas mgoas.
     -        Chore, meu amigo. Uma etapa de sua vida foi encerrada. Cumpriu a tarefa que se imps at o fim. Deu a ela tudo quanto pde. Tenho a certeza de que, 
com amor, continuar cuidando de Diomedes.
     Passado o desabafo, Menelau confidenciou:
     -        Eu a queria bem. Seu medo, sua luta apareciam claramente diante de mim.
     -        Voc a ajudou muito, tenho certeza.
     -        Ela mudou: aprendeu a gostar de Diomedes. Agarrava-se a ele quando sentia medo. Um dia, olhou-o comovida e disse "- Voc me ama! Nunca me abandonou." 
Ao que ele respondeu: "- Ficarei com a senhora acontea o que acontecer."
     -        Ela humanizou-se - considerou Eduardo. - Seu esprito aproveitou a encarnao.
     -        Gostaria que ela houvesse aceitado mais as verdades espirituais. Nunca consegui transmitir-lhe a f plena.
     - As pessoas necessitam de tempo para amadurecer. Ela percebeu o que lhe foi possvel. Um dia chegar aonde voc deseja. Todos estamos aprendendo. Quantas coisas 
ainda no possumos capacidade para enxergar?
     -         verdade. Minha conscincia est em paz. Apesar de tudo, sinto-me bem.
     -        Isso. Voc est cansado, esgotado. Logo estar recuperado. A morte  irreversvel e a vida continua.
     -        Quero dar a Diomedes todo bem que puder.
     -        Ajud-lo a desenvolver-se para enfrentar sua prpria vida.
     Menelau sorriu:
     -        Tem razo. No pretendo exagerar.
     -        Sei que far o melhor. Agora, nada de tristezas, O passado est morto. Hoje, tudo  diferente.
     Menelau abraou o amigo comovido. Ele estava com a razo.
     Sentada em um banco no alvo corredor, Eleonora estava ansiosa e preocupada. Sua filha deixara a Terra e fora recolhida por um grupo de socorro e encontrava-se 
em um quarto daquele hospital.
     Por amor, ela entregara-se ao esforo de disciplina do seu grupo de trabalho, na esperana de obter ajuda para Antonieta que ainda se encontrava na Terra, muito 
doente e tambm para conseguir permisso para v-la de quando em quando.
     Esmerava-se em cumprir todas as ordens e fazer o melhor que podia. Conseguira trabalhar na colnia espiritual onde fora acolhida, e onde recebia orientao 
e assistncia. O trabalho era humilde, mas ela o fazia de bom grado, chegando a ser estimada pelos companheiros. O que no faria pelo amor da filha?
     Na hora extrema estivera ao lado dela no hospital da Terra e, com oraes, assistira o desligamento de seu esprito adormecido. Durante um ms, pudera visit-la 
no hospital do astral para onde fora levada aps a morte do corpo, mas Maria Antnia dormia, sem voltar  conscincia.
     -        Quero estar a seu lado quando ela acordar - pedira Eleonora. - Desejo ajud-la!
     Agora ela fora chamada; contudo, aguardava permisso para entrar no quarto da filha.
     -        Pode ser que ela no a reconhea de pronto - dissera sua assistente.
     -        No importa. Saberei esclarec-la.
     -        Sabe que no deve apressar as coisas.  melhor que tudo ocorra com naturalidade.
     -        Eu sei. Terei pacincia.
     Eleonora olhou ansiosa a porta do quarto. Demorariam a chamar?
     Finalmente a enfermeira apareceu dizendo:
     - Pode entrar agora. Ela est acordada. Nada de emoes fortes ou de revelaes. Ela precisa de pensamentos alegres e harmoniosos.
     Eleonora concordou com a cabea e levantou-se imediatamente. A enfermeira pousou a mo em seu brao e concluiu:
     - Se ela se lembrar de coisas, fizer perguntas, responda com naturalidade. Evite dramatizar os fatos. Agora venha.
     Eleonora concordou mais uma vez e seguiu a enfermeira compondo a fisionomia. Maria Antnia, no leito, recostada em almofadas, sentia-se melhor. Despertara naquele 
quarto desconhecido sem compreender como fora parar ali. Um novo hotel com certeza. Lembrava-se de haver estado muito mal e das dores terrveis, da angstia, do 
desespero.
     Agora, porm, sentia-se muito melhor. Suas dores haviam desaparecido. Levou a mo ao pescoo apalpando e no sentiu nenhuma dor. Engoliu e sentiu-se normal. 
"Estou curada!", pensou. Finalmente. Por certo algum mdico novo.
     Menelau revelara-se seu melhor amigo, ele e Diomedes. Seu filho! Sentiu-se comovida.
     Quando todos a abandonaram, eles haviam ficado a seu lado lutando para sua cura.
     Certamente a eles devia a melhora. Sem tanta dedicao, no teria conseguido.
     Estava um pouco fraca, era natural depois de tanto tempo doente. Mas os tristes sintomas que a atormentavam tanto haviam desaparecido.
     "- Preciso de um espelho" - pensou. - "Quero ver como estou."
     Olhou em volta. Era um quarto simples, paredes pintadas de verde claro, grande janela branca, guarnecida de leve cortina esvoaante. Ao lado, uma mesa pequena, 
uma poltrona estofada em verde-folha, do outro lado pequeno mvel com lindo arranjo de flores graciosas e um espelho oval.
     Maria Antnia tentou levantar-se. Sentiu-se tonta. Quanto tempo estivera dormindo? Amparando-se nos mveis, foi at a janela e abriu-a. Respirou gostosamente 
o ar agradvel e olhou o jardim onde pessoas passavam conversando, algumas parecendo convalescentes.
     "Estou em um hospital", pensou. Queria ver Menelau, Diomedes, dar-lhes as boas novas. Finalmente, a cura!
     A enfermeira entrou:
     - Finalmente acordou - disse satisfeita. - Est muito bem!
-        Estou tonta.
     -         natural. Vou ajud-la. Vamos fazer alguns exerccios respiratrios.
     Maria Antnia desejava perguntar, mas a enfermeira no permitiu.
     -        Vai sentir-se melhor, ento conversaremos.
     Ela obedeceu. Foi se sentindo melhor.
     -        Agora deve deitar-se e descansar. Aos poucos se sentir muito bem.
     -        Antes desejo ver como estou.
     -        Est bem. Ampare-se em mim.
     Com emoo Maria Antnia olhou-se. Estava ainda magra, um tanto plida mas seus lbios haviam voltado ao normal. Passou os dedos trmulos sobre eles, para certificar-se 
do que estava vendo, e sorriu com alegria. Abriu a boca e no estava vermelha ou inchada. Estava realmente curada.
     -        Agora  melhor repousar um pouco. Deite-se e descanse. Far-lhe- bem.
     -        Desejo ver meu marido, meu filho, devem estar a fora. Preciso contar-lhes que estou bem.
     -        Eles j sabem. Tranqilize-se.
     -        Quero v-los. Chame-os por favor.
     -        Eles no esto aqui. Deite-se, deixe-me ajud-la.
     Ajudou Maria Antnia a deitar-se, ajeitando os travesseiros confortavelmente.
     -        Naturalmente saram um pouco, mas voltaro logo mais. Eles nunca me deixaram desde que adoeci.
     -        Tem uma pessoa a fora que deseja v-la.
     -        Quem ?
     -        Uma amiga que lhe quer muito bem.
     -        No conheo ningum aqui na Espanha.
     -        Ela tem estado sempre a seu lado, desde que chegou.
     -        Est bem. Mande-a entrar. Quero ver quem .
     Quando Eleonora entrou atrs da enfermeira, Maria Antnia fixou-a curiosa. Seu rosto era-lhe familiar. Claro que a conhecia, mas, de onde?
     Eleonora aproximou-se e beijou-a na testa com muito amor.
-        Finalmente est bem - disse.
     -        Sim. Estou curada. Sei que a conheo, mas no me leve a mal, no consigo lembrar-me de onde.
     -        Faz muito tempo que no me v. Vai lembrar-se certamente.
     -  uma sensao estranha. Conhece meu marido, meu filho?
     -        Muito.
     -        Talvez possa ajudar-me. Sente-se, por favor.
     A enfermeira saiu e Eleonora sentou-se ao lado da cama.
     -        Se os conhece talvez possa cham-los para mim ou dizer-me onde eles esto. Parece-me estranho que tenham me deixado sozinha. Eles nunca me abandonaram, 
ainda que por alguns instantes. Quando um saa, ou outro sempre ficava.
     -        Sei que eles lhe so muito dedicados. Pude presenciar como eles cuidaram de voc.
     -        Pde? No a vi em nenhum lugar.
     -        Mas eu estava sempre a seu lado. Jamais a abandonei desde que reencarnou na Terra. Segui todos seus passos, seu casamento, o nascimento de Diomedes, 
tudo.
     Maria Antnia fixou-a, admirada.
     -        H muitas coisas que no estou entendendo. Como viu tudo se eu no me lembro de voc? De que forma?
     -        Agora eu estou aqui, mas houve uma poca em que no saa de sua casa.
     -        Voc diz coisas sem sentido.
     -        O importante  que voc est bem e estamos juntas de novo.
     -        Quem  voc?
     -        Eleonora.
     -        No me lembro, no entanto...
     -        O qu?
     -        Tudo  muito familiar.
     -        No se preocupe. Se lembrar, quando for o momento. Agora  melhor repousar para sair logo dessa cama. Vou cantar para voc, feche os olhos, descanse. 
Ficarei aqui. Quando acordar, se sentir melhor.
     Maria Antnia sentia muito sono, fechou os olhos e Eleonora comeou a cantar com voz doce uma antiga cano de ninar.
     Nos dias que se seguiram, Maria Antnia foi melhorando rapidamente. Sentia-se bem como nunca se lembrava de haver estado, alegre, cheia de fora e de vigor. 
Estranhava a ausncia de Menelau e de Diomedes e percebia tambm que aquele hospital era muito diferente de todos os lugares que conhecera. Todos falavam portugus. 
Teria regressado ao Brasil sem perceber? Por que ningum lhe explicava onde estavam? Queria descobrir, falar com a direo, afinal seu marido deveria estar pagando 
regiamente seu tratamento,
       Procurou pelo diretor e foi conduzida a uma sala e apresentada.
    -        Dona Maria Antnia deseja falar-lhe. Esse  o Joo, chefe do nosso setor.
    Maria Antnia estendeu-lhe a mo, que ele apertou discretamente.
       - Sente-se, por favor - disse.
    Ela acomodou-se em uma cadeira em frente  mesa atrs da qual ele permanecia sentado.
    -        Em que lhe posso ser til?
    -        Talvez possa responder-me algumas perguntas. Aqui passam-se coisas estranhas.
    -        Pode perguntar.
    Maria Antnia desfilou todas suas dvidas, a ausncia dos familiares, a presena de Eleonora; o comportamento ali era muito diferente do comum das pessoas, o 
tratamento menos cerimonioso. Havia mveis que ela nunca vira antes, falavam portugus, mas nada ali era como no Brasil.
    Ele deixou-a falar  vontade; quando ela parou, olhou-a nos olhos com firmeza e sinceridade. Era um homem de meia-idade, olhos verdes e magnticos, agradvel 
sorriso.
       -  observadora e inteligente. Percebeu quase tudo.
    -        Quase... O que falta que ainda no vi?
       - Tirar concluses sobre tudo quanto observou.
    Ela no desviou o olhar. Sentia-se prestes a descobrir alguma coisa nova, uma chave que lhe daria todas as respostas.
    -        Meu filho Diomedes, meu marido. Eles no esto aqui porque no os deixam entrar. Eles nunca me abandonariam. Eles no esto porque no os deixam entrar 
- repetiu. - No  verdade?
    -        Eles no esto aqui porque no podem. Ainda no chegou a hora deles.
    -        Quer dizer que... eu... chegou a minha hora de vir e eles no? Est brincando comigo!
    -        Quando chega a hora dessa viagem, nossos parentes no podem nos acompanhar.
    -        Do jeito como fala at parece que eu morri. Ele continuou a fix-la e nada respondeu.
    -        No  possvel! Eu sarei. Estou curada! No v? Eu estava muito doente, mal mesmo, havia dor, angstia, sofrimento.
    -        Agora voc sarou. Deixou na Terra o corpo com as marcas da sua enfermidade. Regressou ao mundo espiritual.
     -        No acredito - gritou ela, assustada. - Veja, eu tenho um corpo, est sadio, curado.  mentira. No morri. No quero morrer. Sou jovem ainda. Quero 
viver. Ver meu filho. Ir para casa! Estou me sentindo mal, sinto-me sufocar.
     Ele levantou-se e segurou-lhe as mos dizendo, calmo:
     -        No tenha medo. Voc est curada. Acalme-se. Respire fundo. Olhe para mim. Voc vai descansar. Adormecer. Quando acordar. estar serena.
     Maria Antnia, fechou os olhos, sua cabea pendeu e ela adormeceu. Quando acordou, estava novamente deitada em seu quarto. Eleonora velava, solcita. Sentou-se 
no leito, interdita:
     -        Tenho certeza de que no foi sonho! - disse. - Eu estava l. na sala e ele disse-me aquilo. Eu estava acordada.
     -        Acalme-se. O que aconteceu?
     -        Fui ver o senhor Joo.
     Olhou fixamente para Eleonora e um grito forte escapou-se-lhe do peito:
     -        Me!  voc! Eu me lembro!
     Num segundo as duas estavam abraadas misturando as lgrimas. Vencida a emoo, Eleonora disse com suavidade:
     - Tenho esperado muito por esse instante! Poder abra-la de novo era tudo quanto eu pedia a Deus.
     -        Ento  mesmo verdade! Eu morri. Custo a crer. Menelau tinha razo. O sr. Eduardo me parecia um tanto louco, mas agora no sei o que pensar.
     Eleonora abanou a cabea afirmativamente.
     -        Ele sempre esteve certo. Por incrvel que possa parecer. Ele entende muitas coisas e eu mesmo sou-lhe grata, j me ajudou muito. Graas  sua interferncia 
pude melhorar, trabalhar para poder agora ficar a seu lado.
     -        Estou recordando daqui, de voc, mas ainda me parece impossvel. Quando estamos no mundo, no nos lembramos de nada.
     -        Melhor assim. Se lembrasse, no teria se casado com seu pai e nossos planos no teriam se realizado.
     -        Papai? Eu casei com papai?
     -         uma histria longa que um dia lhe contarei.
     - No creio nisso. Papai Raul, eu me lembro, era um homem leviano que nos abandonou para fugir com sua prpria cunhada. Desprezo-o. Assim como desprezo todos 
os homens. Por isso quis arraslos, a todos. Quando esqueci esse sentimento e me apaixonei, compreendi que no havia um sequer que valesse a pena respeitar. O Alberto 
foi to canalha como os demais. No entanto, agora, h dois homens pelo menos que eu respeito e admiro. Duas excees. Menelau, que sempre foi impoluto e ficou a 
meu lado at o fim e Diomedes, meu filho, que no saiu ao canalha do pai e que me amava profundamente.
     Quando Maria Antnia comeou a falar, Eleonora sentiu-se irritada. Menelau no era o santarro que ela acreditava. Abriu a boca para contestar. Contudo, nada 
disse. A filha era descrente e sofrida. De que lhe serviria contar a verdade? Eleonora agora estava mais amadurecida. Depois, Menelau cumprira sua palavra. Afastara-se 
de Maria Jos. Sua filha parecia-lhe mais lcida e consciente. Trazer  tona queixas passadas seria lev-la de volta a esse passado triste que agora lutava para 
esquecer. Decidiu-se a contar apenas o que fosse til:
     -        Raul mudou muito. Arrependeu-se do que fez.
     -        Voc o perdoou? Logo voc, to revoltada com a traio!
     -        A vida tem me ensinado muitas coisas. Aqueles tempos foram tristes e agora pretendo esquecer. Estivemos juntos antes de vocs retornarem  Terra e, 
com a ajuda de nossos mentores, programamos uma experincia que nos ajudasse a resolver nossos problemas. Eu afirmo a voc que Menelau  Raul. Ele prometeu e cumpriu, 
com amor, a tarefa de a ajudar a vencer seus problemas. Deve lembrar-se da outra vez que regressou, de forma dolorosa e a contragosto. E, embora no pretenda julgar 
seus atos, h de concordar que sua maneira de olhar a vida, suas atitudes contriburam muito para isso. Voc estava doente da alma e ele, arrependido, sentindo o 
amor de pai, desejou ajud-la.
     -        Custo a crer. Parece mentira!
    -         a pura verdade.
    -        Ento foi por isso que ele me perdoou, voltou para casa, aceitou Diomedes e o ama muito. Meu Deus! Quem poderia suspeitar?
     -        Ele sabe de tudo. Eduardo, nas sesses, descobriu. Eu mesma estive l, conversando com eles!
     Maria Antnia ficou calada, pensando durante alguns minutos. Depois disse:
     -        Se Menelau era meu pai Raul, Diomedes, quem ?
     -        Algum que a ama muito e que sofreu horrivelmente com sua morte.
     -        Quem?
     -        Mudemos de assunto. Basta por agora. No convm arrancarmos do passado tantos fatos dolorosos.
     -        Desejo saber. Tenho estado cega at agora. Sinto necessidade de beber o clice da verdade at a ltima gota. Fale, quem  Diomedes?
     -         Otaviano, marido de Clia, que se vingou tirando-lhe a vida.
     Imediatamente o rosto de ambos apareceu em sua memria e ela recordou cenas de sua vida anterior. Lembrou-se de Otaviano, jovem e galanteador. Da sua insistncia 
em cortej-la e de como fora excitante e divertido encontrar-se com ele s escondidas de sua esposa Clia, moa sem grandes dotes fsicos, mas com dinheiro, posio 
e orgulho.
     Empalideceu. Nunca poderia supor que Diomedes fosse Otaviano.
     -        Mas Otaviano era alegre, divertido, leviano e casou-se com Clia pelo dinheiro dela. Diomedes  diferente.  srio, responsvel, desinteressado.
     Eleonora deu de ombros.
     -        Todos ns mudamos, O que sei  que Otaviano sofreu muito. Depois que descobriu que Clia foi a responsvel pela sua morte, o remorso o atormentou. 
Ela vingou-se dele, trancafiando-o em uma casa de loucos aproveitando-se de que, abalado e sem poder conter o remorso, ele tinha crises onde acusava-se do crime. 
Mesmo depois que voltou para c, esse remorso no o deixou. E quando recebeu permisso para reencarnar, pediu para ficar a seu lado e ajud-la. Ns sabamos, pelos 
problemas que voc ainda enfrentava, que passaria por momentos dolorosos. Ele desejou redimir-se. Apagar a culpa da conscincia. Para isso, sujeitou-se a tudo, lutando 
para vencer.
     -        Eu no queria filhos! Ento, foi ele quem quis.
     -        No  bem assim que as coisas acontecem aqui. Ele queria, mas se essa no houvesse sido uma necessidade sua, ele no teria conseguido. Eu no sei como 
eles conseguem isso, mas tudo tem que ser combinado, isto , ser bom para todos para dar certo.
     Maria Antnia baixou a cabea, pensativa. Comeou a compreender que ela ignorava muitas coisas. Tudo encadeava-se de forma a demonstrar que nada acontecia ao 
acaso. Havia razes e justificativas para cada uma e ela sentiu despertar dentro de si uma curiosidade nova.
     Gostaria de entender melhor como tudo acontece - disse, por fim. 
     -        Eu tambm - considerou Eleonora. - Estou cansada de tantos sofrimentos. Tenho visto aqui pessoas felizes que tm me aconselhado a aceitar os tratamentos 
que nos so oferecidos, bem como a ingressar nos grupos de estudo. Agora que voc est aqui, poderemos ir juntas. Quem sabe encontraremos um modo de sermos felizes 
tambm. O sr. Joo nos diz sempre que, se ns acreditarmos nisso e nos esforarmos, tudo acontecer.
     Olhando atravs da janela a tarde que morria, Eleonora pediu:
     -        Vou pensar, mame. Vou pensar. Todos esses fatos me abalaram muito e eu preciso de tempo. Desejo saber mais, descobrir o que ainda est oculto em minha 
vida. Sinto que estou pronta para um novo caminho mas, ao mesmo tempo, tenho medo de aventurar-me. Preciso pensar. Quero rever o que aprendi, olhar para mim mesma, 
coisa que nunca fiz. Eu saltava de iluso em iluso qual borboleta imprevidente ao redor da luz. Queimei as asas, senti o gosto do desencanto, da dor. vi o corpo 
que reverenciava e adornava como se fosse tudo transformar-se em putrefao, vergonha, angstia e destruio. Compreendi o quanto ele era mutvel e passageiro. Quero 
ver agora se h alguma coisa mais segura, mais importante do que ele. Preciso pensar, me, quero perceber, quero saber.
     Eleonora abraou a filha comovida. Ela tambm sentia-se assim. Queria virar a pgina, partir para novos conhecimentos, mas desta vez, com mais lucidez e atendendo 
a orientao dos mestres que estavam ali, sempre prontos a ensinar.
     -        Vamos rezar, filha, para que Deus nos ensine a melhor maneira de recomear.
     Enquanto as duas oravam com sinceridade, baixou sobre elas uma onda agradvel de paz.

CAPTULO 24
 
     Sentado em seu gabinete, Menelau, olhos perdidos em um ponto indefinido, pensava.
     Sentia-se muito s. Fazia um ano que Maria Antnia se fora e Diomedes havia manifestado o desejo de estudar medicina. Mostrara-se muito interessado nos problemas 
mentais. Convivendo tantos anos com a me, percebendo-lhe a insatisfao, o desequilbrio, as atitudes antagnicas, sua dificuldade em aceit-lo e, por fim, a doena 
incurvel, desejou dedicar-se seriamente  medicina na esperana de encontrar remdio para esses males.
     Vendo-lhe a deciso, Menelau decidiu cooperar. Queria que ele estudasse na Frana, onde havia grandes mdicos e maravilhosas escolas. Planejaram tudo cuidadosamente 
e Diomedes partiu, levando no corao o desejo vivo e ardente de realizar seu ideal. Menelau acompanhara-o at o cais junto com Eduardo e, vendo o navio afastar-se, 
acenando o leno, comovido, considerou:
     -        Que Deus o acompanhe. Ficar fora durante alguns anos.
     -        Ser bom para ele.  a primeira vez que sai sozinho, ser uma boa experincia.
     -        Por certo. Eu  que fiquei s. Sentirei muito sua falta. Nunca nos separamos.
     -        Ser bom tambm para voc.  hora de olhar para si. Faz tempo que s pensa nos outros.
     Menelau sorriu.
     -        Estou um tanto perdido. No sei o que farei.
     -        V descansar. Tire umas frias. Por que no visita Manuela?
     Menelau olhou o amigo, surpreso. Desde a morte do pai, Manuela e Maria Jos se tornaram inseparveis. Passavam temporadas na fazenda, em Itu, ou na provncia, 
na velha casa da famlia. Ana casara-se com rico comerciante, mudara-se para So Paulo; Rosa, por sua vez, tendo desposado um fazendeiro, fora morar nas Minas Gerais. 
Quando Adalberto resolveu casar-se e estabelecer-se na provncia, Manuela convidou-o a residir no casaro da famlia enquanto que ela passou a morar definitivamente 
com Maria Jos.
     Menelau, que a esse tempo estava na Europa com Maria Antnia, no pde ser consultado, mas elas sabiam que ele concordaria.
     Quando regressou da triste viagem, Manuela escreveu-lhe carinhosa carta, contando as novidades e mostrando-se pezarosa com a morte da cunhada. Ela nunca simpatizara 
com Maria Antnia, mas compreendia a dor do irmo.
     Maria Jos tambm lhe escrevera palavras de conforto e de compreenso pelo momento difcil que ele enfrentava.
     Menelau levantou-se e comeou a andar pela sala, pensativo. Lembrou-se de Maria Jos, to cheia de vida, de amor e sentiu uma onda de calor invadir-lhe o corao. 
Ela, em seus braos, trmula e apaixonada.
     Muitos anos decorreram, ela ainda se lembraria? No teria esquecido o passado? Desejaria ir at l, mas sentia medo. Estava envelhecido, amargurado e s. No 
entanto, como gostaria de rev-la! Confiar-lhe suas lutas de tantos anos, dizer-lhe que guardava no corao intacto o mesmo amor de sempre. Agora, era livre. Eleonora 
no mais poderia cobrar-lhe nada. Havia Romualdo. No o via h anos. Como estaria?
     Estava s. Sua casa vazia era povoada de tristes e angustiantes recordaes. Desejava rever Maria Jos, mas no iria perturb-la? Depois de tantos anos, reviver 
o passado no seria forar uma situao s para aplacar sua solido?
     Essas dvidas tornaram-no infeliz e triste. Confidenciou seus problemas a Eduardo, que o aconselhou a ir ter com ela e descobrir a verdade.
     - No se prenda a preconceitos. Agora, ambos esto livres. Nada os impede de ficar juntos para sempre. Um amor como o de vocs no se apaga com a distncia. 
No tenha medo! V at l, verifique.
     Mas Menelau no se decidia. Foi ento que recebeu carta de Manuela que, dizendo-se saudosa, pretendia realizar um velho sonho, conhecendo a capital da Repblica 
e matar a saudade do irmo. Maria Jos e Romualdo a acompanhariam.
     Menelau foi da tristeza a euforia. No sabia o que fazer. Procurou Eduardo, contou-lhe a novidade. Chamou as criadas e providenciou acomodaes. Mandou arejar 
a casa, melhorou a arrumao, esperou ansiosamente.
     No dia da chegada, encheu a casa de flores e, depois de verificar se tudo estava em ordem, foi esper-los na estao.
     Quando o trem chegou, olhava ansioso, procurando, quando dois braos o agarraram.
     -        Manuela! - disse.
     A moa abraou-o com fora e ele beijou-lhe a face com carinho.
     -        Como voc est linda! - disse, alegre.
     Manuela realmente estava bonita. Vendo-a, elegante, esbelta, os cabelos levantados em lindo penteado deixando  mostra seu pescoo alongado e realando o tamanho 
de seus belos olhos castanhos e amendoados, ningum acreditaria que ela j beirasse os quarenta anos.
     Depois de contempl-la, embevecido, viu Maria Jos e Romualdo sorrindo. Abraou-os comovido.
     -        Os anos no passaram para voc - comentou ele.
     Maria Jos sorriu. Estava um pouco mais madura, mas continuava bonita e elegante como sempre fora. Romualdo transformara-se em um belo rapaz, alto, rosto simptico, 
os mesmos cabelos bastos e aloirados, olhos expressivos e Menelau percebeu, satisfeito, o quanto eles se pareciam.
     -        Em contrapartida - continuou ele, - Romualdo transformou-se, est um homem.
     -        Um bonito homem, posso dizer - considerou Manuela, com entusiasmo.
     Menelau sentia-se feliz. Com carinho e alegria levou-os para casa, instalando-os confortavelmente. Depois do jantar, sentaram-se na sala, conversando com animao.
     -        Sou-lhes muito grato por terem vindo. Estava me sentindo muito s.
     -        Voc podia ter ido passar algum tempo conosco considerou Manuela.
     -        Pensei em ir, mas no quis levar-lhes a minha tristeza.
     -        O que aconteceu foi muito triste. S o tempo poderia atenuar - disse Maria Jos.
     -        Agora, tudo passou - tornou Romualdo. - As coisas que Deus faz so sempre certas. No podemos compreender as razes, mas o que no depende de ns, 
vem de Deus. Lamentar o passado no muda o que j foi. Por isso, tio, no vamos agora cultivar nenhuma mgoa. Prefiro falar de coisas alegres, gostaria de v-lo 
sorrir, esquecer. Para isso viemos.
     Menelau ficou agradavelmente surpreendido. Romualdo tinha razo.
     - Voc est certo, meu filho. A alegria  o tnico da alma. Deus no erra nunca. Confio que Maria Antnia esteja, nesta hora, recuperada e muito bem no outro 
lado da vida.
     A conversa seguiu mais alegre. Romualdo aprendera com a me a conhecer e a estudar os fenmenos da mediunidade. Maria Jos, orientada por Eduardo, equilibrara 
sua sensibilidade e, muitas vezes, quando faziam as oraes em famlia a que tinham se habituado, ela era envolvida por espritos amigos que conversavam com eles, 
dando-lhes sbios conselhos e muitos esclarecimentos. Depois, Bentinho, estimado, respeitado tornara-se companheiro nessas reunies e, atravs dele, os espritos 
compareciam para orientar e at receitar remdios do mato, atendendo aos problemas da famlia. Ele e a Zef a possuam quatro filhos, todos trabalhando na fazenda.
     Romualdo falou de seus projetos. Conseguira matricular-se na Faculdade de Direito da provncia e esperava, com entusiasmo, o incio das aulas no comeo do prximo 
ano.
     Menelau entusiasmou-se. Lembrou-se de seus estudos, falou da Sorbonne e as horas passaram alegres. Era tarde quando se recolheram.
     Estendido no leito, Menelau no conseguia adormecer. Pensava em Maria Jos.  lembrana dos momentos de amor e intimidade que haviam vivido, sentia renascer 
a emoo e seu amor por ela. Tinha vontade de saber se ela ainda o amava. Durante todos aqueles anos sufocara seus sentimentos a tal ponto que conseguira sobreviver 
dedicando-se a outros interesses. No entanto, agora, vendo-a, percebera que a chama no se apagara.
     Ambos estavam livres. Contudo, havia os filhos, a sociedade. No eram jovens. Maria Jos o que pensaria? Por outro lado, viver sozinho era triste. Desejava 
procur-la para esclarecer as dvidas que lhe acudiam  mente. Como seria bom poder am-la livremente, estar a seu lado e de Romualdo pelo resto da vida.
     Lembrou-se do esprito de Eleonora. Aceitaria uma aproximao entre eles agora que Maria Antnia morrera?
     O dia estava clareando quando, finalmente, Menelau conseguiu dormir. No dia seguinte, pela tarde, foram  casa de Eduardo que os recebeu com prazer. Encantou-se 
com Manuela e Menelau, percebendo-lhe o interesse, observava-os divertido. Eduardo fora sempre retrado com as mulheres. No se casara. Dizia no haver ainda encontrado 
a mulher dos seus sonhos.
     A conversa fluiu agradvel e Eduardo convidou-os a ficar para o jantar. Quando se despediram, Maria Jos perguntou:
     -        Podemos vir  sesso amanh  noite?
     -        Certamente - respondeu Eduardo. - Podero conhecer alguns amigos que estudam conosco. Eles iam s sesses do Sampaio. Quando ele morreu, no quisemos 
interromper.
     Tenho uma boa sala separada onde fazemos nossas pesquisas. Menelau tem vindo.
     -         verdade. Agradeo a Deus por essa oportunidade.
     Despediram-se, prometendo voltar na noite seguinte. De volta  casa, Menelau, abraado a Manuela, notou-lhe o interesse.
     -        Muito agradvel seu amigo Eduardo - considerou ela.
     -         de fato um grande amigo. Devo-lhe muitos favores.
     -        Vive sozinho?
     -        Sim.
     -        Por que no se casou?
     Menelau sacudiu a cabea.
     -        No sei. Talvez por no haver encontrado a mulher dos seus sonhos.
     Manuela sorriu, satisfeita.
     -        Voc gostou dele! - concluiu Maria Jos, com um sorriso.
     -         um homem simptico, s isso. Fiquei curiosa.
     -        Eduardo  como um irmo para mim. No sei mesmo porque at agora nenhuma mulher o conquistou.  o que se pode chamar de um bom partido.
     -         uma excelente pessoa - observou Maria Jos.
     -        Pelo jeito vocs gostam mesmo dele! Que entusiasmo!
     -        No passou despercebido que ele ficou encantado em conhec-la.
     -         um homem fino e bem educado - disse Manuela.
     -        Sei o que estou dizendo - aduziu Menelau, alegre. - Voc nos acompanhar amanh  noite?
     -        Certamente. Tenho participado das oraes com Maria Jos - respondeu ela.
     Chegando em casa, Manuela recolheu-se pretextando cansao. Romualdo foi dar um passeio, ver a cidade. Vendo-se a ss com Maria Jos, Menelau a olhou emocionado.
     -        Parece um sonho - disse. - Ter voc aqui, na minha casa!
     Ela fixou-o com olhos brilhantes.
     - Tenho sonhado com este momento e imaginado como seria. Menelau aproximou-se sentindo brotar dentro de si forte emoo. Abraou-a, beijando-lhe as faces, os 
cabelos, depois os lbios. com arrebatamento. Entregaram-se a aqueles momentos, sentindo o corao bater forte e avaliando o sentimento que os unia.
    Passados os primeiros arroubos, Maria Jos afastou-se um pouco, dizendo emocionada:
     -        Devemos nos acalmar. Pode vir algum. Guardamos nosso segredo durante tanto tempo, no quero que descubram agora.
     -        Somos livres, Maria Jos. Se no quer falar do passado, posso compreender. Mas hoje podemos nos amar, no h nada a nos impedir.
     -        Apesar de tudo, no quero que Romualdo saiba a verdade. Julgaria mal.
     -        Voc se arrependeu?
     -        No - respondeu ela com voz firme. - Nosso amor aconteceu e aqueles momentos foram os mais belos de minha vida. Lamento a situao em que estvamos. 
No me envergonho de nada. Temo que Romualdo no compreenda.
     -        Tem razo. No vejo necessidade de contar-lhe a verdade. O passado est morto.
    Maria Jos levantou para ele os olhos castanhos onde havia uma interrogao.
     -        Voc j esqueceu?
        - No.
        - No me procurou depois que Maria Antnia partiu. Cheguei a pensar que o tempo houvesse apagado o que aconteceu entre ns.
    Menelau tornou a abra-la, apertando-a de encontro . ao peito, beijando-a nos lbios repetidas vezes.
     -        Eu a amo! - disse com voz que a emoo embargava. -Voc sabe que nunca houve outra mulher em minha vida. Nunca a esqueci. Tive medo de procur-la depois 
que enviuvei. Temia que no se lembrasse mais.
    Ela passou a mo delicadamente pelo rosto dele, acariciando-o. Ele prosseguiu:
     -        Tenho me sentido amargurado, envelhecido. Voc sempre to cheia de vida! Eu a quero, mas temo que seja tarde.
    - Porqu? Porque alguns anos passaram e nossos corpos esto mais gastos? Nosso amor, Menelau, est na alma. No tem idade nem tempo,  um sentimento eterno, 
O que sei  que quero ficar com voc, se me quiser.
     -         bom demais para ser verdade! Parece um sonho. Voc ainda me ama!
     -        Sim - disse ela, com suavidade. - Eu o amo!
     Menelau beijou-a novamente com amor.
     -        Acha que Romualdo aceitar? E os outros, concordaro?
     -        Eles o estimam verdadeiramente, ficaro felizes.
     -        Falarei com eles.
     -        O que lhes dir?
     -        Que nos sentimos sozinhos, que nos amamos, que desejamos ser felizes juntos.
     -        No mencione o passado. Eles no precisam saber. Nossa felicidade lhes dar alegria.
     No dia seguinte, Manuela, vendo-os juntos no caf da manh, olhou-os surpreendida. Perspicaz, sentiu que havia algo no ar. Menelau, vendo-a sentar-se, depois 
de desejar-lhe um bom dia, abordou o assunto. Sabia o quanto a irm apreciava Maria Jos e contava conseguir sua cooperao.
     -        Manuela - disse. - Tenho me sentido muito s ultimamente. Ontem  noite eu e Maria Jos conversamos muito. Ela tambm se sente s. Descobrimos que 
nos queremos muito bem e estamos pensando em nos casar...
     Manuela soltou ligeiro grito de alegria.
     -         maravilhoso! Nunca vi duas pessoas to adorveis. So feitos um para o outro!
     -        Voc aprovaria? - perguntou Maria Jos.
     Manuela levantou-se e, aproximando-se, depositou um beijo na face da cunhada.
     -        Aprovo e fao muito gosto.
     -        H os meninos - disse Menelau, hesitante. - No sei se aceitaro. No desejo desgost-los.
     -        Tenho certeza de que ficaro felizes. Sempre se preocuparam com a solido de Maria Jos. Vai contar logo a Romualdo?
     Menelau abanou a cabea.
     -        Gostaria. No sei como.
     Manuela sorriu deliciada.
     -        Faa a corte a Maria Jos e deixe que ele perceba. Veremos  que far.
     -        Boa idia - disse Maria Jos, divertida.
     -        Preferia falar-lhe claramente - considerou Menelau.
     -        Faa como achar melhor. Estou muito feliz com a notcia.
     Menelau ficou pensativo. Lembrou-se de Demerval. Onde estaria? Teria condies de compreender tambm? Temia que o odiasse por isso
      noite, compareceram  casa de Eduardo para a reunio. Menelau nada disse, mas de alguma forma, esperava notcias. Algo que lhe indicasse que seu irmo no 
sofreria com seu casamento. Sabia que o fato dele ter morrido no o impedia de desejar conservar a ligao com a esposa. Eleonora o perseguira por julgar-se trada, 
considerando um compromisso de uma vida passada do qual ele sequer podia recordar-se. Mesmo estando aparentemente livres para ficar juntos, essa deciso seria aceita 
por eles?
     Eleonora mostrara-se intolerante; e Demerval. sempre to apegado  famlia, entenderia?
     O        ambiente estava agradvel, harmonioso, porm, Menelau sentia-se inquieto. A reunio decorreu com tranqilidade. Estudaram alguns assuntos sobre espiritualidade 
e, no final, uma senhora recebeu um amigo espiritual em esclarecedora mensagem. A sesso encerrou-se aps ligeira orao de Eduardo.
     Apesar de um pouco decepcionado, Menelau sentiu-se mais calmo. No caf com bolos que Eduardo servia sempre ao trmino dessas reunies, a conversa continuou 
animada. Eduardo sentou-se ao lado de Manuela e conversaram com interesse. A moa interessava-se verdadeiramente pela mediunidade e pelos fenmenos espirituais.
     As demais pessoas retiraram-se, mas, por insistncia de Eduardo, eles foram ficando. Menelau observou que o amigo estava emocionado. Olhava Manuela com olhos 
brilhantes. Nunca o vira agir assim. Embora curioso, no ousava perguntar. Foi ele quem mencionou o assunto.
     -        Desculpe - disse - mas preciso contar-lhes o que aconteceu comigo. Na semana passada, na quinta-feira, no fim da tarde, eu cheguei em casa e, de repente, 
senti-me um pouco cansado. Como era cedo para o jantar, fui para o quarto, tirei os sapatos e sentei-me na poltrona, estendendo as pernas sobre um banquinho. Branda 
sonolncia me envolveu e adormeci. Vi-me em um lugar agradvel, bela sala, ricamente decorada  moda europia.
     Encantado, olhava os objetos de arte que havia e ao mesmo tempo sentia-me tomado de grande emoo. Tudo parecia-me extremamente familiar e, aos poucos, uma 
saudade imensa me envolveu. Sentia que ia rever algum muito importante para mim. E, de repente, uma mulher apareceu e eu senti vibrar todo meu sentimento. Senti 
que um amor grande nos unia. Corri para ela e abracei-a, extasiado. Ela sorriu correspondendo ao
meu abrao. Depois disse: "Nosso tempo est prximo. Breve, estaremos juntos de novo."
        Vou morrer, pensei. Ela por certo estar me esperando do outro lado da vida. Mas para surpresa minha, ela abanou a cabea negativamente.
    "- Voc no vai morrer" - disse. "- Irei ter com voc dentro em breve. Estou muito feliz." Deu-me leve beijo na face e acordei, sentindo ainda seus lbios em 
meu rosto.
    Eduardo fez uma pausa, e vendo que o escutavam atentamente, continuou:
    -        A emoo foi to real e intensa, que nos dias que se seguiram no consegui esquecer esse fato. Contudo, o mais curioso estava por vir. Quando vocs 
vieram aqui ontem, fiquei chocado. Sequer pude conciliar o sono.  que Manuela era a moa do meu sonho. O mesmo rosto, o mesmo sorriso e at o mesmo vestido. Estou 
emocionado. No sei o que dizer. Ia ficar calado. No suportei. Afinal, somos amigos.
    Manuela ouvia-o um pouco corada, olhos brilhantes e todos sentiam que Eduardo falava com sinceridade.
    - Talvez tenham se conhecido em vidas passadas - sugeriu Menelau.
    -        Nesse caso, esto se reencontrando - disse Maria Jos.
    -        Fico emocionado quando olho para ela - reconheceu Eduardo. - Isso nunca me aconteceu.
    -        E eu sinto que o conheo de algum lugar - disse Manuela, fixando-o, sria.
    -        O que estava fazendo na quinta-feira  tarde? - perguntou Menelau.
    -        Tnhamos feito algumas compras para a viagem - lembrou Maria Jos. -
    Chegamos em casa quase s cinco. Tomamos caf, depois fui para meu quarto, Manuela para o seu.
    -         verdade. Fui descansar um pouco.
    -        Eis a o que aconteceu - concluiu Menelau, com satisfao.
       - Seu esprito veio visitar Eduardo.
    -        Mas eu no o conhecia - respondeu Manuela.
    -        Nesta encarnao ainda no se haviam encontrado. Mas est claro que seu esprito sabia que estava na hora e veio ter com ele.
       S pode ser isso - concordou Eduardo. - Devo convir que esse fato me emocionou.
    Manuela sorriu.
    -        A vida tem coisas estranhas.  
    - J que tudo ficou esclarecido, precisamos comemorar esse reencontro. Amanh v passar a tarde conosco, jantaremos juntos.
     -        Irei, com prazer.
     Eduardo compareceu na tarde seguinte e nos dias subseqentes. Ele e Manuela conversavam muito e sentiam-se bem juntos. Menelau olhava-os com satisfao. Sentia 
que se comprendiam. Ele, contudo, no tivera coragem de falar com Romualdo sobre seu casamento com Maria Jos.
     O        tempo passou depressa. Tanto Maria Jos quanto Manuela no desejavam voltar.
     Contudo, Romualdo queria ir para casa. Viajaria para So Paulo logo no incio do ano e desejava preparar seu guarda-roupa, instalar-se na casa do irmo, ansioso 
para comear na Universidade. Para no contrari-lo, as duas resolveram marcar a volta.
     Eduardo estava apaixonado por Manuela. Sentindo-se correspondido, declarou-se, falando do seu desejo de casar-se com ela. Combinaram que os dois amigos iriam 
ter com elas antes do Natal, ocasio em que Menelau pretendia falar com os sobrinhos. Ambos pretendiam marcar o casamento o mais breve possvel.
     Faltavam trs semanas para o Natal. As duas, acompanhadas por Romualdo, voltaram para a fazenda. Na estao as despedidas foram calorosas e Menelau percebeu 
o olhar indagador de Romualdo vendo-o abraado  Maria Jos. Apesar da despedida, estavam felizes. Dentro de duas semanas, os dois seguiriam para a fazenda.
     Depois dos acenos, vendo o trem desaparecer ganhando distncia, Menelau, olhos marejados, comentou:
     -        A felicidade  tanta que chego a temer...
     -        Por qu? - indagou Eduardo.
     -        No sei. Penso em Demerval, no esprito de Eleonora. Podem interferir em nossas vidas, causar problemas.
     Eduardo balanou a cabea negativamente.
     -        No creio. Vocs cumpriram com o dever. Maria Antnia recebeu todo seu carinho e dedicao. Ningum pode objetar nada.
     -        Mesmo assim. At h pouco tempo, Eleonora tudo fazia para nos manter separados.
     Quanto a Demerval, receio que no possa compreender. Era muito apegado a Maria Jos.
     Considerava-se ainda seu marido. Fico angustiado s de pensar nisso.
     -        Voc ainda se considera culpado pelo que aconteceu no passado. No fundo, no se julga com direito  felicidade.
     Menelau abaixou a cabea, pensativo. O amigo colocara o dedo na ferida. Ele havia errado. Merecia ser punido.
     Eduardo calou-se por alguns minutos; depois, disse com voz firme:
     -        No permita que esses pensamentos mascarem seus mais puros sentimentos. No seja um juiz mais rigoroso do que Deus.
     -        Por que diz isso?
     -        A vida afastou todos os obstculos e permite que vocs se unam. No lhe parece prova bastante de que Deus concorda com essa unio?
     -        Acha isso?
     -        Por certo. O caminho est livre. Deve esquecer o passado. Sua nica culpa foi ceder ao amor que sentia por Maria Jos. No premeditou, no pretendeu 
trair seu irmo.
     -        Mas tra. Isso tem me incomodado muito.
     -        Concordo que no foi bom ter acontecido isso. Porm, de nada vale recriminar-se agora. Por mais que se arrependa, no poder voltar o tempo e agir 
de maneira diferente. Por outro lado, voc lutou dignamente. Mesmo amando Maria Jos apaixonadamente, afastou-se dela. Cumpriu seus compromissos com Maria Antnia, 
eu diria at de forma abnegada.
     Compreendeu quando ela o traiu, fez mais, protegeu, criou, amou uma criana que no era sua. Meu amigo,  hora de esquecer o passado e pensar na sua felicidade. 
Vocs merecem! Mesmo que Demerval no aceite, nada poder fazer contra vocs, que esto dentro dos seus direitos.
     Menelau sorriu:
     -        Faa mais. Quando estiver s, medite, analise, mergulhe fundo nos seus sentimentos e jogue fora de sua alma essa culpa intil e desnecessria.
     -        Quisera manter essa confiana, esse otimismo.
     -        Pode ter a certeza de que a vida sempre age com acerto. Quando devemos pagar, ela sempre cobra. Tenho comigo que agora  sua hora de ser feliz. No 
perca a oportunidade.
     Menelau distendeu a fisionomia e abraou o amigo com satisfao.
     -        Obrigado - disse. - Tem razo. Chegou a nossa hora de ser feliz...

CAPTULO 25

     Sentado em um banco do agradvel jardim, Demerval conservava a fisionomia triste e abatida. No se interessava pelas pessoas que circulavam pelas alamedas floridas 
nem pela beleza do cu naquela tarde calma. Estava triste, magoado. Por que ningum o compreendia?
     Eram todos educados, tratavam-no com delicadeza, mas no podia sair dali. Ele queria cuidar de sua vida. Sabia que estava morto. Mas, preocupava-se com a famlia. 
Desejava ver os filhos. Sentia cimes de Maria Jos. Fora trado. Menelau! O trara por duas vezes. Queria voltar!
     Todavia, a vigilncia era rgida. Por mais que desejasse escapar, no conseguia. A assistente que o atendia, aconselhava-o, tentando faz-lo mudar a maneira 
de pensar, ponderando os fatos, pedindo-lhe para esquecer, confiar em Deus, trabalhar em favor de si mesmo e de sua harmonizao interior, inutilmente. Particularmente, 
naquela tarde, ele estava muito deprimido.
     Eleonora o visitara contando que Maria Antnia havia regressado. Enquanto a amiga falava da sua alegria com a melhora da filha, ele fora assaltado por uma onda 
de violento cime. Menelau estava vivo! Eles estavam livres. Por certo se casariam, seriam felizes, ele seria esquecido para sempre. At o amor dos filhos Menelau 
lhe roubara! Ficou desesperado.
     - Voc precisa ir l - disse, com raiva. - Deve impedi-los de ficar juntos. Voc prometeu.
     Eleonora olhou-o triste.
     - Tenho sofrido muito - considerou. - Talvez agora seja melhor esquecer.
     - Como! Depois de tudo quanto nos fizeram?
        - Estou cansada. Raul cumpriu o que me prometeu. Fez mais do que eu poderia esperar.
       Agora no quero mais odiar. Tenho pensado muito. No vale a pena. Deus tem sido bom comigo. Permitiu-me cuidar de minha filha.  s o que desejo. Que ela 
possa mudar, aprender a ser feliz. Raul no me ama. Algum dia hei de encontrar algum que me aprecie. Desejo refazer minha vida. Sei que conseguirei.
    -        Voc afrouxou, mas eu no. Hei de sair daqui e ento eles vo me pagar!
     -        Est sendo teimoso. Vai se machucar ainda mais. Por que no ouve os conselhos de dona Dalva? Ela  uma das melhores assistentes deste lugar. Seria 
melhor se a escutasse.
     Quando Eleonora se foi, Demerval sentiu-se ainda mais s. Como fazer? Precisava sair dali, tentar impedir que se casassem. no podia deix-lo cometer essa indignidade. 
Maria Jos era sua mulher, me de seus filhos! Lembrou-se de Romualdo e fechou os punhos com raiva.
     -        Aqueles traidores - pensou. - Preciso det-los e dar-lhes a lio que merecem.
     Vendo Dalva que se aproximava, procurou dissimular. A assistente sentou-se a seu lado.
     -        Est uma linda tarde - disse.
     -        Est? - indagou ele, com indiferena.
     -        Estive  sua espera. Tnhamos um encontro, esqueceu?
     -        No.
     Ele olhou-a, aborrecido.
     -        No tinha vontade - continuou ele. - De que me serve conversar, se no posso fazer o que quero? De que me adianta aparentar uma calma que no sinto? 
Quero sair daqui. Cuidar da minha vida. Esto acontecendo coisas com minha famlia e preciso tomar certas atitudes.
     -        Sua famlia tem condies de cuidar de si mesma. Voc no pode intervir em suas aes. Precisa aceitar isso.
        - No aceito. Enquanto vocs me prendem aqui, eles esto juntos. No posso permitir.
     -        Est aqui h cinco anos. Estava mais calmo, pensei que houvesse esquecido. Por que essa atitude de novo?
     -        Por que agora aquele traidor est livre. Sua esposa regressou. No quero que se casem.
     -        Voc sabe que aqui os compromissos feitos na Terra deixam de ser considerados. S tm validade os sentimentos e o desejo de cada um.
     -        Mas eu ainda a quero. Apesar de me haver trado,  minha esposa.
     -        Se ela quiser ser quando vier para c. Por enquanto ela  livre. Voc no pode interferir em sua vida.
        - No aceito. Desejo ir embora, no posso ficar aqui, quero minha liberdade.
     -        Tem certeza de que quer isso mesmo? Devo dizer-lhe que, agindo assim, pode aumentar seus prprios problemas.
     -        No importa. No quero ficar aqui.
     Dalva levantou-se.
     -        Muito bem. Falarei com o conselho sobre o caso.
     -        Quando? Tenho urgncia.
     -        Amanh mesmo. Pense bem, se mudar de idia, avise-me.
     -        Estou decidido. Ficarei esperando com impacincia.
     Na tarde seguinte, Demerval foi chamado por um dos conselheiros.
     -        Fale-me sobre seu caso - pediu ele.
     Demerval relatou seu inconformismo, sua tristeza, sua revolta pela traio sofrida, O conselheiro ouviu-o, calmo; ao final disse:
     -        Est conosco h alguns anos. Recorda-se por que veio aqui?
     -        Sim. Fiquei muito doente.
     -        Lembra-se por qu?
     -        Bem, eu queria encontrar o Neneu, ele me tirou a vida!
        - E o encontrou?
     -        Sim - murmurou Demerval, a contragosto.
     -        Recorda-se de que se uniu a um grupo de criaturas infelizes que prometeram ajud-lo em sua vingana?
     Demerval baixou a cabea, confundido. Gostaria de esquecer esse pedao de sua vida.
     -        Eu estava revoltado, ele me tirou a vida. Estou passando por tudo isso por culpa dele!
     -        Demerval! Os sofrimentos pelos quais passou por causa dessa sua forma de pensar no o fizeram perceber a verdade? Quando foi socorrido e trazido para 
c, estava dementado e sofrido. Cheio de chagas e dominado por aquelas criaturas. Foi preciso tempo e tratamento para devolver-lhe o equilbrio e a memria. Contudo, 
agora pretende abandonar tudo e voltar a envolver-se com as pessoas na Terra. Voc ainda no est preparado para ir at l. No  prisioneiro aqui. Esta casa  um 
lugar de recuperao e seu tratamento ainda no acabou. O que pede pode inutilizar tudo e mergulh-lo novamente no sofrimento.
     -        Estou sofrendo aqui, longe dos meus. Tenho que ir, impedir que eles se casem. No suportarei nova traio! Tenho razo. Como ficar aqui de braos cruzados?
     -        No nos  lcito interferir na vida dos outros.
     -        Ela  minha mulher. No abro mo disso. Se me impedirem de ir, fugirei. Irei de qualquer jeito.
     Demerval estava alterado e no conseguia controlar-se. O conselheiro levantou-se e, fixando-o, disse com voz firme:
     - Se quiser, poder sair daqui. No entanto,  meu dever esclarecer-lhe que no poder mais voltar. No ser mais aceito nesta comunidade.
     -        No importa. O que quero  sair.
     -        Muito bem. Dar-lhe-ei um passe de sada. Poder ir quando quiser.
     Demerval exultou. Dentro em pouco estaria de regresso ao lar. Entardecia, o sol ainda brilhava no horizonte, despedindo-se daquela face da Terra, colorindo 
o cu de tons rosados.
     Maria Jos, na varanda da casa grande, passou os olhos pelos canteiros graciosos cobertos de flores. Estavam lindos. Sentia-se orgulhosa. A fazenda estava bem 
cuidada e tudo muito arrumado. Ela havia conseguido melhorar o nvel da habitao, renovando parte do mobilirio e decorando-a com muito bom gosto. Manuela aproximou-se.
     -         incrvel - disse - tudo est to lindo! Realmente voc transformou esta casa velha em um lugar agradvel e confortvel.
     -        Estou feliz - disse Maria Jos. - Reencontrei a alegria de viver!
     -        D para perceber. Tem razo. Um amor ilumina a nossa vida, tudo fica diferente.
     Maria Jos abraou-a.
        - Voc gosta dele! Finalmente, apaixonou-se.
     Manuela corou.
     -         verdade. Estou apaixonada como se tivesse quinze anos.
     -         to bom amar! - considerou Maria Jos. - Chegaro hoje ainda?
     -        Talvez. Estou com saudade. Confesso que me sinto feliz.
     -        Eu tambm.
     -        Com certeza, vo se casar logo - disse Manuela.
     -        Por mim, o mais breve possvel. H os filhos. Precisamos conversar com eles.
     -        Sabe o que eu penso?
     Maria Jos sacudiu a cabea. Manuela prosseguiu:
     -        Que Menelau ser marido perfeito para voc. Sero muito felizes. Demerval tinha um gnio difcil. Menelau  mais afetivo. mais fcil de conviver.
-        V-se que era Seu irmo predileto.
     -        No posso negar. Nunca me entendi bem com Demerval. Para ser sincera, sempre admirei sua pacincia.
     - Demerval possua muitas qualidades - afirmou Maria Jos.
       - Concordo que era genioso. Vamos entrar, dar uma olhada nos quartos dos hspedes.
     -        Boa idia.
     As duas entraram e circularam pela casa, com satisfao. Estava tudo brilhando de limpo e cheio de flores. Sentaram-se na sala.
     -        O tempo custa a passar - considerou Manuela.
     -        Concordo. Regressamos h to pouco tempo, mas parece que faz anos.
Manuela sorriu alegre.
     -        Voc tambm est apaixonada! No negue.
     Maria Jos corou.
     -        Gosto de Menelau - disse.
     -        Voc o ama!
     -        Est certa. Eu o amo.
     -        Fico contente. Seremos felizes.
Maria Jos, de repente, levou a mo ao peito.
     -        O que foi? - indagou Manuela. - Ficou plida, sente-se mal?
     -        Um pouco. Senti uma dor aguda no peito, um arrepio pelo corpo, uma angstia!
     -        Estranho. Voc estava to bem. Passou?
     -        Um pouco. Sinto uma sensao de peso no corpo.
     -        Trabalhou demais estes dias todos. Ser cansao. Vamos ao seu quarto. Precisa descansar um pouco.
     -        Eu no sentia cansao. At parece que alguma alma penada se encostou em mim.
     -        Ser?
     -        S pode ser. Vamos para o quarto, faremos uma prece.
     As duas dirigiram-se ao quarto de Maria Jos, sentaram-se na cama e, em silncio, comearam a orar. Demerval inquietou-se. Maria Jos percebera sua presena. 
Ele havia chegado h algumas horas e logo percebeu a atmosfera festiva da casa. No estava preparado para encontrar tudo to bem. Gostaria que fosse o contrrio. 
Assim poderiam lamentar sua ausncia. Os ingratos! Passara a vida vivendo para eles. Agora fora rapidamente esquecido. Ouvira a conversa das duas. O que ele temia 
estava para acontecer. Maria Jos o esquecera.
     S pensava no amor de Menelau. Ele no permitiria, haveria de vingar-se! Agarrou-se a Maria Jos dizendo-lhe ao ouvido:
     -        Voc no pode dizer que o ama! Eu estou aqui. Sou seu marido!
     Vendo-a levar a mo ao peito, ele continuou:
     -        Voc precisa me ver. Estou aqui.
     Quando as duas comearam a orar, DemervaL afastou-se para um canto do quarto. Tinha medo da orao. Algum poderia intervir e obrig-lo a afastar-se.
     Quando terminaram, Maria Jos sentiu-se melhor.
     -        Ainda bem, as cores voltaram a seu rosto - considerou Manuela.
     -        Estou bem agora.
     Demerval observava. Decidiu no se precipitar. Agiria na hora certa. Foi na hora do almoo do dia seguinte que, finalmente, os dois chegaram. Trouxeram muitos 
presentes e muita alegria no corao.
     Foram recebidos com carinho pelas duas. Almoaram com apetite e se acomodaram na sala, onde conversaram longamente. Os filhos de Maria Jos ainda no haviam 
chegado. Eles viriam para as festas do Natal e Ano Novo, como de hbito.
     Cada casal em um sof conversava trocando confidncias em agradvel colquio.
     Teciam planos para o futuro. Menelau pretendia aproveitar a presena dos sobrinhos para comunicar seu desejo de casar-se com Maria Jos. A um canto, Demerval 
os observava com rancor.
     -        Acha que eles concordaro com nosso casamento? - perguntou Menelau.
     -        Penso que sim. Sempre o estimaram. No tm por que no aceitar.
     -        E Romualdo?
     -         muito meu amigo. Ficar feliz com nossa alegria.
     -         o que mais desejo. No gostaria que ele se aborrecesse.
Demerval irritou-se ainda mais. Aqueles traidores! Sua vingana, para ser completa, atingiria tambm aquele filho bastardo. Ele fora trado, enganado. Tinham-lhe 
impingido um filho que no era seu! Precisava castig-los. Fazer justia! Maria Jos, com a mania de rezar, Menelau com aquele amigo feiticeiro, no seriam presa 
fcil aos seus desejos. Romualdo, era jovem, sem experincia. Nele concentraria sua ateno. Disposto a agir, Demerval saiu imediatamente  procura do moo.
    Faltavam trs dias para o Natal quando os filhos de Maria Jos comearam a chegar. A casa tornou-se movimentada e alegre. Romualdo pretendia passar com a me 
todo o ms de janeiro. Depois ficaria na provncia, conforme o combinado. Estava feliz por cursar a faculdade.
    No lhe passou despercebido a atitude do tio e sentiu um aperto no corao. Desconfiou que ele estivesse interessado em sua me e essa idia o irritou. Ele, 
que sempre havia gostado do tio Menelau, passou a antipatizar com ele. Evitava sua presena e tudo quanto ele dizia tinha o poder de contrari-lo.
    Menelau sentiu que o rapaz estava arredio e confidenciou com
Eduardo:
    -        Sinto que ele me evita, que est contra mim. Tenho receio de falar em meu casamento. Acho que ele no vai concordar.
    -        Pode estar enciumado.  muito apegado  me. No se preocupe com ele. Com o tempo, isso passar.
    -        Temo que ele j tenha notado meu interesse por Maria Jos e no me aceite para padrasto.
    -        No se deixe levar por esse receio. Vocs tm direito  felicidade. Mesmo que ele esteja contra, com o tempo aceitar. Voc o estima de verdade e o 
amor vence todas as barreiras. Falaremos hoje  noite, conforme o combinado.
    -        No sei...
    -        Chega de indeciso. Hoje, aps o jantar, conversaremos sobre nossos casamentos.
    Menelau concordou, finalmente. Talvez fosse melhor esclarecer mesmo o assunto definitivamente.
    O        jantar decorreu alegre, s Romualdo mostrava-se inquieto e nervoso, a ponto de Maria Jos o interpelar:
    -        O que se passa com voc, meu filho. Tem algum problema?
       - No tenho nada. Sinto-me cansado,  s!
       Foi quando serviram o licor que Menelau levantou-se dizendo:
    -        Quero aproveitar este momento em que estamos todos reunidos para comunicar o breve casamento de Manuela com Eduardo. Brindemos  felicidade deles.
     Todos aplaudiram alegremente e beberam felizes. Menelau, colocando o clice sobre a mesa, prosseguiu com seriedade.
     - Quero tambm dizer que nos ltimos tempos tenho me sentido muito s. Como sabem, meu nico filho est estudando na Europa e tem mostrado desejo de ficar l 
definitivamente. Sinto falta de um lar, dos filhos, dos netos, de uma esposa. Maria Jos tambm sente-se s. Por isso, desejamos nos casar. Gostaramos de saber 
o que pensam a respeito, se me aceitam como um novo pai.
     Rosa correu e abraou o tio, beijando-lhe a face.
     - Que alegria - disse. - No pode haver nada melhor!
     Correu a abraar a me.
     Adalberto abraou o tio, comovido; Ana, que abraara a me, correu por sua vez a beijar o tio, com lgrimas nos olhos. Romualdo. em p, olhos faiscando de rancor, 
disse, irritado:
     - Que disparate! Por acaso no se respeita mais a figura de meu pai?
     Maria Jos empalideceu e olhou assustada para Manuela. Todos os olhares admirados eram para Romualdo. Maria Jos esclareceu:
     - Estou viva h muitos anos. A memria de seu pai sempre foi respeitada. Sou livre e posso me casar outra vez. Tenho esse direito.
     -  traio - disse Romualdo, com raiva. - No permitirei que isso acontea. Nunca.
     E antes que os irmos sassem do estupor e dissessem alguma coisa, ele retirou-se da sala. Menelau sentou-se e enterrou a cabea nas mos. Sentia-se chocado. 
Romualdo era seu filho e no o desejava como pai.
     Os sobrinhos cercaram-no, tentando alegr-lo, pedindo-lhe que esquecesse a atitude desagradvel do rapaz. Quando ele refletisse, por certo se arrependeria e 
mudaria de opinio. Menelau estava inconsolvel.
     Maria Jos jamais esperara essa atitude do filho, sempre to compreensivo e disposto a v-la feliz. Foi procur-lo. Ele fechara-se no quarto e, por mais que 
ela chamasse, no respondeu. Ela no se conformava. Menelau no merecia essa atitude de Romualdo.
     Ela o amava, e mesmo que o filho discordasse, estava resolvida a casar-se. Sofrera muito durante aqueles anos todos e no mais se submeteria aos caprichos, 
ainda que fosse do seu filho querido.
    Reuniram-se no salo, mas a alegria fora substituda pela tenso e um certo mal-estar.
    Recolheram-se cedo e tanto Menelau quanto Maria Jos s conseguiram dormir muito tarde.
    O dia seguinte, vspera de Natal, havia muita atividade na fazenda. Maria Jos levantou-se cedo, procurando preparar tudo para os festejos natalinos, mas sentia 
o corao oprimido, triste.
    Menelau estava quieto e pensativo. Todos esforaram-se para alegr-los, mas a atmosfera da casa estava pesada.
    O        Bentinho, vendo Eduardo e Manuela sentados na varanda aproximou-se, dizendo com voz respeitosa:
    -        Sinh Eduardo, preciso fal com o sinh.
Eduardo levantou-se e abraou o Bentinho com prazer.
       - Bom dia, Bentinho. Mal nos vimos na chegada. Como vai?
       - Bem, sinh.
    -        Tenho saudades das nossas reunies. Voc tem ajudado muita gente, dona Maria Jos me contou.
    -        A sinh  uma santa. Bendita hora que o sinh apareceu e me ajud a compreend as coisa. S muito feliz. Tenho famlia, s home de respeito. As pessoas 
gosta de mim. Deus Nosso Sinh tem me ajudado muito!
    -         verdade. Eu tambm sou feliz. Vamos nos casar, Manuela e eu.
    -        J sabia, sinh. Desde que elas voltaram da capit num falam de otra coisa. Mais eu quero lhe avis que o sinh Demerval voltou. Eu vi ele e tava muito 
brabo. Num qu o casamento da sinh com o dot Menelau.
    Eduardo fez um gesto de surpresa.
       - Puxa! No havia pensado nisso. Ento foi ele!
    -        Ele t cum raiva da sinh e do sinhozinho Romualdo. Qu se ving dele. Eu vi ele.
    -        Ainda bem, Bentinho. Precisamos ajudar. Ele no pode mais prejudicar as pessoas. Tantos anos e ele ainda no aprendeu.
    -        T pronto pra ajud. Faz tudo que o sinh quis. A Zef a disse que a sinh t triste que faz pena. Eu tambm num gosto de v ela assim. Podia tir 
ele daqui na fora. Mais sei que num  certo. Quero faz tudo direito, como Deus gosta.
    -        Muito bem, meu amigo. Estou contente com sua forma de agir. Fique atento. Falarei com Menelau e Maria Jos. Combinaremos tudo e o avisarei.
    -        T bem, sinh. T de olho nele.
     -        Onde est ele agora? - perguntou Manuela, assustada.
     -        L no quarto, agarrado ao sinhozinho Romualdo.
     -        Vamos conservar a f. Deus nos ajudar. Tudo ficar bem.
     Quando o Bentinho se afastou, Eduardo considerou:
     -        Esse negro  um grande amigo e grande corao.
     -         verdade. Segue Maria Jos com desvelo e bondade. O que ela disser,  lei.
     -        Em boa hora ela o trouxe para esta casa. Vamos procur-la para dar-lhe a notcia.
     Maria Jos arrepiou-se:
     -        Foi por isso ento - disse, convicta.
     -        Por isso o qu? - inquiriu Eduardo.
     -        No dia em que chegaram, pouco antes, senti-me indisposta. Percebi a aproximao de algum que no estava bem.
     -         verdade - ajuntou Manuela. - Ela quase desmaiou. Fizemos prece e ela melhorou. Teria sido Demerval?
     -         provvel - concordou Eduardo.
     -        O que faremos? Ele est envolvendo Romualdo. Pode prejudic-lo.
     -        No compreendo como ele pode odiar o prprio filho -disse Manuela. - O Bentinho no teria se enganado?
     -        No - respondeu Maria Jos. - Ele no aceita Romualdo. Sei que ele o prejudicar, se puder.
     -        Custo a crer - considerou Manuela.
     -        Isso agora no  importante. Precisamos faz-lo enxergar a verdade. Se ele aceitar, tudo se resolver.
     -        Temo que ele no aceite - retrucou Maria Jos, com voz insegura.
     -        Vou procurar Menelau, est triste, desanimado.
     -        V, Eduardo. Conte-lhe tudo. Talvez o anime. O que faremos?
     Maria Jos estava ansiosa.
     -        Certamente uma reunio com o Bentinho, voc e Menelau.
     -        Posso participar? - indagou Manuela.
     -        Pode, concordou Eduardo. Precisamos da sua prece.
     Ouvindo o amigo, Menelau, embora tendo compreendido a atitude de Romualdo, no se furtou a um sentimento de culpa. Demerval ainda no o perdoara e talvez nunca 
o fizesse.
     Desejava muito v-lo, pedir-lhe perdo, dar-lhe explicaes.
    A reunio foi marcada para a tarde. Romualdo, amuado, no participara do almoo. Manuela fora cham-lo e ele lhe dissera que no se sentaria  mesa enquanto 
o tio estivesse presente. A moa escondeu a verdade, alegando que o rapaz se sentia indisposto.
    Pouco antes das quatro, reuniram-se em pequena e discreta sala Eduardo, Menelau, Bentinho, Manuela e Maria Jos. Menelau e Maria Jos estavam tensos e havia 
tristeza em seus coraes. Eduardo fez sentida prece, pedindo a Deus por aquelas pessoas que muito j haviam sofrido e agora mostravam-se desejosas de encontrar 
o verdadeiro caminho e a felicidade.
    Evocou o esprito de Demerval a que comparecesse para colocar suas razes e esclarecer suas dvidas. O silncio se fez e os olhos de Maria Jos estavam cheios 
de lgrimas. Gostaria muito que Demerval compreendesse.
    Ela se dedicara a ele o quanto lhe fora possvel. Porm, como impedir aquele amor que fora a razo maior de sua vida? Como no sentir se sua alma gritava esse 
afeto? Por causa dos filhos e da sociedade refreara os sentimentos, esperara. Quantas noites de solido e de tristeza havia amargado longe de Menelau? Quanto amor 
tivera que sofrer, aguardando o momento de express-lo? Agora que a vida os libertara dos compromissos e que poderiam dar livre curso aos sentimentos, Demerval aparecia 
para exigir ainda mais?
    Menelau, por sua vez, sentia no fundo do corao que jamais tivera a inteno de ferir o irmo. Nunca previu que aquele momento de entrega e de amor pudesse 
acontecer. Queria dizer a Demerval que o respeitava, que desejava que ele fosse feliz. Maria Jos no o amava.
    Ele nada poderia fazer quanto a isso. Mesmo que ele renunciasse ao seu amor, ela no voltaria para ele. Sabia disso. Estava cansado de sofrer seus sentimentos. 
Amava e seu amor tanto tempo reprimido queria expressar-se. Agora que estavam livres, no aceitaria a renncia. Se Demerval pudesse entender!
    - Ele chegou - murmurou o Bentinho a Eduardo.
    Na mesma hora Maria Jos estremeceu e seu rosto se transformou em uma careta rancorosa. Seu corpo adquiriu uma postura orgulhosa.
    - Os traidores esto reunidos! Todos! Melhor. Poderei dar minhas condies.
    - Vamos conversar - props Eduardo, calmo.
    - Posso perceber que deseja enganar-me. No conseguir desta vez. Estou alerta.
     -        O que deseja?
       Que esse traidor saa desta casa onde nunca deveria ter posto os ps.
     Menelau ia responder, mas Eduardo fez-lhe sinal para que se calasse.
     -        E se ele se recusar? - indagou Eduardo.
     -        Arrancarei Romualdo daqui e farei com que mergulhe no dio e na loucura.
     -        Acha justo ferir um inocente?
     -        Eu o odeio! Ele  filho da traio!
     -        Ele no sabe de nada.
     -        No importa. Sei como domin-lo. Essa  minha fora. O que ele fez  nada perto do que far. Vocs vero!
     -        Demerval, est equivocado. A violncia, a vingana s geram sofrimentos para voc. Depois de tantos anos, ainda sofre pelos mesmos motivos! No lhe 
ocorreu que j pagou um preo muito alto pela sua teimosia?
     -        Sou um homem honesto. No admito que me enganem. Meu prprio irmo, enquanto fingia ajudar-me, apunhalava-me pelas costas.
     -        Voc conhece o passado. Sabe que eles se amavam antes de renascer. Que concordaram em separar-se durante algum tempo para ajudar, pela dedicao e 
trabalho, aqueles que, por causa desse sentimento, haviam prejudicado. Pense bem, Demerval. Quando Menelau veio socorr-lo, deixando seus prprios interesses para 
cuidar dos seus, no se recordava desse sentimento. A reencarnao ajuda a apagar o passado. Mas, dentro de suas almas, esse afeto estava intacto. Houve um momento 
em que no lhes foi possvel resistir.
     -        Voc os defende?
     -        No. Mas posso compreender. Naquele momento, no pensaram em nada. No houve inteno deliberada. Voc deve saber o quanto sofreram por causa disso. 
Seu irmo o estima e respeita. No queria feri-lo.
     -        Fui trado duas vezes. Ela abandonou a famlia. Fugiram juntos.
     -        Isso foi antes, em outra vida, outros tempos. Desta vez eles se afastaram, e mesmo depois de sua morte, eles continuaram separados por causa de Maria 
Antnia.
       - Ela ainda  minha mulher. Quero que continue me respeitando. Eu sou o marido!
     -        Quando voc morreu, o casamento acabou! Por que insiste! Dona Maria Jos est livre. Poder casar-se de novo com quem quiser.
     -        No aceito isso. Voc fala como os meus instrutores. Ela vai fazer s o que eu quiser!
     -        Seu domnio acabou. Por causa desse seu temperamento, abreviou seus dias na Terra. Por acreditar em violncia, morreu assassinado. Por querer dominar 
as pessoas, acabou dominado pelas foras alheias. No percebe que voc  o nico responsvel por tudo quanto lhe aconteceu?
     -        Sempre fui honesto, bom e zelei pela famlia.
     -        Escolher o caminho  um direito seu. Se prefere continuar como at agora, atraindo sofrimento, dor, desiluso para sua vida, nada poderemos fazer para 
ajud-lo. Contudo, previno-o de que a bondade divina j estabeleceu o limite. Maria Jos durante muitos anos cuidou de voc e da famlia com abnegao, renncia 
e carinho. Menelau afastou-se para no mago-lo, depois de t-lo ajudado em tudo. Romualdo  jovem e nada lhe fez. Por isso, estamos fazendo uma ltima tentativa. 
Ser melhor que atenda nosso pedido. Que compreenda, perdoe, esquea o passado. Caso se recuse, temos meios de afast-lo desta casa para sempre. No  justo que 
queira cobrar de quem j no deve nada. A prpria vida os liberou. Merecem a felicidade.
     Eduardo falara com segurana e Demerval sentiu medo. Sabia que a qualquer momento poderia ser obrigado a sair dali. De inquisidor passou a vtima.
     -        Vocs querem ver-se livres de mim! Nunca pensei. Meus filhos! Esqueceram-me muito depressa. Com que alegria aceitaram outro pai!
     -        Eles o amam e respeitam mas gostam do tio, que sempre os estimou. Compreenderam que eles tm o direito  felicidade. Por que no aceita isso? De que 
lhe serve insistir em alguma coisa que nunca mais dar certo? Maria Jos o estima, mas  a Menelau que ela ama!
     -lhe difcil compreender isso?
     -        Ela se casou comigo! No pode me deixar agora. Vocs esto todos juntos, felizes. E eu? Nada me restou.
     -        Isso acontece porque insiste em querer dominar os outros, comandar a vida. Quer manipul-la, domin-la. Jamais conseguir. Ela  livre e soberana. 
A vida  Deus!
Demerval chorava desalentado. Sentia-se cansado de lutar. De repente toda sua mgoa, sua dor, sua revolta, transformou-se naquele pranto sentido e incontrolvel. 
Queria ser amado, compreendido, confortado.
     Maria Jos soluava desconsoladamente. Eduardo sentiu-se tocado por aquele pranto. Sabia como era difcil aceitar certas verdades. Menelau, Manuela no conseguiam 
conter as lgrimas, que deixavam correr livremente. Menelau estava tomado de compaixo e disse, com emoo:
     - Demerval, perdoe-me. No desejava t-lo magoado desta forma. Eu o estimo e respeito. Nunca convivemos muito, temos idias diferentes, porm, neste instante, 
sinto o quanto lhe quero bem e desejo que encontre toda a felicidade que merece.
     Falava com sinceridade e amor. Demerval olhou para Menelau e, surpreendido, viu que uma energia luminosa e rosada saia de seus olhos, dos seus lbios e do seu 
corao e o envolvia carinhosamente.
     Parou de chorar. Sua mgoa e revolta esvaram-se e ele, de repente, sentiu-se bem como h muito no se sentia. Como era possvel? Menelau o estimava de verdade? 
Ficou ligeiramente envergonhado. O irmo estava sendo sincero. Teria se enganado em julg-lo?
     As energias que saam de Menelau o envolviam mais e mais e, surpreendido, Demerval viu ao lado dele o esprito de Maria Jos. Ela olhava-o com carinho e amizade. 
Como podia ser isso? Percebeu que ela orava por ele suplicando que a perdoasse. Aos poucos, foi se sentindo mais lcido e calmo.
       - Estou cansado - disse. - No quero mais lutar.
     - Est melhor - reconheceu Eduardo. - Veja quem veio busc-lo.
     Demerval no sentia mais raiva. Olhou  frente e divisou Eleonora trazendo Maria Antnia pela mo. Olhos brilhantes, Eleonora pediu:
       - Perdoe, Demerval. Poder ir conosco e recomear uma vida nova. H de encontrar algum que o ame verdadeiramente e poder ser feliz. Diga a eles que os perdoa 
e poderemos seguir.
     Apesar de tudo, Demerval hesitava. No restava mais nenhuma animosidade, mas o orgulho o impedia de reconhecer isso e perdoar. Maria Antnia aproximou-se dele, 
os olhos brilhantes e disse com emoo:
     - Demerval! No se envergonhe de mostrar seus sentimentos! Menelau  credor de todo nosso reconhecimento. Ele tambm foi trado, mas no s evitou que eu matasse 
o corpo do meu filho como dedicou-se a ele com todo amor! Nenhum de ns teria a fora de fazer isso. Devo muito a ele. Sei que tudo tem feito e far por Diomedes, 
que se demora na Terra, como cuidar dos seus filhos com o mesmo amor. Voc se diz um justo, no sente que deve ser grato a ele e desejar que vivam em paz daqui 
para frente? Outros rumos foram dados s nossas vidas e tenho aprendido que tudo quanto Deus faz  sempre para melhor.
    Demerval compreendeu.
    -        Vou embora - disse atravs de Maria Jos, a cujo corpo ainda se mantinha ligado.
    - Quero esquecer. Eu perdoo. Faam como quiserem. No interferirei mais. Eu os deixarei em paz.
    -        Deus o abenoe - disse Eduardo, com sincera emoo. -Agiu acertadamente. Ver que a vida tem meios mais sbios e efetivos para dar-lhe a felicidade 
que merece. Tenho certeza de que nos encontraremos de novo algum dia, com alegria e paz.
    -        Lembre-se - disse Menelau - de que o estimamos. Gostaria que no esquecesse nossa amizade.
    -        No esquecerei. Sinto-me confortado.
    Maria Jos calou-se. Eduardo proferiu uma prece de gratido. Quando terminou, o silncio se fez. Ningum tinha coragem de falar. Maria Jos abriu os olhos emocionada, 
porm serena. Foi o Bentinho, em cujos olhos havia o brilho das lgrimas, quem falou primeiro.
    -        Que beleza! Nunca vi tanta luz! Foi bonito.
       - O que voc viu? - indagou Eduardo.
    -        Do sinh Menelau saiu uma luz que amans sinh Demerval. Ele fic quieto e acabou a brabeza toda. A, veio umas duas mui. Uma era dona Maria Antnia. 
Faz tempo, mais eu me alembro dela. T diferente. Num  mais aquela moa orgulhosa. Sinh tava cum vergonha de perdo. Ele viu as duas. A mais via fal cum ele. 
Acho que j vi a alma dela aqui na fazenda, faz muito tempo. Queria que ele perdoasse pra ir com elas. Ele relutava. Da, dona Maria Antnia cheg nele e fal as 
coisa que acunteceram com ela e sinhozinho Menelau. Ento, ele conseguiu perdo. As duas gostam muito do sinhozinho Menelau.
    Menelau no escondia a emoo. Maria Antnia e Eleonora no estavam contra seu casamento. Vieram ajud-lo. Finalmente, podia sentir-se livre dos compromissos 
passados.
    -        Como ela estava? - indagou ele ao Bentinho.
       - Muito bem.
       - Ela morreu em sofrimento. Seu rosto estava muito doente. Como est agora?
       - Num parece que tem nada no rosto. Est int mais bunita. Menelau sorriu, satisfeito. Finalmente Maria Antnia estava
bem!
     Manuela no se atrevia a falar. Jamais pudera supor aquele drama na famlia. Maria Jos olhou-a, dizendo:
     -        Desculpe e perdoe. Hoje voc nos viu por dentro. Quando a emoo passar, lhe contarei tudo.
     Manuela sorriu.
     -        No precisa contar nada. Eu amo vocs, conheo-os bem. Agora, depois do que se passou aqui, os admiro ainda mais.
     -        Eduardo, conte-lhe tudo, peo-lhe. Voc tem sido o amigo de sempre a quem tanto devemos e estimamos - pediu Menelau.
     -        Assim farei. Desta vez foi o Bentinho quem nos ajudou -reconheceu Eduardo.
     Maria Jos levantou-se e segurou as mos do negro com carinho depositando um sonoro beijo em sua testa. O Bentinho perdeu o jeito, seus lbios grossos comearam 
a tremer e em seus olhos havia um brilho emocionado.
     -        Obrigada, meu amigo. Voc  meu anjo da guarda -disse ela.
     A Zefa, que entrara na sala pela porta que Manuela abrira, disse com ar comovido:
     -        Cruz credo, sinh. Mimando ele desse jeito, vai fic mole. Vamo Bentinho, me ajuda a servi o caf. T na mesa sinh, na sala.
     Apesar de aliviado, Menelau conservava ainda um ar de preocupao. Eduardo disse-lhe em voz baixa:
     -        nimo meu amigo. Tudo est bem agora!
     -        Estou pensando em Romualdo. At que ponto era influncia de Demerval? E se ele continuar no aceitando?
     -        Vamos confiar. O pensamento  fora. Tire de sua mente o sentimento de culpa. O passado acabou. Agora a vida ser diferente. Sorria.
     Maria Jos aproximou-se e Eduardo prosseguiu:
     -        Hoje tenho certeza de que uma pgina foi virada no livro das nossas vidas.  preciso perceber que a vida  perfeita e sbia. Quando ela no nos d 
o que queremos,  porque ainda no  o momento certo; quando estamos prontos, os obstculos desaparecem e tudo vem s nossas mos.  
     -        Por que diz isso? - inquiriu Maria Jos.
     -        Porque os fatos esto se desenrolando de tal maneira que tudo converge para a unio de vocs.
     -        Falta Romualdo - disse Menelau, preocupado.
     -        Ele mudar de idia, Demerval j se foi.
     -        O que me preocupa  que no julgava meu filho to influencivel. Como Demerval conseguiu domin-lo?
     -        Romualdo  muito apegado a voc. Sente cimes. Esse foi o ponto fraco que permitiu Demerval envolv-lo.
        - Ento  isso? - disse Menelau, admirado.
     -        Claro. Ningum nos poder dominar ou envolver se ns mesmos no abrirmos a porta. Se estivermos com pensamentos positivos e harmoniosos, nenhum esprito 
ou pessoa poder nos influenciar. O pensamento bom nos imuniza e defende. S quando escolhemos sentimentos pobres e baixamos nosso padro de energia  que, pela
afinidade, eles conseguem seus efeitos.
     -        Quer dizer que se Romualdo no fosse ciumento, Demerval no o teria dominado?
     -        Se ele no fosse ciumento e no tivesse outros sentimentos de baixo padro, no mesmo.
     -        Quer dizer ento que o afastamento de Demerval pode no significar muito. O seu cime continuar, ele no aceitar nosso casamento.
     -        Ele usou um sentimento de Romualdo que pode ser de pouca intensidade e conseguiu transform-lo, acrescentando os seus prprios sentimentos que eram 
vigorosos e carregados de muita energia. Agora, por certo, sem essa contribuio, o cime de Romualdo voltar ao que sempre foi e, com carinho e compreenso, dever 
desaparecer.
     -        Deus o oua - disse Menelau.
     -        Se Romualdo teimar, pretendo no lhe dar ouvidos - disse Maria Jos, com voz segura. - Sei o que quero. Amo meu filho mas no estou disposta a renunciar 
a minha felicidade por causa de um sentimento que o diminui e ilude.
Menelau olhou-a, emocionado.
     -        Faria isso por ns?
     -        Farei o que  certo. Se concordar com ele, estarei valorizando essa mentira. Eu amo muito todos os meus filhos. Tenho dado inmeras provas desse amor. 
Romualdo, por ser o mais novo e ter ficado mais comigo nos ltimos tempos, e por termos grande afinidade, sabe que ocupa um lugar muito especial em meu corao.
Mas isso no lhe d o direito de decidir o que eu devo ou no fazer. Se amanh ele quisesse casar-se, por certo no admitiria que eu lhe impusesse minha vontade.
     -        Eu tambm o quero muito, voc sabe - disse Menelau. -Mas eu apreciaria que ele no se sentisse ameaado pela minha presena.
     -        Fale com ele - sugeriu Eduardo. - Voc est certa. Na vida,  preciso tomar decises corajosamente. H que separar as coisas, O amor, seja entre pais 
e filhos, amigos ou parentes, no uma priso onde cobramos dos entes queridos atitudes e posturas inadequadas. O amor  livre. Quem ama derrama esse sentimento 
sem exigir nada. Quem condiciona o afeto est apenas expressando orgulho e egosmo, desconhece o que seja amor.
     -        Falarei com ele hoje mesmo. Vamos ao caf antes que esfrie.
     Durante o lanche, apesar de Romualdo continuar no quarto, o ambiente estava calmo e alegre. Quando terminaram, Maria Jos foi at o quarto de Romualdo e bateu 
delicadamente.
     O rapaz abriu a porta com cara de sono.
     -        Preciso falar-lhe.
     -        Entre - pediu ele.
     Maria Jos entrou sentando-se em uma poltrona.
     -        Sente-se, meu filho. Precisamos conversar.
     O        rapaz sentou-se na cama. Em seus olhos passou rapidamente um brilho de satisfao.
     Por certo sua me vinha dizer-lhe que desistira desse casamento. Estava habituado a que ela atendesse aos seus desejos.
     Maria Jos comeou com doura, falando do quanto amava a famlia e o que significava para ela o amor dele em especial. Descreveu seus sentimentos, disse-lhe 
o quanto desejava que ele fosse feliz.
     -        Meu amor por voc  muito grande e estar dentro de mim acontea o que acontecer.
      um fato que no posso mudar.
     Romualdo sentiu-se comovido, envergonhado, recordando sua intransigncia e indelicadeza.
     -        Voc sabe que eu tambm a amo muito - disse.
     - Entretanto,  preciso que saiba que tambm amo Menelau. O que nos une no  apenas o fato de estarmos os dois sozinhos. Desejo que saiba toda a verdade. Diante 
de voc, meu filho, no est mais sua me, mas apenas uma mulher. Quero que entre ns no exista nenhuma mentira. Quero apenas que me veja como eu sou.
    O        rapaz olhava-a surpreendido. Sua me para ele sempre parecera um livro aberto. Do que ela estava falando?
    -        Nossa histria comeou h muitos anos, em outras vidas.
    E Maria Jos, com voz emocionada e firme, relatou ao filho fielmente tudo quanto acontecera at aquele instante.
    Romualdo ouvia a corajosa narrativa sem articular palavra, fascinado pelos fatos que se desenrolavam, impressionado. Ela no omitiu nada, inclusive sobre a vida 
de Menelau com Maria Antnia. Finalizou com voz firme:
    -        Foi a esse homem cuja nobreza de sentimentos e bondade a cada dia eu admiro mais, que  seu prprio pai, que voc ofendeu e recusou aceitar.
    Romualdo no controlou mais as lgrimas que desceram livremente pelas faces. Maria Jos prosseguiu ainda:
    -        Vim aqui para dizer-lhe que eu e Menelau o amamos muito e ficaremos felizes se voc nos aceitar. Entretanto, decidimos nos casar e o faremos seja qual 
for sua opinio, porque sabemos que temos direito a essa felicidade e queremos usufrui-la.
    Romualdo olhou para a me dominado por funda emoo. A sinceridade, a dignidade dela, sua honestidade, impunham-lhe enorme respeito e admirao. Essa mulher 
extraordinria o amava a ponto de permitir que ele penetrasse fundo seus mais ntimos e verdadeiros sentimentos.
    Sentiu vergonha. Fora mesquinho, infantil. Num impulso atirou-se a seus ps abraando-a com fora, colocando a cabea no seu peito. Quando serenou a emoo, 
disse com voz trmula.
    -        Me, perdoe. Fui egosta e rude. Estou arrependido. Pode perdoar-me?
    Maria Jos o afastou um pouco e olhando firme em seus olhos disse, segura:
    -        Nunca o recriminei. Voc  meu filho e eu o amo! Romualdo beijou-lhe a face com amor.
    -        Obrigado, me. Estou envergonhado - repetiu. - Gostaria de falar com..
    Parou interdito, no sabia como dirigir-se a Menelau.
    -        ... meu pai - disse por fim, com firmeza. - Desejo dizerlhe que estou arrependido.
    -        Quando quer v-lo?
-        Agora.
-        Vamos ao seu quarto. Sei que ele se recolheu.
     Romualdo procurou recompor-se um pouco e juntos bateram  porta de Menelau. Este recolhera-se pensativo e um pouco inquieto. Sabia que Maria Jos havia ido 
falar com o filho. O que lhe diria? No sabia. Esperava entre a alegria e o receio. Rezava para que Romualdo entendesse.
     Quando bateram  porta, abriu imediatamente. Os dois estavam diante dele, olhos ainda molhados pelo pranto, rosto corado pela emoo. Corao batendo forte, 
olhou o filho, ansioso.
     Romualdo disse com voz clara:
     - Pai, vim pedir-lhe que me perdoe. Estou arrependido.
     Menelau abriu os braos sentindo as lgrimas de alegria banharem seu rosto. No conseguiu responder. Abraou o filho sentindo um amor imenso, uma felicidade 
indescritvel lhe inundando o corao.
     Maria Jos olhava-os com o rosto transmudado de alegria.
     Quando os dois serenaram, Romualdo separou-se dele e, olhando a me na soleira da porta, puxou-a. Os trs se uniram no mesmo abrao.
     - Estou feliz - disse Romualdo - por ter vocs como pais. Pela confiana e carinho que tiveram comigo hoje, fazendo-me crescer e me tornar um homem. Deus os 
abenoe.
     Os dois no responderam, mas reuniram-se novamente em um abrao forte, sincero e cheio de amor.

Lucius

Fim



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